GPS, Instrumentos de Navegação e Guias de Viagem

Foi publicado ontem um novo artigo meu no Blog das Editoras Ática e Scipione. Transcrevo-o aqui, como sempre.

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No meu penúltimo artigo falei sobre escolhas. Neste, vou discutir algo que poderia ser descrito como tecnologia de apoio à escolha – na área de viagens. Antes, porém, farei um breve preâmbulo, em que darei continuidade à discussão já iniciada acerca de escolhas. E, no final, procurarei aplicar a discussão à área da educação.

1. Uma tese sobre escolhas

Em condições normais, a maior parte das pessoas prefere poder fazer uma escolha a não ter nenhuma para fazer. E, podendo fazer uma escolha, prefere, em princípio, ter mais opções do que menos para, dentre elas, escolher uma…

É verdade que opções demais muitas vezes podem tornar uma escolha mais difícil, e, de vez em quando, até quase impossível, em muitos casos nos paralisando. Basta ver uma criança numa loja de brinquedos ou numa sorveteria. Parece impossível que ela seja capaz de escolher apenas um brinquedo: ela gostaria de levar todos. Numa sorveteria self-service, com umas quatro dezenas de sabores e outro tanto de coberturas e extras, ela também fica sem saber o que fazer, querendo pegar um pouquinho de cada coisa, e, no processo, quem sabe, enchendo a taça a tal ponto que dificilmente conseguiria comer tudo. (Um professor universitário numa megalivraria também enfrenta dificuldade semelhante: fica paralisado, sem saber qual livro, ou quais livros, levar. Gostaria de levar todos. Como não pode, por falta de dinheiro ou espaço em casa, fica tenso… Conheço alguns que até enfrentam ataques de enxaqueca nessa situação).

Entretanto, feita essa ressalva, a tese original parece se sustentar: a maior parte das pessoas prefere ter a não ter escolha, ter mais a ter menos opções. No entanto, é preciso fazer uma qualificação. O objetivo deste artigo é discutir essa qualificação. A qualificação explica porque sistemas que fornecem roteiros ou instruções passo a passo são tão populares hoje. Eles nos permitem delegar a eles uma boa parte de nossas escolhas.

2. GPS

Vou começar discutindo uma tecnologia que está se tornando extremamente popular e barata: o GPS, ou Global Positioning System (Sistema de Posicionamento Global). Esta fantástica tecnologia é materializada em um pequeno equipamento que envia e capta sinais. Esse equipamento, apelidado de GPS, envia sinais acerca de onde está localizado em cada momento (mesmo que esteja em movimento). Esses sinais são captados por satélites situados ao redor da Terra, que identificam a localização do GPS e lhe enviam informação acerca das coordenadas de latitude e longitude em que o GPS está posicionado. Com base nessas coordenadas, o software do GPS é capaz de identificar em um mapa digital, contido em uma base de dados armazenada no próprio equipamento, o ponto preciso do mapa em que o equipamento se encontra.

A maior utilidade desse equipamento está em permitir que o seu usuário defina um destino, para o qual o GPS fornece uma rota, detalhada, passo a passo, a partir do local onde o equipamento se encontra. Assim, o GPS é uma excelente – hoje indispensável – ferramenta para que motoristas encontrem o caminho em uma grande cidade ou em qualquer contexto onde o trânsito seja complexo (isto é, em que há várias opções para chegar de um lugar a outro). Outra importante utilidade do GPS está em sugerir, com base em uma base de dados armazenada no próprio equipamento, quais serviços (ou outras coisas, como radares) estão presentes na vizinhança de qualquer lugar que selecionemos como referência (como, por exemplo, o local em que nos encontramos no momento): postos de serviço, supermercados, farmácias, cinemas, shoppings, etc. O usuário pode também identificar as coordenadas de destinos frequentemente utilizados, como a sua casa, o seu local de trabalho, ou qualquer outro ponto de interesse (POI, Point of Interest), e rotulá-las com descrições simples (Casa, Serviço, Sítio, etc.).

A principal função do GPS, portanto, é fabricar rotas passo a passo no trânsito para destinos fornecidos pelo usuário. Quando estamos usando uma rota, como as fornecidas pelo GPS, nós abrimos mão, até certo ponto, do direito de fazer escolhas em relação àquelas que vamos seguir. Delegamos (no caso) ao GPS a responsabilidade de fazê-las por nós, porque sabemos que, não importa quão complicado o caminho que leva ao destino desejado, o GPS nos levará lá.

No entanto, mesmo um GPS nos deixa espaço para muitas escolhas.

