A História do Rei George VI da Inglaterra

Os atores Colin Firth e Helena Bonham Carter em cena do filme O Discurso do Rei

Fomos assistir a “O Discurso do Rei” num dos cinemas do Bourbon Shopping – e lá encontramos o Alipio Casali (professor da PUC-SP) e a mulher, que se sentaram do nosso lado. Filme magnífico. História real do Rei George VI, da Inglaterra, pai da atual rainha, que gaguejava e acabou dominando o problema com a ajuda de um terapeuta sem qualificação acadêmica e extremamente heterodoxo.

Não percam.

O filme está indicado para o Oscar em nada menos do que 12 categorias. Colin Firth está incomparável como um George VI gago, inseguro, que não acredita em si mesmo, mas que aos poucos vence esses problemas e se torna um rei amado e respeitado na Inglaterra durante um dos períodos mais difíceis do país: A Segunda Guerra. É um dos candidatos mais fortes ao Oscar de Melhor Ator Principal. Seu terapeuta, representado por Geoffrey Rush, também tem um desempenho impecável e está indicado para o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante.  Helena Bonham Carter, no papel de mulher de George VI, que veio a ser a Rainha-Mãe no reinado de Elizabeth II, e viveu até recentemente, também está indicada para o Oscar, na categoria Melhor Atriz Coadjuvante. O Diretor, Tom Hooper, também foi indicado.

Como é bonito e inspirador o cinema, quando bem feito.

Eis as categorias em que o filme está indicado para um Oscar:

  • Melhor filme
  • Melhor Diretor (Tom Hooper)
  • Melhor Ator Principal (Colin Firth)
  • Melhor Ator Coadjuvante (Geoffrey Rush)
  • Melhor Atriz Coadjuvante (Helena Bonham Carter)
  • Roteiro Original
  • Direção de Arte
  • Fotografia
  • Trilha Sonora Original
  • Mixagem de Som
  • Figurino
  • Edição

Transcrevo, abaixo, um excelente artigo de Contardo Calligaris sobre o filme. Transcrevo do blog do Contardo, mas o artigo foi publicado na Folha de 2 de Fevereiro de 2011.

Vale a pena ler o artigo também.

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http://contardocalligaris.blogspot.com/2011/02/todos-os-reis-estao-nus.html

02 Fevereiro 2011

Todos os reis estão nus

Que Deus nos guarde de todos os que não enxergam sua própria nudez, sejam eles reis ou não

JÁ ESTÁ em cartaz (pré-estreia) “O Discurso do Rei”, de Tom Hooper. O filme foi indicado ao Oscar em doze categorias; a atuação de Colin Firth (o rei) é tão inesquecível quanto a de Geoffrey Rush (o terapeuta).

Resumo.

Quando George 5º morreu, o filho primogênito lhe sucedeu (com o nome de Eduardo 8º), mas por um breve período: logo ele abdicou, por querer uma vida diferente daquela que o ofício de rei lhe proporcionaria. Com isso, o cadete, Duque de York, tornou-se rei -inesperadamente e num momento decisivo: era a véspera da Segunda Guerra Mundial.

O Duque de York (e futuro George 6º) era tímido, temperamental e, sobretudo, gago -isso numa época em que, graças ao rádio, a oratória dos ditadores incendiava as praças do mundo: na hora do perigo, para que serve um rei se ele não consegue ser a voz que fala para o povo e por ele?

O filme, imperdível, conta a história (verídica) da relação entre o rei e seu terapeuta, Lionel Logue, um fonoaudiólogo australiano pouco ortodoxo. Eis algumas reflexões saindo do cinema.

1) Qualquer terapia começa com uma dificuldade prática: uma impotência, a necessidade de um conselho, uma estranha tensão nos ombros, uma gagueira. A relação terapêutica se constrói a partir dessa dificuldade: o terapeuta é quem saberá nos livrar do transtorno, seja ele fonoaudiólogo, terapeuta corporal, eutonista, psi (de qualquer orientação) etc.

Quer queira quer não, a ação do terapeuta é dupla: relaxaremos o ombro, exercitaremos a dicção ou endireitaremos o pensamento do paciente, mas, de uma maneira ou de outra, acabaremos mexendo nas fontes de um mal-estar mais geral que talvez se manifeste no transtorno.

