O primeiro Natal de que eu (mais ou menos) me lembro

[Comentário colocado em 09/02/2011, no início da noite, por volta de meia-noite e meia… Este post prova a tese de que nossa memória, se entendida como a capacidade de lembramo-nos das coisas “wie sie eigentlich gewesen sind”, como elas realmente aconteceram, é muito falha. Minha lembrança do meu primeiro Natal é cheia de lacunas. Mas as lacunas foram, com o tempo, sendo preenchidas com lembranças de coisas que, provavelmente, aconteceram em outros momentos, que não exatamente o Dia de Natal – mas que, na memória construída ao longo do tempo, se tornaram lembranças natalinas. Mark Twain uma vez disse que, à medida que ele ficava velho, a memória dele melhorava, e ele passava a se lembrar até de coisas que nunca aconteceram. Parece um chiste, e é um chiste. Mas, por trás da piada, está o fato de que, com o tempo, a gente se convence de que determinadas coisas aconteceram (que podem não ter acontecido), ou que aconteceram desta e não daquela maneira (que pode não ser a maneira em que realmente aconteceram), mas, para nós, é esse memória construída que condiciona nossos sentimentos, muitas vezes os mais ternos. O relato abaixo é uma construção memorística. Admito em vários lugares que não me lembro direito, ou que a data que vêm à minha memória não pode ser a data real… Mas é essa memória construída que acalenta as lembranças gostosas de minha mais tenra infância auto-consciente.]

Não sei se o primeiro Natal de que eu me lembro foi realmente no dia de Natal… Não me lembro muito bem dos detalhes. Mas algumas coisas ficaram bem gravadas em minha memória.

Em primeiro lugar: onde foi?

Disso não tenho dúvida. A lembrança é clara. Foi no casarão de madeira, com sótão, em que morávamos, na zona rural de Marialva, PR. Essa casa tem posição privilegiada em minha memória. Há várias fotos dela espalhadas pelas relíquias da família. Parece aquela casa de Psicose, filme de Alfred Hitchcock, com Anthony Perkins e Janet Leigh (mulher do Tony Curtis e mãe da Jamie Leigh Curtis). Era numa chácara e ficava bem distantezinha do centro de Marialva. Era cercada com arame farpado ou balaústres, não me lembro direito – acho que com balaústres. Ali havia cachorros, cavalos e, naturalmente, galináceos à vontade. Um dos nossos cavalos, o preferido de meu pai, um cavalo entre branco e baio, era o Galaor (nome que ele deu ao cavalo em homenagem ao cavalo do jovem Pardaillan em Les Pardaillans, de Michel Zévaco). E me lembro bem dos pés de mamona. Havia muitos. A gente usava o caroço da mamona seca como munição no estilingue – mas este não era usado para matar passarinhos, só para testar a pontaria nas árvores e nos mourões.

Não tenho a menor idéia de por que os meus pais resolveram morar ali naquele fim de mundo, Não havia nenhum vizinho próximo. Nem mesmo olhando da janela do sótão a gente via sequer uma casa pelas redondezas. Só mato. Meu pai viajava muito (em geral a cavalo) para ir pregar nas igrejas do “campo missionário” dele (que abrangia de Mandaguari até Paranavaí e Campo Mourão). E minha mãe ficava ali sozinha no casarão, apenas com uma mocinha que ajudava. E eu, naturalmente. Mas, no caso de perigo, eu mais atrapalhava do que ajudava. Imagino que ela deve ter sentido muito medo… Embora acreditasse que “o anjo do Senhor acampa ao redor dos que O temem e os livra”.

Pois a lembrança que tenho de meu primeiro Natal é a de um Natal que se passou ali, naquele casarão da chácara de Marialva.

Em segundo lugar: quando foi?

De algumas coisas não tenho dúvida, mas elas não se encaixam direito. Lembro-me, como se fosse hoje, que meu irmão, o Flávio, era pequenininho, de colo. Na verdade, recém-nascido. De colo mas não do jeito que um guri de oito meses é de colo: de colo do jeito que um nenê de um mês é de colo.

É aqui que as coisas não se encaixam direito. Meu irmão nasceu cinco dias antes do Natal – em 20 de Dezembro de 1946. Mas nasceu em Campinas, não em Marialva. Minha mãe foi para Campinas, “quando chegaram os dias em que deveria dar à luz” (como diz o Novo Testamento), algo que pretendera fazer no meu caso, também, mas eu fui mais apressado e nasci no interiorzão, mesmo, em Lucélia, SP. O Flávio nasceu na Rua José Paulino, 254, entre o Centro e a Ponte Preta, em Campinas, no casarão do Seu Chico (cheio de duendes no jardim). No dia 20 de Dezembro. Então é literalmente impossível que o primeiro Natal de que me lembro tenha sido exatamente em Marialva, no Dia de Natal de 1946… A gente claramente não estava lá nesse dia. Por isso disse, lá em cima, que não sei se o primeiro Natal de que eu me lembro foi realmente no dia de Natal…

Em terceiro lugar: quem estava junto?

