“Popular, sim. Grande, não!”

Transcrevo abaixo post retirado do blog de Ricardo Noblat. Vide

http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2010/10/25/popular-sim-grande-nao-335225.asp

———-

Bolinha de papel, rolo de fita crepe, pano de bandeira, chumaço de algodão – nada pode ser usado de forma hostil para atingir alguém sob pena de tal ato configurar uma agressão.

O que militantes do PT foram fazer no calçadão de Campo Grande, no Rio de Janeiro, quando o candidato José Serra (PSDB) esteve por lá na tarde da última quarta-feira em busca de votos?

Não foram saudá-lo democraticamente. A tal ponto de civilidade não chegaremos tão cedo.

Aos berros, munidos de bandeiras e dispostos a tudo, tentaram impedir que o candidato e seus correligionários exercessem o direito de ir e de vir, e também o de se manifestar, ambos assegurados pela Constituição.

O PT tem uma longa e suja folha corrida marcada por esse tipo de comportamento violento, autoritário e reprovável, que deita sólidas raízes em suas origens sindicais.

A força bruta foi empregada muitas vezes para garantir a ocupação ou o esvaziamento de fábricas. E também para se contrapor à força bruta aplicada pelo regime militar na época em que o PT era apenas uma generosa idéia.

Para chegar ao poder, o PT sentiu-se obrigado a ficar parecido com os demais partidos – para o bem ou para o mal. Mas parte de sua militância e dos seus líderes não abdicou até hoje de métodos e de práticas que forjaram sua personalidade. É uma pena. E um sinal de atraso.

Uma vez no poder, vale tudo para permanecer ali.

Vale o presidente da República escolher sozinho a candidata do seu partido.

Vale ignorar a Constituição e deflagrar a campanha antes da data prevista.

Vale debochar da Justiça.

Vale socorrer-se sem pudor da máquina pública para fins que contrariam as leis.

Vale intimidar a Polícia Federal para que retarde investigações que possam lhe causar embaraços. E vale orientá-la para que vaze informações manipuladas capazes de provocar danos pesados a adversários.

No ocaso do primeiro turno, pouco antes de Dilma se enrolar na bandeira nacional e posar para a capa de uma revista como presidente eleita, a soberba de Lula extrapolou todos os limites.

Ele foi a Juiz de Fora e advertiu os mineiros: seria melhor para eles elegerem um governador do mesmo grupo político de Dilma.

Foi a Santa Catarina e pregou irado a pura e simples extirpação do DEM.

Foi a São Paulo, investiu contra a imprensa e proclamou com os olhos injetados: “A opinião pública somos nós”.

O mais sabujo dos auxiliares de Lula reconhece sob o anonimato que o ataque de fúria do seu chefe contribuiu para forçar a realização do segundo turno.

Não haverá terceiro turno.

Se desta vez as pesquisas estiverem menos erradas, Dilma deverá se eleger no próximo domingo – e até com uma certa folga.

Mas a eleição ainda não acabou, meus senhores. A história está repleta de casos onde um passo em falso, um gesto impensado ou uma surpresa põe tudo a perder.

O que disse Lula a respeito do episódio do Rio protagonizado por Serra e por militantes do PT só confirma uma vez mais o quanto ele é menor – muito menor – do que a cadeira que ocupa há quase oito anos.

Lula foi sarcástico quando deveria ter sido solidário com Serra, de resto seu amigo de longa data.

Foi tolerante e cúmplice da desordem quando deveria tê-la condenado com veemência.

Foi cabo eleitoral de Dilma quando deveria ter sido presidente da República no exercício pleno da função.

Sua popularidade poderá seguir batendo novos recordes -e daí? Não é disso que se trata.

Popularidade é uma coisa passageira. Grandeza, não. É algo perene. Que sobrevive à morte de quem a ostentou.

Tiririca é popular. Nem por isso deve passar à História como um político de grandeza.

No seu tempo, Fernando Collor e José Sarney, aliados de Lula, desfrutaram de curtos períodos de intensa popularidade. Tancredo Neves foi grande, popular, não.

Grandeza tem a ver com caráter, nobreza de ânimo, sentimento, generosidade. Tudo o que falta a Lula desde que decidiu eleger Dilma a qualquer preço.

———-

Em Cape Town, 27 de Outubro de 2010

“Sem medo do passado”

Transcrevo a Carta Aberta de Fernando Henrique Cardoso a Lulla que corre por aí. Não sei se é verídica. O conteúdo claramente é verdadeiro.

———-

SEM MEDO DO PASSADO

Fernando Henrique Cardoso

O presidente Lula passa por momentos de euforia que o levam a inventar inimigos e enunciar inverdades. Para ganhar sua guerra imaginária, distorce o ocorrido no governo do antecessor, autoglorifica-se na comparação e sugere que se a oposição ganhar será o caos. Por trás dessas bravatas está o personalismo e o fantasma da intolerância: só eu e os meus somos capazes de tanta glória. Houve quem dissesse “o Estado sou eu”. Lula dirá, o Brasil sou eu! Ecos de um autoritarismo mais chegado à direita.

Lamento que Lula se deixe contaminar por impulsos tão toscos e perigosos. Ele possui méritos de sobra para defender a candidatura que queira.

Deu passos adiante no que fora plantado por seus antecessores. Para que, então, baixar o nível da política à dissimulação e à mentira?

A estratégia do petismo-lulista é simples: desconstruir o inimigo principal, o PSDB e FHC (muita honra para um pobre marquês…). Por que seríamos o inimigo principal? Porque podemos ganhar as eleições. Como desconstruir o inimigo?

Negando o que de bom foi feito e apossando-se de tudo que dele herdaram como se deles sempre tivesse sido. Onde está a política mais consciente e benéfica para todos? No ralo.

Na campanha haverá um mote – o governo do PSDB foi “neoliberal” – e dois alvos principais: a privatização das estatais e a suposta inação na área social. Os dados dizem outra coisa. Mas os dados, ora os dados… O que conta é repetir a versão conveniente. Há três semanas Lula disse que recebeu um governo estagnado, sem plano de desenvolvimento. Esqueceu-se da estabilidade da moeda, da lei de responsabilidade fiscal, da recuperação do BNDES, da modernização da Petrobras, que triplicou a produção depois do fim do monopólio e, premida pela competição e beneficiada pela flexibilidade, chegou à descoberta do pré-sal.

Esqueceu-se do fortalecimento do Banco do Brasil, capitalizado com mais de R$ 6 bilhões e, junto com a Caixa Econômica, libertados da politicagem e recuperados para a execução de políticas de Estado.

Esqueceu-se dos investimentos do programa Avança Brasil, que, com menos alarde e mais eficiência que o PAC, permitiu concluir um número maior de obras essenciais ao país. Esqueceu-se dos ganhos que a privatização do sistema Telebrás trouxe para o povo brasileiro, com a democratização do acesso à internet e aos celulares, do fato de que a Vale privatizada paga mais impostos ao governo do que este jamais recebeu em dividendos quando a empresa era estatal, de que a Embraer, hoje orgulho nacional, só pôde dar o salto que deu depois de privatizada, de que essas empresas continuam em mãos brasileiras, gerando empregos e desenvolvimento no país.

