AIDS, o Grande Inquisidor e as certezas da classe médica

[Este artigo foi escrito em 1989. Até hoje não vi resposta convincente às questões que ele levanta]

É como leigo no assunto que venho tornar pública minha surpresa diante da absoluta certeza demonstrada por uma parte da classe médica de que o vírus HIV é de fato o causador da AIDS. Essa certeza parece ter se acentuado a partir do momento em que um professor alemão, radicado na Califórnia, resolveu questionar a ortodoxia dominante. “O HIV causa AIDS, sim!”, é, por exemplo, o título de um dogmatizante artigo do médico Drauzio Varella, publicado em O Estado de São Paulo de 27/04/89.

A reação à entrevista dada ao Fantástico pelo professor Peter Duesberg não se dignou sequer a levar a sério as idéias por ele externadas: partiu diretamente para argumentos “ad hominem”. Um dos médicos brasileiros que “repercutiu” (se me permitem o jargão jornalístico) a entrevista chegou quase a taxar o professor californiano de um mero “Zé Ninguém” em busca de notoriedade.

O Dr. Varella ataca somente o homem, deixando incólume a tese que este defendeu. Afirma, por exemplo, que o professor Peter Duesberg não é médico, nunca colocou mão em doente, nunca estudou o HIV em laboratório, nunca publicou no campo da AIDS. Além do mais “é nitidamente fascinado pelas câmeras”.

O Dr. Varella é forçado a reconhecer que o professor Duesberg é um Ph.D. e que andou fazendo umas pesquisas importantes na área dos retro vírus (ao qual pertence o chamado vírus da AIDS), mas sua descoberta mais importante é descrita como nada mais do que o desvendamento de “certos mistérios que envolvem a malignização de células da galinha”. C’est tout. Fini.

Contra o professor Duesberg o Dr. Varella afirma, ainda, que suas teses são desmobilizadoras, pois poderão levar muitas pessoas a não tomar tantos cuidados em relação à AIDS, e que poderão dar a impressão de que “nem os próprios cientistas sabem se a AIDS é transmitida por vírus ou não”. Contra essa impressão ele decreta: “Não existe polêmica no mundo científico: é o HIV que provoca AIDS, e ponto final”. O professor Duesberg acaba de ser colocado fora do mundo científico.

Eu, como leigo no assunto, mas razoavelmente interessado em encontrar sentido naquilo que os especialistas, reais ou auto-proclamados, afirmam, permito-me algumas considerações semi-epistêmicas sobre o assunto.

1) Parece-me um absurdo, em primeiro lugar, a utilização descarada da argumentação “ad hominem”. Tudo bem, o professor Duesberg não é médico. Mas e daí? Vamos analisar o que ele disse, não quem ele é. Afinal de contas, de vez em quando um não-médico também diz alguma coisa que faz sentido e que pode até ser verdadeira. Não me consta que os médicos detenham o monopólio do saber, nem mesmo na área restrita da medicina. Muito menos em áreas envolvendo pesquisas de ponta da biologia. O fato de não ter colocado as mãos em doentes de AIDS não desqualifica o professor Duesberg, a priori, para fazer afirmações sobre vírus, em geral, e o dito da AIDS em particular. E se o fato de supostamente “ser fascinado pelas câmeras” tornasse suas afirmações automaticamente inverídicas, não sei bem o que restaria de verdade dentro da comunidade médica, pois alguns dos defensores da ortodoxia vigente na área da AIDS no Brasil me parecem vítimas pelo menos igualmente graves da mesma fascinação, para não mencionar o encanto pelas páginas dos jornais.

2) Parece-me, porém, ainda mais absurdo criticar o professor Duesberg com base na alegação de que sua tese desmobiliza todo o esforço hoje sendo feito no sentido de reduzir a infecção pelo HIV. Ora, é isso, porventura, argumento que se apresente? Ainda que o Dr. Duesberg estivesse redondamente errado, a forma de combatê-lo seria mostrar que sua tese é falsa, não apelar para o seu potencial desmobilizador. Afinal de contas, o próprio professor Duesberg deixou claro, no Fantástico, para quem quis ouvir, que, mesmo que ele esteja certo em relação ao HIV, a mobilização é importante, porque a síndrome que se chama de AIDS está estreitamente relacionada a hábitos ou estilos comportamentais.

