“Afinal, quem faz o quê” em casa?

A Folha de S. Paulo de hoje aborda uma questão que toda pessoa casada já enfrentou: a divisão das tarefas domésticas. Antes, quando a mulher cuidava da casa e dos filhos e o homem trabalhava fora, a divisão das tarefas era tacitamente acordada. Hoje, quando os dois trabalham fora, ou os dois trabalham profissionalmente, mas dentro de casa (Home Office ou algo equivalente), a coisa fica complicada.

Vale a pena ler.

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/eq1504201004.htm

Folha de S. Paulo

GUERRA DOS SEXOS 2.0
Afinal, quem faz o quê?

As mulheres ainda reclamam da "dupla jornada", mas poucas sabem delegar aos homens tarefas domésticas e cuidados com os filhos

RACHEL BOTELHO
DA REPORTAGEM LOCAL

Os homens estão mais solidários e mais envolvidos com a criação dos filhos do que jamais estiveram.Mas, a julgar pelas queixas de boa parte das mulheres, isso não é o suficiente para resolver a velha questão da divisão de tarefas. Porquê?

Muitas mulheres, apegadas ao poder ancestral que detêm sobre o lar, tratamos parceiros como meros ajudantes, reforçando estereótipos de gênero e dificultando qualquer movimento em direção a uma distribuição mais igualitária de responsabilidades.

Homens inseguros no papel de pai, por exemplo, vão se encolher, em termos cooperativos, diante de uma mãezona perfeita, lembra o psiquiatra Luiz Cuschnir, do Centro de Estudos da Identidade do Homem e da Mulher. "Com frequência, as críticas e atitudes professorais da mãe inibem o desenvolvimento do pai. Ser criticado, além de ter recebido uma educação de que o ambiente doméstico não é o seu campo de atuação, faz com que o homem se sinta inábil, desengonçado e facilmente se constranja nesse papel."

Constrangido ou não, o homem fica cada vez mais com os filhos. Um estudo da Universidade da Califórnia mostra que esse tempo mais que dobrou nos últimos 15anos.

Outro dado que chama a atenção, nessa mesma pesquisa, é que ele passa pelo menos duas das horas extras em família ao lado da mulher, sinal de que o casal tem dividido mais as responsabilidades relacionadas à casa e ao trabalho, de modo a ficar fisicamente mais próximo, dizem os pesquisadores.

Mulher e trabalho

Por outro lado, quando o marido trabalha demais, ainda é comum a mulher abrir mão da própria carreira para segurar as pontas em casa. Se é ela que trabalha demais fora de casa, o impacto na carreira dele é quase nenhum, como comprovou um outro estudo feito nos EUA.

A casa e os filhos ainda são vistos como problemas de mulher, no imaginário deles e delas, segundo a análise de Rosa Macedo, coordenadora do Núcleo de Família e Comunidade da PUC-SP: "Tem homens mais cooperativos que dizem que ajudam, mas isso significa que não é responsabilidade deles.

Elas querem que eles assumam que a responsabilidade é igual", afirma. Para a psicóloga, essa visão de que o homem está fazendo um favor para a mulher precisa mudar.

Em países desenvolvidos, a divisão dos cuidados com as crianças e das tarefas domésticas é mais igualitária. Até porque, no hemisfério Norte, empregada doméstica é um luxo.

"O homem participa e tem que participar muito. Eles fazem as compras sozinhos, cozinham", diz a antropóloga Mirian Goldenberg, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

"Aqui, onde a mulher manda em outra mulher que manda também, é difícil para o homem assumir responsabilidades."

Novo modelo

Independentemente da presença de uma auxiliar oficial, a rotina familiar costuma demandar um esforço extra para não sair dos trilhos. Uma alternativa para dividir as coisas sem que ninguém fique sobrecarregado nem de cara amarrada é considerar as aptidões e preferências individuais.

"A solução é entrar em uma negociação em que os dois sejam encarregados de fazer a divisão.

