Críticas à Escola Tradicional

Sei que a maior parte das pessoas, contrário ao que Karl Popper recomenda, só lê aquilo que reforça o que elas já acreditam. Por isso, pronunciamentos como os abaixo podem ter passado despercebidos a alguns de vocês.

Esclareço que  “escola tradicional” é a que nós temos, quase sem exceção, na rede pública E privada. Mesmo as consideradas boas.

Transcrevo de meu blog http://escolalumiar.wordpress.com. Originalmente publicado em 20/09/2007.

A tese de que a escola tradicional ou é irrelevante para a educação das crianças, ou até mesmo nociva para o desenvolvimento delas, tem nobres antecedentes. Famosos luminares do século XIX a defenderam: Leon Tolstói, Samuel Butler, Charles Darwin e Mark Twain. No século XIX, Albert Einstein e Karl Popper, e Howard Gardner, entre outros, consideram a escola tradicional, mais do que obsoleta e irrelevante, nociva.

Eis o que disse Leon Tolstói:

“As crianças, em todos os lugares do mundo, são obrigadas, pela força, a freqüentar a escola. Na verdade, os pais são obrigados a enviar seus filhos à escola, seja pela severidade da lei, seja porque se lhes prometem vantagens, seja por uma retórica que os ludibria. Fora da escola, as pessoas, em geral, em todos os lugares do mundo, aprendem e estudam por vontade e iniciativa própria e consideram a educação como algo bom. Como é que isso se dá? A necessidade da educação é sentida por todos os homens. As pessoas adoram aprender, amam a educação e a buscam, da mesma forma que amam e buscam o ar que respiram. O governo e a sociedade têm enorme desejo de educar o povo. E, todavia, a despeito do uso da força, da persistência do governo e da sociedade, e de todas tentativas de ludibriar o povo a aceitar a importância da escola, as pessoas do povo constantemente manifestam insatisfação com a educação que lhes é fornecida na escola e só se submetem a ela pela força, quando a escolarização é tornada obrigatória. É possível provar a justeza do método atual de escolaridade compulsória? É difícil descobrir se há métodos melhores, porque até aqui as escolas nunca foram realmente livres. É verdade que no nível mais alto do processo de escolarização – a universidade – se tenta implantar um regime mais livre. Será que, talvez, nos níveis inferiores a escolarização deva ser realmente obrigatória? Será que, talvez, a experiência um dia ainda nos vá provar que escolas de freqüência compulsória são boas? Vamos examinar essas escolas, não pela consulta às tabelas estatísticas que nos são fornecidas, mas tentando descobrir o que elas realmente são e fazem e qual o seu real impacto sobre as crianças do povo. Quando voltamos nosso olhar para as escolas de freqüência obrigatória, é isto que a realidade nos mostra: as escolas se apresentam às crianças como uma instituição destinada a torturá-las – uma instituição em que elas são privadas de seu principal prazer e necessidade: a movimentação livre; em que obediência e silêncio são exigidos como condição de permanência; em que elas precisam de autorização especial para ‘sair um minutinho’ da sala de aula; em que qualquer ação errada é de pronto punida. Quanto aos resultados da ação da escola sobre as crianças do povo, se atentarmos para a realidade e não para as tabelas estatísticas, somos forçados a concluir: nove décimos da população escolar retiram da escola apenas um conhecimento mecânico da leitura e da escrita; por outro lado, saem da escola com uma aversão tão grande para com os caminhos do conhecimento que foram obrigados a trilhar que nunca mais na vida botam as mãos em um livro. A escola não apenas consegue inculcar nos alunos a aversão para com a educação, ela também os induz a praticar a hipocrisia e a trapaça, em decorrência da posição não-natural em que os coloca. A educação deve ser apenas uma busca de resposta às questões que a vida nos coloca. Mas a escola não só não permite que os alunos ali levantem questões que lhes interessam como se nega a tentar ajudar os alunos a responder as questões que a vida fora da escola os força a confrontar. Ela fica eternamente respondendo às mesmas questões – mas essas são questões que não são levantadas pela mente das crianças. Basta olhar para uma mesma criança, de um lado, em casa e na rua, e, de outro lado, na escola. Em casa e na rua você observa uma criança vivaz, curiosa, com um sorriso nos lábios, explorando e tentando aprender tudo, da mesma forma que explora e busca prazeres, expressando seus pensamentos em suas próprias palavras, com clareza e, freqüentemente, com força e eloqüência. Na escola, você observa um ser como que aposentado da vida, cansado e com uma expressão de fatiga, tédio, enfado e por vezes terror, repetindo palavras estranhas em uma língua estranha – um ser cuja alma, como num caracol, se esconde dentro da própria casa. Basta comparar essas duas condições em que podemos observar a criança para constatar, sem sombre de dúvida, qual delas é mais vantajosa para o seu desenvolvimento. A natureza compulsória da freqüência à escola impede que a criança ali se eduque.”