Estavam comigo naquele Natal, minha mãe, meu pai, o Flávio (baby Fla), e, surpreendentemente, o meu avô e a minha avó maternos, Juca e Gina (José e Angelina) – lá em Marialva!!! Disso também não tenho dúvida. Lembro-me claramente da cena deles chegando (ele, como sempre, de terno e gravata), depois abrindo as malas, tirando os presentes. Para mim havia uma bola e uma piorra, daquelas com listras coloridas que fazem um zunido gostoso quando a gente roda.

Como se vê, as imagens não se encaixam direito. O dia de Natal de 1946, propriamente dito, em que eu tinha três anos, três meses e dezoito dias, a gente claramente deve ter passado em Campinas. Mas não me lembro absolutamente nada desse dia – embora me lembre relativamente bem do caos de cinco dias antes, quando o meu irmão nasceu (em casa – casa de minha avó)… Na pressa e na bagunça, esqueceram de mim – e eu assisti ao nascimento do Flávio de camarote, em posição privilegiada, de pezinho, olhando pelo vão horizontal do pé da cama…

Imagino que o seguinte tenha acontecido.

O Flávio nasceu no dia 20/12/46. Algumas semanas depois (não devem ter sido muitas) meus pais voltaram para Marialva, levando-nos com eles. Alguns dias depois meu avô e minha avó chegaram para ajudar minha mãe (então com 22 anos) – e trouxeram os presentes de que me lembro tão bem.

Acredito, portanto, que o primeiro Natal de que me lembro não tenha sido em 25/12/1946, mas algum dia no início de 1947… Mas a data exata não é tão importante quanto o fato de que aquilo de que me lembro era Natal. Natal pelos presentes. Duplamente Natal, por causa da chegada do meu irmão (então bem zinho). Triplamente Natal por causa da visita dos avós queridos.

Naquela ocasião eu, como um petiz de três anos, bem menor do que o meu neto Marcelinho é hoje, não sabia grande coisa acerca do nascimento de Jesus e do sentido que o Natal tem para os cristãos. Para mim, desde então, o Natal ficou sendo um dia em que a gente ganhava presentes e os avós chegavam… Presentes eram raros e escassos naquela época. E a convivência com os avós, mais rara e escassa ainda, e, por isso, extremamente preciosa.

Meus avós Juca e Gina morreram em 1967 e 1968, respectivamente. Hoje o avô sou eu. E o Marcelinho, meu neto de quatro anos e oito meses, vem (com a mãe dele) almoçar comigo e com a Paloma hoje. Compramos, a Paloma e eu, uns presentinhos para ele – escolhidos por ele mesmo no dia 20/12 (dia do aniversário do Flávio!!!) na RiHappy do Shopping Villa Lobos em São Paulo. Ele vem com a Patrícia, minha filha, e o Matheus, namorado dela.

Quando a gente tem três ou quatro anos em geral é feliz – sem o saber (como dizia Ataulfo Alves na música Tempo de Criança: “eu era feliz e não sabia”). Quando a gente fica mais velho, e se torna avô, fica consciente da felicidade – da felicidade regular e constante que consiste em estar com quem se ama, em estar relativamente bem de saúde, em estar relativamente bem de finanças, em estar de bem com a vida. E dos momentos especialmente felizes que emolduram e realçam essa felicidade regular e constante.

Nos últimos quarenta dias tive três desses momentos especialmente felizes que realçaram e emolduraram a felicidade do meu cotidiano.

O primeiro foi proporcionado pela decisão da Patrícia, minha filha mais nova, de, com o Marcelinho e o Matheus, vir passar o aniversário dela, aqui no sítio, de 20 a 22 de Novembro, comigo e com a Paloma. Foi a primeira vez que estivemos juntos nós cinco aqui no sítio – com a companhia também da Bianca, da Priscilla, do Flávio e do Flavinho (que enriqueceram sobremaneira esse momento feliz).

