Capital e Trabalho

Acho que o principal problema das análises do que a esquerda, sob inspiração marxista, chama de "relações capital – trabalho", está em imaginar que donos ou acionistas de empresas (o chamado "capital") são uma sub-espécie humana ontologicamente distinta da outra sub-espécie (o chamado "trabalho") — e que haveria unicamente essas duas sub-espécies no setor produtivo. Isso, se um dia fez sentido, hoje não faz mais.

Ou vejamos.

1) O setor produtivo hoje é composto, além da categoria dos DONOS OU ACIONISTAS de empresas e da categoria dos chamados TRABALHADORES (como se ninguém mais trabalhasse), de pelo menos duas outras categorias que não recebem muita atenção na análise marxista: a categoria dos EXECUTIVOS E GERENTES e a categoria dos PROFISSIONAIS. Executivos e gerentes, de um lado, e, de outro, profissionais (engenheiros, advogados, designers, consultores, especialistas em marketing, comunicação, treinamento, etc.) sempre existiram, mas são muito mais importantes hoje do que já o foram. Talvez eles não tenham recebido muita atenção nas análises de origem marxista também porque, em geral, são bem instruídos (curso superior é de rigueur), não raram recebem participação nos lucros ou mesmo participação acionária, e, por isso, raramente se sindicalizam e dificilmente se tornam massa de manobra da esquerda sindicalista.

2) As mudanças que a tecnologia vem introduzindo na sociedade, em especial no setor produtivo, têm avançado no sentido de diminuir a importância, no processo produtivo, daqueles que a esquerda chama de trabalhadores — o proletariado, ou o operariado, em geral pouco qualificado ou, quando não, qualificado em habilidades tipicamente manuais, rotineiras, bastante específicas, dificilmente transferíveis para outros setores. (Com o surgimento dos tornos computadorizados, por exemplo, o que fazer com as habilidades de um torneiro mecânico? Ou ele se "recicla", isto é, adquire outras habilidades mais requeridas pelo processo produtivo, ou ele se torna sindicalista e, eventualmente, político — funções que, por sinal, têm muita coisa em comum, em especial o seu parasitismo). Essas mudanças têm levado até mesmo alguns autores marxistas, como Adam Schaff (em A Sociedade Informática — tradução horrível de um título que, em Alemão, quer dizer "Para Onde Vai o Caminho" — Wohin Fährt der Weg, creio, é o título original), a afirmar que o proletariado, ou seja, a classe operária, dita trabalhadora, como a concebia Marx, acabou – c’est fini.

3) Assim, além da categoria (ou classe, if you will) dos donos ou acionistas de empresas, da categoria dos executivos e gerentes, e da categoria dos profissionais, surgiu, nos últimos anos, uma outra categoria, que se poderia dizer incluir pessoas razoavelmente bem escolarizadas (incluindo o Ensino Médio ou mesmo a Educação Superior) e com uma gama razoável de competências e habilidades, em grande parte flexíveis, que têm relativa familiaridade com a tecnologia, que trabalha em escritórios (secretárias, assistentes administrativos, chefes de seção administrativa, etc.) ou mesmo na fábrica (supervisores de processo em fábricas automatizadas, chefes de seção técnica, etc.), MAS que não se incluem NEM em nenhuma das três outras categorias mencionadas NEM na categoria dos chamados de proletários, operários, trabalhadores (no sentido quase pejorativo que a esquerda dá ao termo: analistas de esquerda, que falam muito acerca dos trabalhadores e operários, raramente o são, eles próprios) — até porque esta categoria, a dos proletários, operários, etc. está desaparecendo e a outra, a categoria que caracterizei neste item, está evidentemente crescendo.

