A salvação da universidade pública (e da privada!)

Talvez o melhor conjunto de medidas que poderia ser adotado pelo desgoverno petista para melhorar a qualidade do ensino superior privado, tão criticado pela esquerda estatista, seria definir, de forma clara e irrecorrível (de preferência através de uma Emenda Constitucional que acrescente essas medidas como cláusulas pétreas em nossa lei maior) que o acesso ao ensino superior público no Brasil será condicionado a estas prioridades (pela ordem):

a) Quanto mais pobre o candidato, maior o número de pontos atribuído a ele na categoria “pobreza” (até o maximo de 100). Essa categoria permitiria, naturalmente, que a universidade pública se engajasse no combate à pobreza (contribuindo também para modificar a imagem elitista que a universidade pública possui aos olhos do público externo a ela).  

b) Quanto mais escura a pele do candidato, maior o número de pontos atribuído a ele na categoria “cor” (até o maximo de 100).  Essa categoria permitiria, naturalmente, que a universidade contribuisse com a sociedade no combate ao racismo ou ao “colorismo” (preconceito contra as pessoas de cor). (Preservo a grafia “colorismo”, em ver de usar o termo “corismo” que alguns preferem, em primeiro lugar porque existe, em Português, o verbo “colorir”, com um só ele, que significa dar cor, pintar, e, em segundo lugar, porque o termo “corismo” poderia ser entendido como tendo relação com “coro” e não com “cor”).

NOTA: deixo em aberto se o critério "a" deve ter precedência sobre o critério "b", ou se “b” deve prevalecer sobre “a”. Esclareço que se o critério "a" prevalecer, alguém muito pobre, mas bastante branco (como aqueles branquelos descendentes de alemães, polacos e italianos do sul do Brasil), ficaria classificado na frente de alguém meio escuro, mas não muito pobre, como, por exemplo, o filho do Ronaldo Nazário, o Fenômeno (que, apesar de ter dito que é branco, e, portanto, não colorido, teve sua negação violentadamente criticada pelo establishment cultural brasileiro, que determinou que, independentemente de sua aparência, o filho de Ronaldo é de cor, vale dizer, negro); se o critério "b" prevalecer, um escurinho rico, como o Edinho, filho do Pelé, fica classificado na frente de branco pobre – se, naturalmente, for libertado da prisão em tempo para concorrer a uma vaga no ensino superior público. [A UNICAMP já demonstrou interesse em pleitear para si a vaga que será ocupada por Edinho na eventualidade de que ele possa e deseje concorrer a ela].

c) Quanto mais distante da Europa for o local de nascimento dos ascendentes mais próximos do candidato, até a quinta geração, maior o número de pontos atribuído a ele na categoria “etnismo” (até o máximo de 100). Essa categoria permitiria, naturalmente, que a universidade pública contribuisse com a sociedade no combate ao nefasto preconceito do eurocentrismo – preconceito que afirma que as culturas antigamente chamadas de primitivas não são inferiores à cultura que teve sua origem na Europa. Por culturas primitivas entenda-se, por exemplo, algumas culturas africanas em que os maridos têm reconhecido o seu direito de espancar suas mulheres (sic) porque (inter alia) a comida ficou salgada demais, e em que o clitóris das adolescentes é removido e sua vagina costurada, para que não fiquem tentadas a arriscar sua virgindade antes de serem compradas por um marido, que, na noite de núpcias, para comprovar sua virilidade, arrebenta com a vagina ainda costurada da noiva, para que esta não sofra tentação de usá-la com nenhum outro que não ele).

d) Quanto mais orientado para o mesmo sexo for o candidato em sua preferência sexual, maior o número de pontos atribuído a ele na categoria “sexismo” (até o máximo de 100). Essa categoria permitiria, naturalmente, que a universidade pública contribuisse no combate a diversos preconceitos relacionados ao que antigamente se chamava de sexo mas hoje se chama de gênero: sexismo, chauvinismo heterossexual, homofobismo, etc.. Registre-se aqui que, embora hoje seja de bom alvitre referir-se ao gênero e não ao sexo da pessoa, porque este não seria biologamente determinado, mas, sim, socialmente construído, na referência ao preconceito conhecido como “sexismo” o termo “sexo” é ainda admitido. Esclareço ainda que, para fins de classificação, o exclusivamente homossexual é mais orientado para o mesmo sexo do que o bissexual e este é mais orientado para o mesmo sexo do que o exclusivamente heterossexual. Dispenso-me de apresentar a justificativa. Para aplicar o critério com mais rigor pode-se ainda preferir, no acesso à universidade pública, quem é exclusivamente homossexual hoje e nunca – jamais — manteve relações sexuais com o sexo oposto a quem é exclusivamente homossexual hoje, mas, no passado, já teve momentos de fraqueza e lapso em que manteve relações sexuais com alguém que pertence ao outro sexo. Sou forçado a admitir que o uso do termo “gênero” aqui parece não cair muito bem, e confesso omitir intencionamente as categorias “transsexual”, “metrossexual”, “überssexual”, etc. por, sinto dizê-lo, não entendê-las suficientemente bem. Sugiro, no caso específico da UNICAMP, universidade na qual milito, que a Marta Suplicy seja consultada sobre essas categorias antes da implantação da proposta na universidade.

