Coerência vs Incoerências

Achei tão interessante o artigo de  Contardo Calligaris na Folha de hoje (25/11/2010) que o transcrevo na íntegra, na íntegra, abaixo.

Só tenho um comentário a adicionar – mas o considero importante. Contardo parece considerar a coerência prioritariamente do ponto de vista moral: coerência de nossos princípios morais uns com os outros e coerência deles com a nossa conduta, com a nossa prática.

Há uma outra coerência que me interessa muito no momento: a coerência intelectual. Não me refiro tanto ao fato de que muitos de nós mantemos convicções intelectuais, num determinado momento de nossas vidas, que conflitam, uma com a outra naquele mesmo momento. Talvez seja a essa incoerência a que mais choca. Refiro-me, isto sim, e também, ao fato de que muitos de nós mudamos de opinião, muitas vezes, ao longo do tempo, ao longo da nossa história de vida. O que pensamos hoje não é (mais) o que pensávamos há 50 anos, nem há 30, nem há 15, nem há 5 anos. Nós mudamos de opiniões. Eu, com Calligaris, tendo a dizer, felizmente. (E talvez seja coerente nisso: toda vez que mudei de convicção sobre questões importantes, fiquei feliz com a mudança, e convivi bem com ela, até que novas circunstâncias me obrigaram a, mais uma vez, rever os meus conceitos, e mudar de opinião ainda uma vez.)

(Falo em “mudar de convicção” em vez de falar simplesmente em “mudar de opinião” porque se trata, aqui, de opiniões básicas, importantes, acerca das quais adquiri convicção que me pareceu, na ocasião, bastante bem fundamentada).

Diante disso, a pergunta que levanto é: há uma coerência mais básica, mais profunda, por debaixo de nossas mudanças de convicções mais aparentes? Uma coerência, por exemplo, na convicção de que convicções são coisas que devem ser reconstruídas face às mudanças que encontramos no mundo, face às circunstâncias diversas que enfrentamos, face a novas dimensões descobertas na vida, face a novos relacionamentos humanos, no sentido mais geral, e pessoais, íntimos, emocionais, em que nos engajamos?

Admiro gente como Graham Greene, que se converteu para o Catolicismo, vindo do Anglicanismo. Ou, mais ainda, C. S. Lewis, que era ateu e virou cristão. Ou, ainda, C. S. Lewis, que manteve em grande medida suas convicções, mas deu-lhes uma nova tonalidade, mais humana, a partir de seu relacionamento (e retardado casamento) com Joy Gresham, divorciada, com filho, que bagunçou a vida a dele mas lhe trouxe uma nova dimensão na vida. Ela, ele a perdeu para o câncer, mas a vida que ela lhe trouxe ficou dele — e de todos nós que o lemos e admiramos — para o resto do tempo. Coerência? Não. Coragem de mudar — mudar convicções intelectuais, princípios morais, conduta, a vida enfim. Quem não viu ainda, veja o mais rápido possível, Shadowlands (1993), o magistral filme que conta o relacionamento de C. S. Lewis com Joy Gresham. O filme é dirigido por Richard Attenborough. O título no Brasil parece-me ser Terra de Sombras. Em Portugal parece ser Terras de Penumbra.

É esse o meu comentário à brilhante análise de Contardo Calligaris.

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2511201033.htm

CONTARDO CALLIGARIS

A coerência é um valor moral?

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A coerência é o último refúgio de quem tem pouca fantasia e, talvez, de quem tem pouca coragem
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NO FIM de semana retrasado, estive em Olinda, na Fliporto (Feira Literária Internacional de Pernambuco). No sábado, Benjamin Moser, que escreveu uma linda biografia de Clarice Lispector (“Clarice,”, Cosac Naify), lembrou que, na famosa entrevista concedida à TV Cultura em 1977, a escritora afirmou que não fizera concessões, não que soubesse.

Moser acrescentou imediatamente que ele não poderia dizer o mesmo. E eis que o público se manifestou com um aplauso caloroso.

