Nós, os Liberais, e a Questão da Direita vs Esquerda – De Novo

[Resolvi divulgar parte de um trabalho que está claramente em andamento, porque me assusta a confusão reinante na mídia e mesmo na intelectualidade brasileira acerca da questão indicada no título].

Já escrevi várias vezes, em posts aqui neste blog, e em artigos publicados em meios mais convencionais, acerca da cada vez mais confusa questão da “Direita vs Esquerda”. Na verdade, escrevi alguns posts bem recentemente sobre o assunto aqui neste blog sobre o assunto.

Mas percebo, na leitura dos jornais, das revistas, do Facebook, de outros blogs, etc. que, em muitas mentes, a confusão conceitual é cada vez maior. Chega-se a ponto de negar que os conceitos de esquerda e direita ainda façam algum sentido. Por isso estou voltando à carga. Eu estou convicto de que esses conceitos ainda fazem muito sentido.

Tentarei, como sempre, ser “claro e distinto”, não necessariamente “conciso e sucinto”.

A meu ver, confundem-se, na questão da Direita vs Esquerda, pelo menos três oposições diferentes:

  • Liberalismo vs Socialismo
  • Anarquismo vs Totalitarismo
  • Conservadorismo vs Progressivismo

Vou discutir essas três oposições com o intuito de esclarecer a que está presente no título. Mas, antes, é preciso esclarecer dois conjuntos de conceitos. O primeiro aparece nessas três oposições. O segundo fica mais implícito do que explícito na discussão.

I. Conceitos Mais Amplos

1. Indivíduo, Sociedade, Estado, e Governo

A. O Indivíduo

No contexto da presente discussão, o conceito de indivíduo é, dentre os quatro, o mais fácil de entender. O que chamamos de indivíduo é o ser humano considerado do ponto de vista de sua unidade, pessoalidade, e unicidade.

O ser humano não vive só e isolado. Cada ser humano tem um pai e uma mãe e, portanto, já nasce em sociedade. Ainda que, no momento do nascimento, e mesmo depois, o pai possa estar ausente, o ser humano não nasce sem mãe. Mas o filho e a mãe são dois indivíduos – duas pessoas (duas unidades, duas entidades distintas), cada uma com características próprias (unicidade), isto é, cada uma com a sua individualidade. A mãe, por sua vez, teve mãe e pai, e assim por diante.

B. A Sociedade

O que chamamos de sociedade é o conjunto de indivíduos que vivem em um determinado lugar ou território, em um determinado momento, e que se reconhecem, de alguma forma, ainda que vaga, como parte de um todo.

A sociedade tem instituições que poderíamos chamar de naturais, a principal das quais é a família. A família é uma instituição que surge e se mantém em decorrência da própria forma em que indivíduos se reproduzem e criam seus filhos. Por isso, chama-la de uma instituição natural não é despropositado.

Outras instituições são criadas na sociedade conforme se percebe sua necessidade ou utilidade.

C. O Estado

O que chamamos de estado  aparece quando uma sociedade resolve se organizar em uma entidade política, isto é, em comunidade (polis) que define seus interesses e objetivos e a forma de organizar-se para proteger seus interesses e alcançar seus objetivos .

Assim, na origem do estado está um pacto ou contrato social. Esse pacto ou contrato não precisa ser formulado explicitamente, colocado no papel, assinado por todos. Muitas vezes ele é tácito e é inferido apenas retrospectivamente.

Infere-se a existência de um estado quando uma sociedade começa criar um conjunto de mecanismos que, em princípio, permitem que ela se organize para proteger seus interesses e alcançar os seus objetivos.

Quando vistos da ótica do estado, os indivíduos passam a ser, além de indivíduos, também cidadãos, com certos direitos e deveres.

