Em Favor da Dúvida

Fuçando numa Livraria Saraiva em São Paulo ontem (3/5/2012) à noitinha, encontrei um livro cujo título me fascinou: Em Favor da Dúvida: Como Ter Convicções Sem se Tornar um Fanático (Editora Campus, 28,60 na Amazon BR). (O original é In Praise of Doubt, Em Louvor da Dúvida). Os autores são Peter Berger e Anton Zijderveld.

A tese principal do livro é de que a maior contribuição da modernidade para com a civilização não é a secularização, mas a pluralização da sociedade.

Os autores fazem uma análise fascinante da pluralidade: uma situação em que todos convivem em paz cívica e interagem significativamente uns com os outros.

Eles traçam a evolução de um modelo de civilização constituída por grupos de consenso cognitivo e normativo que, entretanto, ou viviam em conflito uns com os outros, ou coexistiam em paz, mas sem interação significativa (como as castas indianas, que convivem até pacificamente mas sem “comensalidade e conúbio”: os membros de um grupo não podem nem sequer comer juntos, quanto mais se casarem uns com os outros) para o modelo de civilização moderno, plural.

Com a urbanização, que aproximou os grupos fisicamente, a proliferação da educação escolar (que ajuda as pessoas a refletir sobre sua herança cultural e a dos outros), os meios de comunicação de massa, que revelam outras formas de pensar, outros valores, outras maneiras de viver, e, por fim, a globalização, que reduziu o tempo que se leva para ir de um espaço ao outro, a pluralidade, no sentido definido, surgiu — e, apesar de eventuais recuos, progride.

A pluralidade, em um espaço globalizado, produz a “contaminação cognitiva e normativa”: se pessoas de grupos diferentes convivem em paz e interagem, elas vão dialogar e discutir umas com as outras, e, com o tempo, podem (talvez devam) influenciar os modos de pensar, os valores e as formas de agir umas das outras. À medida que isso acontece, o outro deixa de parecer estranho — quanto mais nocivo, perverso, insano. Lentamente surge a dúvida: quem sabe se os outros não estão certos, e eu errado? Com esse modo de pensar, mesmo que não se abandonem os modos de pensar, os valores e as formas de agir de antes, sua aceitação sem questionamentos é abalada…  De uma situação em que parecíamos destinados a crer, valorizar e agir de um certo jeito, passamos a acreditar que temos escolha, que temos liberdade de pensar, de escolher nossos valores, de viver como nos aprouver…

Esse é apenas o começo do livro. Vale a pena ler. Recomendo. Principalmente para aqueles que têm dificuldade em entender como os outros podem pensar, adotar valores, e se comportar de forma tão diferente, e, aparentemente, tão sem sentido…

Fundamentalistas em geral provavelmente nem chegarão perto do livro… a menos que já tenham sido picados pela mosca azul da dúvida!

Em São Paulo, 4 de Maio de 2012