O Mercado Global de Livros Esgotados e Usados

A finalidade deste artigo é chamar a atenção para um problema da globalização para conscientizar as pessoas interessadas acerca dele e, quem sabe, criar massa crítica que possa sugerir ou mesmo encaminhar soluções com probabilidade de que sejam aproveitadas e implementadas.

Apesar da relativa facilidade atual para comprar livros novos e “in print” vendidos por livrarias globais (físicas ou virtuais) ou que simplesmente têm sede em outro país, em especial, neste segundo caso, quando se trata de grandes livrarias com uma visão e uma missão global e, portanto, com a expectativa de se tornarem globais, há muitos casos em que o livre, rápido e barato trânsito de livros através de fronteiras nacionais ainda é complicado. Não me refiro nem mesmo a taxação para a importação de livros, que, felizmente, no Brasil, inexiste. Também não me refiro de forma prioritária ao custo do despacho de livros através de fronteiras, que ainda é elevado. (Para devolver um livro para a Amazon um tempo desses atrás, com registro, etc., a porcaria do Correio Brasileiro me cobrou a bagatela de R$ 115,00 – nem um centavo a menos, e ainda tive de pagar mais R$ 8,00 para usar uma caixinha fornecida por ele, porque se recusou a aceitar a que eu havia usado.)

Refiro-me especialmente ao comércio de livros que:

  1. já estão esgotados nas editoras (mas que, em alguns casos, estão disponíveis em livrarias de segunda ou terceira linha que se especializam na aquisição de livros “ponta de estoque”);
  2. embora não esgotados, geram um mercado de versões usadas, dado, especialmente, o preço ou a raridade da edição original (raridade por ter sido publicado com tiragem muito pequena).

Esses livros acabam se tornando o nicho dos “sebos” – alguns deles extremamente sofisticados e de alto nível, mas sem condições de competir no mercado global com, por exemplo, a gigante Amazon, enviando livros de um continente para outros em menos de dez dias (às vezes de uma semana), com o processo de transporte e entrega acompanhável pela Internet, com substituição gratuita do livro caso ele se perca pelo caminho ou chegue avariado, etc.

O resultado desse problema que eu pretendo focar tem o seguinte resultado que é dividido em duas linhas:

  1. A Amazon está num processo agressivo de aquisição de livreiros que comercializam livros usados globalmente, já tendo adquirido, pelo menos, a BookDepository e a AbeBooks, que, aos poucos, vão sendo integradas à Amazon, embora ainda operem independentemente;
  2. Os “sebos” que não são adquiridos pela Amazon, em geral porque são pequenos e relativamente inexpressivos numa estratégia global, acabam por estabelecer parceria com a gigante do mercado livreiro, mediante a qual a Amazon torna seus livros disponíveis para seus leitores (incorporação de cadastro), em alguns casos assume a responsabilidade sobre a remessa física dos livros (incorporando o processo de “delivery”), e, em todos os casos, assume a responsabilidade pelo processo de satisfação do cliente (ou sendo, gerenciando o “pós-venda”).

Acontece que os “sebos” que fazem essa parceria com a Amazon impõem suas restrições também, que a gente precisa aceitar, caso queira fazer negócio com eles… Alguns declaram, por exemplo, que não remetem livros para o exterior. Outros remetem para o exterior mas cobram um preço astronômico, que chega a ser duas vezes maior do que o preço do próprio livro. E é sobre isso que eu quero falar um pouco…

Quando quero comprar, através da Amazon, um livro que está esgotado, ou opto por comprar uma versão usada de um livro que, novo, é muito caro, tenho de recorrer a esses “sebos” parceiros (embora a compra seja feita via Amazon). Quando o “sebo” não entrega no exterior, vejo-me diante de um problema. Às vezes eles só têm uma cópia de um livro que é relativamente raro, cujo preço é razoável e que eu preciso ou quero ter desesperadamente… Minha solução, em casos assim, é enviar o livro para a minha filha, nos Estados Unidos, e pedir para ela me enviar pelo correio (USPS – United States Postal Service) ou por algum “courier” (DHL, UPS, etc.). Sai carinho, mas, dependendo do caso e da urgência, vale a pena.

A partir do fim do ano passado, quando já sabia que ela viria para cá agora em Junho, como de fato ocorreu (chegou ontem, 26/06/2017), abuso da bondade dela e peço que ela traga os livros na mala.

Ontem ela chegou com quinze livros – trouxe todos que eu remeti para a casa dela neste primeiro semestre, inclusive um que chegou lá cinco dias antes de ela viajar…

Mas acho que precisaríamos buscar uma solução mais fácil. Dificilmente essa solução virá, hoje, sem a participação da Amazon, que se tornou, indiscutivelmente, a líder, próximo de monopolista, desse mercado. Nós, os usuários inveterados de livros, ficaremos agradecidos.

Em Salto, 27 de Junho de 2017