Santa Lindu, bendito o fruto de vosso ventre, Lulla (ou: Sonho e realidade, esperança e medo)

Os jornais, nos últimos tempos, vêm trazendo inúmeras considerações de petistas arrependidos falando sobre a necessidade de preservar o sonho e não perder a esperança. O artigo do cada vez mais infantilizado Cristóvam Buarque na Folha de hoje (“Recompor os Sonhos”, FSP de 28 de agosto de 2005) é apenas mais um deles. Os porquinhos mais práticos falam em “refundar o partido”, na criação de um “neo-PT” que acolha aqueles que o “velho” PT excomungou. Os mais chegados ao marketing (i.e., à enganação) se ocupam de “resgatar” na população, em especial entre os mais humildes (leia-se: pobres), os sonhos e as esperanças que o PT frustrou.

Na verdade, Cristóvam Buarque, no que parece ser um pré-manifesto à sua saída do PT, vai além: o que precisa ser refundado não é o partido, é a esquerda. Diz ele: “A realidade social brasileira não pode esperar pelo PT. É preciso refundar a esquerda. Recompor os sonhos, aglutinar os sonhadores. Se sem o PT isso será difícil, por seu intermédio será impossível. O PT precisa assumir que não é mais o irmão mais velho da esquerda. É apenas parte dela, e está debilitado.” Em outras palavras: refundar a esquerda por intermédio do PT é impossível. Logo, será que o ex-Reitor da UnB vai continuar a queimar vela pra mau defunto? Porque o PT não está simplesmente “debilitado”: está com doença terminal.

Cristóvam Buarque conclui seu artigo de forma apoteótica: “Não será um partido que retomará o sonho, mas sim um movimento pelo reencantamento do Brasil, pela recomposição do sonho, que, apesar de parecer morto, continua tão necessário quanto antes.” Interessante: o sonho, segundo ele, parece morto – mas continua necessário… A lógica da frase nos leva a esperar que ele dissesse que o sonho, apesar de parecer morto, continua vivo… Mas não é isso que ele diz. Talvez duvide de que o sonho continue realmente vivo. O sonho continua, segundo ele, necessário. Necessário para quê? Seria bom que ele esclarecesse. Mas o artigo terminou antes de que o fizesse.

Mas toda essa conversa de sonhos, e toda aquela história da esperança que venceu o medo, me faz refletir um pouco sobre a história do socialismo, a história das esquerdas.

Antes de Marx e Engels certamente havia socialistas (Saint-Simon, Fourier, etc) – mas eles foram prontamente rotulados de “utópicos” pelos criadores do chamado “socialismo científico”. Os utópicos eram meros sonhadores que não se preocupavam com os meios concretos de transformar suas utopias – seus sonhos – em realidade.

O socialismo dito científico pretendia não ser utópico – não porque abrisse mão dos sonhos, mas porque instrumentava os sonhos com uma estratégia de tomada de poder, usando ferramentas conceituais como o determinismo histórico, a primazia da base material (a infraestrutura) sobre o mundo das idéias (a super-estrutura), a redução do complexo social a duas classes, a luta de classes, a luta revolucionária, a ditadura do proletariado, passagem para a sociedade sem classes e, por isso, sem estado, sem governo.

Existe algo mais utópico do que uma sociedade sem classes, sem estado, sem governo? O que diferencia os “realistas” do socialismo científico dos sonhadores do socialismo utópico é o instrumental estratégico que os primeiros fornecem para a tomada do poder e a transformação da sociedade pela força, pela guerra revolucionária, pelo poder ditadorial.

Em nome do objetivo último – supostamente resgatar os oprimidos da pobreza, reduzir as desigualdades sociais, promover a justiça (“social”) – tudo vale. A ética do socialismo marxista é uma ética em que esses fins justificam quaisquer meios – inclusive a violência, a ditadura, e, naturalmente, a mentira. Mais do que isso: esses fins justificavam até mesmo alianças com parceiros estratégicos que não comungam dos mesmos fins – mas que não relutam em adotar os mesmos meios (como ficou claro com o pacto de Stalin com Hitler em 1939). Alianças estratégicas de socialistas com parceiros que, à primeira vista, parecem estranhos não é algo que o socialismo tupiniquim do PT inventou.