É bom  que se registre que muitos autores defendem a tese de que alguns direitos humanos são naturais, não positivos. Isto significa que haveria direitos que seriam reconhecidos mesmo numa sociedade pré-política. A disciplina acadêmica do chamado direito natural tem por objetivo estudar esses direitos humanos, em sua totalidade individuais, que pre-existiriam à criação do estado, e, portanto, à organização política da sociedade. O pacto ou contrato social mediante o qual se cria a sociedade política, pela constituição do estado, seria a ocasião, dentro dessa visão, em que os indivíduos, com vistas à proteção de seus direitos mais básicos, cedem ao estado alguns de seus direitos (como, por exemplo, o uso da força para defender e fazer valer os seus direitos). A constituição de um estado deveria, por sua vez, reconhecer aos cidadãos, de modo formal e explícito, o direito de ter direitos, fixando, numa “carta de direitos”, certos direitos (pelo menos os considerados naturais) como inalienáveis e imprescritíveis. Esses direitos nunca poderiam ser violados ou mesmo restringidos, nem pelo próprio estado, nem mesmo que o estado conte, para tanto, com o respaldo da maioria dos cidadãos.

Assim nasceu o Liberalismo.

D. O Governo

O que chamamos de governo é o conjunto de funções necessárias para que o estado seja administrado da forma desejada pelos cidadãos. Essas funções são, naturalmente, ocupadas por indivíduos-cidadãos.

E. Estado e Governo (uma digressão)

Muitas pessoas têm dificuldade para distinguir estado e governo. Por isso vou gastar um pouco de tempo procurando esclarecer a questão.

No Brasil, o chefe do estado e o chefe do governo são a mesma pessoa. Nossa forma de governo é presidencialista e, nela, o presidente chefia as duas coisas.

Mas para entender mais facilmente a diferença entre estado e governo, é bom olhar para contextos em que a chefia do estado e a chefia do governo não são exercidas pela mesma pessoa – ou em que há um chefe de estado para vários chefes de governo (como no Reino Unido).

Os países que se agrupam em torno da Inglaterra nos oferecem um bom exemplo – até porque o exemplo é, nesse caso, bem mais complicado do que sugerem as formulações com que termina o parágrafo anterior. Nesse conjunto de países temos uma forma de governo que pode ser rotulada de monarquia parlamentar. Hoje, a rainha (Elizabeth II) é a chefe do estado; o primeiro ministro, o chefe do governo.

Um inglês nunca confunde uma coisa com outra. Como cidadão, ele se considera súdito da rainha, nunca do primeiro ministro. O primeiro ministro é o chefe do partido, ou da coalisão de partidos, que vence as eleições para o parlamento. O cidadão inglês acredita dever lealdade à rainha, como chefe do estado, não ao primeiro ministro, como chefe do governo (mesmo que tenha votado para o partido do primeiro ministro – e nunca vote para escolher a rainha ou o rei).

Na realidade, a pessoa que conhecemos como a rainha da Inglaterra é chefe de um estado que não se chama Inglaterra nem se confunde com ela. Inglaterra é o nome de uma nação (que é ainda uma outra coisa) – que, juntamente com outras nações, pertence a um estado. (O termo “nação” tem certa ambiguidade: tanto pode designar uma sociedade que compartilha cultura (língua, religião, etc.), história e etnicidade ou descendência como pode designar um grupo de pessoas (independentemente de cultura, história ou etnia) que vive debaixo de um determinado estado ou sob determinado governo. Este segundo sentido é mais político. O primeiro é mais histórico-cultural. Às vezes os dois sentidos se sobrepõem e até mesmo se misturam.

A Inglaterra, o País de Gales (Wales) e a Escócia são três nações que habitam a mesma ilha: a Grã-Bretanha (Great Britain). Quando se fala em Grã-Bretanha está se referindo a uma unidade geográfica, não política.

Uma outra ilha muito próxima da Grã-Bretanha é a Irlanda, que também é habitada por duas nações: a (República da) Irlanda e a Irlanda do Norte.

A unidade política chamada Reino Unido (United Kingdom – UK), que na realidade hoje se chama Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte (United Kingdom of Great Britain and Northern Ireland) compreende as nações da Inglaterra, País de Gales, Escócia  e Irlanda do Norte (e várias ilhazinhas próximas das ilhas da Grã-Bretanha e da Irlanda). É o Reino Unido que é o estado soberano e independente, do qual a rainha da Inglaterra é a chefe soberana.

