Discutir por quê?

Transcrevo abaixo uma crônica de Nelson Motta, publicada na Folha de hoje.

Há momentos em que me sinto exatamente como ele se sente ao dizer:

“Há muito tempo me esforço para desistir da idéia de convencer alguém de qualquer coisa. Com minha intuição, experiência e convicções, ofereço minhas opiniões com sinceridade, apresento meus argumentos, me empenho em ser claro e objetivo. Se forem aceitas, ótimo, se não, ótimo também.”

Penso exatamente desse jeito. Ao chegar aos 64 anos, sinto um certo desânimo com discussões que têm por objetivo convencer os outros. Parece-me um empreendimento totalmente fútil. 

Acredito que as pessoas em geral não querem ser convencidas de nada – muito menos de que estão erradas em pontos de vista que consideram importantes e fundamentais. Querem, isto sim, ouvir reiterações daquilo em que já acreditam. Por isso, as discussões que têm como objetivo o convencimento dos outros mediante argumentos e evidências em geral são um fracasso.

Os antigos diziam: "De gustibus et coloribus non est disputandum" — Gostos e cores não se discutem. Mais recentemente se tornou lugar comum dizer que política, religião e futebol não se discutem. A razão pela qual não se discutem essas coisas é que ninguém consegue convencer o outro de que ele está errado, de que sua opção é inferior a outras.

Por um tempo, julgou-se possível discutir frutiferamente questões científicas. Neste caso, evidência e argumento são relevantes, e o objetivo da discussão é encontrar a verdade — ou, pelo menos, chegar mais perto dela.

Karl Popper, o maior filósofo da ciência que já viveu, reconheceu que o argumento de Hume contra a indução era irrefutável. Reconheceu ainda que, se aceito, o argumento de Hume fatalmente leva à conclusão de que é impossível provar a veracidade de uma lei científica, que é um enunciado geral, universal, do tipo "Todo x é y". Hume se tornou um cético ao chegar a essa conclusão.

Popper concordou com o ceticismo Humeano, mas achou que há uma forma diferente de fazer ciência, a saber: fazendo conjeturas acerca da realidade e, depois, tentando sistematicamente refutá-las. Submetidas a tentativas sérias e prolongadas de refutação, essas conjeturas, caso sobrevivessem (i.e., não fossem falsificadas ou refutadas no processo), mereceriam ser consideradas com alguma seriedade (embora nada garantisse que não seriam falsificadas ou refutadas no teste seguinte).

Assim sendo, somos eternos buscadores da verdade, condenados, entretanto, a nunca ter certeza de que a alcançamos (embora possamos definir critérios que nos permitam dizer que estamos chegando mais próximos dela…

A epistemologia popperiana é bastante interessante. Ela parece sugerir que, se nos sentimos tentados a adotar um ponto de vista qualquer, devemos seriamente buscar argumentos que, se sólidos, refutarão esse ponto de vista. E esses argumentos a gente normalmente encontra em quem discorda do nosso ponto de vista. Conclusão: não devemos ler autores com os quais concordamos, mas, sim, aqueles dos quais discordamos frontal e profundamente, pois é lá que temos alguma chance de encontrar evidências e argumentos que podem refutar os pontos de vista que nos sentimos tentados a adotar.

Acho linda essa epistemologia. Mas ela não se assenta numa visão realista da natureza humana. O próprio Popper se irritava profundamente com críticas – em especial com as críticas de seus amigos e discípulos (entre os quais o meu orientador de doutorado, William W. Bartley, III), que ele considerava especialmente ofensivas. Tomava críticas de seus amigos e discípulos como ataques pessoais, como evidência de deslealdade — não como evidência prima facie de que poderia haver algo errado com alguns de seus pontos de vista… E chamou sua filosofia de “racionalismo crítico”!

Considero-me um racionalista e um objetivista. Acredito na razão e na objetividade. Não sou cético, nem relativista. Acredito que a verdade existe e que podemos chegar até ela.

