Educação, felicidade e riqueza

Em 1976, no meu terceiro ano como Professor de Filosofia da Educação na UNICAMP, quando muitos nesta lista não haviam nem nascido, conheci Morris Weinberger, um professor da Bowling Green State University, em Bowling Green, Ohio (onde posteriormente estive como professor visitante), e peguei dele um interessante questionário sobre os objetivos da escola. O questionário listava vinte possíveis objetivos para a educação escolar (não para a educação em geral, mas, sim, para a educação que se proporciona na escola).

O questionário tinha itens como “Ajudar os alunos a dominar bem os conteúdos constantes das matérias do currículo”, “Ajudar os alunos a apreciar e valorizar as diferenças culturais”, “Ajudar os alunos a se envolver na luta por uma sociedade melhor e mais justa”, “Ajudar os alunos a adquirir hábitos constantes de aprendizagem”, “Ajudar os alunos a se preparar para o exercício de uma profissão”, etc. No total, vinte possíveis objetivos para a escola.

A tarefa dada aos alunos seria discutir, em pequenos grupos, aqueles objetivos e, depois, cada um por si, hierarquiza-los em ordem de preferência. O objetivo colocado em primeiro lugar seria aquele considerado pela pessoa como o mais importante para escola – e assim por diante. Os objetivos colocados nos últimos lugares seriam aqueles que a pessoa nem achava que devessem ser objetivos da escola. (Embora pudesse considera-los objetivos dignos da educação que tem lugar no lar, na comunidade, no trabalho, etc.).

(A segunda fase do exercício era pedir aos alunos para preencher mais uma vez o questionário agora hierarquizando os objetivos segundo, na opinião deles, as preferências dos seus professores… Depois, na terceira, pedir aos professores que preenchessem o questionário, segundo suas próprias preferências. Finalmente, na quarta, pedir aos professores que preenchessem o questionário segundo, na opinião deles, as preferências dos alunos. Depois se comparava tudo. Dava uma discussão interessante. Mas não é bem isso que eu quero focar aqui). 

Durante quase trinta anos apliquei esse questionário aos meus alunos. Consistentemente os objetivos que ficaram nos dois primeiros lugares na preferência dos alunos foram “Ajudar os alunos a adquirir hábitos constantes de aprendizagem” e “Ajudar os alunos a se envolver na luta por uma sociedade melhor e mais justa”. Esses dois sempre se alternaram nos dois primeiros lugares ao longo dos anos.

Nenhuma surpresa aí.

O que me causou surpresa foram os dois objetivos que consistentemente ficaram nos dois últimos lugares na preferência dos alunos: “Ajudar os alunos a melhorar sua condição sócio-econômica e, se possível, alcançar sucesso financeiro” e “Ajudar os alunos a alcançar felicidade pessoal”. Novamente aqui, esses dois objetivos se alternaram nos dois últimos lugares, ao longo dos anos.

Isso, para mim, sempre foi fonte de grande perplexidade.

Explico por quê.

1) A educação deve promover o desenvolvimento humano. Se não nos desenvolvemos (a partir dos seres incompetentes e dependentes que somos ao nascer), morremos (a menos que alguém constantemente tome conta de nós, em cujo caso nos tornamos piores do que incompetentes e dependentes temporários: nos tornamos parasitas permanentes).

2) Isso significa que a educação deve nos preparar para a vida. A vida do ser humano, entretanto, diferentemente da vida de uma tartaruga marinha, é relativamente aberta: podemos escolher, dentro de amplos limites, o que vamos ser na vida. Em geral, essa escolha é ditada por nossos valores (aquelas coisas que nos dispomos a lutar para alcançar ou, tendo alcançado, preservar). Outra forma de dizer isso é afirmando que o que fazemos de nossa vida é ditado por nossos sonhos (nossos projetos de vida). Dinheiro (como já dizia Aristóteles) é meio: não tem valor em si, seu valor decorrendo daquilo que ele nos permite fazer (e que, sem dinheiro, não conseguiríamos). Embora se afirme que dinheiro não traz felicidade, isso só é verdadeiro no sentido de que a posse do dinheiro, em e por si só, não faz ninguém feliz. Mas é inegável que o dinheiro torna possível viabilizar muitos de nossos sonhos e torna possível, de muitas maneiras, a transformação de nossos sonhos (projetos de vida) em realidade.

