Filosofia

Há gente que pensa que filosofia é uma disciplina acadêmica e que filósofos são os especialistas que se dedicam a ela. Muitas vezes essa visão da filosofia e dos filósofos vem acompanhada da suposição de que o objeto próprio da filosofia é algo profundo, complicado, de difícil entendimento, talvez até mesmo um pouco esotérico, que apenas pessoas muito inteligentes, próximas de gênios, conseguem decifrar, discutir e, no extremo, produzir. (Em muitas livrarias menos sofisticadas já encontrei livros de filosofia misturados com outros tipos de livro, numa seção em geral intitulada assim: "Filosofia, Religião e Ocultismo"…

Não resta a menor dúvida de que há até mesmo filósofos que pensam nessa linha: que a filosofia tem um objeto específico e que seu conteúdo é tão complexo que só mesmos gênios como eles próprios conseguem navegar por ele — e se acham o máximo por (como crêem) conseguir fazê-lo. Muitos filósofos (especialmente os alemães) escrevem num estilo tão convoluto que ninguém consegue ter certeza de que os entendeu. E isso é confundido com profundidade até mesmo pelos próprios.

Tradicionalmente, quando ainda eram cartesianos, os filósofos (e teólogos) franceses tinham fama de serem extremamente claros e distintos (seguindo a máxima de mestre Cartesius de que devemos buscar idéias claras e distintas). Quando eu estava no seminário, contava-se a piada de que Karl Barth, talvez o mais famóso teólogo do século XX, suíco, que escrevia em alemão, e que produziu uma monumental e incomparável obra, chamada Dogmática da Igreja (Kirchliche Dogmatik), em dez grossos volumes, com estilo extremamente — como direi? — denso, recebeu, um dia, uma cópia da tradução para o francês dessa gigantesca obra. Ao lê-la, sentiu-se forçado a escrever para o tradutor para agradecer-lhe o trabalho cuidadoso, acrescentando que, ao ler a tradução, havia conseguido entender um monte de coisas que não tinha entendido quando escreveu o original… Bom… hoje em dia os filósofos franceses, com uma honrosa exceção aqui e ali, não são mais cartesianos, e sua prosa se afastou totalmente dos ditames de Descartes.

Lembro-me de que, assim que cheguei à UNICAMP, em 1974, fui convidado para ser membro (felizmente suplente) da  banca de Doutorado de um professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Como recém-chegado na Universidade, e um dos poucos membros do corpo docente de então com Ph.D. em Filosofia, não tive como recusar — mas me arrependi profundamente ao pegar a tese. A começar pelo título: "A Voz do Intervalo". Que diabo é a voz do intervalo, perguntei-me… (A tese, vim descobrir depois, versava sobre o silêncio, que é o que existe nos intervalos da comunicação). O principal autor discutido no trabalho era Merleau Ponty, famoso filósofo francês, da estirpe acadêmica. Quando passei do título para o corpo da tese, a coisa ficou pior. Não entendi quase nada. Apelei para o Rubem Alves, que era membro (titular) da banca. Perguntei a ele se ele havia entendido a tese. Também não havia. Ganhei algum consolo do fato, porque pelo menos o problema não estava apenas comigo. Mas pensei que, talvez, a dificuldade no entendimento da tese se devesse ao fato de que tanto eu como o Rubem havíamos estudado nos Estados Unidos, não na Europa… Ou que nós dois fôssemos de origem presbiteriana… Ou, então, que nós dois havíamos vindo para a filosofia a partir da teologia… Algo assim. À defesa compareceram todos os membros titulares da banca, de modo que fui poupado do constrangimento de argüir alguém sobre um trabalho que eu não havia entendido. Mas o que realmente me consolou, na defesa, foi algo que disse o Michel Debrun, estrela filosófica do departamento, não só de formação francesa, mas francês ele próprio, com um terrível (no sentido de forte, não de feio) sotaque que nunca perdeu (talvez porque o achasse charmoso). O Michel observou que a gente normalmente lê trabalhos acadêmicos (como teses) sobre grandes filósofos para conseguir entendê-los melhor, mas que, no caso, ele tinha tido de voltar a ler Merleau Ponty para fazer se conseguia entender a tese…

Os filósofos que eu realmente admiro — Sócrates, Hume, Russell, Popper, Ayn Rand, todos  mortos, infelizmente — não foram desse tipo. Com exceção de Russel e Popper, os outros três não foram acadêmicos: nunca trabalharam numa universidade (ou equivalente). E todos eles compartilharam algumas características importantes.

