Entre Peter Pan e Dom Fulgêncio

Peter Pan, como todos sabemos, era o menino que não queria se tornar adulto.

Quando eu era criança havia um quadrinho na imprensa chamado “Dom Fulgêncio, o homem que não teve infância”.

O normal, eu diria, é ter infância na infância e ser adulto na idade adulta.

Mas isso aparentemente é mais difícil do que parece.

As crianças de hoje estão mais para Dom Fulgêncios do que para Peter Pans. Sua infância termina muito cedo. Neil Postman já nos havia advertido disso no seu interessante livro The End of Childhood (O Fim da Infância). A infância virtualmente acabou.

O artigo de Ruy Castro na Folha de hoje toca muito bem no assunto, a partir do caso particular de Suri, a filha de três anos de Katie Holmes e Tom Cruise – menina que, segundo consta, já usa salto alto, toma vinho e tem cartão de crédito próprio.

 

Suri Cruise

 

Suri Cruise

[As duas fotos retiradas do site da Caras, http://www.caras.com.br/imagens/105591/em/noticias/16861/suri-cruise]

Antigamente, e ainda hoje, as crianças pobres não tinham infância porque tinham de começar a trabalhar muito cedo. As crianças da classe média e alta tinham uma infância prolongada e deliciosa – e parecia que essa infância tendia a se estender cada vez mais.

Hoje em dia, entretanto, as crianças da classe média e alta estão encerrando sua infância muito cedo. Ruy Castro aponta para o desejo natural das crianças de serem como os pais, de parecerem adultas antes do tempo. Isso se dá especialmente com as meninas, que começam a querer andar de salto alto em casa, que colocam as roupas da mãe, que passam batom vermelho nos lábios, que colorem o rosto com blush, que pintam os olhos, que usam um sutiã alheio recheado de roupa ou papel para fazer de conta que têm seios… Essas atitudes, quando se restringem a brincadeiras ou curtições infantis, são inofensivas. O problema é quando deixam de ser apenas brincadeiras ou curtições, como parece ser o caso com Suri e seus pais.

Mas me preocupa mais uma outra dimensão do problema: o desejo dos pais de que os filhos sejam precoces – cada vez mais precoces… Talvez mais do que isso: que sejam gênios ou super-homens / mulheres maravilhas. (A TV e o cinema estão cheios de “crianças prodígio” para servir de exemplo para os filhos de pais que desejam que seus filhos se adultizem cedo). Com essa ambição, os pais pressionam os filhos para que, além da escola regular, façam cursos de Inglês ou Espanhol, ou estudem Informática ou no Kumon, que freqüentem escolinhas que os ensinam a jogar tênis ou futebol, ou academias em que aprendem a lutar judô ou taekwendô, que façam balé ou street dancing, que aprendam a tocar guitarra ou bateria, que participem de cursos de RPG… As pobres crianças têm agendas tão completas quanto as de executivos famosos.

Mas, a o problema é ainda mais sério… Ignorando que crianças são crianças, e devem ser tratadas como tais, e que pais são pais e devem ser respeitados como tais, os pais democratizaram o lar, eliminaram as diferenças, igualizaram os papéis, tentaram se tornar amiguinhos dos filhos, começaram a tratá-los muito cedo (certamente antes do tempo) como se fossem adultos (só que pequeninhos no tamanho), envolvendo-os em discussões familiares sérias ou introduzindo-os a discussões de sexo, pornografia, prostituição, homossexualidade que eles não têm maturidade suficiente para entender e digerir (embora gostem de fazer de conta que sim). Parece, hoje, que os pais não conseguem tomar nenhuma decisão importante – da compra de um carro novo ao local em que devem passar as férias – sem submetê-la a um suposto Conselho de Família em que (como antigamente se fazia com jogos de salão) deixam os pequenos se sentir importantes curvando-se às preferências deles (mesmo quando elas claramente não são razoáveis). E olhem que não estou nem falando do fato de que os pais abdicaram totalmente do direito de decidir que comidas os filhos vão comer, que roupas vão usar, a que programas de televisão vão assistir, que sites da Internet vão visitar, e até mesmo que escolas vão freqüentar…

Na televisão, as crianças assistem a séries em que a característica mais notável dos personagens mirins ou adolescentes é a completa falta de educação uns para com os outros e de respeito para com os mais velhos. Respeito pelos pais é algo desconhecido nesses programas – só vale a voz alta, a linguagem abusiva, as interrupções, as falas ao mesmo tempo, o dedo no nariz, como que dizendo “Não ouse!!!”