Se os dois trabalham, se respeitam, são dois indivíduos que querem ter uma relação legal, isso é possível", acredita Goldenberg.

Outro componente importante é a flexibilidade. "As tarefas precisam ser divididas de acordo com a disponibilidade do momento. Se tem reunião das crianças na escola e ela não pode ir, o marido dá um jeito.

Não é assim:o filho está doente, a mulher larga tudo e leva ao médico. Precisa conversar e ver quem pode fazer", afirma Rosa Macedo, da PUC-SP.

Com um pouco de boa vontade, o trabalho doméstico pode ser até divertido. "É um momento de estar junto, conversando, isso pode ser prazeroso", diz a psicanalista Belinda Mandelbaum, coordenadora do Laboratório de Estudos da Família do Instituto de Psicologia da USP.

Para as jovens mães, não custa lembrar que a criação da nova geração de adultos está, em boa parte, em suas mãos. "Muitos homens são educados de uma forma que não têm noção de cuidado pessoal -não aprenderam nem a arrumar a cama. As mulheres reclamam, mas continuam mantendo certas diferenças na educação de filhos e filhas", diz Macedo.

Leia a seguir como três casais organizaram sua rotina.

[…]

Ser criticado faz com que o pai se sinta desengonçado nesse papel

LUIZ CUSCHNIR

[…]

Elas reclamam, mas continuam educando filhos e filhas com diferenças

ROSA MACEDO

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/eq1504201005.htm

ELA MANDA, ELE OBEDECE

"Ela pergunta se eu aprendi a lavar louça em Harvard"

Eu não tinha o costume, mas ela foi me ensinando e hoje eu participo bastante. Com as crianças, como ela cuida melhor, sou "sossegado". Não achava que podia dar banho neles, então assumi as coisas da casa. Pode não sair igual ao que ela faz, mas sai.

Às vezes, ela pergunta se eu aprendi a lavar louça em Harvard. Fiscaliza e me fala para refazer. Uma vez, me pediu para passar um pano em casa e, quando eu estava acabando, falou que tinha que passar três vezes! Nesse dia, eu falei não, uma estava bom. Mas levo numa boa. Sei que ela está cuidando bem das nossas coisas, não tem por que brigar.

A Viviane podia assumir um pouco mais de coisa, porque acho que faço muito, mas vou negociando. (Pausa) Se dividir no meio, fico no prejuízo, melhor deixar assim. Dou muito valor para o que ela faz. Eu acabo minha parte, sento para ver TV e ela continua. Ela não para.

Marcelo Carriço Garcia, 44, motorista

"A divisão é bem bacana, não preciso ficar cobrando"

Dividimos as tarefas sem pressão. O Marcelo não tem paciência para dar banho, trocar fraldas, então cuido dos pequenos enquanto ele põe roupa na máquina, lava a louça, tira o lixo. A organização diária é com ele.

Ele não tem hora para chegar, mas as tarefas são sempre as mesmas. Às vezes, ele me pede para lavar a louça e eu falo que já fiz a minha parte. Em outras, fico com dó porque o trabalho dele é muito cansativo e adianto alguma coisa. A divisão é bem bacana: ele sabe o que precisa fazer e eu não preciso ficar cobrando. Mas nem sempre foi assim. Eu ficava limpando a casa e ele ali, dizendo que tinha orgulho de mim. Até que vi como era idiota.

Gosto das minhas coisas certinhas. Ele sabe que a louça não pode acumular. Se não pego no pé, a louça vai para o armário toda engordurada.

Viviane Lolis, 31, analista em comércio exterior

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/eq1504201006.htm

ELE NA RUA, ELA EM CASA

"No fim de semana, cuido do cachorro"

Meu trabalho requer muita dedicação: não tenho horário, preciso jantar com clientes e viajo muito. Infelizmente, não posso estar tão presente em casa.

