Entrevista para a revista Íntegra (de Campinas)

Revista: Íntegra (Campinas)
Tema: Educação e Tecnologia
Entrevistadora: Ana Heloísa Ferrera
Data: 31 de Maio de 2009

1) Na sua avaliação, que benefícios podemos apontar sobre o uso da tecnologia no cotidiano escolar?

A escola usa tecnologia desde o seu início. O quadro negro, o giz, o caderno, o lápis e o livro são tecnologias. São coisas que o ser humano inventou para tornar a sua vida mais fácil ou mais agradável. A própria linguagem (a fala e, certamente, escrita) é tecnologia. Não há educação sem essas tecnologias. Por que ficamos tão preocupados com as novas tecnologias de informação e comunicação agora que elas são tão mais potentes que as tecnologias que usávamos na escola anteriormente?

Que benefícios essas novas tecnologias trazem?

A voz humana não amplificada permite comunicação com um grupo limitado de pessoas que se encontrem no mesmo espaço físico na hora em que algué diz alguma coisa. A voz ampliada pelo microfone e alto-falantes atinge mais gente. A voz transmitida pelo rádio convencional (AM, FM) alcança um pouco mais de gente. A voz gravada em disco ou fita alcança mais gente ainda. A voz gravada e disponibilizada pela Internet alcança, em princípio, o mundo inteiro. O mesmo pode se dizer da imagem (mutatis mutandis). A Internet coloca hoje som, imagem e, naturalmente, texto, à disposição de quem os queira. E tem mecanismos potentes de busca que nos permite encontrar qualquer coisa. Além disso, a Internet torna possível que qualquer um se faça ouvir, mesmo que não controle um império editorial ou de mídia. Ou seja: a Internet democratizou o acesso aos meios de comunicação e publicação. E a Internet tornou a comunicação instantânea, por texto, áudio ou imagem, para qualquer parte do mundo, viável a um custo irrisório.

Isso permite que escola transcenda os limites de espaço e de tempo que a constrangiam. Podemos aprender, agora, a qualquer momento, a partir de qualquer lugar – usando nosso estilo de aprendizagem preferido e sem nos limitar aos professores que a escola coloca à nossa disposição.

Não é isso uma revolução que se inicia? A escola nunca mais será a mesma depois de essa revolução ter corrido o seu curso e se tornar o novo “establishment”.

2) No Integral, a internet, por exemplo, é uma ferramenta para estudo em casa ou fora do horário de aula. O senhor acredita que as demais escolas brasileiras funcionam hoje da mesma forma ou ainda há uma grande defasagem em relação a outras regiões menos ricas do país? Se há, como reduzir essas diferenças?

A tendência atual é que todas escolas, até as públicas, usem a tecnologia dessa forma – independentemente do local em que se encontrem no país. A revolução vai acontecer quando pararmos de pensar em termos de escola física e de aula, sala de aula e horário de aula. Aí começaremos a pensar na escola como um imenso ambiente de aprendizagem colaborativa, englobando aspectos presenciais (face-a-face) e virtuais, integrando aprendizagens formais e não-formais, no qual poderemos aprender o que quisermos, “anytime”, “anywhere”, em interação com quem quer que seja que possa e queira nos ajudar a aprender – e tendo acesso instantâneo a todo tipo de informação.

3) O uso da internet prejudicou em algum ponto o estudante brasileiro ou não? Se sim, em qual aspecto?

Se há alguém que vê algum prejuizo, que mostre qual é esse prejuizo. Eu não vejo nenhum, dentro da concepção de educação, aprendizagem e escola que eu tenho. Mas certamente quem ainda está preso a uma concepção tradicional de educação, aprendizagem e escola tem tudo a temer: a Internet vai destruir a educação, a aprendizagem e a escola tradicionais.

4) Que cuidados o estudante e a família devem tomar para fazer o melhor uso possível dessa ferramenta?

A Internet, como os jornais, as revistas, os livros, a rádio e a televisão, contém muita coisa à qual crianças não devem ter acesso. Os pais devem tomar cuidado para orientar seus filhos acerca disso. E devem orientar seus filhos a não confiar em pessoas desconhecidas que encontram pela Internet, da mesma forma que não devem confiar em pessoas desconhecidas que encontram na rua, na saída da escola, etc. Não vejo que a Internet apresente problemas essencialmente diferentes daqueles que já temos – embora ela, naturalmente, amplifique alguns desses problemas.

