A Malásia

País interessante a Malásia. Talvez deva me restringir a falar em Kuala Lumpur, a capital, que é a única cidade que conheço. Dizem que o interior é muito menos desenvolvido – e que a parte do país que fica em Bornéu é quase só jungle. Mas vou falar em Malásia – a Malásia que eu estou vendo.

Olhando de minha janela, aqui no Traders’ Hotel, do lado do novo e magnífico Centro de Convenções da cidade (KLCC: Kuala Lumpur’s Convention Center), vejo as Petronas Towers – duas torres arredondadas, lindas, de 88 andares, e que formam, vistas do céu, um 88, visto que cada uma das torres tem uma torrinha menor, que forma a parte de cima de um oito… É uma das vistas urbanas mais lindas que já vi – estou colocando no space algumas fotos das torres, vistas de minha janela, para comprovar. O escritório da Microsoft aqui na Malásia é localizado lá, nos andares 29 e 30.

A parte central da cidade é linda – com uma parte moderna, magnífica, e uma parte tradicional, herdada do período em que a Inglaterra mandava aqui, que é uma mistura de arquitetura britânica com a arquitetura oriental.

Há gente que diz que a Malásia é um país desenvolvido, no que diz respeito ao hardware – mas subdesenvovlvido, no que concerne o software: a mentalidade, o “mindset”… Talvez seja verdade… O hardware é produto da influência ocidental. O software, porém, reflete uma mistura de influências, além da ocidental… O país é uma mistura de etnias (ou raças, como eles chamam aqui). Cerca de dois terços da população é, etnicamente, malaia. O restante se divide entre chineses, indianos, e o resto… A religião segue, de certo modo, as etnias. A maioria malaia é predominantemente muçulmana; os chineses são budistas, confucionistas, cristãos; os indianos são predominantes hindus. Salada mista total. Mas o islamismo é religião oficial do país – embora, dada a diversidade religiosa, o país não seja considerado uma nação islâmica. A diferença, reconheço, é sutil.

O islamismo daqui, porém, não parece ser o radical, fundamentalista. As mulheres muçulmunas, embora cubram a cabeça, não cobrem o rosto, nem se vestem, necessariamente, de preto, como acontece nas nações islâmicas conservadoras. Aqui elas em geral cumprimentam a gente com aperto de mão e parecem não ter traumas em tocar no braço dos homens. Para tirar fotografia com a gente, elas até ficam assim encostadas na gente, como a gente fica no Brasil.

Estive, no dia depois ao da minha chegada, no shopping tecnológica da cidade – uma estrutura de cerca de oito andares, onde só se vende tecnologia: Low Yat Plaza. Ali fiquei surpreso – era meu segundo dia no país – de ver mulheres muçulmanas (inclusive uma, com o rosto totalmente coberto) comprando computadores, discutindo características técnicas, configuração, preço, sozinhas, desacompanhadas. No dia seguinte, durante o congresso, a surpresa continuou – se bem que, a essas alturas, não deveria ser mais surpresa. Um mundaréu de professoras e diretoras de escolas, vestidas em roupas lindas, estampadas e coloridas (como diz um amigo meu, coloridas com todas as cores do zodíaco), carregando pastinhas de executivos, usando notebooks, falando em celulares… O moderno, numa roupagem tradicional.

Quando dei minha palestra, na abertura do congresso, olhei a audiência, de cima do “palco”, e vi cerca de 750 pessoas, a grande maioria mulheres, e a grande maioria delas muçulmanas, e fiquei maravilhado com o festival de vestimentas e cores. Um espetáculo visual de primeira.

