O PT nos Roubou a Esperança

Dia 22/9/2014 escrevi no Facebook, enquanto preparava uma aula sobre teologia protestante no século 20:

“Jürgen Moltmann, teólogo alemão, escreveu algo interessante, no prefácio de um livro que foi editado com base em suas conferências nos EUA de Set-1967 (quando eu estava lá chegando) até Abr-1968 (quando o mundo meio que pegou fogo…), e que recebeu o título de Religion, Revolution and the Future. Ele se confessou admirado com o povo americano, que estava constantemente em movimento, “always on the go“, aparentemente “going places“… Mas ressaltou que, depois de muita observação, ficou com a nítida impressão de que o movimento não era em direção de algo (“toward something“) que se desejava e buscava, mas, sim, um movimento de fuga de algo (“away from“) que não se desejava mais e do qual se queria manter distância. . .”

Eu comentei que achei bonita a imagem. Fiquei pensando no Brasil de hoje… Às vezes a gente fica inquieto, com vontade de se mexer, de se mandar, mas não é mais porque algo nos inspire, chame, atraia, mas, sim, porque algo nos incomoda, revolta, repele. . . Estou me sentindo basicamente desse jeito em relação ao Brasil. Tenho vontade de me pôr em movimento, de me mandar daqui, mas não tanto para ir a algum outro lugar que me atraia, que me pareça muito melhor, mas porque o mau cheiro da política brasileira, que virou um chiqueiro moral, me incomoda terrivelmente.

Alguns amigos curtiram o que transcrevi e escrevi, outros, mais chegados, comentaram… Eis alguns dos comentários (retirados os nomes de quem os fez):

[1] “Acho que muitos — eu também entre eles — estamos desse mesmo jeito em relação ao Brasil. Mudam as gerações e não aprendemos a fazer política decente.”

[2] “Assino ‘in totum’. Gostei do texto. De observação inspirada. Eu me sinto em situação semelhante. Afinal, governados por desonestos que instalam quadrilhas em todos os espaços possíveis e, ainda, com grande parte da nossa população a apoiar o que aí está, só nos resta encontrar o meio de nos defender de uns e de outros. É desesperador. Não dá para ter esperança no momento. Talvez o Brasil tenha de se destruir para que, então, vejamos o que surgirá como sobrevivência.”

[3] “As duas coisas… O Brasil me espanta a cada dia e a Bélgica me chama mais e mais… Um passaporte com tempo maior de permanência seria muito bem vindo. Sem ser a Bélgica existe a opção Austrália — Nova Zelândia (vejam os artigos do Prof. Miguel Sacramento que esteve por lá numa pesquisa muito interessante) e o sempre objeto do desejo Canadá!”

[4] “Interessante que nos últimos dias tenho me sentido assim também. Parece que nosso “mundico” não tem jeito e a gente quer outro lugar em que a situação fosse mais propícia. E isso coincide com este período eleitoral, quando me sinto “encantoado”, sem grandes perspectivas.”

[5] “Me lembrei, de ‘Ora, destruídos os fundamentos, que poderá fazer o justo?’ Salmo, 11:3”.

Volto eu a falar, agora hoje [27/9/2014]…

Meus caros [1], [2], [3], [4], [5]… A cada dia fico mais persuadido de que o principal legado que esse maldito governo petista dos últimos doze anos vai deixar é uma descrença generalizada no ser humano e na democracia.

Mais do que apenas dinheiro, os petistas roubaram a crença, que a maioria dos brasileiros tinham, de que as pessoas são basicamente boas e honestas, de que a democracia, malgrado suas fraquezas, era uma forma viável de governo, que ela poderia funcionar, que a corrupção dos políticos, embora pudesse ocorrer aqui e ali, era algo excepcional e combatível, porque, no fundo, as pessoas que governam tem boa índole e boas intenções, que com educação o povo aprenderia a escolher governantes cada vez melhores, etc. etc. etc.

Essa crença, razoavelmente otimista, deixou de existir. O governo petista a destruiu. Ele mostrou que Agostinho, Lutero e Calvino estavam certos: a natureza humana é, de fato, um desastre: totalmente degradada. O PT mostrou que gente educada, culta, instruída e até já rica, rouba e se vende. Os políticos só querem se eleger para poder roubar. Não há nem um que se salve. Nem o Suplicy, com a campanha dele, que basicamente diz que ele é o único político honesto. E o povo se vende por qualquer boquinha, seja ela um emprego num órgão público, uma bolsa qualquer coisa, uma subvenção dada para uma ONG que eles criaram apenas para mamar nas tetas corruptas do governo.

Uns se corrompem pelo dinheiro, outros pelo poder. Os políticos querem se eleger para continuar a ter poder e grana; outros se corrompem apenas pela graninha que cai no bolso e chega em casa sem esforço. As diversas bolsas, instituídas para ajudar os mais pobres, se tornaram o maior esquema de compra de votos que este país já viu. Basta analisar o mapa de onde a maior parte das bolsas está e o mapa dos votos petistas. Mas não é só bolsa família, bolsa eletricidade, bolsa gás, bolsa banda larga: é a bolsa para fazer universidade privada, para viajar para o exterior, para fazer pesquisa, para criar uma empresinha, para se tornar empreendedor… Há bolsas para empreendedores, para empresários, para ricos, até para banqueiros.

