Uma Apologia da Vagabundagem e da Indisciplina

Este post abrange duas coisas em que já toquei em minhas tuitadas no Facebook, com reverberações aqui neste blog.

A primeira é a questão da educação à moda dos orientais.

Ontem, às 7h24, coloquei no FaceBook, a seguinte tuitada, a propósito de um artigo no UOL:

“O debate continua… O livro sobre a forma em que os pais chineses educam seus filhos causa controvérsia – e até repulsa. No entanto, se a China chegar a ser número 1 no PISA, o que é bem mais do que apenas possível, nós brasileiros, laissez-faire na educação das crianças em casa, vamos sair correndo para copiar o que os chineses fazem…”

O artigo do UOL que eu comentei foi o seguinte (transcrevo-o aqui para quem não tem acesso ao UOL):

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http://educacao.uol.com.br/ultnot/bbc/2011/01/26/estilo-de-educacao-das-maes-tigresas-da-china-causa-polemica.jhtm

26/01/2011 – 11h01

Estilo de educação das ‘mães tigresas’ da China causa polêmica

Um livro gerou polêmica nos Estados Unidos e na Europa por sugerir que os chineses têm mais sucesso na criação de seus filhos do que povos ocidentais por serem muito mais rígidos.

A professora de direito americana Amy Chua, filha de imigrantes chineses, é a autora de Battle Hymn of the Tiger Mother (“Hino de Batalha da Mãe Tigresa”, em tradução livre), livro em que relata a tentativa de criar suas filhas à “moda chinesa”.

Amy impôs várias restrições às suas filhas para que tivessem um desempenho escolar excepcional. Entre outras coisas, as meninas eram proibidas de ver TV, jogar videogame e escolher suas próprias atividades extracurriculares.

Além disto, eram obrigadas a tocar piano ou violino e a ser as melhores alunas em todas as disciplinas da escola, exceto em Educação Física e Drama.

“Mesmo quando os pais ocidentais pensam que estão sendo rígidos, eles normalmente não chegam perto de ser mães chinesas”, disse a professora, em artigo publicado no Wall Street Journal.

“Para ser bom em algo, é preciso trabalhar, e as crianças nunca querem fazer isso por conta própria”, afirmou Amy. “Os chineses acham que a melhor maneira de proteger os seus filhos é prepará-los para o futuro, fazendo-os ver do que elas são capazes.”

O texto causou polêmica entre leitores e especialistas. Muitos viram nas opiniões de Amy a defesa de uma “superioridade” de pais chineses sobre os ocidentais, além de condenarem a falta de liberdade dada às crianças.

A professora se defendeu, afirmando que seu livro “não é um guia de como fazer as coisas; é uma memória, a história da jornada da nossa família em duas culturas” (o pai das filhas de Amy é judeu).

Prática consagrada

Segundo o correspondente da BBC em Pequim Michael Bristow, ser extremamente rígido com crianças, determinando o que elas podem e não podem fazer em seu tempo livre, é uma prática consagrada e dificilmente contestada na China.

Muitos pais chineses acreditam que, sem esta filosofia, seus filhos não conseguirão entrar em uma boa universidade, o que eles veem como algo vital para garantir um emprego bem remunerado, afirma Bristow.

“Nós temos que nos adaptar ao sistema, o sistema não se adapta a indivíduos”, disse à BBC a chinesa Meng Xiangyi, mãe de Ni Tianhao, um menino de 7 anos.

Ela afirma que largou o emprego para supervisionar a educação de seu filho, com o objetivo de colocá-lo na Zhongguancun Nº 2, uma das mais prestigiadas escolas primárias de Pequim.

Meng e sua família se mudaram para uma área mais próxima do colégio. Ela diz que se obrigou a fazer contatos com funcionários da escola, além de pagar cerca de 100 mil yuans (R$ 25 mil) à instituição em taxas extras.

Todo este esforço teve resultado: Ni conseguiu ingressar no Zhongguancun Nº 2, considerado uma porta de entrada para as principais universidades chinesas.

