“Et Dieu Créa la Femme…”

Em 1956, quando eu estava para fazer 13 anos, Roger Vadim lançou “Et Dieu Créa la Femme…” (“E Deus Criou a Mulher”), filme que explodiu em sucesso no mundo inteiro porque nele Brigitte Bardot (sua mulher, e então a musa do cinema mundial), tal qual Eva antes da queda, aparecia nua… (coisa não muito comum naquela época). O filme era proibido para menores de 18 anos. Por isso, só fiquei no desejo de ve-lo. E sofrendo ao ouvir os relatos dos colegas mais velhos…

Curiosamente, na Bíblia há dois relatos da criação do homem e da mulher.

O primeiro, bastante sucinto, no capítulo 1 de Gênesis, versos 27-28a, simplesmente diz:

“Criou  Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. Deus os abençoou e lhes disse: ‘Sejam férteis e multipliquem-se! Encham e subjuguem a terra'”.

O segundo, bem mais detalhado, no capítulo 2 de Gênesis, versos 7, 18, 21-24, diz:

“Então o Senhor Deus formou o homem do pó da terra e soprou em suas narinas o fôlego da vida, e o homem se tornou um ser vivente. . . . Então o Senhor Deus declarou: ‘Não é bom que o homem esteja só; farei para ele alguém que o auxilie e lhe corresponda’. . . . Então o Senhor Deus fez o homem cair em profundo sono e, enquanto este dormia, tirou-lhe uma das costelas, fechando o lugar com carne. Com a costela que havia tirado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher e a levou até ele. Disse então o homem: ‘Esta, sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Ela será chamada mulher, porque do homem foi tirada’ Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e eles se tornarão uma só carne. O homem e sua mulher viviam nus, e não sentiam vergonha”.

Há várias curiosidades nesses relatos.

O primeiro dá a impressão de que Deus criou homem e mulher ao mesmo tempo e do mesmo jeito – sem dizer qual foi o jeito. Fica ali a impressão de total igualdade entre o homem e a mulher.

O segundo preenche alguns detalhes – e quebra a impressão de igualdade. Primeiro, conforme se informa, Deus criou o homem a partir do pó da terra. Depois de soprar-lhe a vida nas narinas, Deus notou que o homem estava só (como poderia não estar, se a mulher não havia ainda sido criada, não é mesmo?), e que isso não era bom (provavelmente porque, nessa situação solitária, iria ser impossível que o homem se multiplicasse sozinho e enchesse a terra!). Assim, aparentemente como um after thought, Deus criou a mulher, a partir de uma costela de Adão.

A aparência de desigualdade entre os dois transparece em dois fatos: primeiro, o homem, neste segundo relato, claramente foi criado primeiro, a mulher tendo sido criada apenas porque ele estava só e isso não era bom (aparentemente por causa da impossibilidade de se reproduzir sozinho); segundo, a mulher não foi criada pelo mesmo processo (pó da terra, sopro nas narinas), mas, sim, a partir de um parte do corpo do homem (uma costela), fazendo com que sua existência dependesse da dele.

É esse fato que fez com que os escritores do Novo Testamento dissessem, centenas de anos depois:

Efésios 5:22-24: “Mulheres, sujeite-se cada uma a seu marido, . . . pois o marido é o cabeça da mulher. . . .  Maridos, ame cada um a sua mulher”.

Colossenses 3:18-19: “Mulheres, sujeite-se cada uma a seu marido… Maridos, ame cada um a sua mulher e não a tratem com amargura”.

I Pedro 3:1,7: “Mulheres, sujeite-se cada uma a seu marido… Vocês, maridos, sejam sábios no convívio com suas mulheres e tratem-nas com honra, como parte mais frágil”.

Ou seja, o relato do capítulo 2 de Gênesis sugere que o homem é superior à mulher, porque esta surgiu dele e por causa dele. É por isso que o Novo Testamento diz que ele é o cabeça da mulher e que ela é a parte mais frágil, e insiste que, enquanto a mulher deve se sujeitar (obedecer) ao seu marido, este, como seu cabeça, deve ama-la, ser sábio no convívio com ela, trata-la com honra, não trata-la com amargura.

Com base nesses textos, em cerimônias de casamento religiosas, o oficiante, padre ou pastor, costuma dizer:

“Por que Deus não tirou a mulher da cabeça do homem, para que fosse dominada por ele; nem de suas mãos, para que não fosse manipulada por ele; nem dos seus pés, para que não fosse pisada por ele… Tirou-a de sua costela, de debaixo do seu braço, para que fosse amparada e protegida por ele, de perto do seu coração, para que fosse querida e amada por ele…”

Ontem à noite, ocorreu-me o seguinte…

E se Deus houvesse criado primeiro a mulher? Ela poderia ter sobrevivido sem o homem, porque possui todos os órgãos reprodutores: ovários, útero, etc. Deus só teria de criar um jeito de fertilizar o óvulo, fazendo uma regra do que ele, depois, pelo jeito fez com a Virgem Maria).

Mas e se Deus notasse que a mulher estava só, não conseguia fazer coisas simples no Jardim do Éden, como carpir, subir em árvores para colher frutos, trocar lâmpadas, matar baratas, etc. e, por isso, houvesse decidido lhe criar um companheiro. De onde, na mulher, Deus tiraria a matéria prima para fazer o homem? Também da costela? Ou de algum outro lugar pelo qual os homens são fascinados até hoje?

E o que diriam os escritores do Novo Testamento nessa hipótese? Que o homem deveria servir à mulher, ser (como se fosse) o seu servo, em troca de carinho e um pouco de amor (de vez em quando)?

Quase não dormi pensando no assunto…

(Para terminar, uma curiosidade adicional está no verso 23 do capítulo 2: por que mencionar que o homem deixará “seu pai e sua mãe” para se unir à sua mulher, quando Adão não tinha nem um nem outra?)

PS: Está é a minha octocentésima crônica neste blog.

Em São Paulo, 9 de Junho de 2013

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