Ainda sobre o trem no Brasil

Recebi, a propósito de um artigo sobre "O Trem no Brasil", aqui neste Space (que transcrevo abaixo, mas que pode ser encontrada no URL http://ec.spaces.live.com/blog/cns!511A711AD3EE09AA!1137.entry) uma mensagem de um leitor chamado Serginho, de São Paulo, que tem 43 anos e que fez, quando criança, viagens de trem entre São Paulo e Maringá. Ele tem algumas dúvidas, que gostaria de esclarecer, para poder contar aos filhos sobre a experiência gostosa que era viajar de trem por longas distâncias aqui no Brasil de alguns anos atrás. 

Especificamente, ele pergunta:

1) Qual o tipo de trem que fazia esta viagem (São Paulo – Maringá)? (Por exemplo, modelo, cores dos vagões, máquina, etc.)

2) Qual o caminho percorrido? (Por exemplo, cidades onde passava e parava — sei que passava em Ourinhos)

3) Com relação ao modelo do trem pergunto porque viajei muito para o interior de São Paulo (Oswaldo Cruz) e os trens eram da Companhia Paulista/Fepasa e eram nas cores azul e creme, as máquinas eram na maioria das vezes vermelhas ou na cor azul. Partimos sempre da estação da Luz, acho que por volta das 23:00 horas.

Dei uma resposta individual a ele, mas já descobri que está incompleta. Aqui transcrevo a resposta, com os acréscimos de que me lembrei depois de enviá-la.

Caro Sérgio:

O de que realmente me lembro, no tocante à viagem de São Paulo para o Paraná, é o que disse na mensagem a que você se refere:

"As viagens que ficam mais gravadas em minha memória eram entre São Paulo (Estação Sorocabana) e Ourinhos, no famoso (e confiável) Expresso Ouro Verde. Saía da Sorocabana em São Paulo por volta das 22h (22h10, creio) e chegava a Ourinhos de manhã. O trem era lindo — verde, naturalmente. Íamos numa cabine leito, meus pais, meu irmão (mais novo 3 anos e 3 meses) e eu. Eu dormia no beliche de cima, como meu pai, meu irmão no beliche de baixo, com minha mãe. Isso se dava antes de eu completar sete anos. Minha mãe levava sanduíches de presunto e queijo e um sacolinha com queijo e goiabada. Viagem de trem para mim ficou para sempre associada com sanduíches de presunto e queijo e com Romeus-e-Julietas… "

O trem e a linha, neste caso, eram da Estrada de Ferro Sorocabana, não da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Os vagões do trem eram de ferro (ou algo que se lhe assemelhasse), não de madeira, e tinham a cor verda escura, que explica o nome nome do trem: "Expresso Ouro Verde". O trajeto do Expresso Ouro Verde era entre São Paulo (Estação Sorocabana, nome oficial Júlio Prestes) e Ourinhos. Ele saía da Sorocabana seguindo o trajeto da linha da Sorocabana, que era o mesmo trajeto da linha de trem metropolitano que, hoje, saindo da Júlio Prestes, passa por Barra Funda, Lapa, Domingos de Moraes, Presidente Altino, etc. Osasco, Carapicuíba, Barueri, Jandira, Itapevi, etc. (não me lembro se a ordem das estações é bem essa). Depois de Itapevi passava por várias estações, como Sorocaba, e acabava em Ourinhos. A linha da Sorocabana seguia mais ou menos o trajeto da Rodovia Raposo Tavares.

Tanto quanto eu saiba, o Expresso Ouro Verde terminava seu trajeto em Ourinhos. A linha da Sorocabana, e outros trens da Sorocabana, iam até Presidente Prudente — creio que até Presidente Epitácio, na divisa com Mato Grosso. Já fui nesse trem até a divisa, no início nos anos 60. Na divisa havia um ramal que ia para o Norte, ligando com outras cidades. Não sei se chegava a Dracena, encontrando a linha da Paulista. 

De Ourinhos para frente — quando eu era criança, na década de 40, o trem só ia até Apucarana, se bem me lembro: quando eu fazia esse trajeto Maringá era uma cidadezinha minúscula, morei lá de 1947 até 1951) –a gente baldeava para um trem bem mais vagabundo da Rede de Viação Paraná – Santa Catarina, que também tinha linha de Ourinhos para Curitiba e, acredito, dado o nome, para Florianópolis.