As nações individuais que compõem o Reino Unido preservam certa soberania (distinta, em cada caso) – inclusive de governo. Cada qual, exceto a Inglaterra, tem governo próprio. Mas é o Reino Unido que faz parte das Nações Unidas (United Nations), da Comunidade Europeia (European Community), etc. Entretanto, indo na direção contrária, na Copa do Mundo de Futebol, o estado Reino Unido não tem participação. Quem participam (por tradição) são a Inglaterra, a Escócia, o País de Gales e a Irlanda do Norte, que competem até mesmo uns contra os outros. Parece confuso. Mas isso é porque a realidade é, de fato, complexa e há certa incoerência em permitir que um estado seja representado na Copa do Mundo por quatro de suas nações.

A Irlanda (República da Irlanda) já fez parte desse estado, como Irlanda do Sul. Hoje ela é um estado totalmente independente – na verdade, uma república, não uma monarquia, nem parte de uma. Discute-se, na Escócia, a conveniência de também aquela nação se tornar uma nação totalmente independente – quebrando a unidade política atual da ilha da Grã-Bretanha.

Outras nações-estado, como Canada, Australia, Nova Zelândia, Barbados, e inúmeras outras, cinquenta e três no total, todas elas, exceto duas, ex-membros do Império Britânico (British Empire), não fazem parte do reino-estado da Grã-Bretanha, mas fazem parte da Comunidade das Nações (Commonwealth of Nations), antigamente chamada de Comunidade Britânica (British Commonwealth). A rainha da Inglaterra, que é a chefe de estado do Reino Unido, ocupa também a posição de Chefe da Comunidade das Nações, que é uma função ainda mais ornamental do que a posição de chefe de estado do Reino Unido. Assim, as nações-estado que fazem parte da Comunidade das Nações também reconhecem a rainha da Inglaterra como, de certo modo, sua chefe de estado – embora as nações não façam parte do estado Reino Unido.

2. Filosofia Política e Ideologia

O que se denomina Filosofia Política é o estudo – normativo, não descritivo – da melhor forma de viver no âmbito da sociedade e do estado – isto é, de organizar a vida social e política, respeitando os direitos dos indivíduos (naturais ou positivos).

Assim, a Filosofia Política é parte integrante do ramo da Filosofia denominado Ética. Ela lida com valores – valores morais e valores “prudenciais”.

A primeira grande tarefa da Filosofia Política é definir quais são os direitos individuais (e se eles são naturais ou positivos). Também é tarefa sua decidir se grupos de indivíduos, ou a sociedade como um todo, são titulares de direitos (os chamados direitos sociais), ou se direitos humanos inerem essencialmente aos indivíduos.

A segunda grande tarefa da Filosofia Política é definir como os direitos individuais devem ser protegidos vis-à-vis as ações de outros indivíduos, de grupos de indivíduos, da sociedade como um todo, e, em particular, do próprio estado e seu governo. Também é tarefa da Filosofia Político, caso se tenha concluído que grupos de indivíduos ou a própria sociedade como um todo podem ser titulares de direitos, como os direitos individuais se compatibilizam com os direitos sociais.

A terceira grande tarefa da Filosofia Política é definir quais são os sistemas e as formas de governo  preferíveis, e por quê: monarquia vs república, parlamentarismo ou absolutismo (monarquista ou presidencialista), etc.

O termo “Ideologia” é, hoje em dia, bastante discutido, havendo várias formas de entende-lo. Não vou me enveredar por essa discussão. Aqui neste texto vou considerar como ideologia o conjunto de princípios e valores que se agregam para fornecer uma resposta coerente a essas várias perguntas.

A Filosofia Política se distingue da Ciência Política, que é uma disciplina descritiva, não normativa.

II. As Três Oposições

Finalmente chegamos às três oposições.

1. Liberalismo vs Socialismo

Do início da era moderna pra cá, as duas principais respostas (parciais) ao conjunto de perguntas formuladas na seção I.2 são o Liberalismo e o Socialismo – aquele bem mais antigo, reportando ao início da Idade Moderna. O Socialismo vicejou basicamente no século XIX, sob a influência, em retrospectiva, principalmente de Karl Marx, mas tem raízes no século XVIII e vertentes não-marxistas no século XIX.