A revolução comunista de 1917 na Rússia deu aos socialistas auto-intitulados científicos uma aparência de confirmação empírica das teses supostamente científicas de seus patronos. É verdade que muita coisa não se passou como Marx e Engels haviam predito, mas quem vai se preocupar com detalhes numa hora dessas?

Os socialistas em geral exaltavam. Bem, talvez nem todos. Quem sabe os socialistas utópicos tivessem se perguntado se o preço pago em violência e mortandade não estaria alto demais para os resultados obtidos. E é verdade que o “socialismo realista” (i.e., não utópico) implantado na Rússia por meios “científicos” acabou criando rivalidades que se cristalizaram em grupos de oposição – as famosas “facções” (que não só existem como proliferam ainda hoje). Mas, no geral, havia exultação entre as esquerdas com a “prova histórica e científica” de que a revolução socialista é possível – que “é realista sonhar” (se a gente sonha “com o poder na mão”).

É verdade, também, que o realismo do socialismo comunista implantado na Rússia – que se expandiu para a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas – de vez em quando deixava meio revoltos alguns estômagos socialistas mais delicados – pertencentes aos antecedentes históricos do Senador Eduardo Suplicy. Seria preciso tanto expurgo, tanto desterro, tanta violência, tanto assassinato??? Mas, no fim, os fins justificavam os meios.

Daí veio 1939. Stalin fez um pacto de não agressão contra Hitler. De novo, alguns estômagos mais delicados se revolveram. Mas, no fim se aquietaram – sob as brilhantes justificativas de intelectuais comunistas de que, afinal de contas, os fins justificam os meios, e que o objetivo final de fazer do mundo um paraíso comunista justificava até alianças com monstros como Hitler.

Em 1939 não sabia a extensão em que Stalin era também um monstro – e o grau em que o totalitarismo do socialismo comunista (e internacionalista) era semelhante ao totalitarismo do socialismo nacionalista de Hitler. Ninguém parece ter prestado muita atenção ao fato de que a ideologia de Hitler se denominava “Socialismo Nacionalista” (Nationalsozialismus, ou, simplesmente, Nazi, para os íntimos, como agora eram os comunistas).

Mas em 1956 ninguém mais podia pretender desconhecimento. Morto Stalin em 1953, o próprio secretário-geral do Partido Comunista Soviético, Nikita Kruschev, denunciou os crimes de Stalin. Foram os comunistas mesmos (benditas facções!) que denunciaram seu ex-ídolo.

E naquele mesmo ano, em  4 de novembro de 1956, tropas da União Soviética invadiram Budapeste e aniquilaram os sonhos de liberdade do povo húngaro.

E em seguida veio a “Primavera de Praga”, em 1968 – que termina em pleno verão, 21 de agosto.

O padrão se repete: quando há sonhos, os socialistas ditos científicos, que encaram com realismo a política e o poder, os destróem.

Mas os intelectuais comunistas não se desiludem fácil. Continuam a apoiar o comunismo – e acham jeitos de defender a destruição dos sonhos de liberdade dos húngaros, dos checos-eslovacos…

E depois vem o bobo do Lulla dizer num discurso recente: “eles podem murchar uma rosa mas não podem impedir a primavera de nascer…”  Primeiro: eles quem? As forças ocultas? Segundo, eles, os socialistas realistas podem, sim, impedir a primavera de nascer. Vide Praga, 1968.

Mas em 1989 tudo estava podre e nem os socialistas mais ferventes conseguiram impedir a queda da Cortina de Ferro.

Na hora em que o socialismo comunista fracassa é que eu mais admiro os intelectuais socialistas (intelectuais comunistas não sobraram muitos, e os que sobraram se esconderam). Seu discurso, agora, é de que o socialismo da União Soviética e do Leste Europeu não era o verdadeiro socialismo: era apenas o “socialismo real”…

Ora, ora… A crítica que os comunistas – defensores do socialismo dito científico – faziam dos socialistas utópicos era de que esses não levavam a realidade a sério… Agora os socialistas viúvos do comunismo afirmam que este não era o verdadeiro socialismo, porque era real – realista demais. Durma-se com um barulho desses.

