Que bicho complicado é o ser humano… – 1

Apenas ontem à noite (na verdade, hoje de madrugada) assisti ao filme Indecent Proposal (Uma Proposta Indecente), com Demi Moore e Robert Redford. Lançado em 1993, o filme está fazendo quinze anos este ano. Não sei nem por que não havia visto o filme ainda. Talvez até o tenha na minha coleção de DVDs, que tem dezenas e dezenas de filmes não vistos mas em que eu achei que valia a pena investir. De qualquer forma, o filme valeu a pena.

Antes de começar a escrever, entrei na minha base de dados favorita: The International Movie Data Base (http://www.imdb.com) para ver detalhes sobre o filme e ler resenhas e comentários. O primeiro comentário que li tem como título “Repugnante” – e a tese é de que o filme é repugnante, por uma série de razões até bem elaboradas.

O diretor do filme, Adrian Lyne, também foi diretor de Infidelidade (com Diane Lane e Richard Gere), Lolita (com Swain e Jeremy Irons), feitos depois de Uma Proposta Indecente, e Atração Fatal (com Glenn Close e Michael Douglas) e 9 ½ Semanas de Amor (com Kim Bassinger e Mickey Rourke), feitos antes. Também é o diretor de Flashdance. Com exceção deste, os demais compartilham uma certa fascinação com os aspectos mais complicados da sexualidade humana – em especial com a questão da traição. Vi todos esses filmes – por isso é que não me conformo com não ter visto Uma Proposta Indecente antes.

O tema básico da história é a referida proposta, que se considera indecente, feita por um bilionário, representado por Robert Redford, para um casal simples (cuja mulher é representada por Demi Moore – o marido é representado por Woody Harrelson, que é daqueles atores que a gente já viu em vários filmes mas cujo desempenho nunca marcou o suficiente para a gente se lembrar de quais…). O enredo leva os principais envolvidos a uma situação em que Moore diz que nem tudo pode ser comprado. Redford pergunta o que é que não pode, e Moore retruca que as pessoas, por exemplo, não podem ser compradas: seu afeto, seus sentimentos, etc. O cenário está posto para a proposta dita indecente, que primeiro é formulada condicionalmente: “O que vocês diriam se alguém lhes oferecesse um milhão de dólares para poder passar a noite com Diana?” (Diana é a personagem representada por Moore). Ela imediatamente responde: “Eu o mandaria para o inferno”. Redford insiste que não ouviu a resposta do marido ainda. Este diz a mesma coisa. Redford força a barra, afirmando que é fácil dar essa resposta diante de uma proposta hipotética, mas que as coisas podem ser diferentes diante de uma proposta real – e faz a proposta concreta. Ambos insistem que a resposta seria a mesma. Mas ele lhes dá tempo para pensar. (O filme habilmente sugere que Redford não está tão interessado em Moore quanto em refutar a tese de que há coisas que é impossível comprar. Na realidade, está interessado nas duas).

À noite, na cama, nenhum dos dois consegue dormir. E resolvem conversar sobre a proposta. Argumentos vão e vêm entre os dois. É uma noite só, que, terminada, se encerra ali, não implica outros compromissos. Não se exige, por exemplo, envolvimento da mente nem do coração – só do corpo… E o corpo se lava depois e fica pronto para outra. O milhão de dólares, por outro lado, fica, e pode mudar suas vidas para sempre. Ele pergunta a ela se ela está interessada em aceitar a proposta. Ela responde que não está interessada, mas que a aceitaria – por ele, não por ela… Com o dinheiro eles poderiam comprar a casa que queriam, ele poderia se dedicar a fazer aquilo que realmente gosta de fazer (arquitetura), etc. A conversa progride. Concordam que, se a proposta for aceita, o acontecimento deve ser varrido da memória para sempre: nunca deverá ser mencionado, muito menos discutido. Terá de ser algo sobre o qual se passa uma borracha por inteiro. Conclusão da noite insone: a proposta foi aceita.

Não há maiores detalhes sobre a noite dos dois. O filme sabiamente passa por cima dos pequenos detalhes que poderiam parecer irresistíveis a um diretor menos competente. Moore é levada de helicóptero para um iate lindíssimo. Há breves diálogos. Ela está série, distante – e ele lhe assegura de que ela não deve ter medo, pois ele não a obrigará fazer nada que não queira…

Na cena seguinte ela está sendo “devolvida” para o marido.