A. O Liberalismo

Diferentemente do Anarquismo que (como se verá) defende a viabilidade de uma sociedade não organizada politicamente, e, portanto, sem estado e sem governo, o Liberalismo, por uma série de razões, considera uma sociedade anárquica inviável e, por isso, reconhece e defende a necessidade da organização política da sociedade – isto é, da constituição do estado e da criação do governo.

Mas o Liberalismo quase que faz esse reconhecimento e essa defesa de forma meio envergonhada – como se o estado fosse um mal necessário. Embora alguns autores liberais enfatizem que o estado, em si, é um bem, e não um mal necessário, muitos liberais, especialmente os mais radicais, só admitem a existência legítima do estado porque reconhecem a inviabilidade do anarquismo.

Liberais, em geral, não vêm o ser humano como naturalmente generoso, bom, solidário, altruísta. Se ele fosse tudo isso, argumentam, o Anarquismo seria viável e preferível ao Liberalismo. O ser humano, para os liberais, é, em sua essência, o oposto de tudo isso. Como bem reconheceu Adam Smith, um dos pais do Liberalismo, o ser humano se preocupa, tipicamente, mais com sua unha encravada do que com o sofrimento ou mesmo a morte de milhões de desconhecidos em locais distantes. Assim, uma sociedade anárquica, para os Liberais, será uma luta constante de todos contra todos. Não funciona: termina em caos total. É por isso que o estado é necessário.

Mas, reconhecem os Liberais, o estado vai ser comandado por seres humanos – e os homens que se dispõem a comandar o estado não são nem um pouco melhores do que os demais. Muito pelo contrário: não raro são muito piores.

É por isso que, no Liberalismo, o Estado, embora um bem necessário, precisa:

  1. possuir apenas funções essenciais, e estas claramente definidas, ficando proibido de exorbita-las;
  2. contemplar mecanismos internos que monitorem e controlem o exercício de suas funções e coíbam imediata e severamente qualquer extrapolação delas;
  3. contemplar mecanismos externos que possibilitem e facilitem a fiscalização e cobrança do Estado e, se for o caso, a destituição dos governantes – por mecanismos institucionais previstos (impeachment, recall) ou até mesmo pelo uso da força, se for necessário emprega-la.

Para o Liberalismo, estado / governo existem para garantir os direitos, a liberdade e a segurança dos indivíduos, criando um arcabouço jurídico, militar e policial que proteja os cidadãos em suas pessoas e em suas propriedades, a fim de que, sem interferências indevidas de terceiros, cada um deles possa buscar sua felicidade, como bem a entenda.

Quanto aos direitos humanos que o Liberalismo reconhece, é preciso registrar, desde o início, que o Liberalismo só reconhece os direitos individuais, os chamados direitos sociais não passando, para o liberal, de uma ficção mais recente (inventada pelos franceses). Os únicos direitos que legitimamente existem são os direitos individuais.

Para esclarecer esse posicionamento, é preciso rapidamente resumir quais são os direitos individuais que o Liberalismo reconhece. Os direitos individuais demarcam, ou limitam, a liberdade do indíduo. Eles são os seguintes:

  • Direito à integridade da pessoa (ou direito à vida e à segurança da pessoa), isto é, o direito que tem o indivíduo de não ter sua vida e sua segurança colocadas em risco por terceiros);
  • Direito à expressão do pensamento, do modo de ser, do estilo de vida, isto é, o direito que tem o indivíduo de não ser impedido por terceiros de dizer o que pensa, de viver como acha mais interessante ou satisfatório, e de fazer o queira, e, naturalmente, de não ser obrigado por terceiros a dizer o que não pense, a viver como não deseje, e a fazer o que não queira;
  • Direito à locomoção, isto é, o direito que tem o indivíduo de não ser impedido por terceiros de ir e vir, dentro ou para fora do território em que viva, para onde ou de onde quer que seja, e, naturalmente, de não ser obrigado por terceiros a ficar onde não deseja ficar ou a se locomover para onde não deseja ir e, por fim, de não ser levado, contra sua vontade, para onde não deseja estar;
  • Direito à associação, isto é, o direito que tem o indivíduo de não ser impedido de formar associações com qualquer pessoa que se disponha a participar da associação e de excluir da associação quem nela não for, por qualquer razão, desejado, e de não ser obrigado a participar de qualquer associação ou a aceitar, em associações sob seu controle, quem quer que seja;
  • Direito à ação em busca da felicidade, isto é, o direito que tem o indivíduo de não ser impedido por terceiros de procurar ser feliz da forma que bem entenda, fazendo, para tanto, o que deseja fazer ou o que lhe interessa, satisfaz e faz feliz e, naturalmente, de não ser obrigado por terceiros a procurar ser feliz de uma maneira particular;
  • Direito à propriedade, isto é, o direito que tem o indivíduo de não ser impedido por terceiros de produzir qualquer bem ou de adquirir qualquer bem que esteja a venda, para cuja produção ou aquisição tenha recursos, de não ser obrigado por terceiros a produzir ou adquirir qualquer bem, nem a trocar ou vender os bens que já possui, ou a deles se separar contra a sua vontade (incluindo por desapropriação, furto ou roubo), de não ser privado de seus bens e de seus rendimentos, através de impostos, exceto para finalidades e através de processos para os quais deu seu explícito consentimento.

