De cães e gatos

A presente crônica é aproveitada de uma mensagem que escrevi em uma das listas de discussão que coordeno. Na mensagem, falei dos vários cães que tenho em meu sítio (“O Canto da Coruja”) aqui em Salto. Meu dileto amigo, Axel de Ferran, francês de nascimento, tio do Gil de Ferran (chefe do Rubinho Barichello) e gatófilo juramentado, protestou que eu nada houvesse dito acerca dos gatos do sítio. A mensagem é uma resposta ao Axel. 

Não tenho gatos, Axel. Na verdade, não gosto de gatos – em parte, exatamente pela índole deles, que você sublinha tão bem: eles gostam de disfarçar, enganar, fazer charme… Enfim, são falsos. [Mulheres: notem, por favor, que NÃO estou concordando com o Axel que essas características os gatos compartilham com a sub-espécie feminina da espécie humana].

Como todo mundo nesta lista [e que lê este blog] sabe, defendo a tese de que nós, humanos, devemos ser egoístas, cuidar, acima de tudo, de nossa felicidade. Mas não defendo a tese de que animais de estimação devam também ser egoístas. Eles existem para causar prazer aos seus donos – o que vale dizer que existem exclusivamente para ser altruístas (o seu “alter” sendo nós, seus donos). Sua felicidade, portanto, é a nossa. Eles estão felizes quando nós estamos felizes. Ponto final. Na verdade, diria que o altruísmo é atitude que cai como uma luva em animais de estimação – e que não serve, de maneira alguma, para nós humanos (a menos que pretendamos nos rebaixar à condição de animais de estimação dos outros, que vivem, não em função de sua própria felicidade, mas do bem estar dos outros).

Gatos são egoístas. Fazem de conta que são humanos. Eles não vêm lhe fazer festa quando você está querendo festa. Eles só chegam perto de você quando ELES querem um afago. Tente afagar um gato quando ele não quer se afagado. Ele arranha você, mesmo que você seja seu dono. E se você, idiotamente, cai na deles e os afaga – mas os afaga mais do que eles querem, eles se levantam e vão embora. Sem dar satisfação. Sem sequer dizer "merci".

Se você chegar em casa numa noite fria e chuvosa, não espere que os seus gatos estejam lá no portão / na porteira, para lhe dar boas-vindas. Os gatos estarão dormindo, num bem-bom, quentinhos… Se bobear, na sua cama e com a sua mulher… Os cachorros, não… Saem de suas casinhas e vêm correndo lhe dar boas-vindas… Se um deles tentar pular em você com as patas meio sujinhas, e você der um grito horrorizado e grosseiro de "Passa!!!", ele fica meio surpreso, pensando, com seus botões: "O que será que houve com ele? Eu saí lá da minha casinha para vir festejá-lo, nesse frio e nessa chuva, e ele grita comigo, como se eu fosse um leproso?… Acho que ele teve algum problema na festa a que foi! Só pode ser". E tenta de novo… Outro "Passa!!!" Pensa que ele desiste? Não! Fica lá, com o rabinho entre as pernas, murcho – mas a carinha dele diz que, assim que você o chamar, ele vem correndo para se prostrar diante de seu amo e senhor. Afinal de contas, ele sabe que existe para faze-lo feliz. Ele sabe perdoar melhor do que um cristão — ele perdoa os gestos impensados daqueles que ele considera amigos (dos quais o mais importante É VOCÊ) – mas nunca perdoa os inimigos. Inimigos são inimigos "pour toujours", "for ever". 

E se algum ladrão tentar invadir a sua casa? Ao primeiro sinal de problemas, os gatos todos desaparecem. Somem sem deixar traço. Só quando o problema acaba é que reaparecem com aquele ar de quem não sabe o que houve… "Aconteceu algum problema? Tá todo mundo com uma cara meio estressada!!!", dirá o gato-chefe-da-casa, tentando fazer uma graça para relaxar o ambiente. O cachorro, se o ladrão tenta entrar, late, rosna, mostra os dentes, corre pra lá e pra cá, pula na cerca. Se o ladrão consegue passar do portão, ele o ataca fisicamente. Se o ladrão dá um tiro de revólver na direção de alguém da família, o cachorro é capaz de pular na frente para receber a bala no lugar do familiar.

Cachorro é altruísmo puro (como é absolutamente certo quando se trata de cachorros). Diria até mesmo que o cachorro é o mais cristão dos animais: o perfeito animal sacrificial (deixa os carneiros e as ovelhas, tradicionais animais de sacrifício, quilômetros para trás, pois o cachorro se oferece voluntariamente ao sacrifício – os outros animais apenas se prestam ao sacrifício).