Mas vou além: ainda que o professor Duesberg estivesse propondo a tese de que a forma de contrair AIDS não tem nada que ver com o HIV nem com hábitos ou estilos comportamentais, e que, portanto, toda a mobilização atual é desnecessária, ainda assim, repito, a afirmação de que sua tese é desmobilizadora em nada a invalida.

3) O Dr. Varella afirma que não teria havido “nada de mais” se o professor Duesberg tivesse restringido suas opiniões ao círculo “de sofisticada discussão acadêmica” e tivesse se limitado à “elegância do estilo científico”. O problema foi que ele levou suas idéias “aos meios de comunicação de massa”.

Essa técnica de argumentação me faz lembrar “O Grande Inquisidor”, do romance Os Irmãos Karamazov, de Dostoiewsky. Por detrás do dito, o não-dito correria mais ou menos assim: “Nós, pesquisadores e médicos, sabemos, aqui entre nós, que o professor pode ter razão. Mas não é bom divulgar isso, porque vai fazer com que os costumes do povão voltem a se deteriorar. Toda a ‘indústria da AIDS’ pode ser desmontada se o povão acreditar no que diz o professor. As empresas farmacêuticas não vão fabricar mais tantas camisinhas, nem tantos ‘kits’ de testes anti-HIV, Elisa, Western Blot, etc. E nós, os protetores dos enfermos aidéticos, vamos perder nosso acesso à tribuna da imprensa, para não falar nas consultorias e nas verbas para pesquisa, etc.”. “O Grande Inquisidor” defendia postura idêntica: é importante fazer o povão acreditar em “mentiras pias”, que nos permitem controlá-lo melhor e tê-lo à nossa mercê.

Foi com base em posturas desse tipo que muito incrédulo mandou herejes para as fogueiras na Inquisição — não porque os hereges dissessem algo de que discordassem, mas porque os hereges o diziam abertamente, em praça pública (diante das câmeras de televisão, dir-se-ia hoje).

4) Em resumo, o que é que disse o professor Duesberg? Ele disse, fundamentalmente, o seguinte:

A) Não se tem conhecimento de nenhum caso de infecção virótica que se manifeste sete ou oito anos depois de a pessoa haver contraído o vírus e após ter desenvolvido os anti-corpos a esse vírus. As infecções viróticas geralmente se manifestam logo após o vírus ter sido contraído.

B) As pessoas que contraem o HIV, segundo a evidência disponível, desenvolvem anti-corpos (na verdade os testes verificam a presença não do vírus em si, mas de anti-corpos a ele), e ficam sem manifestação alguma da doença por vários anos — sete a oito, em média. Pode até dar-se o caso de algumas pessoas terem contraído o vírus e nunca virem a ter manifestação alguma da doença.

C) Esse fato, em si, é indicativo de que a causa da doença não é a presença do vírus no organismo. Este já foi tornado ineficaz, como demonstra a presença dos anti-corpos. Daqui a vinte anos, afirmou o professor Duesberg, a comunidade científica vai rir de quem um dia afirmou que um vírus contraído oito anos antes, e cuja ação já foi tornada ineficaz, pudesse ainda causar uma doença e, finalmente, a morte de uma pessoa.

D) O professor Duesberg afirmou que o que é hoje chamado de AIDS é uma síndrome de doenças, que possuem manifestações diferenciadas e provavelmente etiologias diferentes, dependendo dos grupos de comportamento de risco das pessoas que as contraem: homossexuais, viciados em drogas, etc. Mais perigoso para a saúde (inclusive imunológica) da pessoa é sua promiscuidade sexual, o conteúdo de suas seringas, do que ser homossexual ou usar agulha contaminada.

E) Afirmou, por fim, o professor Duesberg que remédios, como o AZT, que estão sendo utilizados contra a AIDS, em função da visão dominante quanto à sua etiologia, estão causando mais mal do que bem e que na verdade podem estar realmente matando os pacientes.

