Educação, Tecnologia e Mudanças (ou: A Importância de Outras Tecnologias para a Educação)

Artigo que publiquei em 28/07/2011 no Blog das Editoras Ática e Scipione, no endereço

http://blog.aticascipione.com.br/eu-amo-educar/educacao-tecnologia-e-mudancas.

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Mudanças educacionais inovadoras requerem visão e coragem. Para promovê-las, é necessário abandonar as soluções parciais e buscar soluções globais.

Este é o vigésimo artigo que publico nesta coluna. Vou retomar nele algumas das principais questões abordadas nos artigos anteriores e levar a discussão um pouco adiante.

É bastante plausível e verossímil a tese de que “nunca antes na história da humanidade” o ser humano passou por uma onda de mudanças tão ampla, profunda, radical, duradoura e acelerada como nos cerca de sessenta e cinco anos decorridos desde o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945.

Essas mudanças são sociais, culturais, políticas e econômicas e foram alavancadas, em grande medida (mas não apenas), pela inovação tecnológica, em especial pelo desenvolvimento das tecnologias da informação e comunicação, comumente chamadas de TIC.

Embora quando se fale em tecnologia na área da educação tenha-se em mente quase que exclusivamente as TIC, porque a comunicação e a informação são processos essencialmente ligados à educação e suas tecnologias, por conseguinte, são diretamente relevantes para a atividade educacional, é preciso reconhecer que as TIC não foram a única tecnologia relevante na deflagração e sustentação dessas mudanças.

Vou mencionar, apenas à guisa de ilustração, duas outras tecnologias que provocaram grandes mudanças no contexto em que a educação tem lugar.

Em primeiro lugar, a tecnologia dos transportes.

O aperfeiçoamento da aviação, especialmente com a introdução dos motores a jato e com a construção de aeronaves cada vez maiores e com maior autonomia de voo, literalmente encolheu o nosso mundo. Hoje encaramos com naturalidade o fato de que, saindo de São Paulo à noitinha, podemos estar em Nova York ou em Paris no outro dia bem antes do almoço (de madrugada, em Nova York, que está dois fusos horários atrás, e cedo, mas não tanto, em Paris, que está quatro fusos horários na frente). Mas nossos bisavôs considerariam isso algo próximo de um milagre, acostumados que estavam a cruzar o Atlântico apenas em navios, em viagens de várias semanas. Foi apenas em 1927 que Charles Lindbergh cruzou o Atlântico, de Nova York a Paris, sem parada, com um avião. Hoje é possível sair de casa no Brasil na sexta-feira à noitinha, passar o fim de semana em Nova York ou em Paris, e estar em casa de novo na manhã da segunda-feira, em tempo de ir para o trabalho. Futebolistas famosos que jogam na Europa e corredores de Formula 1 fazem algo mais ou menos assim, no sentido inverso. Os corredores de Formula 1 muitas vezes pilotam seus próprios jatos.

Isso tudo era inimaginável há algum tempo.

Essa revolução alavancada pela tecnologia dos transportes é significativa. Ela revolucionou não apenas o transporte de pessoas, mas também o transporte de mercadorias e de correspondência. (O transporte de correspondência seria, naturalmente, mais uma vez revolucionado com o aparecimento da tecnologia digital, com o e-mail e as mensagens instantâneas). Aquilo que hoje chamamos de globalização depende, naturalmente, das TIC e do fluxo rápido da informação – mas também depende do transporte rápido e confiável de produtos agropecuários, minérios e outras matérias primas, e mercadorias manufaturadas.

Em segundo lugar, a tecnologia médico-farmacológica.

Essa tecnologia, que produziu em 1961 a pílula anticoncepcional, tem parcela significativa de responsabilidade na facilitação das mudanças que ocorreram no comportamento sexual das pessoas (especialmente das mulheres) e nas atitudes da maioria das pessoas em relação ao sexo e aos sexos (hoje comumente chamados de gênero – expressão que acho horrível, mas não vou criticar aqui). A revolução sexual e a revolução feminista são creditadas, em grande medida, a essa pequena pílula.