2) Há, às vezes (mais vezes do que parece), escondidas no nosso âmago, ambições envergonhadas ou vergonhosas, que não confessamos nem a nós mesmos. Quando sua realização se aproxima, só podemos inventar jeitos de fracassar, porque, no caso, não nos autorizamos a querer o que desejamos.

Obviamente, detestamos a voz do terapeuta que se aventura a nos dizer o que queremos mas não nos permitimos. Essa voz atrevida é a única aliada de desejos que são nossos, mas que encontram um adversário até em nós mesmos.

3) No trabalho psicoterapêutico, o segredo de polichinelo é que, por mais que suspendamos diplomas em nossas salas de espera, somos todos leigos e aventureiros. Não sei se existem cursos ou estágios que ensinem a ouvir o que Logue ouve e entende do desejo escondido do Duque de York. Certamente não há formações que ensinem a coragem maluca do terapeuta do rei, seu esforço para se colocar, sem medo, ao serviço do que o duque e futuro rei não quer saber sobre si mesmo.

4) Pensando bem, Logue (como Freud) tinha, sim, uma formação que o qualificava como conhecedor da alma humana e especialmente da dos reis: a leitura de Shakespeare.

5) Quase sempre, chega o dia em que um paciente descobre que seu terapeuta sabe muito menos do que ele (o paciente) imaginava. O paciente pode até pensar que o terapeuta, atrás de seu bricabraque de saberes práticos, é um impostor. É ótimo que isso aconteça, pois, geralmente, é sinal de que o paciente descobriu que ele também é um impostor. No caso, o terapeuta não é qualificado para ser terapeuta, exatamente como o rei não é qualificado para ser rei. (Parêntese: em geral, é assim que nasce uma amizade: os dois se tornam amigos por aceitarem estar ambos nus, como o rei da fábula – mesmo que seja só por um instante.)

Não há como ser terapeuta ou rei sem alguma impostura. Todos carregamos máscaras. Avançamos mascarados, enfeitados por mentiras que nos embelezam. Até aqui, tudo bem: essa impostura é uma condição trivial e necessária da vida social. Os melhores conhecem sua impostura e sabem que não estão à altura de sua máscara.

Os piores se identificam com sua máscara. Acreditar nas máscaras que vestimos é um delírio que nos torna perigosos. Não há diferença entre o rei que acreditasse ser rei, o terapeuta que acreditasse ser terapeuta e o anjo exterminador que saisse atirando e matando, perfeitamente convencido de ser uma figura do apocalipse. Os três teriam isto em comum: acreditariam ser a máscara que eles vestem.

Enfim, que Deus nos guarde de todos os que não enxergam sua própria nudez.

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Repito. Não percam. É um filme sobre uma história real, que os mais velhos companharam em grande parte.

Em São Paulo, 13 de Fevereiro de 2011.

Hábitos de Leitura

Acordem, editores e livreiros. Os hábitos de leitura estão mudando. Abaixo, o resultado de levantamentos publicados na Folha de ontem. Dispositivos multifuncionais são coisas como iPads.

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/tec/tc0902201129.htm

Folha de S. Paulo

HÁBITOS DE LEITURA

66%

Consumidores com dispositivos multifuncionais que passaram a ler mais depois de comprá-los

O número é de um estudo da iModerate Research Technologies e da Brock Associates, que entrevistou 300 pessoas nos EUA

46%

Consumidores com dispositivos multifuncionais que passaram a ler mais livros de papel

80%

Pessoas que consideram a leitura em aparelhos mais conveniente do que no papel

72%

Entrevistados que leem em dispositivos eletrônicos quando viajam

Frase

“Gosto de ter muitos livros à mão para escolher o que ler em qualquer lugar. Basta baixar as obras que quero ler nos meus dispositivos. Posso ler um livro por um instante e mudar para outro” [PARTICIPANTE ANÔNIMO de pesquisa sobre hábitos de leitura]

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Com respeito à frase citada, me, too.

Em São Paulo, 10 de Fevereiro de 2011

Jovens e velhos convivem em todas as faixas etárias

Muito interessante o artigo de Luli Radfahrer na Folha de S. Paulo de ontem.