Quem quebra primeiro é ele, o marido, não ela. Ele começa a se torturar. Será que ela está pensando nele? O que será que realmente fizeram, como andaram as coisas? Será que foi bom?

Ah, o ser humano, que bicho complicado somos. Em teoria, antes do fait accompli, tudo parecia simples: seria só uma noite de sexo, envolvendo apenas o corpo, sem que a mente e o coração participassem… Depois, apagar-se-ia tudo da memória, esquecer-se-ia tudo. Só ficaria o milhão de dólares.

Mas quem diz que esquecer é fácil, que se trata simplesmente de decidir esquecer e, pronto, está tudo esquecido? Se assim fosse, o perdão não seria necessário – porque para o esquecido não é necessário perdão: este é necessário para aquilo que, sem se esquecer, resolveu-se relevar, em função, quem sabe, de um bem supostamente maior.

Ao chegar em casa e constatar que a mulher está desligando o telefone, o marido imediatamente suspeita que ele estivesse falando com o bilionário, que continue mantendo contato com ele… O que antes não passava pela cabeça do marido – vasculhar a bolsa da mulher – agora é uma tentação. Da suspeita se passa para a desconfiança. E, no fundo, a insegurança alimenta tudo. Será que foi bom para ela, será que ela não gostaria de repetir a dose, agora sem milhão de dólares, sem nada? Será que não está repetindo neste exato momento?

Inferno, inferno puro. Parecia tudo tão simples, mas tudo se tornou tão complicado…

A mente humana, disse alguém, é o órgão sexual mais importante que temos… Para o homem, em especial. Uma mulher, imagina-se, pode dar um razoável prazer ao homem mesmo sem a participação de sua mente. Mas o homem, sem a efetiva participação de sua mente, nem funciona sexualmente, torna-se incapaz de dar prazer à mulher – ou de senti-lo, ele próprio. Mais do que isso: o sexo é, na realidade, uma atividade que, tanto para o homem como para a mulher, nunca é simplesmente corporal, algo puramente animal, que se pode ter, e depois esquecer, com a mesma naturalidade que se come um sanduíche e, saciada a fome, se esquece do que se comeu. Mas quando pretendemos não sê-lo, somos mais do que meros animais. Somos seres que se lembram, que imaginam coisas que não aconteceram mas poderiam ter acontecido, que se encucam não só com o real mas também com o imaginado, para quem, às vezes, o imaginado se torna mais importante do que o real – porque a realidade que a mente constrói não se deixa facilmente desmentir pelos fatos, visto que os fatos nunca são apenas fatos: eles são fatos em contexto, no bojo de um complexo de idéias… o ser humano é um bicho complicado exatamente por não ser (apenas) bicho…

Volto à perspectiva masculina, que é a privilegiada no filme. Na realidade, o leitor (ou será a leitora?) que considerou o filme repugnante sugere que o diretor parece achar que a traição pela mulher é fácil, visto que, no filme, Moore aparentemente não fica angustiada: é o marido que desaba, ele que não fez nada, a não ser consentir… “O diretor parece sugerir que é mais fácil ser quem tem o corpo vendido do que ser aquele que agencia” – é o comentário. O problema é que a perspectiva masculina aqui é essencial. Para a mulher, a proposta é uma evidência cabal de que ela é desejada e, portanto, valorizada. Aceitá-la, em si, não parece tão complicado. Para o homem, porém, a aceitação da proposta implica não só a idéia de que ele acabou de vender a mulher por uma soma de dinheiro, mas, também, a dúvida de que ela pode ter gostado, pode ter sentido prazer, pode ter achado o outro melhor do que ele próprio… Se a proposta valoriza a mulher, ela desvaloriza o marido, especialmente em seus próprios olhos. Na verdade, ela o destrói.

Tudo isso muito interessante. A temática, como é óbvio, me atrai.

No livro The Fountainhead, de Ayn Rand (A Nascente, em Português), Dominique Francon, num dado momento casada com Peter Keating, que ela drespreza, decide vender seu corpo a Gail Wynand, também um milionário, em troca de um contrato para o marido que ele despreza. A decisão de Dominique, no livro, representa uma tentativa (de resto fútil) de acabar com a própria auto-estima. Mas o marido tem de concordar – e, como no filme, concorda. Também, como no filme, o negócio destrói o marido, não ela (nem aquele a quem ela se vendeu). Vale a pena comparar o tratamento dado ao problema por Ayn Rand.

Em Campinas, 31 de março de 2008

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