Esqueceu-se de que o país pagou um custo alto por anos de “bravata” do PT e dele próprio. Esqueceu-se de sua responsabilidade e de seu partido pelo temor que tomou conta dos mercados em 2002, quando fomos obrigados a pedir socorro ao FMI – com aval de Lula, diga-se – para que houvesse um colchão de reservas no início do governo seguinte. Esqueceu-se de que foi esse temor que atiçou a inflação e levou seu governo a elevar o superávit primário e os juros às nuvens em 2003, para comprar a confiança dos mercados, mesmo que à custa de tudo que haviam pregado, ele e seu partido, nos anos anteriores.

Os exemplos são inúmeros para desmontar o espantalho petista sobre o suposto “neoliberalismo” peessedebista. Alguns vêm do próprio campo petista. Vejam o que disse o atual presidente do partido, José Eduardo Dutra, ex-presidente da Petrobras, citado por Adriano Pires, no Brasil Econômico de 13/1/2010.

“Se eu voltar ao parlamento e tiver uma emenda propondo a situação anterior (monopólio), voto contra. Quando foi quebrado o monopólio, a Petrobras produzia 600 mil barris por dia e tinha 6 milhões de barris de reservas.

Dez anos depois, produz 1,8 milhão por dia, tem reservas de 13 bilhões. Venceu a realidade, que muitas vezes é bem diferente da idealização que a gente faz dela”. (José Eduardo Dutra)

O outro alvo da distorção petista refere-se à insensibilidade social de quem só se preocuparia com a economia. Os fatos são diferentes: com o Real, a população pobre diminuiu de 35% para 28% do total. A pobreza continuou caindo, com alguma oscilação, até atingir 18% em 2007, fruto do efeito acumulado de políticas sociais e econômicas, entre elas o aumento do salário mínimo.

De 1995 a 2002, houve um aumento real de 47,4%; de 2003 a 2009, de 49,5%. O rendimento médio mensal dos trabalhadores, descontada a inflação, não cresceu espetacularmente no período, salvo entre 1993 e 1997, quando saltou de R$ 800 para aproximadamente R$ 1.200. Hoje se encontra abaixo do nível alcançado nos anos iniciais do Plano Real.

Por fim, os programas de transferência direta de renda (hoje Bolsa-Família), vendidos como uma exclusividade deste governo. Na verdade, eles começaram em um município (Campinas) e no Distrito Federal, estenderam-se para Estados (Goiás) e ganharam abrangência nacional em meu governo. O Bolsa-Escola atingiu cerca de 5 milhões de famílias, às quais o governo atual juntou outras 6 milhões, já com o nome de Bolsa-Família, englobando em uma só bolsa os programas anteriores.

É mentira, portanto, dizer que o PSDB “não olhou para o social”. Não apenas olhou como fez e fez muito nessa área: o SUS saiu do papel à realidade; o programa da aids tornou-se referência mundial; viabilizamos os medicamentos genéricos, sem temor às multinacionais; as equipes de Saúde da Família, pouco mais de 300 em 1994, tornaram-se mais de 16 mil em 2002; o programa “Toda Criança na Escola” trouxe para o Ensino Fundamental quase 100% das crianças de sete a 14 anos. Foi também no governo do PSDB que se pôs em prática a política que assiste hoje a mais de 3 milhões de idosos e deficientes (em 1996, eram apenas 300 mil).

Eleições não se ganham com o retrovisor. O eleitor vota em quem confia e lhe abre um horizonte de esperanças. Mas se o lulismo quiser comparar, sem mentir e sem descontextualizar, a briga é boa. Nada a temer.

Fernando Henrique Cardoso

———-

Em Cape Town, 25 de Outubro de 2010

O foco da questão no dia 31/10

Transcrevo aqui um material que recebi por e-mail. Não conheço quem me enviou, mas o material é digno de toda a atenção.

O núcleo do material é um artigo de Rodrigo Constantino, que já é, e promete ser ainda mais (por ser ele muito jovem), um dos grandes e mais corajosos liberais brasileiros da atualidade. O material tem uma introdução também incisiva, que apresenta o Rodrigo. Não sei quem a escreveu, mas é “to the point”, como se diz em Inglês.

Os petistas, lullistas e dilmistas vão esbravejar. Os não tão babantes (há alguns poucos deles), e que me honram seguindo o meu blog e o meu FaceBook, vão me criticar por estar usando esse material para tentar derrotar a Dilma, o lullo-petismo, o PeTralhismo. Sua crítica não me demove desse objetivo.

O texto do Rodrigo, embora escrito no final do ano passado (2009), se dirige, com grande atualidade, àqueles (inclusive os que votaram na Marina no primeiro turno) que, reconhecendo que o PSDB tem problemas e que o Serra está longe de ser o candidato ideal, podem ser tentados a votar em branco ou simplesmente ir para a praia e não votar no dia 31/10. Afinal de contas, o domingo será parte do feriadão de Finados.

No programa eleitoral e em suas discussões  em diversos outros foruns, os dilmistas, os lullo-petistas e os PeTralhistas em geral querem fazer parecer que, porque o PSDB teve problemas com o Azeredo em Minas e o governo Serra foi acusado de agasalhar um corrupto que fazia Caixa 2 no Dersa em São Paulo, não há diferença alguma entre os dois partidos e os dois candidatos no plano ético – está tudo nivelado. Isso é um absurdo. Não sou PSDbista e já critiquei muito o PSDB. Mas não se pode equipará-lo ao PT. Até o Hélio Bicudo, fundador do PT,  e um de seus membros mais honrados, já percebeu isso e vai votar no Serra.   

Os dilmistas, os lullo-petistas e os PeTralhistas em geral querem fazer parecer que, porque o Serra lutou contra o regime e foi obrigado a sair do país durante a Ditadura Militar, não há diferença entre ele e a Dilma, no que diz respeito ao seu envolvimento com a esquerda. Isso é um absurdo. Há, sim. O Serra lutou para derrubar a ditadura e implantar a democracia. A Dilma lutou para substituir a ditadura militar pela ditadura comunista. Os meios que usaram também foram diferentes. O Serra usou meios democráticos. A Dilma participou da luta armada, em grupos que não hesitavam em recorrer a roubos, sequestros e assassinatos. 

Leia o material, em especial o artigo do Rodrigo Constantino. Reflita e passe-o adiante. A próxima semana será decisiva.

Possuo o domínio “fora.com.pt”. Comecei a usá-lo quando do aparecimento das primeiras denúncias acerca do mensalão petista (o primeiro). Vou colocar este post lá também, assim que tiver algum ferramental para formatá-lo e fazer upload dele.

