Pouca vergonha !!! (Parte 2)

Confesso que, dias atrás, no início do mês, à noitinha, ao ver o vídeo da oração de ação de graças de um deputado brasiliense, evangélico e recebedor de propina, junto de um colega, também deputado, também evangélico e também recebedor de propina, diante do pagador-mor das propinas no Distrito Federal, Secretário do Governo de José Roberto Arruda (DEM), do Distrito Federal, fiquei menos chocado do que quando descobri, dias antes, evidências incontestáveis de que o Corinthians (jogadores, técnico, comissão técnica, etc.) entregou o jogo ao Flamengo em Campinas, na penúltima rodada do Campeonato Brasileiro, abrindo as portas para o Flamengo ser campeão (e fechando as portas para o tetra-campeonato consecutivo do rival São Paulo Futebol Clube). 

Na verdade, não fiquei chocado com o comportamento e a oração de graças do deputado evangélico, que por sinal é Corregedor da Câmara dos Deputados de Brasília… O outro deputado, que participou da oração, é o Presidente da Câmara – aquele mesmo que foi pego com dinheiro nos bolsos, nas meias e Deus sabe mais onde…

Não fiquei chocado com o comportamento e a oração dos deputados evangélicos. Fiquei apenas triste… Triste porque meu pai foi pastor evangélico (presbiteriano) durante quase cinqüenta anos. De 1941, quando iniciou seu ministério, em Paracatu, MG, até 1991, quando morreu, em Santo André, meu pai foi pastor evangélico – e isso numa época em que ser pastor evangélico era sinônimo de ser uma pessoa eminentemente honrada, honesta e boa  (e que vivia com uma miséria). Na verdade, nessa época ser evangélico, em si, ainda que leigo, era sinônimo de ser pessoa honrada, honesta e boa. Naquele tempo os evangélicos tinham pastores, presbíteros, diáconos, anciãos, mas não apóstolos, bispos e bispas — muito menos bispo casado com bispa, apóstolo casado com bispa… (Será que vamos ter logo uma apóstola? Filho de um apóstolo com uma apóstola já nasce bispo?)

A oração de ação de graças do deputado evangélico recebedor de propina foi feita enquanto ele abraçava o outro deputado, também recebedor de propina, e o propinador-mór, o principal executivo do sistema de propinas do Governador José Roberto Arruda. O nome do propinador-mór, que agora denuncia o sistema em troca de uma pena mais branda, se e quando condenado, é Durval Barbosa, ex-secretário do Governo do Distrito Federal. A oração foi feita pelo deputado distrital de Brasília, Júnior Brunelli (PSC), que, como disse, é Corregedor da Câmara. Leonardo Prudente (DEM), que o acompanhava, é Presidente da Câmara Legislativa – foi ele que escondeu o dinheiro nas meias. Segundo o Correio Braziliense de Brasília, Leonardo Prudente é figura cativa em encontros de igrejas evangélicas, sendo muito ligado ao bispo Robson Rodovalho, deputado federal pelo Democratas e fundador da comunidade evangélica Sara Nossa Terra, cujo templo o presidente da Câmara Legislativa freqüenta em Brasília. Júnior Brunelli (PSC) é, segundo a mesma fonte, filho do fundador da Casa da Bênção e não raro adentra o plenário da Câmara Legislativa com uma Bíblia debaixo do braço.

Eis parte da oração, transcrita do site do Correio Braziliense:

(http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia182/2009/12/01/cidades,i=158106/VIDEOS+TEM+ATE+ORACAO+DA+PROPINA.shtml)

“Pai, eu quero te agradecer por estarmos aqui. Sabemos que nós somos falhos, somos imperfeitos. Somos gratos pela vida do Durval por ter sido instrumento de bênção para nossas vidas, para essa cidade, porque o Senhor contempla a questão no seu coração. Tantas são as investidas, Senhor, de homens malignos contra a vida dele. Nós precisamos da Tua cobertura e dessa Tua graça, da Tua sabedoria, de pessoas que tenham armas para nos ajudar nesta guerra. Todas as armas podem ser falhas, todos os planejamentos podem falhar, todas as nossas atividades, mas o Senhor nunca falha. O Senhor tem pessoas para condicionar e levar o coração para onde o Senhor quer. A sentença é o Senhor quem determina, o parecer e o despacho é o Senhor que faz acontecer. Nós precisamos de livramento na vida do Durval, dos seus filhos, familiares.”

