What is schooling about?

No mês que vem estarei mais uma vez em Taiwan participando de encontros relativos ao programa Escola do Futuro de lá. O tema de minha palestra principal será o título desta matéria: What is schooling about? Livremente, poderíamos traduzir a pergunta por: A escola deve fazer o quê?

Uma primeira resposta, que apenas joga o problema mais para a frente, diria que a escola deve, naturalmente, educar. Mas, como disse, essa resposta não responde, realmente, a questão inicial, pois agora podemos, e devemos, continuar perguntando: Mas o que se entende por educar? E, dado que há outras instâncias que também educam, a mais importante delas sendo a família, que parcela da educação cabe à escola e que parcela cabe a outras instituições? Ou será que essa "divisão de tarefas" não faz sentido, cabendo a todas as instituições envolvidas educar "num sentido pleno", educar "integralmente"?

Começo de trás para frente: acredito que a "divisão de tarefas", se um dia fez sentido, hoje não se sustenta. E por uma série de razões, que passo a resumir.

No caso das famílias mais pobres, o problema é mais sério. As famílias em geral têm um nível educacional mais baixo, os cônjuges, quando convivem, precisam ambos trabalhar fora, as famílias correm mais risco de se desestruturar, não raro as crianças ficando sob a guarda real de apenas um dos cônjuges, etc. Nesse contexto, a idéia de que alguns aspectos da educação — na realidade, os mais importantes, como, por exemplo, a educação moral, a educação da vontade, a educação dos sentimentos — sejam atribuídos exclusivamente à família, a escola passando ao largo deles, beira o utópico.

No caso das famílias de classe média, o problema é um pouco menor. Aqui o nível educacional em geral é mais alto, a pressão econômica para que ambos os cônjuges trabalhem fora é menor. Mas, neste caso, há uma pressão muito grande, não necessariamente de ordem econômica, mas de ordem social, para que o foco de atenção da mulher não se esgote no lar, que ela busque realização pessoal fora dele, ainda que não seja para buscar suplementação da renda familiar. Como neste caso o problema financeiro é menos sério, acabam-se contratando babás, empregadas, etc. para cuidar das crianças, e, não raro, despachando as crianças (em alguns casos com a ajuda de um motorista) para aulas adicionais de inglês, informática, karatê, futebol, etc. Ou seja, mais uma vez se torna utópico imaginar que a família possa cuidar de aspectos da educação — novamente, os mais importantes — enquanto a escola cuida da educação "do pensar".

Aqui há, ainda, um aspecto curioso, até irônico. Em países mais desenvolvidos, como os Estados Unidos, uma parcela bastante culta da classe média está ativamente engajada, não em delegar mais tarefas educacionais à escola, mas em roubar da escola algumas das funções que, tradicionalmente, lhe foram atribuídas. O "Home Schooling" é, na realidade, um movimento de desescolarização da sociedade, talvez ainda mais radical do que o de Ivan Illich, na medida em que propõe que as famílias eduquem "integralmente" — ficando as escolas (pelo menos as hoje obrigatórias) sem função. 

Essa questão acaba fazendo uma transição interessante para as classes mais elevadas. Estas nunca realmente precisaram da escola: têm toda condição de educar seus filhos em casa, com a ajuda de tutores e preceptores particulares. Além disso, o "networking" que elas oferecem aos seus filhos, as oportunidades de viajar pelo país e pelo exterior, etc., tudo isso ajuda de forma significativa na educação não-escolar dos filhos. 

Fica evidente, portanto, que para a grande maioria da sociedade a tradicional "divisão de tarefa" não faz sentido. Ela só não faz sentido para aqueles que têm condições de oferecer uma educação de qualidade em casa — mas estes estão em condições não só de oferecer uma educação de qualidade em aspectos que seriam privativos da família e do lar, mas até mesmo em aspectos que tradicionalmente foram atribuídos à escola. 

A segunda questão, e mais complicada, é: mas o que realmente se entende por educação? 

Na visão tradicional, a educação é entendida como o processo através do qual as gerações mais velhas transmitem às mais novas a visão de mundo (suas crenças, seus valores, suas atitudes) que as torna aptas a operar na sociedade (Durkheim).