Eis o material transcrito, inclusive com os links. Fiz pequenas alterações editoriais.

———-

“Aqueles que não se interessam por política serão governados pelos que se interessam.” (Arnold Toynbee)

“A Escolha de Sofia” é um livro (com base no qual se fez um belíssimo e pungente filme, com Meryl Streep) que descreve uma história (e esmiuça suas consequências no plano individual e social) que acontece no campo de concentração nazista de Auschwitz, vivida por uma mãe judia, forçada por um soldado alemão a escolher entre o filho e a filha – qual seria executado e qual seria poupado. Se ela se recusasse a escolher, os dois seriam mortos. Ela escolhe o menino, que é mais forte e tem mais chances de sobreviver, porém nunca mais tem notícias dele.

A questão é tão terrível que o título se converteu em sinônimo de “decisão quase impossível de ser tomada”.

O artigo a seguir foi escrito no final de 2009, pelo economista Rodrigo Constantino – autor de cinco livros em defesa da liberdade e do liberalismo.

Ele assina a coluna “Eu e Investimentos”, do jornal Valor Econômico, é colunista do jornal O Globo e é membro-fundador do Instituto Millenium (que recentemente apoiou a reedição de A Revolta de Atlas, de Ayn Rand [que eu resenhei para a Folha no dia 09/10/2010 – EC]).  Foi o vencedor do prêmio Libertas em 2009, no XII Forum da Liberdade. Seu curriculum vai muito além do que está listado acima, é extenso e respeitável.

Segue seu artigo:

“Serra ou Dilma? A Escolha de Sofia.”

Rodrigo Constantino

“Tudo que é preciso para o triunfo do mal é que as pessoas de bem nada façam.” (Edmund Burke)

Agora, praticamente é oficial: José Serra e Dilma Rousseff são as duas opções viáveis nas próximas eleições. Em quem votar? Esse é um artigo que eu não gostaria de ter que escrever, mas me sinto na obrigação de fazê-lo.

Os antigos atenienses tinham razão ao dizerem que assumir qualquer lado é melhor do que não assumir nenhum?

Mas existem momentos tão delicados e extremos, onde o que resta das liberdades individuais está pendurado por um fio, que talvez essa postura idealista e de longo prazo não seja razoável.

Será que não valeria a pena ter fechado o nariz e eliminado o Partido dos Trabalhadores Nacional – Socialista, em 1933, na Alemanha, antes que Hitler pudesse chegar ao poder? Será que o fim de eliminar Hugo Chávez justificaria o meio deplorável de eleger um candidato horrível, mas menos louco e autoritário? São questões filosóficas complexas. Confesso ficar angustiado quando penso nisso.

Voltando à realidade brasileira, temos um verdadeiro monopólio da esquerda na política nacional. PT e PSDB cada vez mais se parecem.  Mas também existem algumas diferenças importantes.

O PT tem mais ranço ideológico, mais sede pelo poder absoluto, mais disposição para adotar quaisquer meios, os mais abjetos, para tal meta.

O PSDB parece ter mais limites éticos quanto a isso.

O PT associou-se aos mais nefastos ditadores, defende abertamente grupos terroristas, carrega em seu âmago o DNA socialista.

O PSDB não chega a tanto.

Além disso, há um fator relevante de curto prazo: o governo Lula aparelhou a máquina estatal toda, desde os três poderes, passando pelo Itamaraty, STF, Polícia Federal, ONGs, estatais, agências reguladoras, tudo!

O projeto de poder do PT é aquele seguido por Chávez, na Venezuela; Evo Morales, na Bolívia; Rafael Correa, no Equador.

Enfim, todos os comparsas do Foro de São Paulo. Se o avanço rumo ao socialismo não foi maior no Brasil, isso se deve aos freios institucionais, mais sólidos aqui, e não ao desejo do próprio governo.

A simbiose entre Estado e governo na gestão Lula foi enorme. O estrago será duradouro. Mas quanto antes for abortado, melhor será: haverá menos sofrimento no processo de ajuste.

Justamente por isso acredito que os liberais devem olhar para este aspecto fundamental, e ignorar um pouco as semelhanças entre Serra e Dilma. Uma continuação da gestão petista através de Dilma, é um tiro certo rumo ao pior.

Dilma é tão autoritária ou mais que Serra, com o agravante de ter sido uma terrorista na juventude comunista, lutando não contra a ditadura, mas sim por outra ainda pior, aquela existente em Cuba ainda hoje. Ela nunca se arrependeu de seu passado vergonhoso; pelo contrário, sente orgulho. Seu grupo Colina planejou diversos assaltos.

Como anular o voto sabendo que esta senhora poderá ser nossa próxima presidente?!

Como virar a cara sabendo que isso pode significar passos mais acelerados em direção ao socialismo bolivariano?

Entendo que para os defensores da liberdade individual, escolher entre Dilma e Serra é como uma escolha de Sofia. Mas anular o voto [ou faltar è eleição no segundo turno], desta vez, pode significar o triunfo definitivo do mal. Em vez de soco na cara ou no estômago, podemos acabar com um tiro na nuca.

Dito isso, assumo que votarei em Serra. Meu voto é anti-PT acima de qualquer coisa. Meu voto é contra o Lula, contra o Chávez, que já declarou abertamente apoio à Dilma.  Meu voto não é a favor de Serra.

No dia seguinte da eleição, já serei um crítico tão duro do governo Serra, como sou hoje do governo Lula. Mas, antes é preciso retirar a corja que está no poder. Antes é preciso desarmar a quadrilha que tomou conta de Brasília.

Só o desaparelhamento de petistas do Estado já seria um ganho para a liberdade, ainda que momentâneo.

Respeito meus colegas liberais, que discordam de mim e pretendem anular o voto. Mas espero ter sido convicente de que o momento pede um pacto temporário com a barbárie, como única chance de salvar o que resta da civilização – o que não é muito, mas é o que hoje devemos e podemos fazer!

———-

REPASSEM, SEM MODERAÇÃO!

Em Cape Town, 22 de Outubro de 2010

Os candidatos e as pesquisas

Transcrevo da Folha de S. Paulo de hoje, 20/10/2010. Vale a pena ler. Faz pensar.

———-

MARCELO COELHO

O ópio dos candidatos

AINDA NÃO tinham inventado a telenovela, a megassena, o futebol e o crediário quando Marx chamou a religião de “ópio do povo”. E ele teria certamente reformulado um pouco suas opiniões se tivesse visto, por exemplo, os sorteios de carro 0 km nas festas de Primeiro de Maio.

Ainda assim, vale lembrar que a mistura entre política e religião, de que a campanha eleitoral no Brasil não é o exemplo mais extremo, tende a trazer muitos riscos para a democracia e para a paz. Para a minha paz de espírito, pelo menos.

Não digo isso apenas para repetir o velho princípio da “separação entre igreja e Estado”. Invocado dessa maneira, sem mais explicações, fica bastante abstrato.