A tese mais interessante, na minha opinião, é que velhice não é uma questão de idade: é uma questão de postura, de atitude perante a vida. Há novos e velhos em toda faixa etária…

Velhos são aqueles que não percebem que uma mudança básica e fundamental aconteceu na sociedade e persistem em considerá-la um modismo, um “fad”, que logo irá desaparecer. Assim, se orgulham, culturalmente, de resistir a essa mudança, considerando seu reacionarismo uma virtude cultural. Jactam-se de não usar e-mail, de não ter perfil no Facebook, de nem sequer ter (ou atender) um telefone celular.

Esses velhos, essas verdadeiras peças de museu existem em qualquer faixa etária. Eu tenho um bom número de amigos velhos – nesse sentido – que, cronologicamente, são mais recentes do que eu. Uma coisa não tem muito que ver com a outra.

Eis o artigo do Luli Radfahrer na íntegra.

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/tec/tc0902201127.htm

LULI RADFAHRER

Os velhos da sua idade

O que você deve fazer por aquelas pessoas que têm a sua idade, mas não leem este caderno

ESTE ARTIGO foi escrito para aqueles seus amigos, parentes ou colegas que têm a sua idade e uma formação parecida com a sua, mas que, por algum motivo, nunca lêem cadernos como este. Você conhece o tipo: são pessoas inteligentes, de opinião formada, que acompanham as notícias regularmente, mas que raramente passam do caderno de economia ou de cultura. Sabe quem acredita que ópera é muito mais importante do que videogames ou Facebook, mesmo tendo uma fração de sua audiência? Pois então.

Eles não são velhos. Você não é velho. Ou pelo menos não deve se sentir ultrapassado, mesmo que não saiba das últimas artimanhas do Google ou do Twitter. O leitor da editoria de tecnologia costuma ter conta em redes sociais e saber como deve se comportar nelas, não clica em qualquer link de e-mail e tem uma boa noção do que é um iPad ou um Wii, mesmo que não tenha a menor intenção de comprá-los. É alguém que, como você, tem critério e experiência. Isso depende cada vez menos da idade.

No entanto, há cada vez mais gente com orgulho de sua aversão ao ambiente digital. Isso não acontece com outras inovações, como a energia elétrica ou o rádio.

A web tem quase duas décadas de vida e a telefonia móvel, cerca de metade disso. Não se pode mais chamá-las de “mídias alternativas” ou de “tecnologias emergentes” quando a maioria dos processos contemporâneos depende delas. Mas ainda são poucos os que perceberam de verdade essa mudança. A maioria ainda está à margem das transformações, fazendo de conta que elas não existem, mesmo que tenham filhos adolescentes e uma renda pra lá de confortável. A inclusão digital se torna, cada vez mais, uma questão cultural.

O que aconteceu com essa gente? Meu palpite é que eles não perceberam a mudança. Como qualquer pessoa que não se interessa por uma área da medicina ou do direito até que se torne vítima dela, eles nunca se importaram com o digital. Mas deram o azar de terem nascido em uma época que ele se tornou importante. Por causa disso, muitos vivem hoje em um mundo desconfortável e isolado, que não compreende o que fazem seus filhos, seus funcionários e o resto do planeta.

Esses caras me lembram aqueles coleguinhas da escola que, por serem bonitos ou fortes ou populares ou ricos demais, nunca pensaram que precisariam estudar.

O tempo passou, e uma das poucas coisas que correu mais rápido do que ele foi a tecnologia. Lembra a lenda da cigarra e da formiga? É algo parecido.

Pode parecer lavagem cerebral, mas acredito que você deva ajudá-los a se alfabetizar no digital. Por mais que dê trabalho, a atividade compensará por dois motivos. O primeiro é que as tecnologias de informação estão mais para uma linguagem do que para uma ferramenta. Quanto maior a fluência, mais eficiente será a comunicação e a compreensão. O segundo é que quanto maior e mais adiantado estiver o mercado, mais exigente ele será.

No fim, quem mais se beneficiará dessa cadeia evolutiva será você, que terá acesso a máquinas e serviços melhores. Isso sem contar que poderá fazer novos amigos e ampliar sua visão de mundo, principalmente se eles estiverem entre os do tipo que não lê este tipo de caderno.

lulil@luli.com.br

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Em São Paulo, 10 de Fevereiro de 2011