Em primeiro lugar, o GPS não escolhe o nosso destino: isso somos nós que temos de prover. O GPS não faz nem mesmo sugestões. Quando procuramos descobrir que serviços estão disponíveis na região onde estamos, ele nos mostra todos os serviços, classificados por categoria. Cabe a nós escolher a categoria e, dentro dela, o serviço desejado.

Em segundo lugar, o GPS nos deixa configurar o equipamento com nossa escolha do tipo de rota que preferimos: a rota mais curta, a rota mais rápida, a rota mais simples (quase sempre a rota mais rápida, que faz uso das grandes avenidas), e a rota mais pitoresca (em que há coisas interessantes ou vistas bonitas para desfrutar).

Em terceiro lugar, qualquer que seja a configuração que adotemos para a rota (mais curta, mais rápida etc.), o usuário sempre tem a opção de não seguir, no detalhe, a rota sugerida pelo GPS para adotar, em contextos específicos, um caminho que conhece bem e prefere seguir. O GPS, disciplinadamente, arranja o restante da rota para acomodar a sua preferência.

Ou seja, mesmo que escolhamos usar um GPS, que opera na base de uma série de roteiros passo a passo, ainda temos escolhas. E elas se situam principalmente no plano mais importante, o dos fins: a escolha do destino. Mas ainda podemos chamar para nós algumas escolhas acerca de meios (o tipo geral de rota, por exemplo, ou a rota específica em um determinado lugar).

Uma lição a tirar da discussão até aqui é que o GPS, com seus roteiros passo a passo, pode ser extremamente úteis no plano dos meios. E isso não só na área do trânsito. Um roteiro passo a passo para instalar ou utilizar um software complicado, ou para corrigir um problema de configuração num computador, é, como a rota de GPS, algo bastante útil. Eu mesmo, que tenho razoável experiência com computadores, de vez em quando preciso ligar para um Centro de Apoio (Help Desk) de banco para ser teleguiado na instalação de um certificado de segurança ou de um plug in, porque as configurações de segurança de meu computador tornam virtualmente impossível instalar o dito cujo sem ajuda externa.

A questão se torna mais complicada, porém, se adentramos o plano do fim. Falaremos mais sobre isso adiante, na Seção 5.

3. Instrumentos de navegação

Pode-se dizer que o GPS é um instrumento de navegação. Mas aquilo que eu chamo instrumento de navegação é algo um pouco diferente de um GPS.

Antonio Carlos Gomes da Costa, falecido em março deste ano, gostava de citar o seguinte verso de Gilberto Gil, retirado de sua famosa canção Aquele Abraço:

“Meu caminho pelo mundo eu mesmo traço,
A Bahia já me deu régua e compasso.
Quem sabe de mim sou eu.
Aquele abraço.”

Gilberto Gil não deixa dúvida de que o caminho dele pelo mundo é ele que traça. Isso quer dizer que ele não só escolhe seus destinos, mas também traça o percurso que vai seguir pela vida para chegar ao seu destino. Para traçar o seu percurso, ele não o GPS, mas outra tecnologia: instrumentos de navegação. No caso, os instrumentos de navegação que ele menciona são régua e compasso.

Tenho para mim a impressão que uma pessoa como Gil não gosta de GPS. Ele gosta não só de escolher o seu destino (como o faz o usuário de GPS) como também de escolher o caminho que vai ser trilhado, isto é, a rota. Mas, para definir a rota, ele usa certas ferramentas tecnológicas: régua e compasso.

Fico com a nítida impressão de que Gil escolheu régua e compasso porque compasso rima com abraço. Só por isso. Na área de navegação, parece-me que mapa e bússola são instrumentos de navegação muito mais indicados para essa tarefa.

Uma bússola nos indica o Norte, e, a partir dele, podemos descobrir a direção geral em que devemos seguir para chegar aonde queremos chegar. Um mapa nos permite escolher caminhos específicos. Podemos escolher, com a ajuda do mapa, um caminho rápido e fácil, seguindo por autoestradas com pedágios. Ou podemos escolher, com a ajuda do mesmo mapa, um caminho mais sinuoso, pelas montanhas, mais longo, mais lento – mas muito mais bonito (e sem pedágio): aquilo que os americanos chamam de scenic route, rota cênica.

Um mapa (dependendo do seu nível de detalhe) também nos ajuda a descobrir onde há obstáculos ou empecilhos nas rotas que gostaríamos de escolher: montanhas muito altas, com apenas umas poucas passagens (quem sabe um só túnel), ou um rio, que é preciso cruzar, mas que só tem uma ou outra ponte, aqui e ali.