Acho que dá para mostrar onde está o perigo dessa mistura. É que, a meu ver, política envolve compromisso e negociação. Não me refiro à detestável barganha de cargos no governo.

A menos que você queira transformar toda disputa em motivo para derramamento de sangue e em guerra pura e simples, política se faz com um mínimo de entendimento com o adversário. Você aprova determinados pontos de uma lei, mas não todos. Você admite que perdeu certa eleição. Você concorda em jogar para mais adiante alguns detalhes polêmicos, privilegiando aqueles sobre os quais é possível um acordo no momento.

A lógica da religião abomina, por natureza, esse tipo de atitudes. Cardeais num concílio podem discutir seus temas de teologia e chegar a consensos relativamente provisórios, adiando ou contornando assuntos espinhosos: estarão fazendo política entre eles, por certo.

Mas, quando determinado assunto se torna expressão de fé, não há como esperar que o religioso admita soluções de compromisso. Quanto mais religiosa for uma sociedade, menor o terreno para a transigência.

A separação entre igreja e Estado não nasceu pronta da cabeça de algum filósofo iluminista -foi a solução que se encontrou depois de que guerras religiosas entre católicos e protestantes ameaçaram dizimar, por mais de um século, países como Inglaterra, França e Alemanha.

E, se atualmente a grande maioria dos católicos e dos protestantes aceita conviver em um mesmo Estado ao lado de muçulmanos, israelitas, umbandistas, adeptos do candomblé e ateus, isso se deve ao fato de que foi possível, contra o desejo de muitos deles, chegar a um equilíbrio.

Ninguém, ou quase ninguém, dirá que o outro é seguidor do diabo, por mais que secretamente queira pensar assim. Pois, nesse caso, não há convivência possível: o diabo tem de ser destruído.

Não vou entrar na polêmica do aborto. Já escrevi a favor de sua descriminalização, apoio um plebiscito e entendo que se possa ser contra o aborto sem invocar nenhum dogma religioso. Embora a questão seja importantíssima para tantas igrejas, envolve considerações que ultrapassam, ou que são mais básicas, do que o ensinamento religioso.

A fé que eu gostaria de contestar, a esta altura da campanha eleitoral, é a fé nos marqueteiros e nas pesquisas de opinião. O maior obscurantismo não está na condenação ou na defesa do aborto. Está no fato de dois candidatos seguirem, como ovelhinhas, o que lhes recomenda a última estatística.

Convenhamos que nem Dilma nem Serra são pessoas religiosas. Que quando um comunga e a outra se persigna, estamos diante de um ritual que não engana ninguém. Serra e Dilma apóiam a lei vigente, que permite o aborto em casos específicos. Os dois, portanto, não são sempre contra o aborto; estão a léguas de distância dos eleitores que desejam conquistar.

Se fosse para fazer tudo o que os religiosos querem, os dois teriam de condenar a pílula, a camisinha e o divórcio. Simplesmente esses temas não apareceram no debate.

Se fizessem uma pesquisa sobre pena de morte, sobre construção da bomba atômica, sobre proibição da nudez nas praias brasileiras, o que diriam esses candidatos?

É fácil saber qual a religião de cada eleitor. Mas quantos homossexuais há no Brasil? Quantas pessoas já tiveram um aborto na família? Como se dividem suas preferências eleitorais? As pesquisas eleitorais não chegam a esse detalhamento.

As pesquisas, acho que já escrevi isso, são o ópio dos candidatos. A inteligência do país inteiro fica embotada nesse processo.

coelhofsp@uol.com.br

———-

Em São Paulo, 20 de Outubro de 2010

“O Mal a Evitar”

Impecável o Editorial do Estadão.

Fui colega de José Serra por muitos anos na UNICAMP. Nunca foi simpático. Trabalhei para ele no início do mandato dele no governo do Estado de São Paulo, em 2007. Apesar disso, continuei a acha-lo, no plano pessoal, chato, irritante mesmo, cheio de manias. Mas não tenho dúvida de que é o candidato mais honesto, mais íntegro, mais capaz e mais preparado para assumir o governo brasileiro no próximo ano. As mulheres que pretendem votar nelas que me desculpem, mas nem a Marina nem muito menos Dilma tem um décimo da competência e da capacidade de José Serra – para não falar em sua experiência. A Marina pode ter a mesma honestidade e integridade, mas não tem a competência, a capacidade e a experiência executiva de José Serra.

Por isso, endosso o Editorial do Estadão, no seu apoio a José Serra e nas suas críticas que faz a Lulla.

Se alguém tinha alguma dúvida quanto ao despreparo de Lulla para o exercício da Presidência da República, o último ano a removeu. Ele provou, além de qualquer dúvida, para quem quer ver, que não tem capacidade sequer para entender a dignidade do cargo que ocupa e pelo menos cumprir a liturgia da função que exerce. Comporta-se, nessas eleições, como cabo eleitoral barato de uma candidata que ele impôs, como porta-bandeira de um partido corrupto, que não se vexa de fazer seus trambiques e tramóias – ou suas maracutais — na própria ante-sala da Presidência, no Palácio do Planalto, diante das barbas, certamente mal-cheirosas (porque ultimamente ele vive babando), do Presidente.

A se confirmarem os resultados das pesquisas, que Deus nos ajude. Vamos precisar. Nunca antes nesse país precisamos tanto.

———-

O Estado de S. Paulo

26 de setembro de 2010

Editorial: O mal a evitar

A acusação do presidente da República de que a Imprensa “se comporta como um partido político” é obviamente extensiva a este jornal. Lula, que tem o mau hábito de perder a compostura quando é contrariado, tem também todo o direito de não estar gostando da cobertura que o Estado, como quase todos os órgãos de imprensa, tem dado à escandalosa deterioração moral do governo que preside. E muito menos lhe serão agradáveis as opiniões sobre esse assunto diariamente manifestadas nesta página editorial. Mas ele está enganado. Há uma enorme diferença entre “se comportar como um partido político” e tomar partido numa disputa eleitoral em que estão em jogo valores essenciais ao aprimoramento se não à própria sobrevivência da democracia neste país.

Com todo o peso da responsabilidade à qual nunca se subtraiu em 135 anos de lutas, o Estado apoia a candidatura de José Serra à Presidência da República, e não apenas pelos méritos do candidato, por seu currículo exemplar de homem público e pelo que ele pode representar para a recondução do País ao desenvolvimento econômico e social pautado por valores éticos. O apoio deve-se também à convicção de que o candidato Serra é o que tem melhor possibilidade de evitar um grande mal para o País.

