“Guerra”

Bom o artigo do Pondé – principalmente no contexto que existe a partir de ontem.

Dilma, em sua primeira manifestação depois de formalmente eleita, comprometeu-se a defender a democracia – ressaltando a importância da liberdade de expressão, de imprensa e de culto.

É preciso reconhecer, em primeiro lugar, que nenhum candidato eleito, de posse de suas faculdades mentais, diria o contrário em sua primeira manifestação pública depois de eleita.

E é preciso reconhecer (como ressalta Pondé) que “‘democracia’ é uma palavra quase tão gasta quanto a palavra ‘energia’”. Cuba se considera uma democracia (embora seja “uma ilha sitiada por um sistema da idade da pedra”) e todos os países comunistas do Leste Europeu se chamavam de repúblicas democráticas (só conseguindo convencer os intelectuais de esquerda, como Jean-Paul Sartre).

Democracia é, sim, governo do povo, pelo povo, para o povo. Mas só a eleição dos governantes pelo voto popular não faz de um país uma democracia. Mais importante do que a eleição pelo voto popular, disse um dia Karl Popper, é a existência de mecanismos efetivos para limitar o poder dos governantes e para removê-los de seus cargos quando violam, ou mesmo tentam violar, esses limites, mesmo que seu mandato esteja no início. A existência no país de uma Constituição clara e sucinta que especifique esses limites de forma inequívoca e inquestionável é essencial para a democracia.

Um dos limites essenciais para o poder do governo é a liberdade de imprensa. Sem uma imprensa realmente livre, não há democracia.  

Diz Pondé: “Querem uma mídia democrática? Deixem-nos em paz e aguentem o tranco. Esses órgãos de controle da mídia [propostos pelo PT, pelo Lulla, etc.] devem ser encarados como uma declaração de guerra. Você tem medo da liberdade?”

A mídia (TV, cinema, rádio, jornais, publicidade, Internet) deve ser absolutamente livre. Sem tutela e controle do governo ou, o que dá no mesmo, da “sociedade”. O único jeito legítimo de a sociedade controlar a mídia é não a assistindo, lendo, acessando. Como o povo faz com a TV Brasil.

E mídia estatal também é uma aberração. Não passa de propaganda. Mesmo que tente parecer democratiquinha, como a Voz do Brasil. Também é uma aberração os horários gratuitos dos partidos e candidatos na mídia e os demais sequestros de horários nas emissoras de rádio e TV pelo poder público, para fazer pronunciamentos.

E, por fim, também é uma aberração a propaganda política, ainda que paga, do governo.

O artigo do Pondé não cobre todos esses tópicos, mas vale a pena le-lo.

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Folha de S. Paulo

1º de Novembro de 2010

Guerra

Luiz Felipe Pondé



Vocês querem uma mídia democrática? Então deixem-nos em paz, livres, e aguentem o tranco



“Democracia ” é uma palavra quase tão gasta quanto a palavra “energia”. Quer ver?

Pode-se falar em democracia na escola (papo furado para não dar aula ou seduzir os alunos que não gostam de ter aula), democracia dos afetos (hoje transo seres humanos, amanhã, labradores, nada de “especismo”, porque cachorro é gente), democracia corintiana (dessa nem falo porque sou um palmeirense ressentido), democracia na família (mesmo que os pais paguem as contas, eles devem obedecer à base popular, isto é, os filhos), enfim, qualquer um pode inventar a sua própria democracia.

Cuba se acha democrática, quando na realidade é uma ilha sitiada por um sistema da idade da pedra. A Alemanha comunista, logo ditadura da pior espécie, se chamava “República Democrática Alemã”.

Chávez e Evo Morales (anões bolivarianos) também acham que é democrático ficar mudando a Constituição para ficarem no poder 200 anos. Não é o voto popular que garante sozinho a democracia (só pensa isso quem é analfabeto ou mentiroso). Esta é a nova esquerda que, como sempre quis, quer dominar a América Latina.

Nenhum regime de esquerda é democracia porque os esquerdinhas são essencialmente autoritários como os talebans.

Basta ver o que intelectuais de esquerda fazem no seu mundinho da universidade: destroem carreiras, inviabilizam pesquisas, aniquilam alunos promissores, constrangem moralmente a dissidência, só para perpetuar o domínio institucional. Eles são maioria absoluta e destroem toda liberdade intelectual em nome do “bem coletivo”.

Estão preparando no Brasil um dos maiores abusos em nome (adivinhe?) da democracia: o controle da mídia. E esta é uma forma de controle da cultura.

Alguns Estados se preparam para criar órgãos de controle da mídia. Claro que os que assim agem afirmam não ser intenção deles controlar a mídia, mas, como eu não acredito em Papai Noel, sei que não dizem a verdade.

O que é a democracia? Antes de tudo é uma palavra do grego arcaico. Depois, ganhou cidadania na filosofia política em geral para se referir a um sistema de governo baseado na “soberania popular”, e aí, meu amigo, a coisa vai para o brejo.

Por exemplo, eu posso ser um tonto, analfabeto de pai e mãe, e meu voto vale tanto quanto o seu, pessoa culta, esforçada para compreender o mundo e fazê-lo menos estúpido do que já é. Eis o brejo…

Logo, voto popular não basta para garantir coisa nenhuma. Todo mundo sabe que, como mostra o maravilhoso filme “Tropa de Elite 2” (que merece um texto à parte), voto é mercadoria barata, qualquer bandido pode migrar do tráfico de drogas para o tráfico de influência (corrupção) e comercializar votos.

E, na democracia, voto vale ouro para quem o recebe e nada para quem o dá. A sobrevida da democracia depende de mecanismos finos de pesos e contrapesos que sustentam a liberdade e que vão muito além do simples voto de qualquer um. E é aí que a democracia brasileira está a um passo do abismo.

Qualquer discurso criminoso de “democratizar” a mídia através de órgãos tutelares do governo (seja ele qual for, mesmo um em que eu votei) deve ser rechaçado se não quisermos virar uma República da banana.

A mídia (TV, cinema, rádio, jornais, publicidade) deve ser absolutamente livre. Deve ter seus próprios mecanismos de autorregulação e jamais ser objeto de “fiscalização externa” (que será sempre ideológica, mesmo que contem historinhas de fadas para dizer que não é).

As melhores intenções neste caso serão sempre criminosas a serviço do “mal”. Mídia boa é mídia incômoda. Para além de qualquer crítica que se possa fazer à mídia, ela é a principal arma contra sistemas totalitários que amam a burrice pública da unanimidade.
A pior forma de controle da mídia é aquela que se diz em nome do “combate democrático aos preconceitos” ou da “democratização social” porque se faz invisível usando a palavra mágica “democracia”.

Querem uma mídia democrática? Deixem-nos em paz e aguentem o tranco. Esses órgãos de controle da mídia devem ser encarados como uma declaração de guerra. Você tem medo da liberdade?

ponde.folha@uol.com.br

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Em São Paulo, 1º de Novembro de 2010

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