Primeiro, para esses filósofos, a filosofia não tem um objeto específico próprio: o filósofo reflete sobre qualquer coisa que lhe pareça interessante, complicada, digna de esclarecimento. Reflete, enfim, sobre o mundo, a vida, a cultura, em qualquer uma de suas múltiplas manifestações, altas ou baixas, nobres ou comezinhas. Filósofos são tipicamente generalistas. Em geral interessam-se por tudo: o universo, a vida, o humano, e, dentro do humano, pela ciência, pela religião, pelo mito, pela arte, pela política, pelo senso comum, pela superstição, pelas crendices populares… Os Ensaios Morais, Políticos, e Literários de Hume tratam de tudo… Popper chegou dizer que a especialização talvez seja um pecado apenas venial no cientista, mas, no filósofo, é um pecado claramente mortal…

Segundo, eles sempre tinham, como interlocutores, pessoas comuns, não outros filósofos. Sócrates nem escrever escreveu: ele conversava — na praça — com qualquer um que viesse a ele com alguma pergunta, dúvida, problema, ou perplexidade… Às vezes era um jovem, ainda molecote, outras vezes um escravo… Hume, muito cedo em sua vida, tentou escrever para outros filósofos: foi um fracasso. Desistiu e passou a escrever para as pessoas comuns. Tornou-se o maior filósofo da língua inglesa, ever. Russell seguiu trajetória semelhante. Sendo, porém, acadêmico, escreveu mais para outros filósofos do que Hume o fez. Mas seus grandes escritos são populares — ou, então, "impopulares", como ele próprio os descreveu em um livro chamado Unpopular Essays, porque tratava de temas considerados tabus e de um jeito que parecia meio irreverente. Por causa de sua ironia e irreverência, Russell é chamado de Hume do Século XX. Ayn Rand escreveu filosofia principalmente em romances destinados ao mais amplo público: livros que já venderam literalmente milhões de cópias.

Terceiro, sua linguagem era simples, clara, precisa — sem ambigüidades, obscuridades, vaguezas… Quasem nunca usavam termos técnicos ou jargões. Qualquer um conseguia entendê-los — algo importante quando o seu interlocutor é a pessoa comum…

Quarto, para eles, a filosofia consiste, não em conteúdo específico, que seria o seu objeto próprio, mas em fazer perguntas de um certo tipo sobre qualquer coisa ou assunto. O povo de atenas provavelmente achava que Sócrates, sendo um filósofo, era uma pessoa a quem deviam se dirigir quando tinham perguntas, dúvidas, problemas, perplexidades que queriam ver respondidas, sanadas, resolvidos, esclarecidas. Provavelmente tinham um choque ao conversar com ele: ele não só não respondia a nenhuma pergunta, não sanava nenhuma dúvida, não resolvia nenhum problema, não esclarecia nenhuma perplexidade, como, em geral, fazia perguntas ao interlocutor, tornava as suas perplexidades ainda mais profundas, ampliava a dimensão dos problemas que tinham…

[Se você tem dúvida acerca do que é uma perplexidade, considere a seguinte. Se eu chegar para você e lhe disser: "Preste atenção: o que eu estou lhe dizendo agora é mentira", o que eu disse é verdadeiro ou falso? Se for verdadeiro, é falso, porque o que eu disse foi que o que eu estava dizendo era falso; se for falso, é verdadeiro, porque eu disse, falsamente, que o que estava dizendo era falso — logo, é verdadeiro. E daí? Como saímos dessa???]