Efetivamente, não bastasse o embuste do “nunca antes”, agora o dono do PT passou a investir pesado na empulhação de que a Imprensa denuncia a corrupção que degrada seu governo por motivos partidários. O presidente Lula tem, como se vê, outro mau hábito: julgar os outros por si. Quem age em função de interesse partidário é quem se transformou de presidente de todos os brasileiros em chefe de uma facção que tanto mais sectária se torna quanto mais se apaixona pelo poder. É quem é o responsável pela invenção de uma candidata para representá-lo no pleito presidencial e, se eleita, segurar o lugar do chefão e garantir o bem-estar da companheirada. É sobre essa perspectiva tão grave e ameaçadora que os eleitores precisam refletir. O que estará em jogo, no dia 3 de outubro, não é apenas a continuidade de um projeto de crescimento econômico com a distribuição de dividendos sociais. Isso todos os candidatos prometem e têm condições de fazer. O que o eleitor decidirá de mais importante é se deixará a máquina do Estado nas mãos de quem trata o governo e o seu partido como se fossem uma coisa só, submetendo o interesse coletivo aos interesses de sua facção.

Não precisava ser assim. Luiz Inácio Lula da Silva está chegando ao final de seus dois mandatos com níveis de popularidade sem precedentes, alavancados por realizações das quais ele e todos os brasileiros podem se orgulhar, tanto no prosseguimento e aceleração da ingente tarefa – iniciada nos governos de Itamar Franco e Fernando Henrique – de promover o desenvolvimento econômico quanto na ampliação dos programas que têm permitido a incorporação de milhões de brasileiros a condições materiais de vida minimamente compatíveis com as exigências da dignidade humana. Sob esses aspectos o Brasil evoluiu e é hoje, sem sombra de dúvida, um país melhor. Mas essa é uma obra incompleta. Pior, uma construção que se desenvolveu paralelamente a tentativas quase sempre bem-sucedidas de desconstrução de um edifício institucional democrático historicamente frágil no Brasil, mas indispensável para a consolidação, em qualquer parte, de qualquer processo de desenvolvimento de que o homem seja sujeito e não mero objeto.

Se a política é a arte de aliar meios a fins, Lula e seu entorno primam pela escolha dos piores meios para atingir seu fim precípuo: manter-se no poder. Para isso vale tudo: alianças espúrias, corrupção dos agentes políticos, tráfico de influência, mistificação e, inclusive, o solapamento das instituições sobre as quais repousa a democracia – a começar pelo Congresso. E o que dizer da postura nada edificante de um chefe de Estado que despreza a liturgia que sua investidura exige e se entrega descontroladamente ao desmando e à autoglorificação? Este é o “cara”. Esta é a mentalidade que hipnotiza os brasileiros. Este é o grande mau exemplo que permite a qualquer um se perguntar: “Se ele pode ignorar as instituições e atropelar as leis, por que não eu?” Este é o mal a evitar.

Texto publicado na seção “Notas e Informações” da edição de 26/09/2010

———-

Em São Paulo, 27 de Setembro de 2010

Eta país complicado…

Estou no Aeroporto Luís Eduardo Magalhães, em Salvador. Cheguei aqui um pouquinho antes do meio dia e tenho cinco horas de espera para voltar para São Paulo. Estou com meu computador e meu Modem 3G Claro. Mas a bateria de meu computador não dura cinco horas. Na verdade, nem quatro. Fui procurar um lugar com tomada em que pudesse me sentar, ainda que pagando para comer ou beber alguma coisa. Na Praça de Alimentação (há uma aqui) existem algumas tomadas, mas todas tomadas (desculpem o trocadilho) por gente que não parece que vai sair do lugar antes de amanhã. Acabei parando num lugar chamado Conexão Café, onde comi duas empadas e tomei uma cerveja – mas sem tomada. Meu computador indica que minha bateria vai durar 1h57m. São 12h48. Isso significa que, dentro de duas horas, estarei sem computador.

Quando é que as construtoras de aeroportos vão se dar conta de que quase todo mundo hoje viaja com computador, celular, DVD Player, Video Game, etc. e que esses dispositivos precisam ser carregados, especialmente diante das esperas homéricas em nossas carentes aeroportos???

Arre… Queria morar em um país civilizado, onde aeroportos tivessem tomadas à vontade, onde qualquer gaiato não pudesse olhar as declarações de Imposto de Renda da gente… E onde governantes e governados não achassem que estão vivendo no Éden antes da queda…

Em Salvador, 3 de Setembro de 2010

Taiwan, Estados Unidos e Brasil

Um tempo atrás tive de tirar um visto para Taiwan enquanto estava nos Estados Unidos. Fui ao Consulado de Taiwan em Chicago. O visto ficava 18 dólares para entrega em três dias e 36 dólares para entrega em três horas.

Hoje fui tirar o mesmo visto no Consulado de Taiwan aqui no Brasil: 115 reais para entrega em cinco dias, 175 reais (CEM DÓLARES) para entrega em 24 horas.

Pergunta:  Por quê?

Fiz a pergunta à senhora que atendia… Ela me disse que Taiwan cobra dos cidadãos de um país um valor equivalente àquele que aquele país cobra dos cidadãos de Taiwan.

Justo, não é?

Mas pagamos quase três vezes mais porque o governo brasileiro é faminto por dinheiro.

Em Campinas, 20 de Abril de 2010

A letter to Barack Obama and the American People from Jon Voight

Corajosa a carta de Jon Voight, o ator e pai de Angelina Jolie (sogro do Brad Pitt, para quem prefere…), concitando o povo americano a resistir à tentativa de socialização da medicina nos Estados Unidos. Atrás deste, virão outros projetos. E corajosa a sua manifestação em Op-Ed em The Washington Times acerca da educação (tema que levantei aqui recentemente).

———-

A Letter to President Obama and the American People

Jon Voight

"In one year, the American people are witnessing the greatest lie that is cleverly orchestrated by President Obama and his whole administration. The lie is a potent aggression that feeds the needs of people who either have not educated themselves enough to understand the assault upon us all or are the very poor and needy who live to be taken care of.

President Obama feeds these people poison, giving them the idea that they are entitled to take from the wealthier who have lived and worked in a democracy that understands that capitalism is the only truth that keeps a nation healthy and fed. Now the lie goes very deep and President Obama has been cleverly trained in the Alinsky method.

It would be very important that every American knows what that method is. It is a socialistic, Marxist teaching and with it, little by little, he rapes this nation, taking down our defenses, making new language for the Islamic extremists. The world that looked up to us as a symbol of hope and prosperity now wonders what will become of the entire world if America is losing its power. The American people who understand exactly what is taking place have come together in the thousands, vowing to try to stay together as a unit of love and freedom for all men and women, from all walks of life, shivering to think that this once great nation will be a third world country.

This will be the first president to ever weaken the United States of America. President Obama uses his aggression and arrogance for his own agenda, against the will of the American people when he should be using his will and aggression against our enemies. Every loving American for peace and truth and the security of our nation must come out and join the Tea Parties in their states. The opposition will continue their tactics; they will lie and plant their own bullies amongst us. Everyone must pay close attention to who stands next to them. We can weed out the liars and agitators.

Let us all stay in Gods light. Let no man put us asunder. We can and we will prevail.

God bless us all!"