4) Donos ou acionistas de empresas em geral trabalham, e trabalham muito, e, portanto, são trabalhadores (no sentido literal do termo, não no sentido pseudo-elogioso que lhe dá a esquerda, sentido esse que, na realidade, é

pejorativo) como quaisquer outros. É verdade que seu trabalho em regra não é braçal nem rotineiro — especialmente quando se trata de donos de grandes empresas, ou de empresas de serviços, ou, então, de acionistas. Um fenômeno que vem chamando a atenção de analistas não-marxistas é o crescimento vertiginoso dessa categoria de donos ou acionistas de empresas. De um lado, nunca se criaram tantas pequenas empresas como hoje, fazendo surgir inúmeros donos de empresas e empreendedores — e o Brasil é um dos países que ocupa a liderança no tocante ao crescimento do número de empreendedores. De outro lado, executivos, gerentes, profissionais, ou mesmo os trabalhadores descritos no item anterior, vêm investindo no mercado de ações, tornando-se, assim, acionistas de empresas até mesmo de grande porte.

5) Não há dúvida que há uma categoria de pessoas que possuem pouca qualificação, ou qualificação muito específica, que parecem ter saído perdendo com essa evolução. Refiro-me a pessoal da construção civil (pedreiros, carpinteiros, encanadores, eletricistas, e seus ajudantes), pessoal de limpeza (pública, institucional, ou doméstica), pessoal de apoio em restaurantes e hotéis, balconistas, cobradores de ônibus, diaristas no setor agrícola, etc. A menos que essas pessoas façam um upgrade em suas qualificações, não vão fazer parte dos bem sucedidos na nova economia (da informação, do conhecimento, das relações interpessoais).

6) Resta, por fim, falar dos desempregados e daqueles que a esquerda gosta de chamar de miseráveis — cujo número, no Brasil, é muito menor do que o alardeado pelo PT e pela esquerda em geral. Quando alguém fica desempregado, tem três alternativas:

A) Ou ele busca se qualificar / requalificar para arrumar um outro emprego (mas emprego, no sentido tradicional, existe cada vez menos — havendo livros que anunciam, como se necessário fosse, O Fim do Emprego);

B) Ou ele se torna autônomo — ainda que como vendedor ambulante, ou dono de um carrinho de cachorro-quente, etc. ou, preferivelmente, dono de um pequeno negócio;

C) Ou ele vira miserável e vai morar debaixo da ponte, passando a depender do Estado (isto é, daqueles que não estão na mesma sub-categoria que ele, podendo até mesmo estar nas outras duas sub-categorias, A e B).

Bom, listei pelo menos umas cinco categorias — ou classes, como preferem os marxistas. Poderia ter acrescentado outras: o pequeno proprietário rural, por exemplo. Embora essas categorias de certo modo compitam umas com as outras, elas não estão envolvidas em um conflito transcendental uma contra a outra, como o marxismo pretende em relação ao simplista "capital e trabalho". A luta de classes é a luta de cada um, dentro de cada uma dessas categorias ou classes, para sobreviver, primeiro, e, depois, para realizar o seu projeto de vida.

Não somos todos iguais — nem biológica nem psicologicamente. Não nascemos nos mesmos lugares nem, muito menos, das mesmas famílias. Uns tiveram a chance de nascer em berço esplêndido. Outros o azar de nascer em condições miseráveis. Uns tiveram pais que eram educadores. Outros tiveram pais que não davam valor à educação. Uns foram sustentados por seus pares até além do necessário ou recomendável. Outros nem conheceram os seus pais. As condições originais ou iniciais não são iguais para todos — e, portanto, é utópico imaginar que todos possam chegar aos mesmos lugares ou alcançar os mesmos resultados do ponto de vista social, econômico ou cultural.

Assim, se x trabalha para y, não faz nenhum sentido dizer que y explora x — ou se apropria, sem a devida remuneração, "da inteligência, da emoção e da energia" do empregado. Se y mandar x embora, este vai perceber como era bom "ser explorado" e ter um salário no fim do mês.

O que é evidente, é que a análise marxista é de uma pobreza a toda prova.

A autora do artigo abaixo observa e pergunta no final: "Fica a reflexão: o trabalhador, agora nomeado de capital intelectual ou capital humano está se dando conta dessa nova realidade, que também está sendo construída com e pelo seu consentimento?"