Enquanto isso, no Brasil, o socialismo tupiniquim viceja, conduzido por um torneiro mecânico e sindicalista. Com o apoio dos intelectuais marxistas – e daqueles intelectuais socialistas que se pretendem não marxistas. Os intelectuais esquerdistas têm orgasmos múltiplos ao verem a ascensão de Lulla e do partido que ele criou: dito dos trabalhadores — embora seja principalmente de intelectuais e pretendentes a uma certa intelectualidade.

O PT era o partido de intelectuais que deveriam estar desiludidos mas se recusavam a se desiludir, é verdade. Mas também de religiosos frustrados com a religião católica, com Frei Boff e Frei Beto, que encontraram na política esquerdizante a “Ersatzreligion” que a fé lhes negara.  

Em um artigo escrito logo depois da eleição de Lulla, chamado “Lula e o Reencantamento do Brasil” Frei Boff argumenta que “vale arriscar em Lula porque ele representa a chance de um outro Brasil e de uma forma de fazer política…” Quase que vale colocar mais três pontinhos depois dos três que Frei Boff pôs.  Que coisa mais linda, não? Comovo-me. [O artigo de Frei Boff pode ser lido em http://www.imediata.com/lancededados/lula/boff_reencantamento.html].

Frei Boff comenta o medo de Regina Duarte (em nome do PSDB). E cita Jean Delumean em resposta: "Eles [os poderosos] nos ensinaram o medo; eles vieram fazer nossas flores murchar para que só sua flor vivesse”. Quem sabe Lulla bebeu aqui a idéia da rosa que murcha?

Frei Boff continua: “Os poderosos não têm medo de um operário que trabalha. Eles têm medo de um operário que pensa. É o caso de Lula e de seus companheiros. Eles ousaram pensar. Mais. Começaram a sonhar um Brasil diferente. Mais ainda. Organizaram-se para que o sonho não ficasse mero sonho mas virasse movimento, partido, projeto político e alternativa de poder com o propósito de re-inventar um Brasil de outros quinhentos”.

O Brasil diferente sonhado por “Lula e seus companheiros” deu no que deu. Frei Boff parece ter se esquecido de que o sonho dos socialistas não utópicos têm de ser instrumentado pelo realismo prático da política, pela instrumentação dos meios necessários para transformar os sonhos em realidade… Que para a realização de cada sonho socialista é necessário um Stalin, um Fidel, um Dirceu – com todos os vermes que os acompanharam e acompanham.

E Lulla? Lulla, diz Frei Boff, “Lula trouxe as razões para um novo re-encantamento”.

Menos de três anos depois, somos forçados a concluir: Lulla: ingênuo simplório ou mentiroso conivente. Tertium non datur.

Mais lírico, Frei Beto, depois das eleições, escreveu uma carta a Dona Lindu, mãe de Lulla, morta em 1980. Foi Frei Beto que “fez o seu enterro” (palavras dele – será que ele foi o coveiro?). [O artigo de Frei Beto pode ser lido em http://www.faced.ufba.br/~menandro/por_email/carta_de_frei_beto.htm.]

Afirma Frei Beto, numa das passagens mais comoventes: “Seu filho venceu, Dona Lindu. Não porque tirou diploma, ficou rico e famoso. Mas porque construiu o mais combativo e ético partido político do Brasil. . . Lula ensinou à Nação que é possível fazer política com decência, vergonha na cara, tolerância nas relações pessoais e intransigência nos princípios”.

Comovente. Lulla construiu o partido político mais ético do Brasil. Lula nos ensinou que é possível “fazer política com decência, vergonha na cara, tolerância nas relações pessoais e intransigência nos princípios”. Nenhuma dessas coisas é verdade. Não houve decência, não houve vergonha na cara, não houve tolerância com os que pensavam diferente, não houve intransigência nos princípios – a menos de que seja no princípio de que tudo vale quando o fim é chegar ao poder para redimir a nação.

Tipicamente, o site em que encontrei o artigo de Frei Beto é de uma Faculdade de Educação – a da Universidade Federal da Bahia… Bendita Bahia, cuja capital é Salvador. Será que algum esquerdista aprendeu alguma coisa com o artigo de Frei Beto?

O lirismo de Frei Beto chega a seu ponto máximo nas palavras finais do artigo:

“O Brasil merece um futuro melhor. O Brasil merece este fruto de seu ventre”.