~Jon Voight, April 10th, 2010

(Transcrita de http://www.mikehuckabee.com/index.cfm?fa=News.View&News_id=81ab6429-884d-44fc-b215-057032cbf4d2)

———-

“My Concerns for America”

Jon Voight

Op-Ed, The Washington Times

We, as parents, are well aware of the importance of our teachers who teach and program our children. We also know how important it is for our children to play with good-thinking children growing up.

Sen. Barack Obama has grown up with the teaching of very angry, militant white and black people: the Rev. Jeremiah Wright, Louis Farrakhan, William Ayers and Rev. Michael Pfleger. We cannot say we are not affected by teachers who are militant and angry. We know too well that we become like them, and Mr. Obama will run this country in their mindset.

The Democratic Party, in its quest for power, has managed a propaganda campaign with subliminal messages, creating a God-like figure in a man who falls short in every way. It seems to me that if Mr. Obama wins the presidential election, then Messrs. Farrakhan, Wright, Ayers and Pfleger will gain power for their need to demoralize this country and help create a socialist America.

The Democrats have targeted young people, knowing how easy it is to bring forth whatever is needed to program their minds. I know this process well. I was caught up in the hysteria during the Vietnam era, which was brought about through Marxist propaganda underlying the so-called peace movement. The radicals of that era were successful in giving the communists power to bring forth the killing fields and slaughter 2.5 million people in Cambodia and South Vietnam. Did they stop the war, or did they bring the war to those innocent people? In the end, they turned their backs on all the horror and suffering they helped create and walked away.

Those same leaders who were in the streets in the ’60s are very powerful today in their work to bring down the Iraq war and to attack our president, and they have found their way into our schools. William Ayers is a good example of that.

Thank God, today, we have a strong generation of young soldiers who know exactly who they are and what they must do to protect our freedom and our democracy. And we have the leadership of Gen. David Petraeus, who has brought hope and stability to Iraq and prevented the terrorists from establishing a base in that country. Our soldiers are lifting us to an example of patriotism at a time when we’ve almost forgotten who we are and what is at stake.

If Mr. Obama had his way, he would have pulled our troops from Iraq years ago and initiated an unprecedented bloodbath, turning over that country to the barbarianism of our enemies. With what he has openly stated about his plans for our military, and his lack of understanding about the true nature of our enemies, there’s not a cell in my body that can accept the idea that Mr. Obama can keep us safe from the terrorists around the world, and from Iran, which is making great strides toward getting the atomic bomb. And while a misleading portrait of Mr. Obama is being perpetrated by a media controlled by the Democrats, the Obama camp has sent out people to attack the greatness of Sen. John McCain, whose suffering and courage in a Hanoi prison camp is an American legend.

Gen. Wesley Clark, who himself has shame upon him, having been relieved of his command, has done their bidding and become a lying fool in his need to demean a fellow soldier and a true hero.

This is a perilous time, and more than ever, the world needs a united and strong America. If, God forbid, we live to see Mr. Obama president, we will live through a socialist era that America has not seen before, and our country will be weakened in every way.

Jon Voight is an Academy Award-winning actor who is well-known for his h
umanitarian work.

(Transcrito de http://www.washingtontimes.com/news/2008/jul/28/voight/)

———-

Em São Paulo, 11 de Abril de 2010

“Chega de saudade”

Não sou pessedebista. Na verdade, não sou afiliado ou simpatizante de partido político nenhum. Mas considero o Editorial da Folha de hoje perfeito. Ele está transcrito adiante. Endosso-o em sua totalidade.

Só acrescento o registro que boa parte das mudanças que resultaram na liberalização econômica do Brasil, e colocaram o Brasil na trilha do desenvolvimento econômico, foram feitas por Fernando Collor de Mello. Até o seu governo nossos cartões de crédito tinham uma tarja que dizia “Valid only in Brazil”. Foi ele que chamou os carros feitos pelas quatro montadoras que tinham o monopólio (na realidade, um oligopólio) da fabricação de automóveis no Brasil de carroças – e abriu o mercado para outras montadoras, criando um clima de concorrência do qual nos beneficiamos até hoje.

Itamar Franco deu continuidade à obra de Collor – e teve o mérito de nomear Fernando Henrique Cardoso Ministro da Economia. Foi FHC, como ministro de Itamar, que implantou o Plano Real.

Lulla se beneficiou de tudo isso – que chamou de “herança maldita”.

Crédito a quem crédito é devido.

———-

Folha de S. Paulo
07 de Março de 2010

Editoriais
editoriais@uol.com.br
Chega de saudade

A candidata oficial erra ao voltar-se para o passado com o intuito de forjar uma revanche na disputa particular de FHC e Lula

EM SEU PRIMEIRO discurso depois de deixar a Casa Civil, a candidata Dilma Rousseff insistiu na tentativa de comparar o atual governo com o anterior.

Não se sabe o que pesa mais nessa estratégia enviesada, se a obsessão íntima do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de se medir com o antecessor Fernando Henrique Cardoso ou a percepção de que é mais vantajoso para a representante da situação transformar eleições que decidem o futuro do país em avaliação de fatos passados.

Não é demais lembrar que um brasileiro com 18 anos completados em 2010 comemorava 10 ao término do governo FHC – e era uma criança de dois anos quando o sociólogo tucano assumiu.

Esse hipotético cidadão não terá idade para lembrar em que país se vivia no início da década de 90. Mas, se procurar informações, saberá que coube a FHC, na sequência do impeachment de Fernando Collor, e ainda no governo de Itamar Franco, lançar um plano -depois de várias tentativas frustradas- capaz de superar o perverso ciclo hiperinflacionário que havia anos dilapidava a economia popular e impedia o desenvolvimento do país.

Se pretende incursionar pelo passado, poderia a candidata lembrar a seus potenciais eleitores que o Partido dos Trabalhadores negou sustentação ao presidente Itamar Franco e bombardeou o Plano Real. Ou seja, opôs-se de maneira pueril e ideológica a uma das mais notáveis conquistas econômicas da história moderna do país, que propiciou aos brasileiros pobres benefícios inestimáveis, sob a forma de imediato aumento do poder aquisitivo e inédito acesso ao sistema bancário.

Sabe bem a ex-ministra que se alguém nesses anos mudou de pele foi antes o PT do que o PSDB. O que terá sido a famosa "Carta aos Brasileiros" senão uma providencial e pública troca de vestimenta ideológica do candidato Lula -que, eleito, sob aplausos do mundo financeiro, indicou um tucano para o Banco Central (agora no PMDB) e um ex-trotskista com plumagem neoliberal para a Fazenda?

É um exercício vão buscar comparações e escolhas plebiscitárias entre gestões que se encadeiam no tempo. Os avanços e problemas de uma transformam-se em acúmulo ou em fatos acabados na outra. Ou será que faz sentido questionar como teria sido a gestão lulista se tivesse de formular um plano para vencer a hiperinflação, precisasse sanear instituições financeiras públicas e se visse obrigada a estancar uma crise sistêmica dos bancos privados nacionais?