O segundo foi proporcionado pela decisão da Patrícia de, novamente com o Marcelinho e o Matheus, ir passar um fim de semana conosco (comigo e com a Paloma) em São Paulo, nos dias 19 e 20 de Dezembro. No dia 19, sábado à noite, fomos à casa do Flávio, meu irmão, celebrar com ele e com minhas irmãs, mais um aniversário dele (que, como já dito, nasceu no dia 20). A Inês, mulher do Flávio, o Flavinho e o César, filhos dele, este acompanhado da Juliana, sua mulher, e do Gabriel, seu filho e, portanto, neto do Flávio, estavam lá também, bem como a Eliane, minha irmã mais nova, o João, marido dela, e o Vítor, filho dela; a Priscila (com um “l” só), minha outra irmã, já havia estado durante o dia e não foi à noite). No domingo, dia 20, nós — a Patrícia, o Marcelinho, o Matheus, a Paloma, a Bianca, a Priscilla e eu – fomos à Chácara Santa Cecília almoçar (na verdade, um brunch). De lá fomos ao Shopping Villa Lobos, onde compramos os presentinhos de Natal do Marcelinho, da Priscilla e da Bianca.

O terceiro será proporcionado hoje, daqui a pouco, se Deus quiser, com a chegada novamente da Patrícia, do Marcelinho e do Matheus, bem como do Flávio, da Inês, do Flavinho, e da Priscila, minha irmã, para almoçar conosco neste Dia de Natal de 2009.

Como se vê, há constantes.

Há a Paloma, meu amor, minha companheira, minha amiga, minha parceira de trabalho, e o fio condutor responsável pela constância da minha felicidade nos últimos tempos, que não só faz parte de minha felicidade regular e constante do dia-a-dia mas esteve ao meu lado nesses três momentos especiais. Há a Patricia e o Marcelinho de novo do meu lado, agora sem que eu precise estar sozinho para estar com eles – com a companhia sempre alegre e divertida do Matheus. E há o Flávio e o Flavinho, dupla de pai e filho como eu nunca vi igual, irmão e sobrinho do mais alto calibre. Todos nós, sete no total, estivemos juntos em todos esses três momentos especialmente felizes que emolduraram e adornaram a minha felicidade regular e constante nos últimos quarenta dias.

Além disso, o Flávio estava presente também naquele primeiro Natal de que me lembro, nos idos de 1947, sessenta e três anos e pouco atrás, lá em Marialva. Era novinho, novinho, mas estava lá. Dos que estavam juntos naquele Natal só restamos nós dois, ele e eu. (Meu pai morreu em 1991 e minha mãe no ano passado).

Obrigado a vocês todos por estarem aqui comigo, do meu lado, neste Natal de 2009. Obrigado também àqueles que não estiveram comigo fisicamente em todos esses momentos especiais, mas que, eu sei, estiveram comigo em espírito e no coração, como a Eliane, o João, o Vítor, o Diogo, a Priscilla, o Rodrigo, meu filho, o Gabriel, meu neto, a Andrea, minha outra filha, o Rick, marido dela, e a Olivia e a Madeline, filhas deles.

Em “O Canto da Coruja”, em Salto, 25 de Dezembro de 2009 (com pequenos acréscimos e correções em 27 de Dezembro de 2009 e em 9 de Fevereiro de 2011).

  1. Queridíssimo,
    Eu já devo ter lido esse seu post antes…, mas não me lembro se o li inteiro…
    O que sei é que o li novamente hoje, aqui no Container Office…, e fiquei muito emocionado e mais ainda felicíssimo por ter um irmão como você e fazer parte de sua bela história…
    Qualquer coisa que eu escreva não conseguirá expressar o meu senimento de felicidade, orgulho e tudo o mais de bom que podemos sentir… Só sei que amo muito você e que o admiro acima de tudo e lhe desejo ainda muito mais felicidade do que você já teve até agora, sempre ao lado de todos os seus queridos, a queridíssima, em especial, e todos nós outros, inclusive essa modestíssima pessoa que sou eu…, que temos o privilégio de contar com o seu amor e carinho… e também participar de sua belíssima história…, ainda que como coadjuvantes…, como no meu caso…
    Mas veja como são as coisas…, como eu vim parar aqui no seu Blog outra vez… Estava respondendo a um post do Vitor sobre Os Pardaillans e eu queria confirmar o nome do cavalo dele (Pardaillan…, não do Vitor…hehehe…). Eu tinha quase certeza, mas queria confirmar, para não errar…hehehe… E daí eu digitei no Google ” cavalo do Pardaillan”…, “Galaor”…, e coisas parecidas e veja onde fui parar…, aqui no seu maravilhoso Blog…!!!!
    MAKTUB que eu deveria ler este seu post novamente…
    Abraços e Beijos,
    flá.

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