E há o “emprego público”. Um emprego público se tornou o objeto de desejo da maioria dos brasileiros. Criou-se uma indústria de cursinhos e agências de viagem para ajudar o brasileiro a arrumar um emprego público. Ele quer ser um “servidor público”??? De jeito nenhum: ele quer ser um “servidor próprio”, ter garantia de renda sem precisar trabalhar muito, ou sem precisar trabalhar, com a certeza de que faz greve por mais de cem dias sem perder um dia de salário e benefício… E, quem sabe, no emprego público, consegue receber unzinho por fora…

O indivíduo se beneficia uma vez com esse sistema corrupto e não consegue largar mais. Duvido que haja alguém neste país que acredite que os petistas são honestos, que eles não roubam, que eles não desviam dinheiro para os próprios bolsos e para o caixa dos partidos.

Todo mundo sabe que isso acontece. Cada dia aparece um escândalo novo. Todo mundo sabe que o Lulla é corrupto e a Dillma uma besta quadrada.

Mas o povo comprado, com bolsa, com emprego, com boquinha, com ProUNI, com bolsa de estudos no exterior, com emprego público, com a promessa de transporte gratuito, de uma pista para andar de bicicleta (!!!), etc. quer continuar mamando nas tetas do governo petista, e, por isso, tapa o nariz e vota no PT. Alguns nem precisam tapar o nariz mais: já se acostumaram com o mau cheiro do chiqueiro moral em que vivemos. Disseminou-se a crença de que todo mundo, podendo, rouba, e os que não conseguem roubar mamam nas tetas do governo e comem na mão dos que conseguem roubar — e sonham poder continuar fazer isso per saecula saeculorum. Para muita gente, essa é a única visão do paraíso que eles conseguem ter.

Estou convicto de que o Comentarista [2] acertou em cheio quando disse, acima: “Governados por desonestos que instalam quadrilhas em todos os espaços possíveis e, ainda, com grande parte da nossa população a apoiar o que aí está, só nos resta encontrar o meio de nos defender de uns e de outros. É desesperador. Não dá para ter esperança no momento. Talvez o Brasil tenha de se destruir para que, então, vejamos o que surgirá como sobrevivência.” O comentário resume com perfeição a herança maldita do PT. É isso aí. A destruição de nossa crença razoavelmente otimista, ainda que com algumas reservas e ressalvas, de que a democracia poderia funcionar e fazer com que o Brasil tomasse jeito, e a sua substituição pela crença de que não tem jeito, não há esperança de mudança não traumática, que o único jeito de mudar alguma coisa é destruindo tudo para ver se, começando de novo do zero, a esperança ressurge…

A única esperança que sobrou talvez seja a esperança de um dia, de alguma forma, voltar a ter esperança…

Em São Paulo, 27 de Setembro de 2014

Em Favor da Dúvida

Fuçando numa Livraria Saraiva em São Paulo ontem (3/5/2012) à noitinha, encontrei um livro cujo título me fascinou: Em Favor da Dúvida: Como Ter Convicções Sem se Tornar um Fanático (Editora Campus, 28,60 na Amazon BR). (O original é In Praise of Doubt, Em Louvor da Dúvida). Os autores são Peter Berger e Anton Zijderveld.

A tese principal do livro é de que a maior contribuição da modernidade para com a civilização não é a secularização, mas a pluralização da sociedade.

Os autores fazem uma análise fascinante da pluralidade: uma situação em que todos convivem em paz cívica e interagem significativamente uns com os outros.

Eles traçam a evolução de um modelo de civilização constituída por grupos de consenso cognitivo e normativo que, entretanto, ou viviam em conflito uns com os outros, ou coexistiam em paz, mas sem interação significativa (como as castas indianas, que convivem até pacificamente mas sem “comensalidade e conúbio”: os membros de um grupo não podem nem sequer comer juntos, quanto mais se casarem uns com os outros) para o modelo de civilização moderno, plural.

Com a urbanização, que aproximou os grupos fisicamente, a proliferação da educação escolar (que ajuda as pessoas a refletir sobre sua herança cultural e a dos outros), os meios de comunicação de massa, que revelam outras formas de pensar, outros valores, outras maneiras de viver, e, por fim, a globalização, que reduziu o tempo que se leva para ir de um espaço ao outro, a pluralidade, no sentido definido, surgiu — e, apesar de eventuais recuos, progride.

A pluralidade, em um espaço globalizado, produz a “contaminação cognitiva e normativa”: se pessoas de grupos diferentes convivem em paz e interagem, elas vão dialogar e discutir umas com as outras, e, com o tempo, podem (talvez devam) influenciar os modos de pensar, os valores e as formas de agir umas das outras. À medida que isso acontece, o outro deixa de parecer estranho — quanto mais nocivo, perverso, insano. Lentamente surge a dúvida: quem sabe se os outros não estão certos, e eu errado? Com esse modo de pensar, mesmo que não se abandonem os modos de pensar, os valores e as formas de agir de antes, sua aceitação sem questionamentos é abalada…  De uma situação em que parecíamos destinados a crer, valorizar e agir de um certo jeito, passamos a acreditar que temos escolha, que temos liberdade de pensar, de escolher nossos valores, de viver como nos aprouver…

Esse é apenas o começo do livro. Vale a pena ler. Recomendo. Principalmente para aqueles que têm dificuldade em entender como os outros podem pensar, adotar valores, e se comportar de forma tão diferente, e, aparentemente, tão sem sentido…

Fundamentalistas em geral provavelmente nem chegarão perto do livro… a menos que já tenham sido picados pela mosca azul da dúvida!

Em São Paulo, 4 de Maio de 2012