Fast-Food Content Delivery

A notícia foi dada no Jornal da Globo de ontem à noite (14/5/2014).

A Fundação Roberto Marinho (FRM) aparentemente desbanca o Instituto Ayrton Senna (IAS) como principal provedor de soluções para o problema da defasagem idade-série na escola. A notícia, dada com todo ufanismo pela Globo, porque se trata da algo feito pela fundação da organização, é a seguinte. O governo federal fez convênio com a FRM para usar a metodologia do Telecurso II Grau nas escolas em que essa defasagem é séria, esperando, assim, eliminar de vez o problema.

Até aqui o principal fornecedor de uma solução desse tipo era o IAS, que usa uma metodologia chamada “Acelera, Brasil”, que foi adquirida de João Batista Araújo e Oliveira, seu criador (embora o IAS não alardeie o fato).

Minha tese em relação a essas iniciativas é simples. Defendi-a pela primeira vez num congresso, do qual fui o coordenador técnico, patrocinado pela Microsoft e organizado pelo próprio IAS em Junho de 2003.

Ei-la, em passos bem didáticos:

a. É ruim a escola que tem por objetivo apenas transmitir conteúdos para os alunos, e que procura transmitir cada vez mais conteúdos, durante períodos diários cada vez mais longos, em um número cada vez maior de dias do ano, em um período cada vez mais prolongado de anos, sem se preocupar se esse conteúdo tem algo que ver com o desenvolvimento dos alunos como pessoas, profissionais e cidadãos.

b. Assim, não é qualquer escola que basta: se a escola é ruim, é pior trazer as crianças, os adolescentes e os jovens para dentro dela. Desperdiça-se um dinheiro valioso, usa-se mal o precioso tempo dos alunos durante a melhor fase de suas vidas, e, pior, transmite-se aos alunos a ideia totalmente equivocada de que aprender é aquilo que se faz na escola, assim matando-se neles a curiosidade, o prazer de aprender, o encantamento que a educação produz quando é realmente bem feita.

c. Para os alunos que estão numa escola assim, traze-los para a série que corresponde à sua idade representa muito pouco, se aquilo que se faz naquela série continua a ser irrelevante para seus interesses e reais necessidades – e, o que é pior, eles são trapaceados no processo, porque dá-se a eles a impressão, ao concluir um programa de correção da defasagem idade-série, que, agora, eles estão na trilha certa…

d. Assim, ou se focam as energias naquilo que realmente precisa ser feito, a saber, mudar a forma como a educação é concebida e encontrar novas alternativas institucionais de promove-la, ou se desperdiça dinheiro, se joga fora tempo, e se perde credibilidade com medidas cosméticas e paliativas.

Minha amiga Daisy Grisolia encontrou uma expressão muito apta para designar esses programas que almejam corrigir a defasagem idade-série: fast-food content delivery. A escola que está fora do programa entrega conteúdo de maneira lenta, estendida no tempo. A escola que participa do programa opera como um restaurante fast food: faz essa transmissão de forma intensiva, rápida, acelerada, fast motion. Não é à toa que o programa carro-chefe do IAS se chama “Acelera, Brasil”.

Em São Paulo, 15 de Maio de 2014

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