As Pessoas

[Dedicado ao meu sobrinho Vítor Chaves de Souza, filósofo e teólogo, como eu, e, ainda por cima, poeta e fotografo, não como eu]

Adapto aqui um material que, há exatamente três anos, em 12/6/12, o Renato Janine Ribeiro, publicou no seu perfil no Facebook. O ministro ainda mantém e alimenta o seu perfil no endereço https://www.facebook.com/renato.janineribeiro.

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A história é atribuída ao general Kurt Gebhard Adolf Philipp Freiherr von Hammerstein-Equord (September 26, 1878 – April 25, 1943), que (conforme registra a Wikipedia) foi um general alemão que serviu, por um período, como Comandante no Exército alemão — mas que, por ser contra Hitler e o regime nazista, foi escanteado. Segundo consta, ele próprio era, nos termos da história, inteligente e preguiçoso.

A história se aplicaria aos oficiais e soldados que o general comandava. Mas, pensando um pouco, concluí que ela se aplica a qualquer grupo de pessoas engajado em uma atividade profissional (ou, a bem da verdade, em qualquer coisa).

Vou reconta-la em minhas palavras e do meu jeito e aplica-la ao nosso mundo eclesiástico (que é meio distante do militar em alguns aspectos).

É possível dividir as características que definem os seres humanos em dois grupos: características de natureza cognitiva (ou intelectual) e características de natureza disposicional (ou motivacional / atitudinal / emocional).

Do ponto de vista de suas características cognitivas, as pessoas podem ser divididas, grosso modo, em inteligentes e estúpidas.

Do ponto de vista de suas características disposicionais, as pessoas podem ser divididas, também grosso modo, em diligentes e preguiçosas.

Infelizmente, a maioria das pessoas — cerca de 90%, segundo o general — é estúpida e preguiçosa. O melhor lugar para coloca-las é na execução de tarefas de rotina, que exigem pouca inteligência e que, se bem organizadas, não são grandemente prejudicadas pela estupidez e pela preguiça dos que as realizam.

É preciso tomar cuidado, porém, com as pessoas que são estúpidas e diligentes. A elas não deve ser confiada nenhuma — repito: nenhuma — tarefa importante e que exige alguma responsabilidade, porque elas certamente causarão o maior estrago ao realiza-la.

Os dois grupos finais envolvem as pessoas inteligentes — entre os quais estão, estou certo, os leitores deste blog.

Os inteligentes e diligentes em geral alcançam altos postos nas hierarquias. Chegam ao Estado-Maior nas Forças Armadas (na história original), tornam-se cardeais na Igreja Católica, e, nas nossas Igrejas Presbiterianas, certamente chegam aos mais altos cargos da sua administração — e tendem a continuar por lá o tempo todo.

Restam os inteligentes e preguiçosos. Esses, em regra, vão se tornar professores universitários ou, no nosso caso, professores de seminários. Como eu, admito (sem modéstia, no caso da inteligência, sem vergonha, no caso da preguiça). Esses, em regra, possuem clareza intelectual e criatividade para, no devido tempo, chegar a conclusões importantes sobre a vida, a sociedade, as instituições (como a igreja). O tempo que levam para chegar a essas conclusões depende do grau de sua preguiça e dos incentivos institucionais que os motivam a, ocasionalmente, abandona-la.

Alguém já disse que a inteligência não prospera fora de ambientes que favorecem um certo grau de ócio e vagabundagem. E outro alguém já disse que a criatividade não prospera em ambientes muito certinhos: seu desenvolvimento geralmente se dá em ambientes meio desorganizados e bagunçados.

Por isso, os inteligentes e preguiçosos raramente se dão bem em dois tipos de ambientes:

Primeiro, naqueles que não lhes deixam tempo livre para pensar, explorar, refletir sobre o que, pelo menos no início, parece totalmente inútil, despropositado, distante da realidade, removido das rotinas do dia-a-dia — tempo para flanar mentalmente.

Segundo, naqueles muito arrumadinhos (como o exército ou a empresa convencional) que não lhes dão liberdade para tentar e errar, para tentar de novo e errar de novo, para combinar o inusitado, adaptar o que não funciona em uma área para ver se funciona numa outra — liberdade para fazer coisas novas e, aparentemente, inúteis. Brinquedos, na história do Rubem Alves. Coisas que dão prazer

O céu, para esse quarto grupo de pessoas, é um lugar de ócio e liberdade. O inferno (se fôssemos o pássaro encantado de outra história do Rubem Alves) seria uma gaiola em que seríamos obrigados a cantar o tempo todo.

Enquanto o céu não chega, um mosteiro ou convento com um abade ou superior laissez faire, não Caxias (desculpem a mistura de categorias), seria um second best bem decente: tipo um céu aqui na terra.

Que assim seja. Amém.

Em Tempo: Não sou fã do ministro — só colega. Mas morro de pena ao vê-lo onde está. Temo muito que não vá dá muito certo. Mas agradeço a ele a inspiração para esta crônica.

Aproveito para homenagear outra pessoa que, aparentemente, foi concorrente do Janine ao cargo de Ministro da Educação: Mário Sérgio Cortella. Fico contente que o convite não tenha sido feito a ele — ou, mais ainda, que, tendo sido feito, ele o tenha rejeitado. Trata-se de uma entrevista dele ao Danilo Gentili. O link me foi passado pelo Vítor.

Em 12 de Junho de 2015

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