Note-se que todos esses direitos são negativos. A única obrigação que eles impõem a terceiros é a de não interferir, não impedir, não coagir, não forçar, não obrigar. Isso é: a única obrigação que eles impõem a terceiros é a de não se meter. Essa obrigação não tem uma face financeira: ninguém é obrigado a meter a mão no bolso para garantir que essa obrigação seja respeitada.

A oposição do Liberalismo aos chamados direitos sociais é que eles não são negativos: eles impõem a terceiros, o mais das vezes contra a sua vontade, obrigações que eles não assumiram. O suposto direito à educação presume que alguém tenha a obrigação de prover educação aos que a exigirem; o suposto direito à saúde presume que alguém tenha a obrigação de prover saúde aos que a exigirem; o suposto direito ao trabalho presume que alguém tenha a obrigação de prover trabalho aos que o exigirem; o suposto direito à habitação presume que alguém tenha a obrigação de prover habitação a quem a exija; o suposto direito ao transporte presume que alguém tenha a obrigação de prover transporte à população que exigir fazer uso dele; e assim vai.

Como ninguém se dispõe a voluntariamente prover todas essas coisas a outrem, de forma generalizada e indiscriminada, os defensores dos direitos sociais buscam atribuir esse dever ao estado, que tem poder de coerção (ou coação) e pode extrair, pela força, através de impostos, recursos de uns que venham a custear o atendimento de supostos direitos sociais de outros.

Isso rompe o princípio mais valioso do Liberalismo: o de que todos devem ser livres e igualmente livres. Nesse sentido, a sociedade, o estado, o governo, a lei não devem instituir privilégios para uns, em detrimento dos outros. Todos devem ser iguais perante a lei. Os direitos devem ser os mesmos para todos.

A noção de justiça que está por trás do Liberalismo é:  “suum cuique“, “to each his own” ou “to each what he deserves”, “jedem das seine”, “a cada um o seu”, “a cada um o que lhe cabe”, “a cada um o que fez por merecer”, “a cada um aquilo a que fez jus”.

B. O Socialismo

Assim chegamos ao Socialismo.

O Liberalismo tem conexão, até etimológica, com a liberdade. Se o Socialismo tivesse uma conexão etimológica com o conceito que de fato o caracteriza, deveria se chamar Igualitarismo, não Socialismo. Sua ênfase está na igualdade.

A igualdade que o Socialismo defende não é a igualdade de liberdade ou de direitos, a igualdade perante a lei, mas, sim, a igualdade material – ou, no mínimo, nas formas mais brandas (“cor-de-rosa”) do Socialismo, a igualdade de oportunidades. Segundo o Socialismo, desigualdades são inerentemente injustas e, portanto, devem ser combatidas.

A noção de justiça que está por trás do Socialismo é a chamada “justiça redistributiva”: tirar de quem tem, ou pode produzir, para dar a quem precisa. “De cada um, conforme a sua habilidade, e a cada um, conforme a sua necessidade”.

Os supostos direitos sociais, que os Socialistas acreditam ser tão justificáveis quanto os individuais, ou mesmo mais justificáveis, impõem obrigações a terceiros, que vão necessariamente colidir com os seus direitos individuais, em especial com o direito à propriedade dos bens e da remuneração. E, quando colidirem, tanto pior para os direitos individuais, acreditam os Socialistas. Se alguém precisa de educação, saúde, transporte, alimentação, etc., o direito à propriedade é desconsiderado, porque, afirmam, a propriedade privada só é defensável se cumprir a sua “função social”.

