O Leilão da Virgindade: A Culpa é do Mercado?

O artigo de fundo da VEJA desta semana é: “Será que estamos virando uma sociedade em que tudo se compra? Ela vendeu a virgindade”.

A capa tem uma moça puxando para baixo um lado da calcinha e mostrando, na virilha, um código de barras… Criativo!  Embora a foto na capa mostre apenas do pescoço até os joelhos da moça, dentro se vê que a foto é, de fato, da catarinense que colocou a virgindade em leilão (e, aparentemente, arrecadou cerca de um milhão e quinhentos mil reais pela cessão de algo que a maioria das mulheres dá de graça).

Dentro, a VEJA dedica vários artigos ao assunto, sob o título, em letras garrafais vermelhas. “NEM TUDO SE COMPRA”.

A estrela da matéria é o filósofo de Harvard Michael Sandel, que escreveu um livro O que o Dinheiro não Compra, em que procura prescrever uma ética para o mercado. Segundo ele (em entrevista à VEJA), casos como de Ingrid Megliorini (a que leiloou a  virgindade) se classificam como “aplicação da lógica do mercado” fora do mercado, isto é, em áreas da sociedade que não fazem (ou não deveriam fazer, não fica claro) parte do mercado. 

A VEJA perguntou: “Em seu livro, o senhor faz uma distinção entre economia de mercado e uma sociedade de mercado. Qual a diferença?”

A resposta dele me parece fraca:

“A economia de mercado é uma ferramenta valiosa e efetiva para organizar a atividade produtiva. Trouxe prosperidade e riqueza para diversas sociedades ao redor do mundo.”

Arre, até aí tudo bem, exceto, talvez, pelo termo “diversas”… Gostaria que Sandel me desse exemplos de sociedades que se tornaram prósperas e ricas sem a economia de mercado. Se não fornecer, continuo a presumir que as sociedades só se tornam prósperas e ricas à medida que adotam a economia de mercado.

Mas o pior está por vir.

“Uma sociedade de mercado, no entanto, é diferente. Nem tudo está à venda. É um modo de vida no qual o pensamento econômico invade esferas a que ele não pertence”.

O problema está no “pensamento econômico” – isto é, no liberalismo econômico – ou no interesse econômico das pessoas?

A tese do liberalismo econômico é que as pessoas devem ser livres para vender ou trocar  o que quer que seja que, sendo de sua propriedade, queiram vender ou trocar. E que devem ser livres para, tendo meios (recursos financeiros ou bens e serviços), comprar ou receber em troca o que quer que seja que desejam ou que lhes agrada.

Uma observação importante sobre o artigo da VEJA. O surpreendente não é, como sugere a capa e o título, que haja quem compre o direito de disvirginar uma pessoa – ou que haja quem compre o voto de um deputado ou senador. O surpreendente é que haja quem queira vender essas coisas… Se alguém está disposto a vender alguma coisa, qualquer que seja, e é flexível no preço e nas condições de venda, cedo ou tarde aparece quem queira comprar aquela coisa. O problema está na venda, não na compra.

De igual maneira, o título do livro de Sandel é mal posto. Não deveria ser “o que o dinheiro não compra”, porque o dinheiro compra qualquer coisa que esteja à venda. Seu livro estaria na direção certa se o título fosse: O que não se deve vender…

O liberalismo econômico defende a liberdade das pessoas para vender ou trocar o que quiserem e para comprar ou obter em troca o que quiserem.

Mas também defende a tese de que as pessoas devem ter princípios morais e não se dispor a vender (ou trocar) determinadas coisas, ainda que sejam legitimamente suas: sua honra, sua opinião, seu voto, seu apoio político…

As coisas citadas (honra, opinião, voto, apoio político) são, na perspectiva moral do liberalismo, coisas que não se devem vender (nem trocar) nunca. A virgindade, nessa linha, talvez não seja algo que deva ser vendido, devendo ser guardada ou dada  de graça a quem faça por merece-la. Mas vender a virgindade me parece algo muito menos grave do que vender honra, opinião ou voto. Afinal da contas, diariamente vemos gente vendendo acesso sexual ao seu corpo (mesmo que não seja um corpo sexualmente virgem) sem que muita gente se escandalize com o fato ou por ele culpe o capitalismo ou a economia de mercado. (Afinal, a prostituição, ou a venda por alguém do direito de outra pessoa aceder sexualmente ao seu corpo, existe desde que o mundo é mundo, há milhares e milhares de anos, muito antes do aparecimento do capitalismo e da economia de mercado).

O problema não está no “pensamento econômico”, no capitalismo, no liberalismo econômico. O liberalismo defende a liberdade das pessoas para dispor do que é seu da forma que preferirem. Ponto final.

O problema está no código moral das pessoas. Se alguém está disposto a vender a mãe ou o filho, a virgindade, o acesso sexual ao seu corpo, ou um órgão vital de seu corpo, o problema não está no sistema que viabiliza a transação, mas nas pessoas que fazem uso desse sistema.

Qual seria o remédio?

Acabar com o capitalismo com pretendem nossos esquerdistas de plantão? Esta é a solução socialista.

Limitar a esfera de atuação do mercado, como pretende Sandel, determinando, por lei, que algumas coisas não podem ser vendidas, trocadas, compradas ou adquiridas por troca? Esta a solução social democrata.

Ou educar as pessoas na área de valores para que aprendam a respeitar certas coisas, que são suas, sim, mas que não deveriam, por razões morais, ser vendidas ou trocadas – porque, afinal, não têm preço, como diz o bordão de um comercial? Esta a solução liberal.

Eu não tenho dúvida alguma quanto ao remédio certo.

Em São Paulo, 18 de novembro de 2012

  1. Artigo muito bom. Eu também concordei com a ideia que nem tudo está a venda, mas o dinheiro pode comprar qualquer coisa que está a venda. Outra ideia que as pessoas têm é que no liberalismo tudo é permitido, na verdade desde que não prejudique ninguêm tudo é permitido.
    Gostei do blogue. Conheci-o pelo site da Ayn Rand, da qual acabei de comprar A Revolta de Atlas.

    Curtir

  2. Pingback: Os Views dos Meus Artigos Aqui, « Liberal Space: Blog de Eduardo Chaves

  3. Pingback: Top Posts of this Blog for all time ending 2014-04-14 (Summarized) « * * * In Defense of Freedom * * * Liberal Space

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: