Hanoi: o Sheraton

É gozado como alguns gabaritos habitam na mente da gente — colocados lá por livros, por filmes, por fotos… Lembro-me de que, quando estive em Macau, na parte velha (a parte nova é uma imitação de Las Vegas), fiquei com a impressão de que andava por uma cidadezinha pequena em Portugal. Casas no estilo português, pintadas de marrom e amarelo, rosa e verde… Quando entrei na Vila Militar, que hoje é um clube privado que tem um restaurante aberto ao público, pensei que estava entrando num daqueles Clubes Militares da Índia, quando esta ainda era colonia inglesa. Pé direito alto, janelas enormes, mas com as vidraças fechadas, ventiladores no teto, tudo muito próprio… Parecia que a Greta Scacchi iria aparecer a qualquer momento, louríssima e linda como em White Mischief (1987), onde representou Lady Diana Broughton… A comida, porém, deliciosa, e o vinho, eram portugueses…

Digo isso porque o Sheraton aqui de Hanoi, às margens de um lado brumoso, que dá a impressão de um alagado, me faz lembrar o decadente passado colonial francês — e me faz lembrar de Catherine Deneuve em Indochine (1992), onde ela fez o papel de Elaine. Ganhou o Oscar de Best Foreign Language Film, que o Brasil tanto persegue — e Miss Deneuve foi indicada para Best Actress in a Leading Role… Não sei quem ganhou. Mas eu teria dado o prêmio para Catherine. Pelo filme e pelo conjunto da obra — e por ela ter nascido no mesmo ano em que eu nasci (1943), e por ser irmã de Françoise Dorléac, e por sido vivivo (e tido uma filha) aquele babaca do Marcelo Mastroianni, cujo Catolicismo não o impedia de ser adúltero, mas o impedia de se divorciar… Mesmo sem fechar os olhos eu consigo rever cenas de Indochine na minha mente.

Enfim, voltemos ao Sheraton Hanoi. Fiquei quase uma hora, hoje cedo, sentado no lobby, depois de ter tomado café da manhã, lendo o International Herald Tribune (Asia Editiion) e observando o cenário. Tudo distinto, como il faut a um Sheraton. Tudo bem cuidado. Mas a aparência geral era claramente "decadent French colonial"…

O quarto tem móveis de madeira escura, uma cortina pesada, também escura, estampada, cheia de flores. A colcha da cama é vermelha, quase vinho. Os quadros na parede são meio impressionistas — é preciso chegar perto para verificar que são vasos de flores. O tapete é marrom meio claro, mesclado de bege. Já viu dias melhores. A televisão destoa: é prateada, tela plana, Samsung — creio que 29 polegadas apenas (hoje em dia 42 polegadas LCD em bons hotéis asiáticos é de rigueur. No banheiro, as torneiras (o que os americanos chamam de "fixtures") são estilo "Belle Époque"… Tudo muito distinto. O hotel fornece shampoo, conditioner, bath gel, moisturizer, bath salts (para a bela banheira clássica), shower cap — além de mouth wash, shaving kit, tooth brush, comb, cotton swabs, makeup removal kit, nail file, mending kit, sanitary napkins… E, naturalmente, chinelos e roupões. O frigobar tem o necessário, but no more. Há uma cafeteira e um aquecedor de água e material para fazer café e chá. A cama é king size (o que no Brasil, que tudo distorce, se chama de "super king", porque a queen size é chamada de king…). Por volta das 20h vem a camareira, arruma a cama para dormir, deixa dois chocolatinhos… Simpatiquinha, ela. Pouco inglês, porém.

O serviço de atendimento telefônico é competente. Você chama a recepção ou Guest Services e eles atendem chamando-o pelo nome. Aqui me chamam de Professor Chaves — acho que porque a Microsoft, quando fez a reserva, forneceu o título — não mais adequado, agora que estou aposentadíssimo da carreira docente. Pedi uma Salada Cesar hoje à tarde e mal havia terminado de comer eles ligaram para saber se a comida havia sido o que eu esperava e se o atendimento havia sido bom… A gente não encontra toda essa atenção nem mesmo em hotéis mais sofisticados, como The Four Seasons, de  Tóquio.

Os canais da televisão a cabo são bons — quase todos internacionais (os mesmos que vemos na Net no Brasil), com mais opções de canais de esporte. Espero que mostrem a corrida de Formula 1 amanhã. É demais esperar que algum canal mostre o jogo do SPFC com o Juventus… 🙂 Espero que o "moleque travesso" não apronte contra o meu tricolor.

Amanhã vou considerar meu período de adaptação terminado e sair um pouco. Vou me aventurar pelo dia brumoso e procurar conviver com as motocicletas ao atravessar as ruas. Aqui perto do hotel há um prédio enorme, que se anuncia como um Shopping Center (com esse exato nome), mas que tem uma faixa enorme, que vejo do meu quarto, dizendo "Opening Soon"… Quem diria que o comunista vietnam teria placas de "Opening Soon" para um "Shopping Center"… Ironias desses dias em que o Comunismo virou mais uma categoria que se aplica mais a regimes políticos, como a China e aqui o Vietnam, do que a sistemas econômicos, que viraram todos capitalistas, mais ou menos… 

Em Hanoi, 5 de Abril de 2008

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