Segundo os Liberais, essa suposta função social da propriedade é pura invencionice socialista, que acabou ganhando o status de norma constitucional na Constituição Brasileira.

Para o Socialismo, o estado / governo existe para promover a igualdade e combater as desigualdades, para promover o bem estar (material, social, cultural, etc.) das pessoas e dos grupos sociais. Ou, como dizem os políticos, para cuidar do povo (principalmente do povo mais pobre – o não tão pobre, supõe-se, tem condições de cuidar de si próprio.

Quando se adota essa visão, o estado / governo começa a querer fazer o bem (dar “trocentas” bolsas a torto e a direito, pagas pelos que não são seus recipientes), cuidar dos desvalidos e incapazes, respeitar os direitos de quem não respeita direito de ninguém, etc.

A própria ênfase que o Liberalismo dá à segurança fica relegada, no Socialismo, a um plano secundário. Quando algum estado / governo tenta coibir a violência de forma mais eficaz, os socialistas protestam, chamam a polícia de fascistóide, aplaudem quando um policial é ferido ou morto, etc. O estado / governo que os socialistas querem é o que faz o bem, não o que pune o mal.

2. Anarquismo vs Totalitarismo

A. O Anarquismo

O Liberalismo deseja um estado mínimo. O Socialismo, em suas versões mais extremadas, um estado máximo, cheio de atribuições e funções.

Como já vimos, se radicalizarmos o Liberalismo,  chegamos ao Anarquismo – que é uma situação em que o estado se tornou tão mínimo que deixou de existir. Consequente, também não há governo. As pessoas resolvem suas diferenças e desavenças através de mecanismos “ad hoc” (como a arbitração privada).

Se radicalizarmos o Socialismo, porém, chegamos ao Totalitarismo – que é uma situação em que o estado, por assumir tantas atribuições e funções, acaba por controlar a totalidade da vida: nada escapa dos seus tentáculos. Os estados comunistas são invariavelmente totalitários.

B. O Totalitarismo

O Socialismo, portanto, frequentemente descamba para o Totalitarismo, mesmo no caso de Socialismos não radicais ou não totais. Não é preciso falar de Cuba ou da Coreia do Norte. É possível ver isso aqui mesmo no Brasil. O estado brasileiro / aparelhado pelo Socialismo tupiniquim do Lullo-Petismo, tenta controlar a imprensa livre; tenta restringir o direito de escritores (biógrafos, por exemplo); impede as pessoas de criticar modos de vida de que discordam, rotulando-os de “homofóbicos”, um crime de discriminação; obriga clubes privados a aceitar membros que eles não querem aceitar; proíbe os cidadãos de cortar árvores até mesmo dentro de suas propriedades – e, ao mesmo tempo, não combate a violência, o vandalismo, o crime, deixando a população apavorada e pronta para exigir mais intervenção governamental na sociedade. . .

Vários restrições que o pensamento socializante nos impõe não são nem percebidas como interferências nos nossos direitos. Por que devem nossos filhos obrigatoriamente frequentar a escola em determinado período de suas vidas?  Por que não podemos dirigir nossos automóveis em determinados dias (numa cidade como São Paulo)? Por que não podemos fumar em ambientes fechados, como clubes e restaurantes, se houver espaços para que o fumo não incomode os que não gostam dele? Por que uma pessoa tem herdeiros “necessários”, não podendo dispor livremente da totalidade de seus bens? Por que eu preciso pagar quatro vezes mais por um bem, por causa de impostos de importação, apenas para que o governo proteja industriais amigos seus em troca de contribuições (legais ou propinadas) para o partido?

3. Conservadorismo vs Progressivismo

A. O Conservadorismo

Conservador é aquele que preza as ideias, os valores, as tradições, os usos, os costumes – e, por conseguinte, se opõe a tentativa de muda-los – sejam quais forem esses valores, essas tradições, esses usos, esses costumes.