3) A felicidade, a meu ver, tem muito que ver com tudo isso. Feliz, ou realizada, é a pessoa que é capaz de transformar seus sonhos (projetos de vida) em realidade. Embora isso muitas vezes seja um horizonte distante, em geral somos felizes quando conseguimos fazer progresso nessa direção, quando vemos que nossos esforços para transformar nossos sonhos (projetos de vida) em realidade estão surtindo resultados e estamos caminhando na direção daquilo que vai nos tornar felizes, ou realizados.

4) Se essa linha de raciocínio faz sentido, ajudar as pessoas a alcançar sucesso financeiro e ajudar as pessoas a alcançar felicidade pessoal deveriam ser os objetivos centrais da educação. Por que meus alunos relegaram esses dois objetivos para os últimos lugares, removendo-os do escopo da escola, é, para mim, difícil de entender.

5) Nas discussões que mantinha com eles ficava claro que a principal razão que eles tinham para remover esses objetivos educacionais do âmbito da escola era que eles imaginavam que a escola deveria se limitar a tratar de questões cognitivas ou intelectuais, deixando questões como sucesso financeiro e felicidade pessoal para o âmbito da educação que tem lugar no lar e na comunidade. Assim, defendiam-se dizendo que os objetivos poderiam até ser importantes para a educação, mas não deveriam ser incluídos no âmbito da escola: esta deveria só tratar do desenvolvimento de competências cognitivas.

6) Se, entretanto, levamos a noção dos 4 Pilares a sério, como definindo, em linhas gerais, um programa não só para a educação, mas para a escola, então teremos de virar o currículo verdadeiramente de cabeça para baixo. Não se trata simplesmente de a escola deixar de ser uma transmissora de informações e conhecimentos. Ela deve passar a se preocupar com o desenvolvimento de competências, por parte dos alunos – e não só de competências ditas cognitivas [aprender a conhecer, aprender a aprender], mas também de competências no plano dos relacionamentos, até mesmo no âmbito do casamento ou das uniões estáveis [aprender a conviver], de competências no plano dos empreendimentos [aprender a fazer, onde está a competência de alcançar sucesso financeiro], e, finalmente, de competências no plano pessoal, que inclui a imaginação, as emoções, a sensibilidade [aprender a ser].

7) Falando do aprender a ser, o que seria de nós sem a imaginação da leitura (Rebecca, Helena e Gabriela são mulheres mais reais para muitos de nós do que muitas de carne e osso), as emoções da música (Una Furtiva Lacrima, com Nana Mouskouri), as sensações geradas pela contemplação do belo (um pôr-do-sol, um beija-flor beijando a flor, ou então as belezas criadas pelo homem, a Mona Lisa no Louvre, o pensador de Rodin, mais ao lado, no Museu Rodin, a Catedral de Sacré-Coeur um pouco mais acima, em Montmartre…]. Nossa vida seria muito mais pobre se não desenvolvêssemos competências nessas áreas. [Mudem os exemplos para outros que cada um acha importante].

8) Edgar Morin disse, num tom poético, que a educação (inclusive a escolar) deve nos preparar para falar em prosa e em poesia… O falar em prosa trata dos meios, daquilo que nos permite continuar vivos, mas o falar em poesia trata dos fins, daquilo que nos permite querer continuar vivos. O primeiro, nos permite viver, mas o segundo nos dá a razão para querer viver…

9) Rubem Alves também falou, em várias de suas crônicas, que a educação (inclusive a escolar) deve nos permitir criar uma caixinha de ferramentas (tool box) e uma caixinha de brinquedos (toy box). Semelhantemente à propositura de Morin, a primeira nos permite continuar vivos (e, em grande media, nos traz dinheiro), mas é a segunda que nos dá prazer (embora muita gente aprenda a ganhar dinheiro com as coisas que lhe dão prazer).

10) Deve a escola deixar ao desabrigo o desenvolvimento dessas competências-brinquedo e se concentrar em desenvolver nossas competências-ferramenta? Deve a escola nos ajudar a aprender a falar apenas em prosa, não em poesia?

É isso – por enquanto. Se eu fosse preencher hoje o questionário que costumava dar para meus alunos (minhas alunas), colocaria nos dois primeiros lugares exatamente os dois objetivos que eles consistentemente colocaram em último…

Em Washington, 14 de março de 2006

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