5) São essas afirmações que eu, como leigo neste assunto, gostaria de ver discutidas pela classe médica. E gostaria de ver argumentos reais, e não meros “argumentos” de autoridade. Para mim, dizer que fulano de tal, prêmio Nobel, ou diretor de um famoso hospital, não concorda com o professor Duesberg, não significa nada: quero ver alguém refutando as afirmações do professor. Seria pedir demais à classe médica?

E não adianta simplesmente reiterar a verdade recebida, dizendo, “O HIV causa AIDS, sim!”, por mais pontos de exclamação que possam ser colocados após o “sim”, nem dizer, como disse um outro entrevistado do Fantástico, que é um pesquisador contra 50.000. O problema não é de aritmética nem se resolve no voto.

Alguém se habilita a realmente responder ao professor de Berkeley?

Em Salto, 29 de março de 2006 (artigo escrito em 1989)

De cães e gatos

A presente crônica é aproveitada de uma mensagem que escrevi em uma das listas de discussão que coordeno. Na mensagem, falei dos vários cães que tenho em meu sítio (“O Canto da Coruja”) aqui em Salto. Meu dileto amigo, Axel de Ferran, francês de nascimento, tio do Gil de Ferran (chefe do Rubinho Barichello) e gatófilo juramentado, protestou que eu nada houvesse dito acerca dos gatos do sítio. A mensagem é uma resposta ao Axel. 

Não tenho gatos, Axel. Na verdade, não gosto de gatos – em parte, exatamente pela índole deles, que você sublinha tão bem: eles gostam de disfarçar, enganar, fazer charme… Enfim, são falsos. [Mulheres: notem, por favor, que NÃO estou concordando com o Axel que essas características os gatos compartilham com a sub-espécie feminina da espécie humana].

Como todo mundo nesta lista [e que lê este blog] sabe, defendo a tese de que nós, humanos, devemos ser egoístas, cuidar, acima de tudo, de nossa felicidade. Mas não defendo a tese de que animais de estimação devam também ser egoístas. Eles existem para causar prazer aos seus donos – o que vale dizer que existem exclusivamente para ser altruístas (o seu “alter” sendo nós, seus donos). Sua felicidade, portanto, é a nossa. Eles estão felizes quando nós estamos felizes. Ponto final. Na verdade, diria que o altruísmo é atitude que cai como uma luva em animais de estimação – e que não serve, de maneira alguma, para nós humanos (a menos que pretendamos nos rebaixar à condição de animais de estimação dos outros, que vivem, não em função de sua própria felicidade, mas do bem estar dos outros).

Gatos são egoístas. Fazem de conta que são humanos. Eles não vêm lhe fazer festa quando você está querendo festa. Eles só chegam perto de você quando ELES querem um afago. Tente afagar um gato quando ele não quer se afagado. Ele arranha você, mesmo que você seja seu dono. E se você, idiotamente, cai na deles e os afaga – mas os afaga mais do que eles querem, eles se levantam e vão embora. Sem dar satisfação. Sem sequer dizer "merci".

Se você chegar em casa numa noite fria e chuvosa, não espere que os seus gatos estejam lá no portão / na porteira, para lhe dar boas-vindas. Os gatos estarão dormindo, num bem-bom, quentinhos… Se bobear, na sua cama e com a sua mulher… Os cachorros, não… Saem de suas casinhas e vêm correndo lhe dar boas-vindas… Se um deles tentar pular em você com as patas meio sujinhas, e você der um grito horrorizado e grosseiro de "Passa!!!", ele fica meio surpreso, pensando, com seus botões: "O que será que houve com ele? Eu saí lá da minha casinha para vir festejá-lo, nesse frio e nessa chuva, e ele grita comigo, como se eu fosse um leproso?… Acho que ele teve algum problema na festa a que foi! Só pode ser". E tenta de novo… Outro "Passa!!!" Pensa que ele desiste? Não! Fica lá, com o rabinho entre as pernas, murcho – mas a carinha dele diz que, assim que você o chamar, ele vem correndo para se prostrar diante de seu amo e senhor. Afinal de contas, ele sabe que existe para faze-lo feliz. Ele sabe perdoar melhor do que um cristão — ele perdoa os gestos impensados daqueles que ele considera amigos (dos quais o mais importante É VOCÊ) – mas nunca perdoa os inimigos. Inimigos são inimigos "pour toujours", "for ever". 