O trem que ia de São Paulo até Oswaldo Cruz, passando por Bauru, Marília, etc. era o da Paulista, que saía da Estação da Luz. Fiz algumas vezes esse trajeto, quando era criança (na verdade, nenê), porque nasci em Lucélia, do lado de Oswaldo Cruz.

Na verdade, o trajeto entre São Paulo e Oswaldo Cruz (indo, se não me engano, até Dracena) era feito, entre São Paulo e Jundiaí, pela Estrada de Ferro Santos-Jundiaí, que tinha locomotivas vermelhas (elétricas ou a diesel). A partir de Jundiaí começava a linha da Paulista, que ia, como disse, até Dracena (acredito). As locomotivas da Paulista, também elétricas ou a diesel, eram azuis. Por isso sua lembrança quanto à cor das locomotivas está absolutamente correta. O comboio trocava de locomotiva em Jundiaí — onde parava por cerca de 15 minutos.

Creio que, a partir da linha da Paulista em Bauru, saía uma nova linha, chamada Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, que ia, se bem me lembro, até Panorama (ou Pindorama, não me lembro bem).

A partir da linha da Paulista em Rio Claro, se não me engano, também saía a linha da Estrada de Ferro Araraquarense, que ia seguindo mais ou menos o trajeto da Rodovia Washington Luiz de hoje, passando por Araraquara, São José do Rio Preto, Fernandópolis, e indo não sei até onde.

Acho difícil que se fosse de São Paulo para Maringá de trem pela Paulista, via Bauru — a menos que se desse uma volta grande (porque acredito que deveria haver um ramal qualquer que ligasse Bauru a Ourinhos, no sentido Norte-Sul).

De Campinas saía uma linha, chamada Estrada de Ferro Mogiana, que ia para Jaguariuna, Mogi-Mirim, Mogi Guaçu, passava por Água da Prata e ia pra Minas, via Poços de Caldas, Borda da Mata, etc. Andei muito nesse trem, também, indo tanto para Poços como para Borda da Mata. Em parte dessa linha, entre Campinas e Jaguariuna, circula até hoje um trem turístico, adorado pelas crianças, puxado por uma Maria Fumaça. Meus netos menores (Gabriela, Marcelo e Felipe, junto com a Maria Luiza, neta postiça) fizeram a viagem há pouco tempo e adoraram.

Também de Campinas, ou de Sorocaba, talvez, saía uma outra linha, chamada Ituana, que ia para Indaiatuba, Elias Fausto, Salto e Itu, etc. (se o ponto de origem fosse Sorocaba, como é mais provável, a ordem das estações se inverte). Conheço bem as estações ferroviárias dessas cidades porque tenho um sítio em Salto e circulo bastante por essas quatro cidades. Ainda há pouco passei por Cardeal, um bairro "rururbano" de Elias Fausto (fica entre Indaiatuba e Elias Fausto) e vi a estação ferroviária do lugarejo. 

Aqui está a mensagem "O Trem no Brasil", escrita em Salto, em 2 de agosto de 2006" (com pequenas correções e acréscimos):

"Fazia tempo que vinha procurando sites sobre a história do trem no Brasil. O trem foi muito importante na minha vida. Com um mês e doze dias fiz minha primeira viagem de trem. Nasci em 7/9/1943, em Lucélia, na chamada Alta Paulista. Meu pai escreveu um pequeno relato de meus primeiros dois anos. Eis o que ele diz sobre essa primeira viagem de trem, nos dias 19-20/10/1943:

"No dia 19 de outubro tomamos a jardineira até Tupã. O dia estava quente, mas o Oscarzinho dormiu quase o tempo todo. Só chorava quando a jardineira parava. Às 2 hs. da tarde chegamos a Tupã e às 3,45 tomamos o trem. A viagem não foi muito boa, pois o trem estava muito cheio! Metade da viagem foi feita no carro de 2ª classe, pois não pudemos arranjar lugar na 1ª classe, devido ao grande número de pessoas. Passamos a noite com o Nenê nos braços. Ele não deu trabalho, pois dormiu mais ou menos bem. Às 6 hs. da manhã chegamos a Campinas."