A razão de ser dessa visão tradicional está na preservação (reprodução, perpetuação), numa determinada configuração, das estruturas sociais que tornam possível a vida em sociedade. A sociedade se preserva, se reproduz, se perpetua na justa medida em que os adultos inculcam nas crianças a visão de mundo da sociedade e as crianças introjetam essa visão de mundo, fazendo-a também sua.

Dentro dessa visão tradicional, a educação não é permanente, um processo que dura a vida inteira. A educação é algo que ocorre durante um tempo específico da vida de cada um: quando se é criança.

Além do mais, não resta dúvida, dentro dessa visão tradicional, acerca de quem educa e quem é educado: adulto educa criança, pai educa filho. Não há nada aí da visão paulofreireana de que "ninguém educa ninguém, mas tampouco ninguém se educa sozinho: nós nos educamos uns aos outros…" Na visão tradicional alguém educa o outro, sim: o adulto à criança, e não vice-versa. Nada de imaginar que nós nos educamos uns aos outros.

É oriunda dessa visão tradicional a clara divisão de papéis dentro da educação: uns ensinam, outros aprendem, uns educam, outros são educados, uns são educadores, outros são educandos…

Na verdade, a visão tradicional da visão "bancária" que Paulo Freire tanto critica: educar é o processo mediante o qual os educadores (pais, professores) "transferem conteúdos" de suas cabeças para as cabeças dos que precisam ser educados (filhos, alunos) — da mesma forma que, numa transação bancária, uns transferem fundos para os outros.

Dentro dessa visão, tornar-se adulto é, para uma criança, algo muito próximo de tornar-se uma réplica de seu pai ou de sua mãe. Não se fala, nesse contexto, em projeto de vida individual (e a mobilidade social que ele envolve): o projeto é coletivo, social, e ele envolve manter a estabilidade de uma sociedade em que cada um se prepara para ocupar o escaninho que lhe cabe na vida social, no mesmo nível, às vezes até na mesma função, que seus pais ocuparam (Durkheim). 

Essa visão tradicional da educação não mais se sustenta. Ela vinha sendo criticada há muito tempo — John Dewey talvez seja o seu crítico mais importante, e ele viveu na transição do século XIX para o século XX — embora sua longa vida abranja várias décadas tanto de um como do outro século. Mas o que realmente implodiu essa visão tradicional da educação foram as mudanças acontecidas no mundo nos sessenta e poucos anos que passaram desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Durante esses anos vimos o uso do telefone, do rádio, e da televisão (tecnologias surgidas antes de 1945) se universalizar nos países desenvolvidos; vimos o lançamento do primeiro computador, um monstro em tamanho e consumo de energi
a, mas, em termos de capacidade de processamento, menos potente do que a maior parte dos brinquedos infantis de hoje; vimos a popularização das viagens aéreas, principalmente depois do surgimento dos primeiros aviões aéreos, que deu enorme mobilidade às pessoas e fez com que essa mobilidade ficasse cada vez mais rápida; vimos o nascimento e a evolução das viagens espaciais; vimos a miniaturização da eletrônica e o surgimento dos microprocessadores e dos computadores pessoais, cada vez menores, mais portáteis e mais potentes; vimos a convergência de todos os meios de comunicação para a tecnologia digital, centrada no computador; vimos o surgimento e a popularização da Internet; vimos o aparecimento da pílula anticoncepcional, que permitiu à mulher controlar e planejar a sua natalidade e, assim, entrar maciçamente na força de trabalho; vimos a redução da natalidade nos países desenvolvidos, decorrente do planejamento familiar, e um crescimento inacreditável na prosperidade desses países; e muitas outras mudanças.