E se algum ladrão tentar invadir a sua casa? Ao primeiro sinal de problemas, os gatos todos desaparecem. Somem sem deixar traço. Só quando o problema acaba é que reaparecem com aquele ar de quem não sabe o que houve… "Aconteceu algum problema? Tá todo mundo com uma cara meio estressada!!!", dirá o gato-chefe-da-casa, tentando fazer uma graça para relaxar o ambiente. O cachorro, se o ladrão tenta entrar, late, rosna, mostra os dentes, corre pra lá e pra cá, pula na cerca. Se o ladrão consegue passar do portão, ele o ataca fisicamente. Se o ladrão dá um tiro de revólver na direção de alguém da família, o cachorro é capaz de pular na frente para receber a bala no lugar do familiar.

Cachorro é altruísmo puro (como é absolutamente certo quando se trata de cachorros). Diria até mesmo que o cachorro é o mais cristão dos animais: o perfeito animal sacrificial (deixa os carneiros e as ovelhas, tradicionais animais de sacrifício, quilômetros para trás, pois o cachorro se oferece voluntariamente ao sacrifício – os outros animais apenas se prestam ao sacrifício).

Por essas e outras, Axel, se aparecer algum gato por aqui, boto imediatamente carvão na churrasqueira. E abro uma garrafa de vinho francês.

[Aqui entre nós e tendo em vista o fato de que você é francês de nascimento: para acompanhar carne de gato, o vinho seria branco ou tinto?] 

[ET: Dedico essa crônica à minha cachorrinha preferida, a Jul – amor recente, mas fulminante, como é o caso de quase todos amores à primeira vista. Felizmente, estou convicto de que o sentimento é “reciprocado”.]

Em Washington, 14 de março de 2006

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[A seguir, uma crônica do Rubem Alves sobre assunto afim, aparentemente publicada ou a ser publicada na Folha de S. Paulo]

Sobre os Gatos

Numa tive intimidade com os gatos e sempre os olhei de longe, com desconfiança. Preconceito meu sustentado por uma estória que minha mãe contava de um gato que havia matado um padre. Hoje sei que ele não o teria feito se não tivesse razões… Os bichos que amo são os cachorros e eles me amam. Meu amor pelos cachorros se consusbstanciou num artigo que escrevi sobre minha cadela Lola, a pedido da redação da Folha. Olhando para os seus olhos que estavam fixos nos meus eu me perguntei: “O que será que ela pensa de mim?” Sobre isso escrevi.

Cães, nem sei quantos tive: Pastores, Dobbermans, Dálmatas, Boxers, Weimaraners, Cockers… Os Dobberman foram os mais obedientes; os Boxers, os mais mansos e efusivos. A Nina, cadela Dálmata foi a mais desobediente e não gostava de crianças. Era preciso trancá-la quando havia crianças em casa.

Menino, eu sonhei ter um cãozinho. Mas nunca me foi permitido ter um. Realizei o meu sonho simbolicamente: comprei um caderno de desenho dos grandes no qual fui colando fotografias de cachorros que eu recortava de revistas . Meu amor pelos cachorros assim se realizou platonicamente.

Mas nunca tive simpatia pelos gatos. Também eles nada fizeram para que eu gostasse deles. Os cachorros são comunicativos, querem fazer amigos, são dotados de um humor italiano, fazem barulho, estão sempre sorrindo com o rabo, gostam de brincar e seu único desejo é agradar os seus donos. Uma amiga enviou-me um e-mail contando da sua cadela Labrador, adolescente, chamada Lua. Pois a Lua gosta de plantas, especialmente bromélias, que ela arranca do jardim e deposita na porta da cozinha com latidos de felicidade, latidos esses que, se traduzidos, querem dizer: “Eis o presente de flores que colhi no campo para você…”

Os cães se parecem tanto com os humanos! O que já havia sido constatado por um dos nossos antigos Ministros que, inquirido sobre as razões que lhe permitiam transportar o seu cão em carro oficial, explicou: “Os cachorros também são seres humanos…”

Se isso tivesse acontecido no Egito Antigo, e um ministro fosse inquirido pelo seu uso das carruagens oficiais para transportar o seu gato, a resposta seria mais surpreendente: “Não sabe o senhor que os gatos são seres divinos?” Sim, no Egito os gatos eram deuses. Talvez algo dessa teologia tenha escorrido até nós. Pois não dizemos de uma mulher bonita “Ela é uma deusa” e, para completar, “Ela é uma gata”?