Talvez as palmas de admiração fossem pela suposta coerência adamantina de Clarice, que nunca teria feito concessões na vida.

Talvez elas se destinassem a Benjamin Moser pela admissão sincera de que ele (como todos nós) não poderia dizer o mesmo que disse Clarice.

Tanto faz. Nos dois casos, o pressuposto é o mesmo. Que as palmas fossem pela força de caráter de Clarice ou pela honestidade de Moser ao reconhecer sua própria fraqueza, de qualquer forma, não fazer concessões parecia ser, para os presentes, uma marca de excelência moral.

A pergunta surgiu em mim na hora: será que é mesmo? Posso respeitar a tenacidade corajosa de quem se mantém fiel a suas convicções, mas no que ela difere da teima de quem se esconde atrás dessa fidelidade porque não sabe negociar com quem pensa diferente e com o emaranhado das circunstâncias que mudam? Aplicar princípios e nunca se afastar deles é uma prova de coragem? Ou é a covardice de quem evita se sujar com as nuances da vida concreta?

Como muitos outros, se não como todo mundo, cresci pensando que não fazer concessões é uma coisa boa.

Fui criado na ideia de que há valores não negociáveis e mais importantes do que a própria vida (dos outros e da gente). Talvez por isso me impressionasse a intransigência dos mártires cristãos (embora eu tivesse uma certa simpatia envergonhada por Pedro renegando Jesus para evitar ser reconhecido e preso).

Durante anos admirei os bolcheviques por eles serem homens de ferro (a expressão é de Maiakóvski, nada a ver com “Iron Man”) e desprezei Karl Kautsky, que Lênin estigmatizou para sempre como “o renegado Kautsky”, por ele ter mudado de opinião sobre a Primeira Guerra, sobre a revolução proletária, sobre o bolchevismo etc.

Vingança da história: Lênin se tornou quase ilegível, mas a obra principal de Kautsky, que acaba de ser traduzida, “A Origem do Cristianismo” (Civilização Brasileira), continua crucial.

Mas voltemos ao assunto. Hoje, estou mais para Kautsky do que para bolchevique; até porque descobri, desde então, que Mussolini se vangloriava gritando: “Eu me quebro, mas não me dobro”. Ele se quebrou mesmo, enquanto eu me dobro e posso renegar ideias minhas que pareçam ser, de repente, inadequadas ao momento (dos outros, do mundo e meu).

Olhando para trás, descubro (com certo orgulho) que, ao longo da vida, fiz inúmeras concessões, inclusive na hora de escolhas fundamentais. Poucas vezes lamentei não ter sido coerente. Mas muitas vezes lamento não ter sabido fazer as concessões necessárias, por exemplo, na hora de ajustar meu desejo ao desejo de pessoas que amava e de quem, portanto, tive que me afastar.

Alguém dirá: espere aí, então a fidelidade a princípios e valores não é uma condição da moralidade?

Estou lendo (vorazmente) “O Ponto de Vista do Outro”, de Jurandir Freire Costa (Garamond). O livro é, no mínimo, uma demonstração de que a forma moderna da moral não é o princípio, mas o dilema. E, no dilema, o que importa não é a fidelidade intransigente a valores estabelecidos; no dilema, o que importa é, ao contrário, nossa capacidade de transigir com as situações concretas e com os outros concretos.

A coerência é uma virtude só para quem se orienta por princípios. Para o indivíduo moral, que se orienta (e desorienta) por dilemas, a coerência não é uma virtude, ao contrário, é uma fuga (um tanto covarde) da complexidade concreta. Oscar Wilde, que é um grande fustigador de nossas falsas certezas morais, disse que “a coerência é o último refúgio de quem tem pouca fantasia” e, eu acrescentaria, de quem tem pouca coragem.

Resta absolver Clarice. Aquela frase da entrevista era, provavelmente, apenas uma reverência retórica a um lugar-comum de nosso moralismo trivial.

ccalligari@uol.com.br

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Em Monte Alegre do Sul, 25 de Novembro de 2010

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