O Sentido da Vida

Fazia tempo que estava procurando duas passagens de Popper que tratam da questão que dá título a este post. Custei a achar. Mas hoje, finalmente, as achei.

A primeira é uma passagem do ensaio “Emancipation through Knowledge”, publicado no livro In Search of a Better World. (Routledge, London, 1992). O ensaio trata, entre outras coisas, das expressões “O Sentido da Vida” e “O Sentido da História”.

Diz Popper (tradução minha do Inglês):

“O termo ‘sentido’ sofre de uma importante ambigüidade, em ambas as expressões. A expressão ‘sentido da vida’ é algumas vezes usada para sugerir que a vida humana tem um sentido, freqüentemente obscuro, ou mesmo oculto, certamente profundo, que nos caberia descobrir. Mas a expressão pode também ser entendida de forma diferente. Neste entendimento, o sentido da vida não é algo profundo, abaixo da superfície, obscuro ou oculto, e que nos cabe descobrir, mas, isto sim, um sentido com o qual nós mesmos dotamos a nossa vida. Podemos dotar a nossa vida de significado através de nosso trabalho, de nossa conduta, do nosso jeito de encarar e viver a vida, das atitudes que adotamos em relação aos nossos amigos, aos que nos estão próximos, ao mundo inteiro. . . . Assim, a busca pelo sentido da vida não é uma busca por algo que está lá, independente de nós, mas, sim, uma busca por uma forma de vida que seja capaz de dotar a nossa vida de sentido e significado.” (pp.138-139). 

A segunda, e mais imporante, é uma passagem do ensaio “How I See Philosophy”, publicado no mesmo livro In Search of a Better World. O ensaio tem o curioso sub-título de “Stolen from Fritz Waismann and from one of the first men to land on the Moon” – “Roubado de Fritz Waismann e de um dos primeiros homens a pousar na Lua”.

Eis a parte final do ensaio de Popper, traduzida do Inglês por mim:

“Talvez os leitores permitam que eu termine este ensaio com algumas considerações filosóficas de teor claramente não-acadêmico.

Atribui-se a um dos astronautas envolvidos na primeira visita à Lua a afirmação, simples e sábia, que eu cito de memória: ‘Vi alguns planetas durante a minha vida, mas fico com a Terra, qualquer que seja a alternativa’.

Acredito que essa afirmação reflita não só profunda sabedoria, mas sabedoria profundamente filosófica.

Não sabemos como é que viemos parar e viver neste lindo pequeno planeta. Nem por que é que existe aqui algo como a vida, que permite que esse planeja seja considerado tão lindo. Mas aqui estamos. E temos motivo de sobra para nos perguntar por quê – mas também para sermos gratos pelo fato de que, qualquer que seja a razão, estamos aqui.

O fato de estarmos aqui e de sermos capazes de fazer essas perguntas talvez seja a coisa mais próxima de um milagre a que jamais cheguemos.

Pois tudo o que a ciência nos pode dizer é que o universo é quase vazio de matéria. E que, onde há matéria, ela está, em sua maior parte, em um estado caótico, turbulento, inabitável, invivível. Pode ser que haja outros planetas em que a vida floresça. Contudo, se pegarmos aleatoriamente um lugar qualquer no universo, a probabilidade (calculada com base na nosso dúbio conhecimento atual da cosmologia) é zero, ou muito próxima de zero, de que encontremos ali alguma forma de vida.

A vida, portanto, tem valor por ser algo extremamente raro. Esse valor se torna incrivelmente precioso quando nos damos conta de que a vida não só é rara no universo, mas também é altamente precária: podemos perder essa coisa rara e preciosa a qualquer momento.

Em geral nos esquecemos disso, e tratamos a vida, até mesmo a nossa, como algo extremamente comum e barato – talvez porque nunca pensemos sobre o assunto. Ou, talvez, porque nesta linda Terra em que nos foi dado habitar exista vida em demasia…

Todos os seres humanos são filósofos, porque, de uma forma ou de outra, cada um de nós assume uma atitude particular para com a vida e a morte. Há aqueles que pensam que a vida não tem valor porque, afinal, ela tem fim… Não percebem que um argumento semelhante pode ser construído com o sinal oposto: se fôssemos imortais, se a vida não tivesse fim, ela não teria valor… É, em grande medida, o fato de que nós, a qualquer momento, podemos perdê-la, e de que certamente a perderemos, definitivamente, um dia, que nos faz perceber quão valiosa a vida é.”

Seria terrível presunção acrescentar qualquer coisa a essa segunda passagem. Talvez seja uma das passagens filosóficas mais belas que ja li.

Mas juntando as duas passagens, concluo o seguinte. Cabe a cada um de nós dotar a sua vida de sentido e significado. Ninguém fará isso por nós. É importante fazer isso porque nossa vida é preciosa e rara – e extremamente precária. Cada um dia que passa é um dia menos que temos para viver. Ou damos sentido à nossa vida – ou ela é um grande desperdício de um recurso precioso, raro, e, por isso, tão valioso.

Em Campinas, 30 de Agosto de 2008 

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