[Leon Tolstoi, “Sobre Educação Popular”, em Artigos Pedagógicos, 1862, traduzido do Russo para o Inglês por Leo Wiener (Dana Estes & Co., Boston, 1904), passagens retiradas das pp. 7-18 (ênfases foram acrescentadas). Citado apud Daniel Greenberg,  Announcing a New School: A Personal Account of the Beginnings of the Sudbury Valley School (The Sudbury Valley School Press, Framingham, MA, 1973, p. 175)].

Eis o que disse Samuel Butler:

“Fico às vezes imaginando como é que o mal causado pela escola às crianças e jovens não deixa, a maior parte das vezes, marcas mais claramente perceptíveis, e como é que moços e moças conseguem crescer tão sensatos e bons, a despeito das deliberadas tentativas feitas pela escola de entortar ou mesmo interromper o seu desenvolvimento. Alguns, sem dúvida, sofrem danos de tal monta que sentem seus efeitos até o fim da vida. Mas muitos parecem não se deixar afetar pela vida da escola e uns poucos até se saem bem. A razão disso me parece ser que o instinto natural dos jovens se rebela de forma tão absoluta contra a formação que recebem na escola que, não importa o que possam fazer os professores, nunca conseguem que seus alunos os levem suficientemente a sério”.

[Samuel Butler, em Erewhon, passagem citada por Karl Popper como moto de uma seção de “Replies to My Critics”, in The Philosophy of Karl Popper, org. por Paul Arthur Schilpp (Open Court, La Salle, IL, 1974), Vol. II, p. 1174 (ênfase acrescentada)]

Charles Darwin também fez comentários pouco lisonjeiros sobre sua educação escolar. Eis o que disse Darwin sobre um dos cursos que fez:

“Durante meu segundo ano em Edimburgo, freqüentei as aulas de Jameson sobre Geologia e Zoologia, mas elas eram incrivelmente enfadonhas. O único efeito que tiveram em mim foi a decisão de jamais ler um livro de Geologia em toda a minha vida, ou de estudar essa ciência de alguma forma”.

[Apud Dean Keith Simonton, A Origem do Gênio: Perspectivas Darwinianas sobre a Criatividade (Editora Record, Rio de Janeiro e São Paulo, 2002), tradução brasileira de Carlos Humberto Pimentel D. da Fonseca e Luiz Guilherme B. Chaves do original em Inglês Origins of Genius: Darwinian Perspectives on Creativity (Oxford University Press, Oxford, 1999), pp. 167-168, que por sua vez a retirou de F. Darwin, org., The Autobiography of Charles Darwin and Selected Letters(Dover, New York, 1958, originalmente publicado em 1892), p. 15]

Mark Twain, com o seu costumeiro e mordaz senso de humor, disse:

Jamais permiti que minhas atividades escolares interferissem na minha educação“.