Conservadores não gostam de mudar de ideias, de pontos de vista. Raramente mudam de religião ou preferência política. Conservadores se opõem a mudanças nos valores sexuais, nos usos e costumes. Os que defendem o princípio do “eu escolhi / decidi esperar” até o casamento para só então manter relações sexuais com a pessoa que amam, são conservadores na área sexual. Homens conservadores se opõem à emancipação feminina, à mulher que é livre para escolher se vai ou não ter filhos, à mulher que privilegia a carreira dela tanto quanto a (ou mesmo em vez da) do marido, ao namoro mais livre das filhas. Pessoas conservadoras em geral são religiosas, recatadas no falar, pouco arrojadas no vestir. Pessoas conservadoras não gostam de mudanças que possam perturbar seu estilo de vida, como imigração em larga escala, mesmo migração interna em quantidade. E assim vai.

B. O Progressivismo

Pessoas progressivistas são o oposto dos conservadores. Gostam de mudanças, em si e nos outros.

Não é preciso discorrer mais sobre isso.

III. A Direita e a Esquerda

Os que se consideram “de Esquerda” em geral se enxergam como socialistas, antitotalitários e progressivistas. E consideram os que não são de sua tribo como “de Direita”, presumindo que sejam liberais, conservadores e amantes do autoritarismo e mesmo do totalitarismo.

Há uma enorme quantidade de confusão e engano nisso.

Vimos atrás, na discussão do Liberalismo, do Anarquismo e do Totalitarismo, que o Liberalismo, se radicalizado, chega ao Anarquismo, nunca ao Totalitarismo.

As considerações feitas demostram que é impossível para o Liberalismo se tornar totalitário. O Liberalismo defende o máximo de liberdade para o indivíduo e o mínimo de atribuições e funções para o estado / governo. Como pode um estado liberal se tornar totalitário?

Para o Liberalismo, as restrições à liberdade individual mais perigosas são aquelas oriundas de ações do estado / governo. Para o Liberalismo, como bem disse Ronald Reagan, o estado é parte do problema, não da solução, e o risco do Totalitarismo sempre beira aqueles que vêm o estado como parte da solução, não do problema, e, por isso, querem mais estado, mais interferência ou participação do estado na vida dos indivíduos… Perguntem a um liberal se ele acha certo o estado / governo nos proibir de comer comidas gordurosas, nos obrigar a comer apenas o que é saudável… A resposta será um acachapante “NÃO”. Agora perguntem a um socialista (ou simpatizante – um “socializante”) se ele acha corretas essas tentativas do estado / governo interferir em nossas vidas. A resposta será um “SIM” entusiasmado.

Foi a União Soviética Socialista/Comunista que, por um tempo, fez um pacto com a Alamanha Socialista/Nazista, foi o comunista Stalin que se associou ao fascista Hitler, nunca os Estados Unidos ou a Inglaterra, Roosevelt e Churchill, países e pessoas de tradição liberal (embora Roosevelt, em muitas áreas, nem tanto).

Liberais não são conservadores. Criticam tradições que conspiram contra a liberdade ou que impedem a livre busca do desenvolvimento humano e da realização dos indivíduos.

Mas liberais reconhecem que o ótimo é frequentemente o inimigo do bom, que a busca da perfeição frequentemente leva ao seu oposto. Criticam os socialistas porque, ao se oporem à liberdade na defesa da igualdade, acabam ficando sem nenhum dos dois.

Liberais não são necessariamente religiosos, embora estejam livres para sê-lo. E, quando são, raramente são adeptos de religiões conservadoras e fundamentalistas, que tentam controlar a vida e a mente das pessoas, que tentam ditar para as pessoas o que elas devem fazer e pensar.

Estados / governos totalitários, ou com inspiração ou tendência totalitária, procuram controlar a conduta e o pensamento das pessoas, são seduzidos pela ideia de controlar a imprensa livre para torna-la – mirabile dictum! – mais democrática!!!

Nenhum dos atuais defensores de autorização prévia, pelos biografados, para as suas biografias é liberal. Roberto Carlos é um católico conservador; Chico um cubista-fidelista; Caetano um desvairado.

