A vida (ou um protesto contra os deuses falsificados)

Fazia semanas que não escrevia nada aqui, até que algumas notícias sobre o Vice-Presidente José de Alencar me fizeram quebrar o silêncio.

O silêncio não era só decorrente de falta de inspiração. No último mês, às vezes até tive inspiração. Tenho uns dois posts na seção Drafts/Rascunhos para provar…

O que me aborrece é a encheção de saco depois que eu escrevo algo. Sinto-me como se vivesse no campus de uma universidade americana politicamente correta – PC de A a Z. Qualquer coisa que eu escrevo aborrece ou irrita a alguém, que se julga visado, atingido, provocado, ultrajado. Por isso, concordei em deixar os frutos de minhas inspiração na seção Drafts/Rascunhos, esperando por dias menos hostis…

Não que eu, no passado, tenha dado bola para reclamações e encheções de saco. Não. Nunca dei. O problema é que agora estou envolvido em um processo prolongado e irritante de separação e tudo que eu escrevo pode ser usado contra mim na Justiça… “Eis, Meritíssimo, como o autor (ou réu) é insensível, egoísta, …”.

Confesso: enche o saco. Quando não é a ex, são os filhos, tentando preservar a ex… Quando não é nem a ex nem os filhos, são os ex-colegas da UNICAMP (que Deus se  apiade deles – tenho certeza de que não sabem conjugar o verbo “apiedar-se”, por isso o uso aqui). 

A vida por vezes é complicada… Não queria ter ex-nada. Queria poder escrever quando me vem a inspiração…

Arre!!!

Mas achei algo que me interessa e que, acredito (posso estar errado), não vai ofender ninguém.

Acabei de ler na VEJA de 12 de Agosto (amanhã!), nas fls. 148-151, algo interessante sobre o acaso. É isso mesmo, sobre o acaso, a chance, o aleatório, o não determinado, o imprevisível.

Diz o artigo ali disponibilizado (termo horrível, mas vá lá) que a Apple, fabricante do invencível iPod, teve de fazer um ajuste no seu popular produto. Como todos sabem, o iPod, da mesma forma que qualquer outro tocador de músicas em formato mp3, dá ao usuário a opção de ouvir suas músicas em ordem (?) aleatória. Ordem aleatória, convenhamos, é desordem – é nenhuma ordem. É a seqüência, bem… a seqüência que vier…

Acontece que, quando você ouve suas músicas em (des)ordem aleatória, pode muito bem dar-se o caso de você, não importa quantas músicas tenha no seu aparelhinho, ouvir a mesma música duas vezes quase em seguida – ou até mesmo exatamente em seguida.

Ora, os usuários do iPod protestaram. Se eu ouço a mesma – notem bem: A MESMA – música duas vezes em seguida, ou quase em seguida, essa porcaria não pode estar tocando as músicas aleatoriamente… Afinal de contas, eu tenho quatro mil mp3s nessa porcaria, não é possível que eu ouça, no modo aleatório, a mesma música duas vezes em seguida, – ou quase.

(Confesso que minha tendência seria me referir ao iPod como essa b… – mas dessa vez seria a minha mulher a protestar contra o meu uso de profanidade (vale dizer, palavrão – no caso, palavrinho) – e, convenhamos, as considerações da mulher da gente têm muito peso…)

Enfim… Diante dos protestos, a Apple decidiu mudar o algoritmo, de modo a evitar que, num processo aleatório, a mesma música fosse tocada duas vezes em seguida, ou quase em seguida, antes que todas as outras fossem tocadas…

Como diz o artigo da VEJA: “A Apple … reprogramou os aparelhos [iPods] para evitar repetições”.

Que vergonha, Steve Jobs!!! Se você tivesse sempre sucumbido à pressão popular a gente não teria hoje Macs, iPods, iTouchs, iPhones.

Como você mesmo reconheceu, os iPods e iTouchs agora operam, no modo aleatório, de forma menos aleatória do que deveria ser o caso, apenas para que possam parecer mais aleatórios… Ou seja: você permitiu que seus brinquedos abandonassem a verdadeira aleatoridade apenas para que pudessem parecer (falsamente) mais aleatórios.

Ou seja: você abandonou a realidade pela aparência – e assim, no meu livro, se tornou um fake.

Contra isso, o meu protesto, ainda que solitário. E olhe que eu até gostava de você…

Convenhamos… A vida é muito menos aleatória do que imaginamos. Isso não quer dizer que há mais ordem nas coisas do que nós imaginamos. Quer dizer, isto sim, que há menos desordem (caos) nas coisas do que nós imaginamos.

Azar dos que propõem teorias da complexidade e do caos. A ordem é mais natural do que parece…

Mas a turba não se conforma com isso… Pressiona os deuses terrenos (a saber, os Steve Jobs da vida) para que tornem a vida menos aleatória do que o não terreno a fez… E os deuses terrenos, talvez por vaidade, sucumbem à pressão, e tentam se fazer mais deuses do que o próprio. E assim se mostram apenas deuses falsificados…

Em São Paulo, 11 de Agosto de 2009.

  1. É uma questão de interpretação, e eu acho que, neste caso, a Apple estava mesmo errada. Aleatório, em qualquer tocador barato, significa que a ordem total deva ser aleatória, mas que cada música seja tocada uma vez. O algoritimo é simples, é como embaralhar as cartas e as distribuir. As que já foram tiradas não estão mais na pilha. Quando se chegar na última, reordena-se, tudo (reembaralha-se) e toca-se em nova ordem, aleatória! No caso, a implementação da Apple é aleatória ao extremo, ou seja, não há o sentido de pilha, ou no caso das cartas, de maço.Ok, não é crítica. Apenas for the sake of discussion…

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  2. Pois eu não concordo com o Renato. Quando temos um saco com bolas numeradas, tiramos uma a uma, anotamos o seu número e a voltamos a colocar no saco, misturando-a com a outras, é possível que a próxima que tiremos seja a mesma que tirámos antes, ou que tirámos há pouco tempo. E isto é tão aleatório como será no caso em que as bolas retiradas não voltam a ser colocadas no saco. Apenas que nesta última versão uma bola não pode sair 2 vezes…Isto recorda-me o que o professor de Termodinâmica nos disse, no decorrer de uma aula, na universidade: segundo o modelo matemático usado para descrever o movimento browniano das moléculas do ar, existe uma probabilidade muito reduzida – infinitesimal, mas não nula – de que as moléculas da sala de aula se juntem todas num canto, muito juntinhas, e dessa forma alunos e professor morram asfixiados por não terem ar para respirar.Claro que isto é uma das (muitas) imperfeições/falhas/whatever do modelo matemático usado pois isso jamais – perigo! nunca se deve dizer ‘nunca’ ou ‘jamais’! – acontecerá, conforme nos dita o bom senso e a experiência de vida. Por isso não concordo com o Eduardo quando ele afirma que a alteração ao algoritmo, introduzida pela Apple, ou pelo Steve Jobs, a pedido dos seus muitos clientes – que, julgo todos sabermos, são algo geniosos, – tenha reduzido a aleatoriedade da escolha das músicas.Mas nisto concordo com o Eduardo: o mundo seria muito melhor de não existissem ex-‘s…

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