Mas essa busca pela verdade é uma busca muito pessoal. Podemos nos convencer de que a encontramos, ou de que estamos chegando mais perto dela — mas dificilmente conseguiremos convencer os que discordam de nós de que estão errados e devem dar a mão à palmatória…

Se isso é assim, por que discutimos?

Há várias razões, além da tentativa de convencer os outros. Podemos, naturalmente, nos envolver com discussões porque elas em geral são divertidas (quando conduzidas por pessoas inteligentes, que conhecem bem determinado assunto e são competentes lingüística e logicamente). Ou, então, para exibir nossa capacidade de argumentar e de nos defender dos argumentos alheios. Ou por algum outro motivo.

Sou conscientemente liberal e ateu há cerca de 35 anos. Mas não sou proselitista no sentido de ter expectativa de granjear adeptos para meus pontos de vista. Como o Motta, ofereço minhas opiniões, defendo-as, critico as alternativas. “Se forem aceitas, ótimo, se não, ótimo também”.

Tenho bons amigos que são cristãos convictos. Eu não sou cristão nem crente em Deus (embora já tenha sido). Não tenho esperança ou expectativa de convencer meus amigos cristãos, por argumentos e evidências, de que dedicam suas vidas a uma ilusão. E, em geral, não os deixo acreditar que sejam capazes de me convencer de que o iludido sou eu. Mas discuto a questão, mais por amor à arte do que por achar que a questão esteja aberta.

Com socialistas em geral não tenho tanta paciência ou tolerância, porque tenho evidência de que muitos deles são mal-intencionados, mentem se isso ajuda a promover sua causa (o fim, para eles, justifica os meios), e tergiversam o tempo quase todo.

Mas já participei de grupos de discussão de socialistas. Minha razão para participar, entretanto, erra arrumar munição para atacá-los. Mas em geral não os atacava no grupo: escrevia artigos e os colocava nos meus blogs e sites. E isso porque seria pura perda de tempo tentar convencê-los de que o socialismo é uma opção desastrosa, moral e pragmaticamente.

A seguir, a crônica de Nelson Motta.

—–

Folha de S. Paulo
14 de Dezembro de 2007

NELSON MOTTA

Ter razão ou ser feliz?

BELO HORIZONTE – Em tempo de radicalização e de guerra de opiniões, quando cada um quer provar que tem razão, mesmo à custa da verdade, com a clareza e sinceridade que caracterizam nosso grande poeta, Ferreira Gullar foi ao fundo da questão: "o importante não é ter razão, é ser feliz". E abriu o coração inteligente: quando discute com a namorada e acabam brigando, ele sempre tem razão, mas ela vai embora furiosa e passa três dias sem ligar. Ele fica sozinho em casa, cheio de razão, mas numa tristeza infinita, infelicíssimo.

Há muito tempo me esforço para desistir da idéia de convencer alguém de qualquer coisa. Com minha intuição, experiência e convicções, ofereço minhas opiniões com sinceridade, apresento meus argumentos, me empenho em ser claro e objetivo. Se forem aceitas, ótimo, se não, ótimo também.

Gosto de
aprender, não tenho problemas para admitir meus erros e equívocos, não me sinto inferior por não ter razão. Nem culpado por me sentir feliz. Gullar, comunista histórico, sabe que nenhum sistema político, econômico ou filosófico gerado pela razão humana é capaz de fazer o indivíduo feliz, que é o que interessa. Cada pessoa é um mundo complexo, insondável e imprevisível, e a sensação de felicidade ou o seu avesso atingem ricos e pobres, burros e sábios, religiosos e ateus, desde que o mundo é mundo. Não bastam diversão e arte, além de comida, para fazer o homem e a mulher felizes. O buraco é mais embaixo e muito mais fundo.

Passeando pelos blogs, especialmente os políticos, e lendo as torrentes de ódio, ressentimento e vitupérios que as falanges digitais de militantes trocam o dia inteiro (essa gente não trabalha?), não se pode deixar de notar que, quanto mais razão eles acham que têm, mais infelizes se sentem.

Em Campinas, 14 de Dezembro de 2007

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