É verdade que, em ocasiões, como na coligação que elegeu Ronald Reagan nos Estados Unidos, liberais e conservadores se uniram para derrotar os socialistas do Partido Democrata, que se considera liberal (o maior misnomer da história, aquele partido se chamar liberal). E há pessoas, como Reinaldo Azevedo e Rodrigo Constantino que são liberais e conservadores. Mas o Liberalismo, em si, não é conservador. E o Socialismo cubano, por exemplo, o é.

Por isso, nós, os liberais, precisamos, antes de tudo, desmascarar essa tentativa da Esquerda de demonizar os liberais, colocando-os numa mesma categoria com totalitários e conservadores.

Em São Paulo, 2 de Novembro de 2013; revisado em 23 de Maio de 2016.

  1. Ótimo texto! Cheguei neste blog através de Ivan Illich, então gostaria de fazer algumas notas sobre seu texto através do pensamento convivial.
    Illich disse numa entrevista que precisávamos de leis “procritivas” em complemento das “prescritivas”. Vejo nisso o adendo necessário para se ter um real liberalismo. A prescrição dos direitos individuais, em negativa, reserva aos terceiros os Deveres no cumprimento da Cidadania.
    Idealmente, o indivíduo não pode ter sua liberdade impedida de nenhuma forma, e os limites ficam implícitos. Os limites da liberdade devem aparecer quando suas atitudes interferirem na liberdade de outros. Quando? Como? Com que tolerância é possível pesar esta invasão? Bom senso?
    Aí entra a “procrição”, algo familiar a um ex-padre mas não ao cidadão comum. Os limites (umbrales) que se ultrapassados levam ao “monópólio radical” e a auto destruição. Que se ultrapassados, impedem a liberdade de meios e fins, e acabam sendo ineficientes até mesmo às finalidades para os quais ultrapassaram. Passados os limites, temos a escola, o hospital, os veículos velozes, os entretenimento massificado, os governos maximizados, as grandes corporações etc.

    O liberal deveria saber que o seu carro hoje está no rodízio pois o carro como ferramenta de deslocamento ultrapassou dois limites de mutação. Primeiro fez desvantajosos todos os outros meios de deslocamento (terrestre), relegando a lentidão, a insegurança, a sujeira e o risco de acidentes aqueles que não podiam pagar. Depois, quando tantos naturalmente desejam um carro e fazem movimentar tanta economia para suprir a incrível demanda já culturalmente arraigada, se vê que é possível que todos tenham seu carro e uma cidade saudável (formada por indivíduos realmente livres) ao mesmo tempo.

    Os governos, quando não tem tanta pretensão totalitarista, é intervencionista (veladamente ou não). Interferem na economia através de inúmeros mecanismos de apoio, estímulo e financiamento. O que está longe, muito longe da simples garantia do laissez faire. Governos totalitários (ou pretendentes) também extrapolam os limites de mutação quando põem os direitos sociais sobre os individuais. Por isso as procrições, como proibições claramente direcionadas, como limites bem visualizáveis, são importantes para garantir a liberdade individual.

    Penso então que o laissez faire puro e de fato, só poderá ocorrer num cenário convivial.

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  2. Peço desculpas pelo texto descuidado que fiz ontem, sob influência do sono. Dos erros gramaticais, sintáticos e ortográficos que encontrei na releitura, gostaria de corrigir apenas dois, fundamentais para o argumento.
    Realmente não sei o motivo pelo qual escrevi errado a palavra “proscrição” três vezes; e
    No fim do antepenúltimo parágrafo quero dizer justamente o contrário. Faltou de um ‘não’ na frase. Seria então: “se vê que NÃO é possível que todos tenham seu carro e uma cidade saudável ao mesmo tempo”.

    Um abraço!

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  3. Eu estou mais inclinado a pensamentos liberais, mas não concordo em dar total liberdade a um indivíduo quando o mesmo explora esse poder em detrimentos de outros. Quero que uma pessoa inicie seu negócio e ganhe dinheiro com isso, mas não quero que essa pessoa chegue a um ponto de alta lucratividade realizando a exploração de outrem, ou seja, quero que as pessoas se diferenciem entre si – pois são sim diferentes – entretanto devem fazer isso com exercício do bom senso. Pra mim, a liberdade deve ser reprimida quando ela beira o exagero e a ganância exorbitante.

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