Quinto, que tipo de pergunta faziam esses filósofos? Essas perguntas eram todas epistêmicas (se vocês me permitem usar esse jargãozinho filosófico aqui). Episteme é conhecimento, em grego. Perguntas epistêmicas são perguntas deste tipo:

  • Por que você acha isso?
  • Em que evidências ou argumentos você se baseia para afirmar isso?
  • Será que o que você está dizendo é verdade?
  • Existem verdades absolutas ou toda verdade é relativa?
  • Mas o que significa chamar uma afirmação de verdadeira?
  • Há diferença entre conhecimento e opinião? Se há, no que consiste?
  • O que você entende por x? (onde x é um conceito qualquer usado pelo interlocutor).
  • Mas, nesse caso, como se explica isso?

E por aí ia a conversa… Interminável.

Muitas pessoas criticam a filosofia porque, segundo acham, nela não há progresso, como aparentemente existe na ciência. Na ciência o progresso se mede pelos problemas resolvidos, pelas previsões acertadas, pelas conquistas alcançadas sobre o mundo natural. A ciência evolui rapidamente. Na área científica, procura-se sempre ler os trabalhos mais recentes. Um livro escrito há 50 anos ninguém mais lê, porque certamente está ultrapassado. Mas na filosofia, lemos hoje Platão e Aristóteles, que escreveram há mais de dois mil anos, Agostinho e Aquino, que escreveram na Idade Média, Descartes e Locke, que escreveram no início da era moderna, Hume e Kant, que escreveram durante o Iluminismo — e lemos todos eles como se fossem nossos contemporâneos. Aprendemos muito ainda com eles, sentimos o mesmo prazer ao lê-los — ou, talvez, prazer ainda maior — que sentiam os seus contemporâneos. A razão possivelmente está neste fato: sua maior contribuição não está nas respostas que deram, mas nas perguntas que levantaram; não nos problemas que resolveram, mas naqueles que propuseram; não nas perplexidades que elucidaram, mas naquelas que nos legaram e que nos desafiam até hoje…

A maior parte das questões que a gente encontra na obra desses grandes filósofos talvez seja, num sentido duro do termo, insolucionável, porque são multifacetados, nuanceadas, cheias de consideração de valor…

Todos filosofamos — e o fazemos o tempo todo. Não só os chamados filósofos acadêmicos, profissionais.

Filosofamos quando ficamos agoniados tentando escolher um curso de conduta dentre dois ou mais possíveis — e nenhum deles é claramente certo ou errado… Ficamos pesando considerações de um lado e de outro. Às vezes queremos fazer algo — mas o que queremos fazer traz conseqüências que não gostaríamos de gerar. Queremos o antecedente, mas não o conseqüente… Mas isso muitas vezes é como tentar fazer um omelete sem quebrar os ovos..

Filosofamos quando somos assaltados por dúvidas acerca de crenças que consideramos importantes… Será que Deus existe mesmo? Se existe, porque também há tanto sofrimento causado por desastres naturais? Será que somos realmente livres, ou será que somos determinados pela nossa carga genética e pelos condicionantes do ambiente?

Filosofamos quando nos perguntamos qual a base de nossos julgamentos morais… Quando dizemos que uma ação é imoral, ou exigiu coragem moral, o que exatamente estamos dizendo? E com base em quê? Considerações de fato, valores, sentimentos???

Filosofamos quando nos perguntamos se a beleza existe nas coisas ou "no olho de quem vê"… Quando especulamos sobre o que é a arte, quando concluímos que muita coisa que passa por obra de arte não passa de lixo.

E aí vai…

Mas estudar filosofia ou aprender filosofia não é aprender o que pensaram esses e outros filósofos: é aprender a pensar como eles, a fazer perguntas, a propor problemas, a levantar perplexidades. E, como tudo, a gente aprende a filosofar, filosofando… lidando com problemas, desafios, dilemas… Aprender filosofia é, acima de tudo, aprender a filosofar.

Estudar filosofia como um conjunto de idéias mortas, de interesse apenas histórico, sem aprender a filosofar, sem aprender a dialogar com os filósofos da história como se eles estivessem vivos ao nosso lado, quem sabe na "agora" de Atenas, é uma grande chatice.

Em Bellevue, 2 de Setembro de 2008

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