[Apud Dean Keith Simonton, op.cit., p. 170, que, por sua vez, a retirou de C. T. Harnsberger, org., Everyone’s Mark Twain (Barnes, New York, 1972), p. 553 (ênfase acrescentada)]

Já no século XX, Albert Einstein foi ainda mais mordaz:

Na verdade, não passa de um milagre que os métodos modernos de instrução ainda não tenham estrangulado por completo a santa curiosidade da investigação; porque esta plantinha delicada, longe do estímulo, fica necessitando principalmente de liberdade; sem isso, ela vai por água abaixo, com certeza. É um erro muito grave pensar que o prazer de ver e procurar pode ser promovido por meio de coação e do sentido do dever”.

[Apud Dean Keith Simonton, op.cit., p. 167, que, por sua vez, a retirou de P. A. Schilpp, org., Albert Einsten: Philosopher-Scientist (Harper, New York, 1951), p. 17 (ênfase acrescentada)]

Eis o que diz Karl Popper, um dos maiores filósofos do século XX, se não o maior:

“Tem-se dito, e com verdade, que Platão foi o inventor tanto de nossas escolas secundárias como de nossas universidades. Não conheço melhor argumento para uma visão otimista da humanidade, nem melhor prova de seu amor indestrutível pela verdade e pela decência, de sua originalidade, de sua teimosia e de sua saúde, do que o fato de que esse devastador sistema educacional não tenha até hoje sido capaz de arruiná-la completamente“.

[The Open Society and Its Enemies, Vol. I: “The Spell of Plato” [Princeton University Press, Princeton, NJ, 1962, 1966, 1971], p. 136 (ênfase acrescentada)]

Eis o que diz Howard Gardner, o eminente professor de Harvard, criador do conceito de “múltiplas inteligências”:

“Frequentar a maioria das escolas de hoje realmente traz o risco de prejudicar as crianças. Seja qual for o significado que a instrução possa ter tido no passado, para a maioria das crianças de nossa sociedade ela já não tem nenhum significado. A maioria dos alunos (e, por falar nisso, a maioria dos pais e professores) não é capaz de dar razões realmente convincentes para freqüentar a escola. As razões não podem ser discernidas na própria experiência escolar, nem as pessoas acreditam que aquilo que se aprende na escola será realmente utilizado no futuro. Tentem justificar a equação quadrática ou as guerras napoleônicas para um aluno de ensino médio de uma cidade do interior – ou para seus pais. O mundo real aparece em outro lugar: nos meios de comunicação, no mercado de trabalho, e com excessiva frequência no submundo das drogas, violência e crime. Muito, se não a maior parte, do que acontece nas escolas acontece porque é assim que acontecia nas gerações anteriores, não porque nós tenhamos bases lógicas convincentes para mantê-lo hoje. A afirmação muito comum de que a escola é basicamente um lugar de custódia em vez de educação contém um traço de verdade”.

[Howard Gardner, Inteligências Múltiplas: A Teoria na Prática (Artes Médicas, Porto Alegre, 1995), tradução brasileira de Maria Adriana Veríssimo Veronese do original em Inglês Multiple Intelligences: The Theory in Practice (New York, Basic Books, 1993), p. 171. (Fiz pequenos ajustes na tradução, para melhorar a sua qualidade)]

Transcrito no meu blog da Escola Lumiar em Salto, 20 de Setembro de 2007

Transcrito aqui neste blog em São Paulo, 4 de Fevereiro de 2013.

  1. Um fato que me admirou, e que lembro com frequência, é a simplicidade e humildade de reconhecer erros e mudar que o Seymour Papert demonstrou quando escreveu sobre a importância e papel do professor nos livros Mindstorms, Máquina das Crianças e Família Conectada.

    Por outro lado, lembro também com frequência uma colocação de Carl Bereiter em uma de nossas conversas sobre inovação. Ele disse que não se pode esperar de um autor mais de 20% de novas ideias de uma obra para outra. Se ele mudar radicalmente de pensamento apenas para ser “inovador” muito provavelmente estará sendo incoerente com suas crenças e princípios.

