A questão da arte “engagée” e “partisane”

Em resposta a alguns dos comentários, vou tentar esclarecer um pouco o que estava na minha cabeça ao fazer a observação que o Antonio Morales cita, a saber:

“Discordo dos críticos que afirmam que o cinema e a literatura desengajados politicamente, ‘inorgânicos’, alienam, quando eles assumem que essa alienação é ruim. Eu acho que sem ela a vida seria muito mais pobre e muito mais difícil de viver”.  

Note-se que eu disse: “Discordo dos críticos que afirmam que o cinema e a literatura desengajados politicamente, alienam

Esse enunciado citado claramente não é um enunciado artístico (literário) – enunciado, digamos, de primeira ordem lógica. Nem é um enunciado metaliterário, como os que fazem os críticos de arte, isto é, um enunciado, de segunda ordem lógica, sobre obras de arte, em geral, e a literatura, em particular. O enunciado é de terceira ordem lógica. Seu objeto não é a obra de arte, mas, sim, o que dizem os críticos de arte sobre as obras de arte. Essa terceira ordem lógica é o domínio da filosofia: no caso, da filosofia da arte — um ramo da filosofia que alguns chamam de estética.

Não tenho maiores problemas com quem faz arte “engagée”, “partisane”, etc. Pelo contrário. Adoro os romances de Ayn Rand , que, no meu julgamento, estão entre as melhores obras de ficção jamais produzidos pela literatura universal. No entanto, dificilmente vai haver uma literatura mais “engagée” e “partisane” do que a dela (engajada e tomando partido em favor da liberdade individual e do liberalismo mais radical do século XX). Também não tenho maiores problemas com críticos literários que avaliam esse tipo de arte, quer eles a elogiem, quer eles a critiquem, por qualquer razão que hajam por bem invocar.

Tenho sérios problemas, entretanto, com quem defende uma filosofia da arte que afirma, por razões puramente ideológicas, que a literatura (ou a arte) não “engagée” e “partisane” — leia-se: não engajada e partidária em geralmente em favor do comunismo ou do socialismo, ou da revolução social, ou do igualitarismo, etc. — é “alienante”. Esses filósofos da arte, se confrontados com uma literatura como a de Ayn Rand, que certamente é “engagée” e “partisane”, questionariam o engajamento e a tomada de posição dela, afirmando que engajamento e tomada de posição “do lado errado” não contam… — assim mostrando que o que criticam não é a falta de engajamento e de tomada de posição, mas a ausência de um engajamento e de uma tomada de posição que eles favorecem e privilegiam.

Ao mesmo tempo em que gosto de uma literatura como a de Ayn Rand, engajada e compromissada com a causa liberal, nunca defendi a tese de que toda literatura, ou toda arte, deva necessariamente ser engajada e comprometida para ser boa. De modo algum. Muita arte “engagée” e “partisane” eu acho um lixo. E, por outro lado, há arte, como a manifestada nos filmes Scent of a Woman e The Bridges of Madison County, que não é “engagée” e “partisane” em nenhum sentido válido desses dois termos. Esses filmes lidam com problemas humanos, com problemas da condição humana, como diria André Malraux, sem dúvida alguma — mas são, em grande medida, problemas pessoais, individuais, não algo que se pudesse qualificar de problema social, quanto mais político. Há, num e noutro filme, leves pinceladas de crítica social, ou melhor, crítica dos costumes (quando, por exemplo, em Scent of a Woman, se ridiculariza as escolas privadas americanas que tentam imitar as britânicas, ou, em The Bridges of Madison County, se ridiculariza a bisbilhotagem e a fofoquice da sociedade rural de Iowa). Mas isso não permite qualificar os filmes como exemplos de engajamento e comprometimento com causas políticas. No entanto, apesar dessa sua natureza totalmente a-política, os dois filmes são geniais, enquanto arte.

Espero que isso esclareça o que eu penso.

Em Campinas, já em 28 de agosto de 2006

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