Mas comecei a mudar de idéia sobre os gatos quando minha filha me deu um gato de presente. E logo ficamos amigos, eu e o gato.

Hoje o meu médico clínico me enviou um artigo que apareceu no The New England Journal of Medicine, July 26, 2007, um dos mais respeitados periódicos das ciências médicas. Sobre um gato chamado Oscar. Oscar vive numa instituição que acolhe pessoas num estado terminal. Diariamente ele segue uma rotina. Abre os olhos preguiçosamente e põe-se a fazer aquilo a que os médicos dão o nome de visita: vai de leito em leito, sobe na cama, cheira o ar e faz o seu diagnóstico. Se não é para acontecer naquele dia ele desce e vai para o leito seguinte onde repete o procedimento. Se, por acaso, sua misteriosa sensibilidade deteta o cheiro ou as vibrações ou a música da morte, ele se aloja junto ao moribundo e a enfermeira sabe que é preciso avisar os parentes.

Isso me deixou um tanto apreensivo porque o meu gato tem insistido em dormir na minha cama e é preciso expulsa-lo fazendo uso da força. Será que ele faz isso por gostar de mim ou para que os outros avisem meus parentes?

[A crônica do Rubem Alves foi acrescentada em 3 de Junho de 2009]

Brasil pobre

O problema, já disse várias vezes, não é que o Brasil é um país desigual, como alardeia já no título a matéria abaixo publicada na Folha de hoje. O problema é que o Brasil é um país pobre. O problema é que os 10% mais ricos brasileiros são pobres.

Ou vejamos.

Eis um dos pontos focais da matéria abaixo:

Em 1995, 89% da renda dos 10% mais pobres do Brasil vinha do trabalho (e 11% de atividades não relacionadas ao trabalho). Em 2004, essa porcentagem caiu para 48%, ou seja, mais da metade (52%) da renda do trabalhador mais pobre no Brasil não vinha do trabalho. O principal componente da renda que não vem do trabalho entre os mais pobres foram os programas de transferência de renda

Diz a economista Lena Levinas, em passagem citada na própria matéria:

"O mais grave é verificar que a renda dos mais pobres caiu mesmo com a participação dos programas de governo. Se esses dados forem consistentes, eles mostram que não estamos complementando a renda para os mais pobres viverem melhor, mas gerando uma renda para viverem quase que exclusivamente dela. Estão deixando de ser trabalhadores para se tornarem assistidos. Isso é dramático".

É realmente dramático.

Continua Lena Levinas:

"O pior desenho de política de combate à pobreza que a gente pode ter é justamente esse que condiciona o benefício a um nível de rendimento extremamente baixo. O beneficiado não pode ter mobilidade social porque, se aumentar sua renda, terá que abrir mão da bolsa. Como abrir mão de algo que é permanente para trocá-lo por algo instável?"

É isso.

Quanto mais você dá dinheiro nas mãos do pobre, através de programas que o incentivam a se manter fora do mercado de trabalho, menos inclinado ele se sente a trabalhar.

Em todo lugar do mundo é assim. Nos Estados Unidos, quando o governo resolveu premiar as mães solteiras com uma substancial mesada por filho, elas não pararam mais de ter filhos e começaram a tê-los cada vez mais cedo. E nunca mais trabalharam. Nem se casaram, porque ao casar-se, perderiam o benefício. Seu trabalho passou a ser (desculpem a crudeza) deitar e abrir as pernas.

Se aumentarmos as esmolas governamentais, nesse modelo, em pouco tempo 0% da renda dos mais pobres virá do trabalho. Daí os pobres estarão dependendo 100% do governo — que é o que o governo quer!