As minhas perguntas sobre isso são:

* Se o trabalhador (sic) não se dá conta dessa nova realidade, de quem a responsabilidade?

* Quem foi que disse que eu preciso dar meu consentimento às mudanças que outros estão promovendo na sociedade, ou que devo pedir consentimento dos outros para as mudanças que eu pretender realizar?

Paris, 1 de Maio de 2005

—–Mensagem Original—–

As mudanças na relação do capital com o trabalhador

Lydia M.P. Brito

Os novos modelos de gestão de empresa, de pessoas e da educação corporativa mobilizam os aspectos subjetivos do trabalho, envolvendo a cultura, os valores, o coração e a mente dos funcionários, num processo de aprendizado contínuo capaz de liberar a força criativa de cada um, projetada para atingir os resultados desejados pela organização. Ou seja, para defender os interesses do capital, manter sua competitividade no mercado e garantir seu lucro e sua sobrevivência, ao concentrar a inteligência, a emoção e a energia dos empregados nas estratégias empresariais.

A diferença da forma de compartilhamento natural do conhecimento e as novas formas de compartilhamento do conhecimento, promovidas pelas organizações, são o gerenciamento, a manipulação e o controle rigoroso do processo de aprendizagem a partir unicamente dos interesses do capital, fato que significa uma mudança sem precedentes na forma de gestão e educação de pessoas para o trabalho nas organizações, ao interferir direta e claramente na cultura organizacional e ao criar propositadamente um imaginário enganador na organização.

Essa nova forma de controle sobre o aprendizado organizacional constitui-se na forma mais sofisticada de apropriação e alienação do trabalho, iniciada pelo taylorismo/fordismo, que se apropriou dos movimentos, do tempo e dos ritmos do trabalhador, e que agora exige a apropriação por parte do capital também da teleologia, do conhecimento tácito (que muitas vezes o próprio trabalhador não se dá conta de que possui), do desejo, do abstrato, das formas de interação e da criatividade coletiva.

É importante registrar que, paralelamente à nova forma de gestão, estão sendo mudadas as relações de trabalho que, se antes obedeciam a um padrão legal e normativo surgido nos anos 30 e que garantiam estabilidade e direitos trabalhistas e que supunham uma série de regras escritas consentidas pelo patrão e empregado, tais como horário de trabalho, salários, benefícios e direitos trabalhistas garantidos constitucionalmente, agora começam a apresentar a possibilidade de serem "desreguladas" e "flexíveis", baseadas em contratos implícitos, isto é, apenas verbais e não formalizados.

Essa situação geraria, como principal foco de tensão, a administração de um contrato de trabalho rompido pelo empregador. Assim, o trabalhador teria que se sujeitar a realizar trabalhos, abrindo mão da formalidade e conseqüentemente de seus direitos, para se manter no mercado. A problemática torna-se explícita ao pegarmos o caso emblemático da GE, por exemplo, que é uma das dez maiores empresas do mundo em receita e capitalização, considerado de maior sucesso na aplicação do modelo.

Nos anos 1980 a GE possuía uma receita de 52 bilhões de dólares anuais e 404.000 funcionários. No fim dos anos 1990 aumentou para uma receita de 450 bilhões de dólares e diminuiu para 229.000 o número de funcionários, ou seja, aumentou seu lucro em 800% e diminuiu o número de empregados praticamente para a metade. Fica a reflexão: o trabalhador, agora nomeado de capital intelectual ou capital humano está se dando conta dessa nova realidade, que também está sendo construída com e pelo seu consentimento?

Lydia M.P. Brito é autor do recém-lançado livro Gestão de competências, gestão do conhecimento e organizações de aprendizagem – Instrumentos de apropriação pelo capital do saber do trabalhador.

  1. Pingback: Os Views dos Meus Artigos Aqui, « Liberal Space: Blog de Eduardo Chaves

  2. Pingback: Top Posts of this Blog for all time ending 2014-04-14 (Summarized) « * * * In Defense of Freedom * * * Liberal Space

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: