Prefácio a um livro de Arnaldo Niskier

Arnaldo Niskier me honra ao pedir-me que escreva o Prefácio desta segunda edição do seu livro – e o faz duplamente. Primeiro, porque é um livro seu. Segundo, porque o Prefácio da primeira edição foi escrito for Tarcísio Meirelles Padilha. Os dois, membros da Academia Brasileira de Letras. Os dois, grandes filósofos da educação brasileiros (sic; deliberadamente não quis dizer “filósofos da educação brasileira”, por razões que ficarão aparentes adiante).

John Dewey uma vez disse que toda filosofia é, em última instância, filosofia da educação. Tendo a concordar com essa afirmação – e acredito que Arnaldo Niskier concorde também. Seu livro não é uma mera coletânea de pensamentos pios sobre a educação, nem, tampouco, uma proposta ideologizada de ações práticas que poderiam orientar as autoridades constituídas. Seu livro é uma tentativa séria de lidar com os problemas fundamentais que demarcam a questão educacional – hoje e sempre. E esses problemas são, basicamente, filosóficos – mais especificamente, epistemológicos. Arnaldo Niskier mostra perfeita consciência deste fato em seu livro – e esse é o seu primeiro grande mérito.

A crise de nossa sociedade, hoje, é basicamente uma crise epistemológica. O problema educacional é decorrência dessa crise. É isso que procurarei mostrar neste breve Prefácio.

A filosofia foi, e, felizmente, ainda é, considerada por muitos a mais perfeita expressão da racionalidade humana.

No entanto, a razão tem sido freqüentemente utilizada para combater a razão. Dentro da filosofia existe uma corrente irracionalista tão forte que, atravessando os milênios, encontrou, nos séculos XIX e XX um terreno fértil para a sua propagação. É a razão que perdeu o rumo, e que tenta agora demonstrar sua própria fragilidade, argumentando contra si própria…

As principais armas do irracionalismo são o ceticismo e o relativismo.

O ceticismo é, fundamentalmente, a tese de que a verdade e o conhecimento não existem. Só existem pontos de vista, opiniões, crenças, coisas desse tipo. Mas nada disso é verdade, nada disso merece o título de conhecimento. Os pontos de vista que adotamos (se é que adotamos algum) são tão inválidos quanto quaisquer outros e a escolha entre eles é essencialmente arbitrária, descriteriada.

O relativismo é, fundamentalmente, a tese de que a verdade e o conhecimento existem, mas cada época, cada cultura, cada grupo, ou mesmo cada indivíduo, tem a sua verdade e o seu conhecimento. O relativismo, no fundo, afirma que tudo é verdade, se visto no contexto certo. Quaisquer outros pontos de vista são tão válidos quanto os que adotamos, se levarmos em conta o contexto em que foram formulados. O critério de validade aqui existe – mas é o critério do grupo, não um critério universal, que transcenda os particularismos.
Note-se que tanto o ceticismo como o relativismo apelam para sentimentos nobres.

O ceticismo tem sido o principal crítico do dogmatismo e do fanatismo. Como a verdade e o conhecimento não existem, não devemos nos apegar aos nossos ponto de vista (caso os tenhamos): devemos reconhecer a falibilidade de nossas faculdades de conhecimento, e, portanto, evitar qualquer dogmatismo e fanatismo.

Da mesma forma, o ceticismo tem sido o maior defensor da tolerância. Devemos tolerar os pontos de vista dos outros, mesmo os que nos parecem os mais estapafúrdios, porque, embora careçam de fundamento, não estão em pior situação do que nossos próprios pontos de vista.

Igualmente, o ceticismo tem sido, na esfera intelectual, um proponente da modéstia, da humildade, da ausência de soberba, da ausência de arrogância: tudo o que sei, diz o cético, é que nada sei.

Os céticos são, em geral, extremamente simpáticos: haja vista David Hume, escocês cordial, talvez o filósofo mais simpático que já pôs os pés sobre a terra. Revestindo-se desse caráter nobre, o ceticismo conquista as pessoas – e espalha o irracionalismo.

O relativismo também é uma filosofia simpática.

O relativismo procura nos convencer de que os pontos de vista de outras pessoas (ou as de outras épocas, ou de outras culturas, ou de outros grupos) são tão válidos quanto os nossos próprios (ou quanto os pontos de vista de nossa própria época, ou de nossa própria cultura), porque cada grupo (ou, em última instância, cada pessoa) tem seus próprios critérios de validade.

Isso é assim, afirma o relativismo, porque as idéias são geradas em determinados contextos, e adquirem validade somente a partir daquele contexto. É inválido, portanto, criticar um ponto de vista a partir de um contexto que não é o seu próprio. Fazer isso seria argumentar a-historicamente, a partir de uma ótica universalista.

Assim sendo, para o relativista não é válido (por exemplo) criticar o budismo a partir do catolicismo romano, ou, na verdade, criticar qualquer religião, a partir de uma outra, ou mesmo a partir de um ponto de vista ateu. Todas religiões são boas, e até o ateísmo é uma forma de religião, às avessas, igualmente válida.