O resultado (que, surpreendentemente, ninguém tira) será que o candidato que prometer não só continuar mas aumentar as mesadas, ganhará os votos dos mais pobres.

Se isso não é compra de votos, não o sei o que possa ser. Tenta-se punir o candidato que oferece transporte ao eleitor no dia da eleição. Mas o governante, candidato à reeleição, que dá dinheiro de mão beijada ao pobre, esperando o seu voto no dia da eleição, esse é elogiado.

O outro ponto focal da matéria abaixo é o seguinte:

De 1995 a 2004 houve queda na renda média também dos 10% mais ricos, que caiu de R$ 4.230 para R$ 3.305.

Impressionante. Os 10% mais ricos do Brasil têm renda média de 3.305,00 — menos de 10 salários mínimos. Esse dado me preocupa tanto quanto o outro. O Brasil nunca vai ser um país sustentavelmente desenvolvido com esse tipo de renda média dos mais ricos. É ridículo.

Em Salto, 25 de dezembro de 2005

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Folha de S. Paulo

25 de dezembro de 2005

BRASIL DESIGUAL

Estudo do Cebrap mostra maior dependência de programas sociais

Pobres se distanciam de ricos e dependem mais do governo

ANTÔNIO GOIS

DA SUCURSAL DO RIO

O processo de exclusão do mercado de trabalho da população extremamente pobre no Brasil se intensificou de 1995 a 2004. Nesse período, o rendimento médio dos trabalhadores que se encontram entre os 10% mais pobres caiu 39,6% ao mesmo tempo em que aumentou a dependência dos programas sociais do governo.

Em 1995, 89% da renda dessa população vinha do trabalho. Em 2004, essa porcentagem caiu para 48%, ou seja, mais da metade da renda do trabalhador mais pobre no Brasil não vinha de sua atividade no mercado de trabalho.

Essas são conclusões de um estudo do sociólogo Álvaro Comin, do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), a partir da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), do IBGE. O trabalho mostra que no extremo oposto, o dos 10% mais ricos, a queda no percentual de renda do trabalho não foi tão intensa: passou de 83% para 77%.

O estudo mostra também que, analisada a partir de seus extremos de riqueza e pobreza, a economia brasileira não parou de produzir desigualdade e a distância entre os 10% mais ricos e os 10% mais pobres aumentou.

De 1995 a 2004 houve queda na renda tanto dos 10% mais ricos quanto na dos 10% mais pobres. No extremo da riqueza, o rendimento médio total dos trabalhadores caiu 21,9%, de R$ 4.230 para R$ 3.305. No outro extremo, a queda foi ainda maior: de R$ 96 para R$ 58, variação de -39,6%.

Por causa da queda maior entre os mais pobres, a distância entre os dois segmentos aumentou. Em 1995, era necessário somar a renda de 44 brasileiros entre os mais pobres para igualar a renda de um mais rico. Em 2004, essa proporção aumentou para 57.

Essa análise da desigualdade nos extremos contrasta com a divulgada no mês passado pelo IBGE, que mostrou que o índice de Gini (que mede a concentração de renda) vêm caindo desde 1993.

Não se trata, porém, de erro de uma ou outra pesquisa. A explicação é que o Gini trabalha com uma média de rendimentos onde há um peso grande no seu cálculo dos estratos intermediários, ou seja, aqueles que não estão nos extremos mais pobres ou mais ricos da população. Foram esses extremos o foco da leitura do Cebrap.

Para Comin, o principal componente da renda que não vem do trabalho entre os mais pobres foram os programas de transferência de renda. Ele afirma que eles desempenharam um papel importante de não deixar que a renda dos mais pobres caísse ainda mais. No entanto, foram insuficientes para alterar de forma estrutural a dinâmica de produção de desigualdade da economia.


Dramático

A economista Lena Lavinas, da UFRJ, ressalvando que não teve acesso ao estudo, afirma que o que os dados do Cebrap revelam de "dramático" é o fato de a inserção mais plena dos mais pobres no mercado de trabalho estar praticamente desaparecendo.