Como se vê, em Outubro de 1943 a linha da Paulista parece que chegava apenas até Tupã — não indo até Oswaldo Cruz, Lucélia, Adamantina, Dracena.

Esta foi a primeira de muitas viagens de trem do local de residência dos meus pais até Campinas, onde moravam minha avó materna e minha tia, irmã de minha mãe (que faleceu faz um mês, aos 85 anos — minha mãe faz 82 agora segunda-feira). Meus pais se mudaram de Lucélia para Irati, no Sul do Paraná, depois para Marialva, no Norte do Paraná, depois ainda para Maringá, também no Norte do Paraná, e, finalmente, para Santo André, em São Paulo, onde minha mãe e meus irmãos ainda residem (meu pai faleceu em 1991). Viajávamos sempre de trem.

As viagens que ficam mais gravadas em minha memória eram entre São Paulo (Estação Sorocabana) e Ourinhos, no famoso (e confiável) Expresso Ouro Verde. Saía da Sorocabana em São Paulo por volta das 22h (22h10, creio) e chegava a Ourinhos de manhã. O trem era lindo — verde, naturalmente. Íamos numa cabine leito, meus pais, meu irmão (mais novo 3 anos e 3 meses) e eu. Eu dormia no beliche de cima, com meu pai, meu irmão no beliche de baixo, com minha mãe. Isso se dava antes de eu completar sete anos. Minha mãe levava sanduíches de presunto e queijo e um sacolinha com queijo e goiabada. Viagem de trem para mim ficou para sempre associada com sanduíches de presunto e queijo e com Romeus-e-Julietas…

Quando mudamos para Santo André, o trajeto mudou. Pegávamos o trem subúrbio até São Paulo e lá pegávamos o trem da Estrada de Ferro Santos-Jundiaí para o interior. Em Jundiaí a locomotiva (vermelho meio escuro) era removida e uma locomotiva da Companhia Paulista de Estradas de Ferro assumia — linda, linda, azul… — e o trem passava a ser conduzida por empregados da Paulista. Em Jundiaí o trem parava uns 15 minutos e a plataforma da estação ficava cheia de vendedores ambulantes vendendo, entre outras coisas, "pipóóóóóóóóóóóca". Vendiam uva e figo também: Jundiaí é terra de uva e figo.

Campinas era um importante entrocamento ferroviário. Além dos trilhos da Companhia Paulista passarem pela cidade, começava ali também a linha da Companhia Mogiana, e havia um ramal, o da Companhia Ituana, que ligava Campinas diretamente à Estrada de Ferro Sorocabana, em Sorocaba, passando por Itu. Salto, onde estou agora, ainda tem sua estação — devidamente abandonada. Elias Fausto, aqui juntinho, também. Estive lá na semana passada e vi fotos da estação. A estação de Itu está bem mais conservada, mas tornou-se um Centrl Cultural, se não me engano.

De Santo André também íamos a Santos de trem. A cidade principal no trajeto de São Paulo para Santos era Paranapiacaba, pequena cidade, que nunca vi sem neblina, na beirada da serra, onde o trem começava a ser literalmente puxado para subir a serra. Emocionante.

Alguém cometeu um crime contra o Brasil, deixando todo o nosso enorme sistema ferroviário ser sucateado. Precisavam ser identificados e punidos os criminosos, post mortem, se necessário.

Por indicação do jornalista José Carlos Daltozo, de Martinópolis, SP, que tem escrito sobre Lucélia (vide artigo recente  "Lucélia – Terra Natal", neste space), encontrei o site http://www.estacoesferroviarias.com.br. Lá você pode encontrar fotos da estação ferroviária de sua cidade, se ela teve uma. E lá encontrei referência ao site http://www.trem.org.br, que, por sua vez, tem vários links relacionados. Uma mina de informação. Ao escrever essas referências me lembrei de que o meu caro amigo, Tonhão (Antonio Morales), de Bauru, um dia fez referências a sites sobre ferrovias. O pai dele foi ferroviário.

Vamos ajudar a preservar a memória do trem…"

Em São Paulo, 29 de Janeiro de 2008

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