5) Quanto aos educadores, como utilizar um ambiente virtual para inovar no processo ensino-aprendizagem?

A ênfase não deve estar no ambiente virtual, em si. Deve estar no fato de que hoje já vivemos num enorme ambiente presencial-virtual de aprendizagem. A tecnologia pode e deve ser usada nesse ambiente para pesquisar informação, para organizá-la, analisá-la e avaliá-la, para compartilhá-la, para discuti-la, para aplicá-la em processos de solução de problemas e de decisão, para divulgá-la… Como Bill Gates disse uma vez, a tecnologia que está aí serve, essencialmente, para colocar pessoas em contato com pessoas, e para dar-lhes acesso às informações de que precisam, para solucionar seus problemas e tomar suas decisões. O trabalho dos educadores é, essencialmente, ajudar os alunos a ver isso. Manejar a tecnologia do ponto de vista técnico os alunos já sabem melhor do que os melhores professores.

6) Hoje, que sites/portais o senhor apontaria que são interessantes aos professores e alunos do ensino fundamental e médio para ampliar o universo de aprendizagem escolar? Por que são seus preferidos? O Escola Conectada ( http://www.escola2000.org.br ), do Instituto Ayrton Senna, seria um deles? Nele, encontram-se links como o Educarede, Kidlink, Planeta Educação, entre outros. O que acha desses?

Obviamente tenho certa parcialidade pelo Escola Conectada, porque participei de seu desenvolvimento desde o início, mas os outros mencionados também são muito bons. Sou do Comitê Gestor do EducaRede, e acho o portal excelente.

7) E o ensino a distância, na sua opinião, funciona? Em que modelo?

Considerando as diferenças conceituais entre educação, ensino e aprendizagem, eu diria que a educação a distância evidentemente funciona… Mas tenho enormes reservas ao ensino, seja a distância ou presencial. A educação a distância que funciona, a meu ver, é a que se alicerça em ambientes virtuais de aprendizagem colaborativa.

8) Qual o futuro da Educação brasileira, na sua avaliação? Em que pontos já avançamos e em quais ainda estamos distantes dos países desenvolvidos?

Na educação tradicional, voltada para a transmissão de conteúdos disciplinares, já perdemos o bonde e nunca vamos alcançar países como a Finlândia, a Coréia, Hong Kong, Taiwan. Nossa sorte é que o paradigma mudou – e temos boas oportunidades num novo paradigma. Mas é preciso abandonar o velho e abraçar o novo. Caso contrário, não faremos progresso: perderemos (como já perdemos) a competição no velho paradigma e deixaremos de nos posicionar bem no novo.

9)  Qual a sua formação (mestre em Teologia e PhD em História?) e em que o senhor atua hoje? (no seu site autobiográfico, está a informação de que, em 1974, saiu dos EUA e retornou para o Brasil para lecionar na Unicamp, onde deu aulas de Epistemologia, Filosofia Política e Filosofia da Educação e, de vez em quando, de Tecnologia e Educação. Está correto?).

Meu Mestrado é de fato em Teologia, mas meu Ph.D. é em Filosofia – embora tenha me concentrado na História da Filosofia (século XVIII, o Iluminismo). As outras informações estão corretas. Vim para a UNICAMP em 1974 para dar aula de Filosofia. Acabei preenchendo uma lacuna na Faculdade de Educação, que precisava de um professor de um Filosofia da Educação, e acabei ficando lá. Lá, no final da década de 70, me interessei pelo uso da tecnologia na aprendizagem. Hoje minha área de atuação continua a ser, num âmbito geral, a Filosofia – mas meus interesses principais estão em Filosofia da Educação e Filosofia Política. Dentro da Educação, tenho grande interesse nos desafios que a tecnologia coloca à educação tradicional e nas possibilidades que a tecnologia abre para um novo paradigma na educação.

Transcrito aqui em São Paulo, 5 de Junho de 2009

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