"O mais grave é verificar que a renda dos mais pobres caiu mesmo com a participação dos programas de governo. Se esses dados forem consistentes, eles mostram que não estamos complementando a renda para os mais pobres viverem melhor, mas gerando uma renda para viverem quase que exclusivamente dela. Estão deixando de ser trabalhadores para se tornarem assistidos. Isso é dramático", diz.

A economista defende que, diante desse quadro, é necessário repensar a estrutura do Bolsa-Família: "O pior desenho de política de combate à pobreza que a gente pode ter é justamente essa que condiciona o benefício a um nível de rendimento extremamente baixo. O beneficiado não pode ter mobilidade social porque, se aumentar sua renda, terá que abrir mão da bolsa. Como abrir mão de algo que é permanente para trocá-lo por algo instável?".

O economista Marcio Pochmann, da Unicamp, vê nos dados do Cebrap a confirmação de que a economia passa por um quadro que ele chama de "polarização social", ou seja, de distanciamento da renda dos mais ricos em relação aos mais pobres. "Os programas de transferência de renda são o que é possível fazer numa economia que não cresce de forma sustentada e são compatíveis com os programas de ajuste fiscal. Gasta-se relativamente pouco do PIB com o Bolsa Família, mas faltam recursos para investir em escolas, hospitais e outros serviços públicos que ajudariam de forma mais eficiente essa população a vencer a pobreza e ingressar no mercado de trabalho", diz Pochmann.

Para a economista Sonia Rocha, a tendência de redução de desigualdade (medida pelo IBGE pelo índice de Gini) ainda não é robusta. "Essa redução depende do tipo de crescimento econômico e da oferta e demanda por mão-de-obra qualificada. Com crescimento rápido e insuficiência de oferta de mão-de-obra qualificada, a desigualdade de rendimentos de trabalho tende a aumentar."

Feliz Natal

Não tenho religião. Há cerca de 35 anos que me reconheço ateu. Se não acredito em Deus, não posso crer que Jesus seja seu filho – nem reconheço o suposto milagre de ter ele nascido de uma virgem. Logo, segundo alguns, eu não teria razão para comemorar o Natal. Mas o comemoro — exatamente pela razão que os pios defensores do cristianismo o criticam.

Ainda ontem ouvia a CBN entrevistar um teólogo — de sobrenome germânico e sotaque típico de padres católicos — acerca do significado do Natal. Foi a mesma ladainha de sempre: crítica ao "comercialismo" que cerca a festa, crítica ao "presentismo", crítica às ceias elaboradas. Para o teólogo, se se vai dar presentes, deve-se dar um presentinho simples, barato, simbólico — simbólico do fato de que o presente que Deus nos teria dado no Natal foi dado de graça… (mas será que, mesmo dentro da simbologia cristã, não teria custado nada?). Para o teólogo, se vamos cear (e todos nós temos de comer), devemos optar por uma refeição singela, pouco calórica — também simbólica da pobreza em que Jesus teria nascido, numa mangedoura…

Todo Natal ouço / leio analistas repetindo essas bobagens.

Quanto a mim, o que acho bonito nessa época é o esforço que as pessoas fazem para se reunir com aqueles a quem amam, o esforço para, pelo menos uma vez no ano, sentarem-se todos ao redor de uma mesa farta, o esforço para presentar aqueles de quem gostam. O Natal é o Dia de Ação de Graças brasileiro — já que, diferentemente dos irmãos do Norte, não celebramos a quarta quinta-feira de Novembro.

Algum astuto pode perguntar: mas se você é ateu, a quem dar graças?

"Dar graças", na minha sintaxe pessoal, é uma expressão que não precisa ter um destinatário específico — dispensa, portanto, um objeto transitivo indireto. A expressão representa o nosso reconhecimento de que boa parte do quinhão que nos cabe nessa vida é derivado da sorte. A gente poderia ter nascido no Iraque. Nascemos aqui. Tivemos sorte. A gente poderia ter sido filho de Saddam Hussein. Não fomos. Tivemos sorte. A gente vai atravessar a rua e é quase tolhido por um caminhão em velocidade: mais um passo nosso e estaríamos mortos, mas não demos esse passo. Tivemos sorte. Quem acredita em Deus prefere acreditar, nesse último caso, num pequeno milagre. Eu digo que tivemos sorte.