Pois é…

Houve época – na minha infância – em que a escola pública era boa.

Houve época – também na minha infância – em que ser evangélico era sinônimo de ser pessoa honrada, honesta e boa.

Isso não é mais verdade em nenhum desses casos. E sei disso há bom tempo. Foi por isso que, no caso da oração do deputado com o colega e o principal executivo da quadrilha, ora informante da Polícia Federal, não fiquei chocado.

Eu sei… O que estou dizendo demonstra que, ainda que não seja ingênuo em relação aos evangélicos, sou bastante ingênuo no tocante ao futebol. Ingênuo, por acreditar ainda hoje, como eu acreditava quando era criança, que time de futebol, pelo menos os grandes, honrava a camisa e respeitava os torcedores.

Mas felizmente, não sou ingênuo em tudo. Pelo menos no tocante aos evangélicos, perdi a ingenuidade há um bocado de tempo – e venho perdendo um pouco mais a cada dia, como se fosse possível.

Mas isso me deixa mais triste do que feliz…

Não foi só a voracidade por dinheiro dos evangélicos que me tirou a ingenuidade em relação a eles. É verdade que ajudou. Há o bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, instruindo os seus assessores a pressionar os fiéis a dar dinheiro, em vídeo antigo que a TV Globo divulgou há tempo. Há as denúncias atuais contra ele e os principais executivos de sua igreja-empresa. Há a prisão nos Estados Unidos do apóstolo Estêvão e da bispa Sônia, sua mulher, ambos fundadores da Igreja Renascer em Cristo (e mentores espirituais do Kaká, que é membro da igreja deles, em São Paulo, onde se casou), entrando no país com dólares não-declarados na mala. Há o pastor Silas Malafaia prometendo bênçãos materiais e riquezas incalculáveis para quem dá dinheiro para ele. (Vide http://brasilmetodista.ning.com/profiles/blogs/carta-ao-pr-silas-malafaia).

Além dessa voracidade por dinheiro, há uma série de outras coisas horríveis que líderes evangélicos perpetram contra seus seguidores, e que estão bem documentadas no livro Feridos em Nome de Deus, da jornalista evangélica, e membro da Igreja Batista da Água Branca em São Paulo, Marília de Camargo César (Vide http
://www.mundocristao.com.br/produtosdet.asp?cod_produto=10660
).

E há as coisas que os membros comuns (“rank and file”) das igrejas evangélicas perpetram e das quais eu sou testemunha… Coisas absurdas que gente que se considera crente de cepa e que certamente ora todo dia, como o fazem os deputados de Brasília; gente que também anda com a Bíblia debaixo do braço e na ponta da língua; gente que faz jejum, que ministra cursos, que canta no coral; gente que, como o pessoal de Brasília, certamente pede que Deus a ajude em seus maus desígnios – e que dá graças quando acha que Deus a atendeu… Mas que faz barbaridades, no seio de sua própria família, mostrando quão longe a religiosidade se afasta de simples sentimentos de humanidade (para não dizer de fraternidade). 

Não se fazem mais evangélicos como os de antigamente. Sei disso há tempo. Mas mesmo não ficando chocado, não deixo de achar que, como no caso do Corinthians, também aqui se trata de um bocado de pouca vergonha.

Há exceções, também sei. Honrosas. As exceções ficaram chocadas com o que viram no filme dos deputados. Ficam chocadas quando confrontadas com evidências da falta de honradez humana, da desonestidade e da maldade que existem em muitos corações evangélicos. Mas, ao final, se convencem de que o termo evangélico não é mais sinônimo de gente honrada, honesta e boa.

É uma pena. E o pior é que, neste caso, nem é possível orar dizendo “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem”. Eles sabem muito bem o que fazem.

Em São Paulo, 14 de Dezembro de 2009

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