O GPS nos permite escolher o nosso destino. Mas instrumentos de navegação, além de nos permitir escolher o nosso destino, nos ajudam a escolher a rota, fornecendo-nos apenas a direção geral, as rotas possíveis, e os obstáculos ou empecilhos que podemos encontrar.

4. Guias impressos de viagem

Um guia de viagem impresso nos descreve vários possíveis destinos dentro de um “macrodestino” que escolhemos. Digamos que queremos conhecer a França – esse é o macrodestino. O guia de viagem nos descreve vários possíveis destinos específicos na França. Ou pode ser que o nosso macrodestino seja Paris. O nosso guia de viagem nos descreve vários possíveis destinos (as diversas atrações da cidade), dentro desse macrodestino. Cabe a nós escolher o destino que nos parece mais interessante, dentro do leque de opções fornecido pelo guia de viagem.

Raramente um guia de viagem se preocupa em nos fornecer rotas, percursos, itinerários, no formato passo a passo. O máximo que ele faz é sugerir que, se você está numa região (o 16e Arrondissement, por exemplo), visitando o Trocadéro, há, na vizinhança, várias outras atrações que você pode visitar, como, por exemplo, Le Bois de Boulogne ou La Maison de la Radio.

Para chegar ao destino escolhido, é possível usar um carro equipado com GPS ou, então, usar um mapa e uma bússola…

5. Aplicação à educação

No meu último artigo, falei um pouco sobre meu itinerário de aprendizagem e minha trajetória intelectual. Terminei com uma citação de um biógrafo de John Dewey, que tomo a liberdade de transcrever, porque é relevante como introdução ao presente tópico.

“Sempre aberto às ideias dos outros, Dewey, no entanto, passava essas influências pelo crivo de seu pensamento e sentimento [i.e., de sua experiência] de modo a dar-lhes sentido e a transformá-las em algo seu, muito pessoal. Ele nunca se esqueceu de uma dívida intelectual ou pessoal significativa, em áreas que considerasse realmente importantes. Mas ele nunca permitiu que as várias ideias que o influenciaram ficassem separadas umas das outras, isoladas, como se ele fosse apenas um conjunto de espelhos que refletisse o pensamento dos outros. Ele armazenava tudo o que aprendia, mas, deixando de lado peculiaridades das fontes que o influenciaram, transformava as ideias dos outros em algo tipicamente seu”. (Jay Martin, The Education of John Dewey: A Biography [Columbia University Press, New York, 2002] p.131).

Quando recebemos a influência intelectual de outra pessoa (em geral um autor, um professor, um padre ou pastor, ou um parente), ficamos com uma dívida intelectual para com ela. Nesse caso, prestamos-lhe uma homenagem se o nosso pensamento, decorrente dessa influência, não é apenas uma cópia ou um espelho do pensamento da pessoa que nos influenciou. Para usar as palavras de Jay Martin, não devemos ser um conjunto de espelhos que apenas reflita o pensamento dos outros. Precisamos, como eu disse naquele artigo, ingerir, mastigar e digerir aquilo que tomamos dos outros, para que esse legado entre em nosso sangue a passe a integrar o nosso DNA intelectual.

Nesse contexto, preocupa-me a tendência, herdada dos Estados Unidos, mas bastante comum em nossa cultura, de, para tudo, não só para percursos de uma viagem, elaborar um roteiro passo a passo, um step by step. O passo a passo, como vimos, é um algoritmo, uma receita, que prescreve como devemos fazer algo “nos mínimos detalhes”.

Essa tendência se manifesta também em uma série de livros americanos, em geral manuais de instrução ou de vida, que pretendem ensinar os seus leitores, da maneira mais simples possível, a fazer alguma coisa. Eles chegam a se descrever como “à prova de idiotas”. Isso quer dizer que, qualquer idiota, seguindo o livro, é capaz de fazer aquilo que se pretende ensinar.

Mas justifica-se um passo a passo para professores darem aula de suas matérias? Ou seria melhor, num caso assim, usar um guia de viagem, que deixa ao professor não só a tarefa de expor vários possíveis destinos para os seus alunos, e de explicar a eles como usar os mapas e as bússolas, incentivando-os e ajudando-os a escolher seus próprios destinos e os seus itinerários de aprendizagem?

Alguns dos chamados “sistemas de ensino” existentes no mercado parecem não passar de um conjunto de roteiros passo a passo. Felizmente não se anunciam como idiot proof… Mas, à primeira vista, parecem não ser muito mais do que isso. Melhor seria que funcionassem mais como guias de viagem e instrumentos de navegação, deixando aos alunos a tarefa prazerosa de escolher os destinos que vão visitar e de escolher as rotas mais interessantes.

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Em São Paulo, 12 de Julho de 2011

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