Muita gente morre num primeiro infarto. Eu tive sorte. Muita gente tem filhos que são vabagundos, drogados, salafrários. Eu tive sorte. Muita gente tem, como Sócrates, uma mulher que o faz preferir tomar cicuta. Eu tive sorte. Muita gente não tem por que, ou com quem, ou com que comemorar o final de mais um ano bem sucedido. Eu tive sorte.

Portanto, tenho muito pelo que dar graças.

Os impertinentes vão dizer que, ao reconhecer o papel da sorte, eu contradigo meu ponto de vista já conhecido de que nosso sucesso na vida depende em grande medida de nosso talento e de nosso esforço. Não creio que me contradiga. Quando afirmo isso, que é algo em que sinceramente acredito, sempre reconheço que há, no sucesso ou no fracasso de nossos projetos de vida, ao lado do talento, ou da falta dele, e do esforço, ou da falta dele, sempre um elemento de sorte — alguns chamam esse fator de "serendipity", que meu dicionário Inglês – Espanhol traduz como "hallazgo casual beneficioso, hallazgo afortunado, hallazgo no esperado; buena racha". Buena racha é bom…

Passo meu Natal aqui com a família no meu recanto em Salto. Os dias aqui têm sido lindos — mas terrivelmente quentes. Bons para serem curtidos dentro da piscina, protegidos por um bom filtro solar.

Eu tenho sorte de que posso celebrar a festa de Natal junto aos filhos, aos netos, e, naturalmente, à mulher, companheira de mais de 31 anos. Apenas minha filha e minhas netas que moram nos Estados Unidos não estarão aqui.

Mas elas chegam em aproximadamente três semanas.

Um abraço a todos. Que os presentes lhes agradem e que a comida seja farta e gostosa — e que o ambiente seja propício à confraternização.

Em Salto, 25 de dezembro de 2005

Jaborice, o mais novo neologismo

Acabo de criar um novo termo: jaborice. Seu significado é simples: uma jaborice é uma burrice que apenas a ignorância de Arnaldo Jabor pode conceber.

Tenho uma perfeita ilustração do uso do termo, retirada do comentário do próprio Arnaldo Jabor na CBN hoje (27 de setembro de 2005). Comentando a triste sorte de New Orleans, vítima do segundo furacão em poucos dias, sorte essa que ele insiste em considerar responsabilidade do presidente Bush e dos republicanos, ele disse que a maior contribuição que os Estados Unidos deram ao mundo foi o jazz. Sic. Literalmente isso. Sem tirar nem pôr.

Antes de dizer mais nada, esclareço que sou um amante do jazz e dos blues, músicas tipicamente negras. Mas entre admirar o gênero, como muitos o fazem, e afirmar que o jazz é a maior contribuição dos Estados Unidos ao mundo vai uma distância tremenda.

E a noção de um estado de direito, fundamentado nos direitos individuais reconhecidos na Constituição, tão bem defendida por Thomas Jefferson?

E a noção de uma “Carta de Direitos” (“Bill of Rights”) do indivíduo, que proíbe o estado de infringir esses direitos, tão bem defendida por Thomas Jefferson?

E a noção da separação dos poderes, que limita o poder do governo através de “checks and balances”, mais uma vez defendida por James Madison?

E a noção de que mesmo o indivíduo mais humilde pode ascender aos postos mais altos da nação, na esfera política, econômica, e cultural, tão bem ilustrada por tantos que foram “from rags to power, riches and fame”?

E as grandes invenções dos grandes inventores americanos?

E as grandes descobertas científicas realizadas nos Estados Unidos, ainda que por pesquisadores de outras nacionalidades, tantas vezes reconhecidas com um Prêmio Nobel?

O Jabor de vez em quando diz alguma coisa interessante. Pena é que, para ouvir uma das coisas interessantes que de vez em quando tem a dizer, tenhamos de ouvir tanta jaborice.

Em Campinas, 27 de setembro de 2005