O desejo de que os filhos se tornem adultos o mais cedo possível, ou de que se mostrem, o mais cedo possível, os gênios (ou os super-homens e mulheres-maravilhas) que os pais acreditam que são (afinal de contas, são filhos deles!!!), está fazendo das crianças pequenos tiranos, ou até mesmo pequenos monstrinhos. Enfim, seres difíceis de tratar ou até mesmo suportar, que não têm a menor noção do que significa ser uma criança (ou uma pessoa adulta) educada e respeitosa dos direitos dos outros, em especial dos mais velhos e dos que deveriam ter algum tipo de autoridade e ascendência sobre elas.

O comportamento abusivo não se restringe ao lar e ao seio da família. Não é raro que as escolas chamem os pais para que dêem um jeito em filhos que nem chegaram à puberdade ainda mas se comportam na escola como adolescentes e jovens indomáveis, pretendendo saber mais do que os professores em algumas áreas (o que, admitamos, acontece com freqüência, em especial quando se trata de tecnologia), faltando-lhes com o devido respeito, falando-lhes aos gritos, desobedecendo a eles.

Já imaginaram o que vai ser a Suri da Katie Holmes e do Tom Cruise quando tiver dez anos? Deus tenha pena de seus professores e de tantos mais que vão precisar interagir pessoal ou socialmente com ela.

Temos aqui um grande desafio para os que acreditam que a educação começa em casa. O que temos visto é que, ultimamente, em casa começa uma deseducação tal que a escola dificilmente vai ter condições de corrigir. A única esperança é que os professores, que toleram os mesmos comportamentos de seus próprios filhos, se neguem a se comportar em relação a seus alunos como se fossem pais…

Em artigo que publiquem em 1991, há quase vinte anos, sobre o igualatarismo, inseri alguns parágrafos sobre o “igualitarismo na família”…  (Vide uma versão revista em http://chaves.com.br/TEXTSELF/PHILOS/Inveja-new.htm).

“Fenômeno mais complexo ainda é o desaparecimento de diferenças nos papéis de pais e filhos, o igualitarismo levado para dentro da família.  No início de 1981, Neil Postman, em um artigo intitulado "The Day our Children Disappear: Predictions of a Media Ecologist" [Phi Delta Kappan, Janeiro de 1981, pp.382-386 – vide o livro mencionado também], predizia o desaparecimento das crianças (enquanto categoria). A televisão, segundo ele, tende a fazer, de todos, adultos. Não há mais assuntos e problemas próprios de adultos. Tudo que era tabu para crianças foi desmistificado e é apresentado em nossa sala de visitas, em horário nobre e em cores: violência, morte, corrupção, sexo (não só o geralmente tido como normal, mas incluindo promiscuidade, adultério, homossexualismo, sado-masoquismo, incesto, etc.).“

No artigo questionei parcialmente Postman por ver apenas uma tendência, a adultização dos filhos, negligenciando o outro lado da moeda, a infantilização dos pais… Ao mesmo tempo em que os fihos procuram se comportar como adultos, muitas vezes sob a pressão dos pais, estes se infantilizam, se tornam crianças, comportam-se como se o ideal, para os pais, fosse se tornar igual àquilo que os filhos estão deixando de ser, ou se recusando a ser… “Se não vos fizerdes como um desses pequeninos, não entrareis no Reino dos Céus”… Resultado: filhos adultos, pais crianças… Filhos Dom Fulgêncio, pais Peter Pan.

Eis mais um trecho do que eu disse no artigo mencionado:

“… embora corretamente identificando a tendência igualitarista da sociedade atual, [Postman] parece ter errado ao defini-la [apenas] como a ‘maturação’ das crianças: o que está havendo parece mais ser a "infantilização" dos adultos.