Por isso, também o relativismo propõe a rejeição do dogmatismo e do fanatismo e a adoção de uma postura tolerante. A arrogância, o sentimento de superioridade de nossos pontos de vista, a falta de empatia para com pontos de vista diferentes, tudo isso é pecado mortal para o relativismo.

Os relativistas também são, em regra, simpáticos. Muitos deles se embrenham por florestas quase virgens para estudar pontos de vista e costumes que os demais mortais poderiam considerar primitivos. Para o relativista, não há superior e inferior, quanto se trata de idéias, de pontos de vista, de cultura, enfim. Assim, o multiculturalismo relativista é atraente, para muitos, porque parece cosmopolita, anti-eurocêntrico.

Revestindo-se desse caráter nobre, o relativismo também conquista as pessoas – e espalha o irracionalismo.

Na verdade, a maior parte das pessoas adota, hoje, uma mistura de ceticismo e relativismo, sem distinguir bem entre eles.

É por isso que o irracionalismo é hoje moda. Se a verdade e o conhecimento não existem, ou se tudo é verdade e conhecimento, então não há como ser racional. Por que adotar este – e não aquele – ponto de vista? Por que pronunciar este – e não aquele – julgamento moral? Porque preferir esta – e não aquela – obra de arte?

Na inexistência de critérios, não temos mais a confiança para falar no verdadeiro, no bom, no belo.

Nesse clima, ousar defender a razão é ficar aberto a críticas virulentas e correr o risco de ser ridicularizado pelos que se rotulam de pós-modernos (imaginando que a modernidade teria se caracterizado pela defesa da razão). O educador que não se deixa convencer pelas baboseiras que se escrevem para tentar provar que não existem critérios que nos permitam determinar o que é verdadeiro, o que é moralmente certo, o que é belo, se encontra diante de sérios desafios. Porque, se a tese cética ou relativista é verdadeira (?), não haveria como pensar em uma educação de cunho universal: só se poderia falar em educação no contexto restrito dos grupos, das classes sociais, dos “gêneros” (eufemismo para sexos), das orientações sexuais… Não se educa mais o ser humano: educa-se a mulher pobre com orientação heterossexual, ou o homem rico com preferências homossexuais… E educar não significa mais buscar sentidos universais na experiência humana, mas o sentido de uma experiência particularista, mediada pelo grupo, que os que convivem em outros “coletivos” não saberiam entender. Os paradigmas são incomensuráveis, verdadeiros (?) casulos que nos envolvem e nos impedem até mesmo de suspeitar que existam outros casulos (exceto para os privilegiados que, como Karl Mannheim, parecem ser capazes de transcender isso tudo e olhar um universo de casulos de cima, sub specie aeternitatis, alcançando a visão do todo…). 

Por isso a nossa é uma época em que se tornou lugar comum afirmar que a verdade não existe ou é relativa; em que amplamente se acredita que, se duas pessoas discordam, isso significa apenas que a verdade de uma é diferente da verdade da outra; em que cientistas defendem a tese de que as teorias científicas nada mais são do que paradigmas semelhantes a dogmas religiosos (em relação aos quais já é costume dizer que todos são bons, desde que adotados com sinceridade); em que teorias e filosofias políticas são vistas como nada mais do que ideologias em conflito, reflexos superestruturais de infra-estruturas econômicas alternativas, cada uma privilegiando determinadas classes, acerca das quais não cabe levantar a questão da verdade; em que a moralidade se tornou uma questão de preferência e gosto, levando até um homem da estatura moral de Bertrand Russell a afirmar que sua discordância básica com Hitler se reduzia ao fato de que ele não gostava do que Hitler fazia; em que as linhas demarcatórias entre a arte, de um lado, e, de outro, borrões, ferro velho, lixo e outras excrescências desapareceram, porque as pessoas têm medo de emitir um juízo estético; em que interpretações de um texto, por mais intuitivas e estapafúrdias que sejam (porque, afinal de contas, quem escreve o texto é o leitor…), são acolhidas com a mesma seriedade que as decorrentes de trabalho exegético e hermenêutico sério e rigoroso; em que auto-expressão se tornou sinônimo de criatividade; em que os contra-sugestionáveis são tidos como espíritos críticos, ou, pior, em que alguns dos piores dogmatismos se rotulam de abordagem crítica; em que a noção de verdade, por fim, se admitida, é vista apenas em termos da coerência de um conjunto de enunciados, e não de sua correspondência com a realidade.

Longe de mim imaginar que Arnaldo Niskier concorde com tudo o que digo aqui – ou com o que está por trás do que estou dizendo aqui. Mas estou certo de que ele concorda que a discussão dessas questões é de importância suprema para o educador que deseja fazer o seu trabalho com consciência e seriedade e que não vê a educação apenas como mais um cenário em que se processa a luta política e, pior, partidária. Por isso Arnaldo Niskier escreveu seu livro. Um livro que merece ser lido e que deve ser objeto de séria reflexão por todos os educadores (e não só por filósofos), pois, além de tudo, tem, ainda, o mérito de ser bem escrito – em linguagem clara, incisiva, e acessível ao não filósofo.

Em Salto, 1º de Março de 2006 [Texto originalmente escrito em 25 de dezembro de 2000]

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