Essa mesma tecnologia médico-farmacológica, apoiada por algumas políticas públicas, vem aumentando a duração média da vida humana. A engenharia genética poderá fazer com que, em alguns anos, uma pessoa típica possa viver o equivalente a quatro ou cinco vidas dos poetas românticos do século XIX: Castro Alves morreu com 24 anos; Casemiro de Abreu, com 21; Álvares de Azevedo, com 20; Gonçalves Dias morreu relativamente velho, com 41 anos!

Uma característica importante dessas mudanças, para a qual especialmente Alvin Toffler nos chamou a atenção com seus livrosChoque do Futuro (1970) e A Terceira Onda (1980), é a sua velocidade, que parece acelerar-se cada vez mais.

As mudanças que vimos descrevendo, e outras que facilmente poderiam ser incluídas no cenário, devem ter um grande impacto sobre a educação, pois elas afetam pelo menos os seguintes aspectos da atividade educacional:

a)      O contexto histórico-social mais amplo em que em que a educação acontece

b)      Os ambientes específicos em que a aprendizagem ocorre

c)      As metodologias, os materiais e os recursos que as pessoas usam para aprender

d)      O perfil dos alunos que chegam à escola

Não é preciso discorrer em detalhe sobre todos esses aspectos. Vou apenas ilustrar o que tenho em mente. As mudanças descritas, principalmente por causa de sua rapidez, acabaram por investir as coisas, os processos e os relacionamentos de certo caráter de impermanência, instabilidade, volatilidade. Antes, presumia-se que as coisas, os processos e os relacionamentos fossem razoavelmente permanentes, pelo menos estáveis, isto é, que não mudassem ou mesmo desaparecessem de uma hora para a outra.

Ou vejamos.

Há não muito tempo, a vida das pessoas tinha as seguintes características:

  • as pessoas viviam a maior parte de suas vidas em apenas um país (uma nação), em uma região de um país, ou até mesmo em uma cidade específica de uma região;
  • as pessoas falavam apenas uma língua, professavam apenas uma religião, frequentavam apenas uma igreja, filiavam-se a apenas um partido político, adotavam um código de valores estável, considerado permanente;
  • as pessoas se casavam apenas uma vez (a menos que enviuvassem), e certamente com alguém do sexo oposto, tinham apenas uma família, muitas vezes viviam a vida adulta inteira em apenas uma casa;
  • a mulher cuidava da casa e dos filhos e o homem trabalhava fora, não raro em apenas um emprego ou ramo de atividade durante toda a vida;
  • as pessoas tinham um tipo de lazer bem definido e se dava em um clube da cidade;
  • as pessoas tinham hobbies razoavelmente padronizados (colecionar selos ou moedas, ler, ir ao cinema);
  • as pessoas não tinham dúvida de que havia uma distinção clara entre lazer, aprendizagem e trabalho, que essa distinção se aplicava a todos, e que havia épocas distintas na vida para cada uma dessas coisas;
  • a “virtualidade” da vida era pequena (limitando-se à literatura e ao cinema);
  • enfim, as pessoas conviviam basicamente com apenas uma “cultura” – a menos que descendessem de imigrantes de cultura diferente.

Hoje, tudo mudou, sendo comum que:

  • as pessoas mudem de país (região de um país, cidade de uma região) ao longo de sua vida, ou mesmo morem em mais de um país (região de um país, cidade) ao mesmo tempo;
  • as pessoas falem diversas línguas e até mesmo tenham múltiplas nacionalidades;
  • as pessoas troquem de religião ou de convicção política com relativa facilidade, e, em alguns casos, passem a não professar nenhuma religião ou crença política distintiva;
  • as pessoas se casem mais de uma vez, algumas vezes com pessoas estrangeiras, que falam uma língua diferente e têm costumes significativamente distintos;
  • as pessoas se casem até mesmo com pessoas do mesmo sexo;
  • as crianças tenham mais de um “pai” ou “mãe”, múltiplos avós e uma família estendida enorme, formada por várias famílias que se estendem, sequencialmente, no tempo;
  • as crenças, os valores e os costumes das pessoas combinem elementos de diversas origens e culturas (em um verdadeiro multiculturalismo, muitas vezes no âmbito de uma só pessoa);
  • as pessoas exerçam várias profissões e tenham vários empregos ao longo da vida;
  • as pessoas não saibam exatamente onde começam e terminam o trabalho, a aprendizagem, o lazer;
  • as pessoas passem um tempo longo (e significativo) em relacionamentos virtuais nas redes sociais;
  • enfim, as próprias pessoas, e não apenas as nações, se tornem basicamente “multiculturais”.