O semanário francês L’Express, em edição recente, publica, em artigo de capa, o resultado de uma sondagem, com o título "Tout ce que pensent vos enfants … sans jamais oser vous en parler" [Edição internacional nº 2036, de 20 de julho de 1990, pp.24-31]. Eis uma das principais reclamações dos filhos aos seus pais, expressa nas palavras de dois adolescentes. O primeiro: ‘Vocês se tomam por jovens: vestem-se como nós, falam como nós. Isso é meio ridículo, não é verdade?‘. O segundo: ‘A gente freqüentemente escuta: ‘Fulano se toma por seu pai’. A verdade, em geral, é o inverso: é o pai que brinca de ser filho’. Jovens perceptivos, esses. O artigo termina com um apelo aos pais: ‘Coragem, envelheçam!’ "

Na matéria de L’Express se cita o psicanalista Tony Anatrella comentando a reação dos jovens [op.cit, loc.cit.]:

“. . . A geração dos anos 60 não interiorizou a paternidade e a maternidade. . . . Os pais não desempenham seu papel: são pessoas que cresceram e se fecharam dentro do mito da eterna juventude. A sociedade adulta se tornou incapaz de propor pontos de referência aos jovens. Sem esses pontos de referência os adolescentes têm dificuldades para construir sua própria identidade. . . . Os adultos continuam a viver sua adolescência através de seus filhos – recusam-se a declará-la terminada. Para isso, construíram o mito da igualdade: somos amigos, não pais e filhos. Como é que os jovens podem definir sua identidade nessas condições? Há trinta anos, as imagens do pai e da mãe eram fortes – e contestadas. Hoje, são fluidas. Nos anos 60, os filhos se revoltavam contra os pais. Hoje eles os procuram: Onde estão? Quem são eles? " 

É isso…

O desafio me parece ser o seguinte:

Como pais e professores podem vivenciar, no lar e na escola, uma educação democrática, não diretiva, que conduz à autonomia de seus filhos e alunos,

(a) sem, de um lado, perder, ou o que é pior, se desfazer da autoridade, e sem levar filhos e alunos a perder (até porque eles próprios, pais e professores, não se tornam) os necessários pontos de referência;

e,

(b) sem, de outro lado, se tornar autoritários e ditadores, perder o carinho e a ternura, atitude que faz com que os filhos ou nunca desenvolvam a autonomia ou se tornem rebeldes?

A geração anterior à minha talvez tenha sido culpada de “b”. A minha, e, talvez, ainda mais a que lhe segue, está sendo culpada de “a”,

A seguir, o artigo de Ruy Castro. Desfrutem-no.

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A Folha de S. Paulo
14 de Dezembro de 2009

RUY CASTRO
Síndrome de Suri

RIO DE JANEIRO – Temo estar perdendo maravilhas, mas nunca vi um filme com Katie Holmes. Sei que é mulher de um ator chamado Tom Cruise, de quem também só assisti a "De Olhos Bem Fechados", por causa do diretor Stanley Kubrick, e que o casal tem uma filha de 3 anos, Suri, que vive saindo na mídia por usar sapatos de salto alto, tomar vinho tinto e ter seu próprio cartão de crédito.

Holmes e Cruise devem ter suas razões -despreparo, carreirismo ou deslumbramento- para permitir tal precocidade na biografia da filha. Nas reportagens sobre Suri, os ortopedistas alertam para o fato de que saltos altos são incompatíveis com uma estrutura óssea cuja formação, segundo eles, só se completará aos 12 ou 13 anos. Além de serem uma garantia de dores, calos e joanetes para Suri e, na vida adulta, de pernas curtas e dificuldade para caminhar. Esses alertas, pelo visto, caem no vazio.

O problema não se limita a Hollywood ou a filhos de pais famosos. No Brasil, talvez mais que em outros países, há meninas entre 3 e 10 anos com hora marcada no salão para depilar a sobrancelha, aplicar "luzes" no cabelo ou fazer tratamento contra celulite. Toda garota quer se parecer com a mãe, é normal. O problema é quando os fabricantes de cosméticos, sutiãs etc. assumem o controle dessa estética infantil e passam a impô-la às crianças com a conivência das mães.

O humanista americano Neil Postman (1931-2003) alertou para esse problema num grande livro de 1982, "O Desaparecimento da Infância" (há versão brasileira, pela editora Graphia). Todas as previsões de Postman se confirmaram: sem saber, estamos gerando crianças-adultos, que dificilmente chegarão à maturidade.

Sem saber, mesmo -talvez porque nós próprios, filhos da segunda metade do século 20, já sejamos adultos-crianças.

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Em São Paulo, 14 de Dezembro de 2009

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