Por essas e outras, Axel, se aparecer algum gato por aqui, boto imediatamente carvão na churrasqueira. E abro uma garrafa de vinho francês.

[Aqui entre nós e tendo em vista o fato de que você é francês de nascimento: para acompanhar carne de gato, o vinho seria branco ou tinto?] 

[ET: Dedico essa crônica à minha cachorrinha preferida, a Jul – amor recente, mas fulminante, como é o caso de quase todos amores à primeira vista. Felizmente, estou convicto de que o sentimento é “reciprocado”.]

Em Washington, 14 de março de 2006

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[A seguir, uma crônica do Rubem Alves sobre assunto afim, aparentemente publicada ou a ser publicada na Folha de S. Paulo]

Sobre os Gatos

Numa tive intimidade com os gatos e sempre os olhei de longe, com desconfiança. Preconceito meu sustentado por uma estória que minha mãe contava de um gato que havia matado um padre. Hoje sei que ele não o teria feito se não tivesse razões… Os bichos que amo são os cachorros e eles me amam. Meu amor pelos cachorros se consusbstanciou num artigo que escrevi sobre minha cadela Lola, a pedido da redação da Folha. Olhando para os seus olhos que estavam fixos nos meus eu me perguntei: “O que será que ela pensa de mim?” Sobre isso escrevi.

Cães, nem sei quantos tive: Pastores, Dobbermans, Dálmatas, Boxers, Weimaraners, Cockers… Os Dobberman foram os mais obedientes; os Boxers, os mais mansos e efusivos. A Nina, cadela Dálmata foi a mais desobediente e não gostava de crianças. Era preciso trancá-la quando havia crianças em casa.

Menino, eu sonhei ter um cãozinho. Mas nunca me foi permitido ter um. Realizei o meu sonho simbolicamente: comprei um caderno de desenho dos grandes no qual fui colando fotografias de cachorros que eu recortava de revistas . Meu amor pelos cachorros assim se realizou platonicamente.

Mas nunca tive simpatia pelos gatos. Também eles nada fizeram para que eu gostasse deles. Os cachorros são comunicativos, querem fazer amigos, são dotados de um humor italiano, fazem barulho, estão sempre sorrindo com o rabo, gostam de brincar e seu único desejo é agradar os seus donos. Uma amiga enviou-me um e-mail contando da sua cadela Labrador, adolescente, chamada Lua. Pois a Lua gosta de plantas, especialmente bromélias, que ela arranca do jardim e deposita na porta da cozinha com latidos de felicidade, latidos esses que, se traduzidos, querem dizer: “Eis o presente de flores que colhi no campo para você…”

Os cães se parecem tanto com os humanos! O que já havia sido constatado por um dos nossos antigos Ministros que, inquirido sobre as razões que lhe permitiam transportar o seu cão em carro oficial, explicou: “Os cachorros também são seres humanos…”

Se isso tivesse acontecido no Egito Antigo, e um ministro fosse inquirido pelo seu uso das carruagens oficiais para transportar o seu gato, a resposta seria mais surpreendente: “Não sabe o senhor que os gatos são seres divinos?” Sim, no Egito os gatos eram deuses. Talvez algo dessa teologia tenha escorrido até nós. Pois não dizemos de uma mulher bonita “Ela é uma deusa” e, para completar, “Ela é uma gata”?

Mas comecei a mudar de idéia sobre os gatos quando minha filha me deu um gato de presente. E logo ficamos amigos, eu e o gato.

Hoje o meu médico clínico me enviou um artigo que apareceu no The New England Journal of Medicine, July 26, 2007, um dos mais respeitados periódicos das ciências médicas. Sobre um gato chamado Oscar. Oscar vive numa instituição que acolhe pessoas num estado terminal. Diariamente ele segue uma rotina. Abre os olhos preguiçosamente e põe-se a fazer aquilo a que os médicos dão o nome de visita: vai de leito em leito, sobe na cama, cheira o ar e faz o seu diagnóstico. Se não é para acontecer naquele dia ele desce e vai para o leito seguinte onde repete o procedimento. Se, por acaso, sua misteriosa sensibilidade deteta o cheiro ou as vibrações ou a música da morte, ele se aloja junto ao moribundo e a enfermeira sabe que é preciso avisar os parentes.

Isso me deixou um tanto apreensivo porque o meu gato tem insistido em dormir na minha cama e é preciso expulsa-lo fazendo uso da força. Será que ele faz isso por gostar de mim ou para que os outros avisem meus parentes?

[A crônica do Rubem Alves foi acrescentada em 3 de Junho de 2009]

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