De todas essas mudanças, a mais impactante, do ponto de vista da educação, foi o surgimento das novas tecnologias de informação e comunicação, centradas no computador. Essas tecnologias viabilizaram o acesso fácil e rápido à informação e a comunicação instantânea — e mostraram às pessoas a gama de alternativas e possibilidades que se abrem diante delas: novas visões de mundo, novas crenças, novos valores, novos estilos de vida, novas profissões, novos lugares para viver e trabalhar. A informação, quando necessária, está sempre "na ponta dos dedos". O contato com outras pessoas, ainda que estejam do outro lado do mundo, demora uma fracão de segundo. A busca de interesses próprios e divergentes, mesmo exóticos, encontra sempre respaldo em grupos de interesses afins na Internet. A televião a cabo e via satélite bombardeia os nossos lares com centenas de canais, muitos deles em língua estrangeira, alguns oferecendo programação especializada e, não raro, voltada para públicos selecionados. Dentro das nações, múltiplas visões de mundo, projetos coletivos diferenciados (alguns com fundo étnico, outros com fundo religioso, outros com fundo político), uma miríade de projetos de vida individuais que se tornam possíveis.

Diante de tudo isso, não faz mais sentido pensar na educação como um processo de transmissão de uma visão de mundo de uma geração para outra, transmissãao esse que se faz em cima do pressuposto de que existe uma visão de mundo única na sociedade, que ela é estável, e que, portanto, o mundo em que as crianças viverão e trabalharão não sofrerá grandes mudanças em relação ao mundo que existe no momento em que elas são educadas…

Nada disso se sustenta, hoje.

Precisamos de uma visão da educação que se alicerce no fato de vivemos — e continuaremos a viver, cada vez mais — num mundo plural, cheio de visões de mundo alternativas, e num mundo livre, em que as pessoas podem escolher entre diferentes visões de mundo e, a partir delas, definir seu projeto de vida individual, quiça único.

Nossa visão da natureza do ser humano também vem mudando. O ser humano, hoje se acredita, não é, ao nascer, uma tabula rasa, uma folha de papel em branco, na qual pode ser escrito qualquer roteiro que os adultos desejem. O ser humano nasce, sem dúvida, com sua programação aberta, inconclusa. É totalmente incompetente e dependente dos outros. Mas nasce com potenciais, que lhe permitem recusar roteiros que não estejam de acordo com sua natureza… Dentre esses potenciais, destaca-se sua incrível capacidade de aprender e sua capacidade de, a partir de um certo momento, definir o seu projeto de vida pessoal. No contexto de uma sociedade livre e pluralista, que não procura "moldar" os seus membros futuros de acordo com sua própria imagem, isso significa que cada um é livre para definir o que será sua vida, para criá-la e recriá-la, em função de seus projetos de vida pessoais.

Precisamos, assim, de uma nova visão da educação que, em vez de almejar a reprodução da sociedade, visa ao desenvolvimento do ser humano, permitindo que ele se torne aquilo que escolhe ser.

Se adotamos uma visão da educação voltada para o desenvolvimento da autonomia e para a tradução de potenciais em competências, nossa resposta à pergunta "What is schooling about?" será bem diferente do que é, hoje, nos contextos em que ainda impera a visão tradicional da educação.

Primeiro, em vez de um currículo centrado na transmissão de informações e conhecimentos disciplinares, teremos um currículo centrado no desenvolvimento de competências. Em vez de uma grade de matérias e séries, teremos uma matriz de competências, organizada, quem sabe, ao redor dos Quatro Pilares da educação propostos pela UNESCO: aprender a ser, aprender a conviver, aprender a fazer, aprender a aprender.

Segundo, em vez de uma metodologia de ensino centrada na aula expositiva, uma metodologia de aprendizagem centrada na execução de projetos (como já sugeria Dewey e seu discípulo William Kilpatrick).

Terceiro, em vez de uma avaliação centrada em testes que visam a aferir se o aluno absorveu as informações e os conhecimentos transmitidos, uma avaliação permanente, centrada na observação participante do desenvolvimento das crianças.

Por fim, duas lições adicionais.

Primeiro, nesse novo contexto a educação será vista como algo permanente, que tem lugar ao longo da vida todo. Nunca estaremos totalmente "terminados", "conclusos", "acabados" — até que nossa vida cesse. Enquanto vivermos, poderemos sempre estar nos criando e recriando — e isso quer dizer, nos educando.

Segundo, nesse novo contexto é possível recapturar a verdade sublinhada por Paulo Freire. Não são uns, os educadores, que educam os outros, os educandos. Todos nós estamos envolvidos, o tempo todo, no processo de nos educar uns aos outros.

Em Salto e Campinas, 27 e 28 de Julho de 2007.

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