O Brasil precisa pensar e agir com olhos no futuro. Nada tem a ganhar com a tentativa da candidatura governista de forjar uma revanche de disputas pretéritas. Se o presidente Lula não venceu a contenda com Fernando Henrique Cardoso em 1994 não será agora que o fará -pelo simples motivo de que nenhum dos dois é candidato. O governo que se encerra neste ano teve méritos inegáveis, mas muitos deles, é forçoso reconhecer, nasceram de sementes plantadas no passado.

———-

Em São Paulo, 7 de Abril de 2010
[Obrigado a Gilmar Rocha que, no Facebook, corrigiu dois errinhos meus. Um na data,que eu havia colocado 7 de Março de 2010, e outro no "monopólio" de quatro empresas que, na realidade, é um oligopólio].

Calligaris, me desculpe, mas você está muito errado…

Gosto de ler Contardo Calligaris. Raramente discordo drasticamente do que ele escreve ou diz (participei com ele de um congresso em Bento Gonçalves algum tempo atrás). Mas discordo, e veementemente, do artigo que ele publicou na Folha de S. Paulo de ontem, 1 de Abril de 2010, sobre “pedófilos, celibatários e infalíveis”.

O artigo de Galligaris é uma crítica àqueles que, como eu, acham que o celibato imposto aos sacerdotes católicos romanos tem muito (embora não tudo) que ver com os vários surtos de pedofilia homossexual que acometem os padres.

Não acho que o celibato clerical seja a única causa da pedofilia homossexual católica. Em minha opinião, ele faz parte de um conjunto de causas que me parece impossível negar.

Em dois artigos anteriores, aqui neste blog, toquei nesse assunto.

Neles argumentei em favor de minha conjectura (em três partes) acerca das causas principais do número relativamente elevado de padres que se envolvem com pedofilia homossexual. 

1) O seminarista, futuro padre, é desde cedo doutrinado a ver na mulher a fonte número um do pecado. Como ele vai ser celibatário, e sabe disso, a mulher é a tentação que ele deve evitar a todo custo. A mulher é, para ele, símbolo de tentação: a Eva que, por influência da serpente, induziu Adão a pecar.

2) A Igreja trancafia o futuro padre, em muitos casos desde cedo, em seminários, onde ele fica segregado de mulheres: só vê guris mais ou menos da sua idade – e, naturalmete, os professores (todos homens). Internatos unissex parece que foram bolados para gerar, nos adolescentes, interesse pelo mesmo sexo (principalmente quando o interesse pelo sexo oposto é não só proibido, mas demonizado).

3) Quando vai exercer o sacerdócio, o padre acaba ficando rodeado de coroinhas, parecidos com os seus coleguinhas de seminário menor, que, agora, o admiram e olham para ele como figura de autoridade. E ele, por outro lado, pela sua doutrinação, é condicionado a fugir das mulheres, e pela sua formação em internato unissex, é condicionado a se interessar por meninos… Sendo figura de autoridade, não tem muita dificuldade em convencer os meninos de que sexo (em alguma modalidade) com o sacerdote é parte de seus deveres.

Essa combinação de fatores é fatal: ela acaba produzindo essa série aparentemente infindável de casos de pedofilia homossexual entre padres católicos. Não se trata, como já disse, de meros escândalos sexuais em relação aos quais se possa dizer: “Sou culpado, mas que igreja pode dizer que não é?” Trata-se de um fenômeno tipicamente católico que não adianta tentar generalizar.

Calligaris “ach[a] bizarro que o fim do celibato dos padres seja apresentado como remédio contra a pedofilia”.

Não é só o fim do celibato que é o remédio. Conforme propus no primeiro dos meus artigos sobre o assunto, a solução, evidentemente, é tripla: que a Igreja Católica acabe com o celibato clerical, acabe com a formação para o sacerdócio no confinamento de internatos unissex, e acabe com as figuras de coroinhas e outros meninos que ficam rodeando o padre na sacristia. 

E acabar com o celibato clerical não é apenas permitir que os padres se casem: é mudar drasticamente a visão que a Igreja Católica tem da mulher como uma Eva tentadora perpétua, contra as quais os padres devem se guardar. No fundo, a Igreja Católica tem uma visão perniciosa da mulher porque tem uma visão distorcida da sexualidade. Para ser considerada pura, Maria teve não só de conceber Jesus ainda virgem como precisou permanecer virgem perpetuamente (a despeito do fato de que o Novo Testamento fala claramente nos irmãos de Jesus). A pureza de Maria não poderia sobreviver, na visão católica, à realização, por ela, do ato sexual, ainda que de forma casta, dentro do casamento dela com José, e não por prazer, mas como dever, com a finalidade de procriar (crescer, multiplicar e encher a terra de gente). Como, para a Igreja Católica, o ato sexual só pode ter como finalidade a procriação, atos sexuais homossexuais, que não podem resultar em procriação, são aparentemente vistos como menos graves…

Calligaris se explica:

“Essa ideia [de que o celibato clerical tem que ver com os surtos de pedofilia homossexual] surge de uma visão hidráulica do desejo sexual, como se esse fosse um rio que, se for impedido de correr no seu leito natural, encontrará todo tipo de caminho torto e desviado. Por essa visão, na ausência de esposa, a libertinagem, não tendo para onde ir, transborda e acaba banhando (quem sabe, afogando) as crianças; portanto, os padres pedófilos não precisariam recorrer a meninos e meninas se dispusessem de uma mulher com quem saciar seus apetites.”

É simplista essa análise de Calligaris. Há muitos, acredito, padres católicos ou não, que resistem valentemente ao desejo sexual ou são capazes de o sublimar, sem precisar dar vazão a ele. Este, evidentemente, não é o caso dos padres pedófilos. Estes não controlam nem sublimam seu desejo sexual. Optam por realizá-lo. Tendo feito essa opção, têm de escolher (ainda que tacitamente) como realizá-lo.

a) Para casar normalmente, como todo mundo, o padre terá de abandonar o sacerdócio. Essa é uma opção difícil para a maior parte deles.

b) O padre pode arrumar uma companheira secreta, viver com ela maritalmente, ter seus filhos como se fosse um homem casado. Muitos fazem isso. A Igreja Católica felizmente faz vistas grossas. O Presidente do Paraguai foi bispo, teve uma série de companheiras e deixou uma penca de filhos. Até que se tornou presidente, tudo isso estava tranqüilamente preservado do público. Essa, para o padre que quer continuar padre, é, a meu ver, a mais sadia e a mais sensata das diversas opções. Mas, como se pode ver, ela tem seu ônus, que o Presidente do Paraguai está pagando. Companheiras regulares às vezes ficam grávidas, a Igreja é contra o aborto, elas têm a criança, e o “filho do padre” é sempre um estigmatizado – alem de requerer pensão alimentícia e outros cuidados.

c) Resta a opção pelo mesmo sexo. Sem dúvida há padres homossexuais, cujos parceiros são adultos (também padres ou não). Mas essa opção também tem seu ônus. Se a “mulher do padre” é estigmatizada, “o marido do padre” seria ainda mais… Sobram os meninos, os coroinhas… O fato de que o padre é autoridade, que ele pode exigir os serviços sexuais dos meninos como parte de seus deveres como coroinhas, e a vergonha natural dos meninos que torna difícil revelar o que está acontecendo, tudo isso contribui para que muitos padres apostem nessa forma de realizar sua sexualidade. Acham que ela vai permanecer secreta e, conseqüentemente, impune. Mas, como estamos vendo, uma vez que alguém abra a boca, outros se encorajam a fazê-lo, também, e temos um surto.

