De caras, línguas, e estereótipos

Vivendo num país como o Brasil, e viajando como eu viajo, essas coisas não deveriam me chamar a atenção. Mas chamam.

Ontem à noite (era de manhã aí no Brasil) estava esperando, em Bangkok,  na Tailândia, o avião da Thai Air que me levaria (como de fato me trouxe) para Kuala Lumpur, na Malásia, quando ouvi, atrás de mim, dois senhores conversando animadamente em (presumo) tailandês ou malásio (digo presumo, porque apesar de viajar muito aqui para a Ásia, não consigo diferenciar o som de uma língua oriental da outra). Pareciam estar apreciando a conversa, riam, pareciam brincar um com o outro. Olhei e eis que vi dois homens bastante altos (1,85 m pra cima), coisa incomum aqui, um loiro e o outro moreno, de cerca de 45-50 anos, ambos de camiseta, bermuda e tênis (algo incomum para homens nessa faixa etária). Fiquei surpreso. Pela cara (e pelo jeito) dos dois, deveriam estar falando inglês. Ver dois homens, com essa cara e esse jeito, falando uma língua oriental fluente e animadamente, pareceu incongruente.

Mas daí pensei… Se um estrangeiro visse, aí no Brasil, duas pessoas, com cara de japonês, como Shigeaki Ueki ou o Yoshiaki Nakano falando português fluente e animadamente, também acharia estranho – mas eu não deveria, pois se trata de um ex-ministro do governo federal e um ex-secretário do Estado de São Paulo…

Nem sempre a cara combina com a língua.

Na minha recente viagem pela Europa, em que fiquei 52 dias vagando por diversos países europeus, os últimos dezesseis em Portugal, surpreendia-me ouvindo o português em países como a República Tcheca, a Áustria, a Alemanha. Já na Suiça é comum ouvir o português nas ruas, porque há muito português migrante lá. Só o conhecimento disse já fazia não parecer tão surpreendente ouvir o português ali. Quando cheguei a Portugal, no início houve uma certa surpresa. Como na piada, a reação foi: “Que diabo de língua estão esses estrangeiros todos a falar que consigo entender tudo?” Mas logo a surpresa passou e me senti como se estivesse no Brasil.

Já num país como a Malásia, em que me encontro agora, será realmente uma surpresa – dessas de parar as pessoas, ainda que totalmente desconhecidas, para falar “oi” – se encontrar gente falando português: é incomum ouvir o português aqui, e estamos tão longe do Brasil…

O interessante – e impressionante –  é que e como o cérebro humano rapidamente se adapta em suas “expectativas” – e coisas que, num contexto não surpreendem, noutro passam a surpreender, e vice-versa. É essa característica, porém, que nos faz desenvolver estereótipos.

Quando estava na estação ferroviária Heidelberg, na Alemanha, esperando para pegar o trem que nos levaria a Zurique e, depois, para Genebra, deixei a minha mulher sozinha para ir ao banheiro (lateral: preço de acesso ao banheiro da estação, 1 Euro). Quando voltei, ela estava toda surpresa. Mostrou-me um senhor assim de uns 65-70 anos, alto, simpático, de bigode, usando terno… Disse-me: “Está vendo aquele senhor ali? Há dois minutos estava beijando na boca um outro senhor,  da mesma idade, tão distinto como ele, que partiu… Ficou aqui jogando acenando e jogando beijinhos para o outro…” Ela achou incrível. É a quebra dos estereótipos que o cérebro constrói. Ver velhinhos apaixonados já é incomum – do mesmo sexo, então, é raro…

Na Suiça ou na França também vi um “casal de duas moças”, bonitas, distintas, bem vestidas, se beijando na boca. Nada escandaloso: tudo muito discreto, assim como faz um casal hétero em público. Também chamou a minha atenção. O mesmo estereótipo, agora não com homens idosos, mas com mulheres jovens.

Em Kuala Lumpur, 29 de novembro de 2006 (ainda 28/11 no Brasil)

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