e) Quanto mais "necessidades especiais" (antigas deficiências, termo hoje politicamente incorreto) tiver o candidato, maior o número de pontos que ele recebe na categoria “capacitismo” [tradução de “ableism”] (até o máximo de 100). Essa categoria permitiria, naturalmente, que a universidade pública contribuisse com o combate aos portadores de habilidades diferenciadas, posto que hoje “ser diferente é normal”. Para as instituições demasiadamente preocupadas com uma possível injustiça, nesta categoria, contra candidatos não-desafiados por necessidades especiais (os antigamente chamados, inapropriadamente, de normais, visto que todo mundo é diferente), caso seja atribuído o máximo de 100 pontos para cada necessidade especial, o número de pontos atribuídos no caso de múltiplas necessidades pode ser o resultado da divisão de 100 pelo número de necessidades especiais do candidato.

f) Quanto mais velho for o candidato, maior o número de pontos atribuído a ele (até o maximo de 100) na categoria “idadismo” ou “jovismo” [neologismos que traduzem os termos em Inglês "ageism" e "youngism"]. Essa categoria permitiria, naturalmente, que a universidade pública contribuisse no combate ao preconceito contra aqueles de experiência mais longa.  

g) Quanto mais feio for o candidato, maior o número de pontos atribuído a ele (até o máximo de 100) na categoria “aparencismo” ou “belezismo” (neologismos que procuram traduzir os termos em Inglês "lookism" e "prettyism/handsomism". Essa categoria permitiria, naturalmente, que a universidade pública contribuisse no combate ao preconceito contra aqueles que são inapropriadamente chamados de feios, visto que a beleza é relativa e, de qualquer forma, está no olho de quem olha, não na pessoa olhada em si.  

O fato de não ter previsto um criterio específico para os gordinhos (vitimas do preconceito de "fofismo") e para os HIV-positivos (vitimas do preconceito conhecido na America Latina, fora do Brasil, como "sidismo", e, no Brasil, como "soropositivismo" – variedade pós-comtiana de positivismo), não quer, de forma alguma, indicar que eu, pessoalmente, seja culpado dos preconceitos acima indicados. O problema é que não sei direito onde inserir esses dois critérios.

O fato de não ter previsto outros critérios, que impeçam outras formas de discriminação, decorre, não de preconceito de minha parte, mas, e exclusivamente, de minha ilimitada ignorância das múltiplas, variegadas e sutis formas que o preconceito assume em nosso meio.

Sugiro ainda que os mesmos criterios se apliquem à escolha de professores para o ensino superior público.

Quotas nao resolvem os problemas por cuja solucao se bateram os representantes brasileiros em reunião recente na África do Sul. Esta minha solução os resolve definitivamente.

Garanto que com as prioridades acima indicadas nenhuma pessoa rica, branca, de ascendência européia, heterossexual ("straight"), sem necessidades especiais ("deficiências"), jovem e bonita jamais conseguiria se valer do dinheiro publico para conseguir manter seu status de classe dominante. E a universidade pública estaria salva dos que hoje a manipulam para suas finalidades inconfessáveis.

De quebra, tenho certeza de que a qualidade do ensino superior privado melhoraria rapidamente, solucionando (num sub-produto bastante positivo) um dos grandes problemas do cenário educacional brasileiro e colocando o ensino superior privado em linha com o ensino básico privado, já reconhecido como de qualidade superior.

Espero que as mulheres apreciem o fato de que não atribuí pontos diferenciados às mulheres, recusando-me a consider o "hominismo" (condição de ser simplesmente o homem da espécie) um preconceito muito sério. Certamente não o tipo de preconceito a ser considerado crime inafiançável – nem o tipo de preconceito do qual se possa livrar sem delicada cirurgia.

Em Campinas, 24 de agosto de 2005

  1. ENSINO SUPERIOR PÚBLICO GRATUITO PARA RICOS?

    O pior inimigo do povo brasileiro é a demagogia sem sentido, como é o caso da disseminação nas escolas e faculdades do preconceito ideológico que impede a implantação do Ensino Universitário Público Pago.

    A gratuidade indiscriminada favorece os que podem pagar, que utilizam boas escolas de base para que seus filhos estudem de graça nas universidades públicas, onde os professores ganham várias vezes mais que os do ensino fundamental e médio.

    Os pobres estudam em escolas de base públicas, em boa parte ruins, e trabalham para pagar o ensino superior em faculdade particular de segunda linha, limitando-os no mercado competitivo.

    Quem pode, que pague e contribua para que outro estude; quem não pode, que receba bolsa reembolsável e pague quando puder. Nos países que adotaram este modelo, as desigualdades sociais diminuiram muito, pelo simples fato de que os recursos para investimentos para a multiplicação das vagas são muito maiores.

    Nos EUA, todo ano formam-se 18 milhões de alunos de curso superior, ante pouco mais de 1,5 milhão de alunos no Brasil. Isso porque temos de contar com as faculdades privadas que geram mais vagas que o Estado. Só que elas se proliferaram às custas de quem sofre muito para pagar. Até a China já adotou o modelo anglo-americano, em 1998.

    Porém, enquanto no Brasil tivermos ensino universitário público com a gratuidade indiscriminada, com várias universidades públicas inúteis e com despesas extraordinárias; corporativismo doentio; com baixos salários no ensino de base, sem valorizar o mérito de alunos e professores, seremos eternamente um País do Futuro.

    RESUMO
    1) A gratuidade não tornou mais eqüitativa a educação superior, que se manteve como privilégio das camadas médias e altas da população;
    2) o aporte adicional de recursos para a Universidade com a cobrança de mensalidades permite melhorar a qualidade dos serviços acadêmicos que, de outra forma, custariam pouco ou nada, mas também teriam reduzido valor para seus adquirentes;
    3) o financiamento da instituição por parte do indivíduo criará uma situação de competição entre as Universidades, que repercutirá favoravelmente sobre a qualidade;
    4) não é possível financiar os estudos dos pobres com dinheiro dos ricos através de escolas particulares.

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