Por isso, é complicado para mim enxergar o tempo e o esforço que ela dedica, do que ela abre mão. Mas ela também não vê os meus compromissos. Como só eu trabalho, procuro desempenhar minha função da melhor forma possível para proporcionar coisas melhores para a nossa família.

Eu pergunto para amigos meus como funciona essa questão na casa deles _porque as discussões desgastam o relacionamento_ e fico tranquilo porque sei que não sou um ponto fora da curva.

No fim de semana, cuido do cachorro e, se ela me pede para fazer algo, eu ajudo. Muitas vezes, procuro descansar. Eventualmete, dou banho no Enzo, lavo uma louça. À noite, quando o Enzo chora, sou eu que vou socorrê-lo. Enquanto isso, a Melina amamenta a Júlia.

Max Ferrari, 33, farmacêutico

"Estou cansada e isso é motivo de discussões"

Parei de trabalhar para cuidar das crianças e, para o Max, isso foi suficiente para achar que sou totalmente responsável pela criação deles.

Quando só tínhamos o Enzo, ele até participava mais, mas atualmente sempre encontra coisas para fazer depois do trabalho e nunca vem para casa no pior horário, que é quando meu filho volta da escola e eu preciso dar banho, comida e colocá-lo para dormir. Se alguém me visitar nesse horário vai desistir de ter filhos! A última dele foi se inscrever em um grupo que responde pesquisas de mercado. Ajuda zero.

Estou supercansada e isso é motivo para discussões. Estou me desgastando muito e não estou fazendo as coisas como eu gosto. Quando falei que ia procurar uma empregada, esperava que ele tentasse me ajudar mais. Mas não. Para ele, o mais importante é que não falte nada de material. Ele está muito preso a essa questão ainda.

Melina Ferrari, 34, psicóloga

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/eq1504201007.htm

CADA UM FAZ O QUE QUER

"Se a divisão é justa? Estou tranquilo"

As coisas não são muito programadas, é bem espontâneo. Acho horrível fazer compras de supermercado, mas gosto de ter as contas sob meu controle, então eu faço. Uma vez fizemos juntos e não deu muito certo.

Tem coisa que prefiro nem me meter, como as relacionadas ao colégio. Não que eu me omita, mas ela tem mais perfil para isso do que eu.

Aqui não é "eu faço isso, você faz aquilo". Quando cansa para, o outro dá uma ajuda. Tem hora que cansa um pouco, mas faz parte da vida familiar.

Se a divisão é justa? Para mim está tranquilo, não sei se está pesado para ela.

Antonio Luiz Rocha Filho, 50, funcionário público

"Para ser do meu jeito, tem que ser feito por mim"

Nunca falamos sobre isso, as tarefas são divididas naturalmente. Como ele é mais preocupado com questões práticas, ficou responsável por levar as meninas ao médico e ao dentista e dar os medicamentos. Os estudos ficam sob minha responsabilidade. Vejo se tem dever e estudo junto para as provas.

Como o horário de trabalho do Antonio é flexível, ele leva e busca na escola, mas as reuniões de pais são sempre comigo.

Em relação aos cuidados com a casa, as coisas também se acomodaram. Quando estamos sem empregada, ele varre enquanto brinco com as meninas.

A maneira como o Antonio lava a louça não é lá essas coisas: ele gasta muita água, mas não me irrito, não. Penso o seguinte: para ser feito do meu jeito, tem que ser feito por mim.

Então ele faz do jeito dele e, enquanto isso, faço uma atividade que me dê mais prazer.

Acho que combina: onde meu limite acaba, o dele vai além.

Christiana Martins Ferreira, 43, analista de sistemas

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Em São Paulo, 15 de Abril de 2010

  1. Em minha opinião, o \’mal\’ de muitos homens é que esperam que a esposa/companheira mande ou peça para fazerem algo. As coisas têm de ser feitas, e o homem deverá estar atento e fazê-las sem que seja necessário uma ordem ou um pedido.

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