Em outras palavras: Santa Lindu, bendito o fruto de vosso ventre, Lulla.

Anísio Silvia fez sucesso com a canção “Tudo foi Ilusão” Arcelino Tavares e Laert Santos, que afirma: "…Minha vida é uma noite sem lua e sem estrelas e os meus sonhos foram somente sonhos e nada mais…"

Oxalá fosse esse o maior problema: o de que os sonhos dos simpatizantes do socialismo petista tivessem sido somente sonhos e nada mais. O grande risco que nós, brasileiros, corremos é que esse sonho quase se tornou realidade – através do maior esquema de corrupção de que já se teve conhecimento na história do Brasil.

Arrisco-me a uma hipótese. Nossa sorte, como povo brasileiro, é que, no fundo, os socialistas utópicos e os socialistas realistas não se topam, se detestam, não conseguem conviver. Nossa sorte é que as facções que não se toleram parece ser o destino do socialismo. Vocês já imaginaram a máquina realista montada pelo estalinista Zé Dirceu  (o “aparelho) sendo colocados a serviço dos sonhos desvairados da esquerda mais radical? Bem que o Zé e seu padrinho Fidel queriam… Mas felizmente o “momento histórico” não havia chegado…

Talvez nossa grande sorte tenha sido a incomparável despreparo e incompetência de Lulla para o exercício do cargo que lhe caiu nas mãos (modo de dizer: que foi conquistado por enganação, empulhação e roubalheira, como hoje sabemos). Para se eleger, convenceu-se, teria de fazer alianças. Eleito, escolheu para ministro condutor da economia o menos incompetente em economia de seu círculo mais próximo que fosse capaz de conduzir uma política econômica que não ameaçasse a estabilidade do país (e o ajudasse a realizar seu sonho de se tornar o grande Messias do socialismo mundial). Palocci, um médico interiorano, resolveu que a melhor alternativa seria não inovar, ou seja, jogar seguro e continuar uma política econômica que estava dando certo (apesa da gritaria do Zé Dirceu e da esquerda radical). (O Zé teve de conviver, a contragosto, com o sucesso do Palocci. Até que tentou uns truques velhos contra ele, mas não deram certo).

[O mago Emir Sader, num artigo que tem o título de “O Mundo pelo Avesso” (o coitado não percebe que quem está pelo avesso é ele…) lança um manifesto pela reunificação das esquerdas no Brasil. O artigo foi publicado na revista Carta Maior – que um estudante genial do Mato Grosso renomeu Bilhetinho Chinfrim (vide http://agenciacartamaior.uol.com.br/agencia.asp?id=1438&coluna=boletim). Será que o mago um dia estudou a história da faccionalização da esquerda?]

Essa, enfim, a nossa grande sorte: o desperaro e a incompetência do filho de Dona Lindu… O fruto do ventre de Dona Lindu aparentemente não foi tão bendito quanto o desejou o coveiro dela. (Frei Beto não quis ser o último rato a saltar do Titanic do Lulla: assim que as coisas começaram a feder, pulou fora).

Mas o despreparo e a incompetência de Lulla não foram a única sorte. Nossa outra grande sorte foi a prisão de um ladrãozinho de décimo escalão que embolsou três mil reais nos Correios. Ele, na gravação, denunciou o Roberto Jefferson. O governo tentou fazer de Jefferson o bode expiatório. E deu no que deu – E deu no que deu – pra sorte nossa e pro azar do socialismo petista. (Como é que será o nome da mãe de Jefferson?).

Se tivermos um terceiro golpe de sorte, esses socialistas realistas vão todos pra cadeia e ficaremos, mais uma vez, com os socialistas utópicos, que sonham, gritam, esperneiam – mas, no fundo, não causam tanto mal. Quem sabe presididos por São Eduardo “Renda Mínima” Suplicy. Deles, não precisamos ter tanto medo.

Agora, dos socialistas realistas eu tenho medo… Deles, até o Roberto Jefferson tem. Esses nós sabemos os males que podem causar. Cerca de cem milhões de pessoas morreram por causa deles, na União Soviética, na China, no Cambódia, e outros lugares em que o povo teve a infelicidade de vê-los triunfar e impor os seus sonhos de poder. Porque os sonhos deles são só de poder. E nada mais.

Em Campinas, 28 de agosto de 2005.

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