    Dito isso, aproveito o texto do Eduardo para dizer que eu andava meio ressabiado com o grupo de Harvard (Gardner, Perkins, Stone Wiske. Tishman …) até novembro passado. Eu fui um leitor muito atento de Uma Nova Ciência da Mente, Inteligências Múltiplas, Ensino para a Compreensão e vários outros títulos desse grupo. Os muitos projetos recentes: Visible Thinking, Good Work, Making Thinking Visible, Artful Thinking etc., embora muito interessantes, haviam me deixado apreensivo se não estariam deixando de lado uma linha que muito me admirou na trajetória anterior: criticavam sim a escola, mas propunham alternativas e trabalhavam de uma forma coerente e sistêmica para melhorá-la.

    No final de 2009 participei de um workshop no qual todo o grupo de Harvard estava presente e em novembro último novamente encontrei esse grupo, agora eu também conduzindo um workshop. As palestras, jantares e conversas foram marcantes para mim. Não vou entrar em detalhes contando o que aprendi e troquei com Daniel Wilson, Ron Ritchhart, Shari Tishman, David Perkins …

    Vou me ater apenas ao que Howard Gardner apresentou e que acredito que dá um toque a mais no que o Eduardo escreveu sobre ele no blog. O Gardner disse que sua palestra, baseada no livro The Five Minds for the Future, não era sobre “teorias” como as inteligências múltiplas, e sim algo mais prático, relacionado com o que os professores podem fazer. A sua fala foi o tempo todo propositiva, sugerindo caminhos, e mostrando que ele não cedeu em seus princípios. O Ensino para a Compreensão continua sendo uma das maneira de desenvolver algumas dessas mentes. As rotinas de pensamento são atalhos para transformar aos poucos as rotinas da escola sem rompimentos.

    Cito aqui algumas das frases que dão a dimensão de que passados quase 20 anos do que escreveu nas Inteligências Múltiplas ele continua insatisfeito com a escola, mas continua acreditando que é possível transformá-la, dá exemplos, arregaça as mangas, e faz acontecer.

    As cinco mentes para o futuro são: mente disciplinada, mente sintetizadora, mente criativa, mente respeitosa, e mente ética.

    Na mente disciplinada ele cita três sentidos. Um deles é “learning major ways of thinking: historical, artistic, scientific, mathematica (the task of school)”

    Quando fala da mente criativa faz a reflexão: “Should American schools cultivate creativity? If so, how? Or are there sufficient lessons about creativity ‘on the streets’, in Hollywood, Silicon Valley and (alas) Wall Street? How about in you community?”

    Quando fala da mente respeitosa deixa claro que é além da mera tolerância. “Need to understand others – perspectives, motivation – emotional and interpersonal intelligence – “empathy schools”; Inappropriateness of ‘corporate, top-down model’ for schools and perhaps even for corporations!”

    Apresenta os “Three E’s of GoodWork:

    – Excellent, expert, high quality
    – Ethical, socially responsible, moral
    – Engaging – meaningful, intrinsically motivated”

    E comenta sobre o toolkit que distribuem para escolas e faculdades. Resumindo, ele não está apenas criticando, mas está propondo caminhos para transformar a escola de hoje numa escola em que acredita:

    “Educator’s solution: creation of a ‘commons’ where students, teachers, staff can reflect on dilemas and how they could be solved and lessons learned – old and Young cooperate”.

    Como vemos, essa proposta não difere muito de caminhos que vêm sendo seguido por algumas das boas escolas “não tradicionais”.

    Seria muito interessante se pudéssemos “ouvir” o que os outros grandes personagens citados pelo Eduardo proporiam para o mundo como ele está hoje.

    Para encerrar este longo comentário cito mais uma fala do Garner desse evento de novembro: “se quiserem ler um ótimo livro e conhecer um modelo de escolas que está funcionando leiam Finnish Lessons: What Can the World Learn from Educational Change in Finland? (Series on School Reform) de Pasi Sahlberg e Andy Hargreaves.”

    Nem vou entrar nesse belíssimo caso, citei apenas para mostrar que há coisas boas acontecendo, na direção que os “grandes” acreditam e admiram.

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