É por isso que hoje em dia a residência, a igreja, o emprego, o casamento, até mesmo a família assumiram certo caráter de impermanência, instabilidade, volatilidade. Hoje é assim, amanhã pode ser diferente… Inspirando-me no que disse Marx, tudo o que era sólido parece se desmanchar no ar, tudo o que era sagrado parece ter sido profanado…”. Diante disso a própria noção de lealdade exclusiva a um país (patriotismo), uma cultura (identidade cultural definida), uma língua (a materna), a uma religião (a dos nossos pais), para não dizer a uma só pessoa (nos relacionamentos afetivos) se torna problemática. Na melhor das hipóteses há múltiplas lealdades que se substituem umas às outras, em série…

No entanto, apesar de todas essas mudanças que afetam o contexto em que a educação tem lugar, e que foram alavancadas por múltiplas tecnologias, os sistemas e as unidades escolares não parecem estar levando muito a sério o impacto dessas mudanças sobre a educação, em geral, e a prática escolar, em particular.

Mas elas afetam o contexto em que se educa, o ambiente em que se aprende, e os recursos e materiais com os quais se aprende. Mais e mais sério ainda: elas transformam a clientela que chega à escola. Todo o alarde que hoje se faz acerca dos nativos digitais tem como base o fato de que a escola precisa se transformar radicalmente para receber um aluno essencialmente diferente.

Como já vimos em outros artigos, há, em última instância, dois tipos de mudanças:

  • Mudanças incrementais, parciais, menores, lentas, superficiais, de longo prazo (em geral graduais)
  • Mudanças sistêmicas, radicais, maiores, rápidas, profundas, de curto prazo (em geral abruptas)

O que separa e diferencia um tipo de mudança do outro é o grau de inovação – a radicalidade – presente na mudança. Mudanças pouco inovadoras, que ficam perto da prática atual, reforçam o paradigma vigente. Mudanças muito inovadoras, que se distanciam bastante da prática atual, tendem a subverter e eventualmente a destruir o paradigma vigente.

Mudanças educacionais inovadoras requerem visão e coragem. Para promove-las é necessário, primeiro, desaprender muita coisa, abandonar as soluções parciais e buscar soluções globais, que transformem pelo menos os seguintes aspectos do trabalho educacional:

  • A Visão da Educação e da Aprendizagem e a Estratégia Pedagógica (para que, embora informadas pelo passado, sejam focadas no futuro)
  • A Liderança (para que seja iluminada e inspiradora em nível do sistema e das unidades locais)
  • Os Profissionais da Educação (para que sejam engajados e bem capacitados)
  • Os Ambientes de Aprendizagem (para que integrem, de forma natural e sem “costuras” visíveis, o formal e o não formal, o presencial e virtual, de forma rica, diversificada e flexível)
  • Os Recursos de Aprendizagem (para que sejam desafiadores, eficazes e envolventes)
  • A Comunidade (para que seja envolvida e apoiadora, em nível local, regional, nacional e até mesmo global)

Todas essas mudanças devem ocorrer mantendo-se o foco nos alunos, porque a clientela das escolas mudou significativamente. Para que os alunos possam continuar a ser, dentro da escola, o que já são fora dela, a saber, aprendentes motivados, ativos, interativos e colaborativos, é necessário que a escola mude, e mude radicalmente. Se isso não acontecer, a sua participação na aprendizagem das pessoas se tornará cada vez menor e menos significativa.

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Transcrito aqui em São Paulo, 12 de Agosto de 2011

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