Gosto de andar pelas cidades que visito. Aqui, porém, em cima do Equador, o calor torna virtualmente impossível um projeto desses. Ando de transporte público, portanto: metrô (subterrâneo, de superfície e elevado), monorails, trens de subúrbios… O sistema é excelente e funciona impecavelmente. Taxis aqui não são caros. Uma corrida de cerca de 20 minutos não chega a dois dólares. Os táxis, porém, não são muito novos, não… E, como em todo país subdesenvolvido, há taxista safado. Ao voltar do Low Yat Plaza, peguei um taxi e vi que ele ia saindo sem iniciar o taxímetro. Perguntei a ele (em Inglês – todo mundo aqui fala Inglês, herança do período colonial) se não iria ligar o taxímetro. Disse que não: a corrida seria 15 ringgits, fixos, porque era hora do rush. Eu disse a ele para parar, que iria descer… (A minha ida tinha ficado em cerca de 5 ringgits…). Ele parou, desci, acenei para outro taxi, antes de entrar perguntei se dali até o hotel em que estou seria pelo taxímetro, ele disse que sim, entrei e vim: a corrida ficou por 5 ringgits… Hoje fui até um “megashopping”, meio fora daqui. Peguei o transporte público até a estação central (chamada de “Sentral” aqui) lá peguei um taxi. Fiquei meio surpreso quando vi, ao chegar, que o taxímetro marcava 8,80 ringgits (mais ou menos 2,50 dólares): a corrida não parecia ter sido mais longa do que a corrida do hotel ao Low Yat Plaza. Paguei. Na volta, peguei outro taxi, o mesmo trajeto: o preço foi 4,40 ringgits. Conclusão: na ida, o motorista aprontou. Era de etnia indiana, muito falante e simpático… E ladrão. É o problema do software, a que fiz referência antes.

Enfim: estou gostando de minha estada aqui.

As livrarias, são magníficas – e 80%+ dos livros são em Inglês. Uma maravilha. Comprei, no domingo, numa livraria Border’s, que é anunciada como a maior do mundo, uma biografia de Sartre e de Beauvoior, chamada Tête-à-Tête. É uma biografia dos dois juntos, do relacionamento entre eles – que é um relacionamento que, de certa forma, me fascina. Já quase terminei de ler o livro, de mais de 300 páginas. Hoje comprei uma biografia de C. S. Lewis – que é biografado no lindo filme Shadowlands, em que Anthony Hopkins é um C. S. Lewis perfeito (segundo a minha imagem de C. S. Lewis) e Debra Winger é uma encantadora Joy Gresham – a divorciada com a qual ele acabou se casando, depois de já velho, e que ironicamente veio a morrer, logo depois de eles se casarem.

Comprei, também, no domingo, um livro de John Naisbitt, chamado Mindset… Excelente. Comprei porque abri o livro, aleatoriamente, exatamente num capítulo em que ele discutia a União Européia, e fiquei surpreso ao verificar que ele diz, acerca da União Européia, basicamente o que eu disse no meu artigo “A União Européia tem jeito?” (publicado aqui). Segundo ele, o sistema que os europeus montaram parece ter sido planejado para produzir o “declínio reciprocamente garantido” (“mutually assured decline”) de todos os participantes… Diz ele, no sumário do capítulo sobre a Europa: “A ‘Estátua da Europa’ tem dois corações e 25 cabeças. As 25 cabeças preparam uma mistura que contém ingredientes que não se misturam: tradição, ambição, liderança econômica, conflito. Os dois corações batem em ritmos diferentes, um buscando alcançar supremacia econômica, o outro tentando promover bem-estar social. Orgulhoso e ambicioso, cada coração quer estar certo. Mas para alcançar o seu objetivo, os dois corações têm de alcançar um compromisso – e nenhum deles está disposto a fazer isso. Minha experiência me leva a crer que a Europa provavelmente vai se tornar um parque temático histórico para americanos e asiáticos ricos, e não a região mais economicamente dinâmica do mundo, que é o que ela quer ser. Por causa do outro coração, não vai conseguir supremacia econômica, estando no caminho de um declínio que países membros reciprocamente se garantem” (p.213). É basicamente isso.

Ouço agora Billie Holiday, que canta “My Man”…

Em Kuala Lumpur, 5 de dezembro de 2006

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