É isso. Sem rever a sua doutrina acerca da sexualidade, e, conseqüentemente, a visão de que o pecado original foi sexual e induzido pela mulher; sem rever a doutrina do nascimento virginal de Jesus e da virgindade perpétua de Maria; sem rever a doutrina do celibato clerical; sem rever o confinamento em internatos unissex como a forma ideal de preparar sacerdotes; sem rever a doutrina que impede a ordenação de mulheres e a participação das mulheres em posições importantes na alta hierarquia na Igreja, chegando até mesmo ao Papado, a Igreja Católica não vai conseguir resolver o seu problema de padres pedófilos homossexuais.

A Igreja tentou fazer vistas grossas a esse problema, como sempre fez em relação aos padres que possuem companheiras ou que geram filhos com paroquianas disponíveis. Mas o problema aqui é muito mais sério. Trata-se de um crime – cometido contra menores inocentes.

Discordo mais uma vez de Calligaris quando ele diz:

“Aos meus olhos, nesta história que não acaba, o escândalo maior talvez não seja o abuso das crianças, mas o comportamento oficial da igreja: de maneira consistente e repetida, ela parece colocar seu interesse institucional acima de qualquer consideração moral.”

O escândalo maior é o abuso de crianças, sim. A tentativa de colocar panos quentes sobre o problema afeta apenas a imagem da igreja. O abuso de crianças afeta as crianças também e principalmente.

Adiante, o artigo de Calligaris.

———-

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0104201023.htm 

Folha de S. Paulo
1 de Abril de 2010

CONTARDO CALLIGARIS
Pedófilos, celibatários e infalíveis


Os padres pedófilos são minoria, mas a igreja como instituição trata fiéis como crianças


EM 2002, graças a uma série de artigos do "Boston Globe", estourou, nos EUA, o escândalo dos abusos sexuais de crianças por padres católicos. Desde então, uma onda de denúncias varre a Igreja Católica no mundo inteiro.

Última revelação, no "New York Times" da quinta passada: nos anos 1990, quando ele comandava a Congregação da Doutrina e da Fé, o atual papa, Bento 16, suspendeu o julgamento de um padre americano, acusado de molestar 200 meninos surdos, de cujos espíritos e almas, em princípio, ele devia cuidar.

Aos meus olhos, nesta história que não acaba, o escândalo maior talvez não seja o abuso das crianças, mas o comportamento oficial da igreja: de maneira consistente e repetida, ela parece colocar seu interesse institucional acima de qualquer consideração moral. Escândalo, mas sem surpresa alguma: em geral, o projeto dominante de qualquer instituição é o de durar para sempre.

Mas trégua: não escrevo esta coluna para me indignar. Prefiro contribuir ao debate do momento com duas observações, sugeridas pela psicopatologia e pela clínica.

1) Da conversa de botequim até o pronunciamento de um teólogo que admiro (Hans Küng, na Folha de 21 de março), os abusos sexuais de crianças por padres católicos reavivam as críticas contra o celibato dos padres.

Cuidado, não sou um defensor do celibato dos padres. Ao contrário, parece-me que a experiência de amar e conviver melhoraria a qualidade dos ministros da igreja, porque a tarefa de ser consorte ensina uma humildade que é difícil alcançar na solidão, seja ela orgulhosa e casta ou, então, envergonhada e masturbatória.

No entanto, acho bizarro que o fim do celibato dos padres seja apresentado como remédio contra a pedofilia.

Essa ideia surge de uma visão hidráulica do desejo sexual, como se esse fosse um rio que, se for impedido de correr no seu leito natural, encontrará todo tipo de caminho torto e desviado. Por essa visão, na ausência de esposa, a libertinagem, não tendo para onde ir, transborda e acaba banhando (quem sabe, afogando) as crianças; portanto, os padres pedófilos não precisariam recorrer a meninos e meninas se dispusessem de uma mulher com quem saciar seus apetites.

É raro que eu me expresse de maneira tão direta, mas é preciso dizer: essa ideia é uma estupidez. Fantasias e orientações sexuais nunca são o efeito de acumulação de energia sexual insatisfeita. Um pedófilo poderá, eventualmente, desejar uma mulher e casar com ela, mas o fato de cumprir, mesmo com afinco, o dever conjugal não o livrará das fantasias pedofílicas. Teremos, simplesmente, pedófilos casados, em vez de solteiros.

Não vejo o que ganharíamos com isso, mas vejo, isso sim, na própria proposta, um desprezo inacreditável pelas mulheres que se casariam para servir de válvulas de escape para a "depravação" dos seus maridos. Ninguém merece.

A quem propõe o casamento como solução para a pedofilia dos padres, uma sugestão: proponha um programa compulsório de transa diária com a boneca inflável do Geraldão. Será tão ineficiente quanto o casamento, mas, ao menos, as mulheres serão poupadas.

2) Não é exato dizer que pedófilo é quem gosta de "carne" jovem. Pois o que importa ao pedófilo, o que é crucial na fantasia, é induzir a vítima a aceitar algo que ela desconhece e não entende. A jovem idade da vítima é sobretudo garantia de sua inocência e ignorância, ou seja, do fato de que a vítima não entenderá o que lhe será feito.

Por exemplo, um dos padres denunciados em Boston, em 2002, explicou que seu prazer consistia não tanto em ser satisfeito oralmente por um menino quanto em convencer o menino de que essa era uma forma especial de santa comunhão, que ele, o padre, ensinava e administrava.

Em suma, o pedófilo encontra seu prazer iniciando os ignaros e exercendo sobre eles um poder pedagógico absoluto. Agora, considere o jeito como a Igreja Católica tratou seu rebanho, até ser forçada a reconhecer a culpa de alguns de seus ministros. Considere a prática recorrente de camuflar decisões administrativas em dogmas divinos, considere a repressão teológica em lugar do diálogo e ainda considere a doutrina da pretensa infalibilidade do pontífice. Pois bem, aparentemente, os padres pedófilos são pequena minoria, mas a igreja como instituição trata mesmo seus fiéis como criancinhas.

ccalligari@uol.com.br

———-

Em São Paulo, 2 de Abril de 2010