Embora pareça se enquadrar no estilo “mãe tigresa”, Meng não se considera muito rigorosa. “Eu não o faço chegar a 100%. Se ele alcançar 90% ou acima disto, estou satisfeita.”

Felicidade

“O maior problema na China é que os pais estão cada vez menos dispostos a permitir que seus filhos sejam crianças”, disse à BBC o professor e especialista em comportamento de pais Yang Dongping, do Instituto de Tecnologia de Pequim.

“Elas (as crianças) não têm uma infância feliz – tudo se trata de estudar, fazer provas e ter aulas particulares.”

Yang afirma que este estilo de lidar com os filhos se desenvolveu em parte devido à tradição chinesa de enfatizar o aprendizado acadêmico. Para ele, esta filosofia limita a criatividade e a imaginação dos jovens.

Além disto, a política do país em permitir apenas um filho por casal – para conter o crescimento demográfico excessivo – também é considerada um problema, por colocar muita pressão sobre filhos únicos.

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Na sexta-feira havia colocado três tuitadas que geraram um número enorme de comentários e respostas.

Tuitei o seguinte:

1) “Fim de semana cheio de trabalho pela frente…”

2) “Entretanto, como diz o Alípio Casali, ‘sem um mínimo de vagabundagem a inteligência não progride’”…

3) “Dilema: trabalhar ou vagabundear no fim de semana? Oh, dúvida cruel!”

Essa última tuitada foi a que gerou mais comentários. Houve predominância da recomendação: “Vagabundeia, Edu!”.

Mas houve uma discussão interessante. O importante é o ócio criativo, o ócio que libera a mente para pensar “out of the box”, criar, inovar, escorregar pra fora dos paradigmas.

Num comentário a um comentário, eu disse:

“Também acho o pensamento [do Alípio] sábio e instigante… É do ócio criativo (Domenico de Masi) que se trata. Quem faz trabalho criativo e inteligente precisa de tempo para deixar as idéias surgir,ganhar forma, amadurecer, se encaixar…

Agora, hoje cedo, encontro na Folha um artigo do Gilberto Dimmenstein, que começa comentando o livro da chinesa – mas que se torna uma apologia da indisciplina!

Concordo com tudo o que diz o Dimmenstein.

Conclamo a todos nós a defender as bandeiras da vagabundagem que faz a inteligência progredir e prosperar e da indisciplina que permite que a criatividade e a inovação emerjam e prosperem.

Não quero uma educação à la chinesa, nem mesmo à la coreana ou à la finlandesa. Quero um educação que permita que a inteligência e à criatividade prosperem. E, para isso, não tenho dúvida, precisamos de tempo livro, de ócio, de vagabundagem, de conversa jogada fora, de ausência de rigidez, de flexibilidade, de improvisação (nisto somos bons!), de não levar muito a sério os planejamentos e as regras, que foram criados para nos ajudar e não para nos cercear e amarrar.

Há uns meses, numa palestra para a Rede Pitágora, em Belo Horizonte, elogiei o Bill Gates e o Mark Zuckerberg por terem abandonado Harvard – a melhor universidade do mundo em todos os rankings – para poderem se tornar o enorme sucesso que são, mudando a vida deles e a nossa, para melhor.

É isso. Este é o meu principal sermão de hoje cedo.

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff3001201119.htm

GILBERTO DIMENSTEIN

O maravilhoso poder da indisciplina

Em teste internacional de qualidade de ensino, a China ficou em primeiro lugar; os EUA, em 17º

UMA DAS IMAGENS atribuídas aos judeus é a neurose diante do desempenho nos estudos. Em parte é verdade: são 0,2% da população mundial e 20% dos vencedores do Prêmio Nobel e quase um terço dos matriculados em Harvard e no MIT. Mas isso é pouco com o que viria com os chineses, cerca de 20% dos habitantes do planeta.

Pelo menos é essa a sensação, com certo toque de histeria, que está provocando aqui nos EUA um livro de uma professora de direito nascida na China e casada com um judeu, com quem teve duas filhas.

Amy Chua relata com orgulho a forma rígida com que educa as filhas: nada de TV, videogame ou sair com amigas; são obrigadas a tirar as notas mais altas, exceto em educação física; não têm o direito de escolher as atividades extracurriculares; e devem tocar piano por pelo menos quatro horas por dia.

No livro, intitulado “Hino de Batalha de Uma Mãe Tigresa”, o pai, judeu, aparece como alguém mais relaxado e flexível diante da educação das filhas, mas, por causa de um acordo nupcial, acaba cedendo diante do que seria o jeito chinês de educar na base da rígida disciplina.

A tradução para os americanos -e daí a repercussão da “mãe tigre”- é que, com tanta disciplina, os chineses vão dominar o mundo, liderando as inovações. Não vou entrar na questão econômica, mas na pedagógica: excesso de disciplina não combina com criatividade.

O debate em torno do livro reflete o crescimento chinês e a insegurança dos EUA por causa do desemprego. Na semana passada, saiu uma pesquisa, baseada em 200 mil entrevistas, mostrando que nunca os estudantes universitários americanos sentiram-se tão abalados psicologicamente. Temem que seja cada vez mais difícil conseguir uma vaga no mercado de trabalho. Veem os países emergentes, a China em especial, como a grande ameaça.

Some-se a isso que, no último teste internacional de qualidade de ensino, a China ficou em primeiro lugar; os Estados Unidos, em 17º.

A história mostra, porém, que a inovação se sustenta apenas ao longo do tempo em locais onde há não apenas apoio à pesquisa, mas aceitação da diversidade e da indisciplina. O grande personagem de Harvard hoje é Mark Zuckerberg, um gênio indisciplinado na universidade.

Bill Gates não acabou a faculdade; Steve Jobs também não concluiu o ensino superior, onde apenas se interessou por caligrafia.

Não estou dizendo que uma nação não depende de quem estuda duro e é disciplinado, mas sim que se não houver espaço para a fantasia e o delírio não surgem Facebook, Google, Microsoft, IBM ou Apple.

A revolucionária Sony, vista como exemplo do que seria o domínio dos japoneses, é hoje decadente e comandada por um americano. No comunismo, os russos levaram um homem ao espaço, mas não souberam virar um polo de inovação.

Na semana passada, estive num local que serve como a tradução arquitetônica perfeita do poder criativo da indisciplina. É o novo prédio do Media Lab, do MIT, dedicado a descobrir novas funções para a tecnologia da informação.

Não há salas de aulas. Os alunos montam seus currículos, usando outras faculdades. Um amontoado de projetos se espalha pelos andares, parecendo um conglomerado de garagens daqueles jovens inventores que transformam a casa dos pais em laboratórios.

Vemos desde carros cujas rodas encolhem depois de estacionados até um centro de tecnologia da informação dedicado à medicina -no MIT criou-se um departamento apenas para testar o uso da nanotecnologia contra o câncer.

Os grandes inventores precisam de espaço para serem crianças, algumas vezes sem limite, para exercerem sua curiosidade.

O mundo é dividido entre quem cria e quem copia. Os dois tipos são necessários e complementares.

Para ter, porém, muitos inovadores, excesso de disciplina não funciona. Daí o erro, alertado por psicólogos, dos pais que pensam ajudar os filhos reduzindo seu direito de brincar e enchendo seu dia de atividades. Brincar é um dos melhores jeitos de se encantar pelas descobertas.

PS- Viver aqui em Cambridge, onde estão Harvard e MIT, é sentir a disciplina na indisciplina, há uma sensação de que se pode reinventar tudo. Um professor de direito de Pernambuco, Marcos Nóbrega, que está fazendo pesquisas por aqui, resumiu sua experiência numa frase: “Aqui deve ser o único lugar do mundo onde se vai comprar um chiclete e se encontra um Prêmio Nobel na fila”.

Apesar disso, há nesse ambiente laureado muito menos formalidade e muito mais flexibilidade e abertura para colaboração do que nas melhores universidades brasileiras.

gdimen@uol.com.br

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Em São Paulo, 30 de Janeiro de 2011.

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