Um Círculo que se Fecha Depois de 40 Anos

Quarenta anos depois, alguns estudos meus, que no início pareciam sem relação uns com os outros, começam a se integrar.

Vim para a UNICAMP em 1974. Faz 40 anos este ano.

De início era para eu ir para o Departamento de Filosofia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas e lecionar História da Filosofia (com ênfase no Século 18, o do Iluminismo). Numa daquelas coisas que é difícil explicar – chance, providência? – houve uma reviravolta. Ao chegar na Universidade fui solicitado a ficar lotado, ainda que temporariamente, na Faculdade de Educação, que acabava de criar o seu curso de Pedagogia no final de 1973. Queriam que eu desse Filosofia da Educação no primeiro ano do curso que se iniciava.

Problema: eu nunca havia estudado Educação ou Pedagogia nem, muito menos, Filosofia da Educação. Havia feito meu Ph.D. em Filosofia, na Universidade de Pittsburgh (recebi o grau em 1972), mas meus interesses eram Metafísica, Epistemologia, Filosofia da Religião, Filosofia Política – com ênfase, como disse, na Filosofia do Iluminismo.

Mas, para encurtar a história, recém-chegado à UNICAMP, não tive como deixar de atender à solicitação. Fui a algumas livrarias em Campinas e São Paulo, comprei tudo o que pude achar sobre a educação, e fui estudar. Dei o curso – que acabou ficando meu (pelo menos a disciplina EP-130, Filosofia da Educação I), durante 32 anos.

Assim, acabei nunca indo para o Departamento de Filosofia. E acho que, para mim, no fim, foi bom (apesar de a Faculdade de Educação, com o tempo, ter se tornado verdadeiramente insuportável).

Ao longo de 1974 tive de escrever um projeto de pesquisa para efetivar a minha permanência no Regime de Dedicação Integral à Docência e à Pesquisa (RDIDP). O diretor da Faculdade de Educação me pressionou para escolher um tema relacionado à educação e não “apenasmente” filosófico (filosofia dita pura).

Dentre os livros que comprei para me preparar para o curso de Filosofia da Educação estava um livrinho, traduzido do Inglês, e publicado pela Zahar Editora, chamado Doutrinação e Educação (Indoctrination and Education). O autor era Ivan A. Snook, e o livro havia sido publicado em 1972, dois anos antes. Resolvi fazer meu projeto de pesquisa sobre o perigo da doutrinação na educação moral, política e religiosa. Na verdade, a pesquisa era uma exploração das possibilidades de uma educação não-doutrinadora na área da moral, da política e da religião. Trabalhei bastante no assunto, e escrevi algumas coisas até interessantes, embora nunca tenha publicado nada sobre o assunto. (Um artigo meu de 1977, “A Filosofia e a Análise de Conceitos Educacionais”, toca no assunto. Foi publicado num livro organizado por meu amigo Antonio Muniz de Rezende e publicado pela Vozes, com o o horrendo título de Uma Introdução Teórico-Prática às Ciências da Educação. De vez em quando ainda vejo o livro em sebos).

Meu interesse em doutrinação se esparramou para temas afins: reforma do pensamento (thought reform), reeducação, lavagem cerebral, formas não-racionais de influenciar a mente. Foi nesse época que assisti o filme Clockwork Orange (Laranja Mecânica).

Algum tempo depois fui contratado para fazer um trabalho para a Igreja da Unificação do Rev. Sun Myung Moon, que estava sendo atacada, lá fora e aqui no Brasil, por promover a lavagem cerebral dos seus membros. O meu trabalho na Educação e minha formação teológica me permitiram analisar se os procedimentos adotados pelos chamados moonies para conquistar e manter adeptos envolviam lavagem cerebral. Minha conclusão foi negativa. Exceto pela exigência de que os membros vivessem em comunidades, deixando suas famílias, os procedimentos adotados pela Igreja da Unificação me pareceram muito semelhantes a processos pelos quais eu havia passado em acampamentos religiosos quando adolescente – mormente no Acampamento Palavra da Vida (perto de Atibaia). Com o tempo, a Igreja da Unificação acabou se tornando uma igreja no mesmo plano que os Mórmons: aceitam o Velho e o Novo Testamentos, mas vão além.

Meus interesses na Educação foram se solidificando, mas, ao mesmo tempo, nunca deixei de ler e escrever sobre Filosofia Política. Em 1973, quando trabalhei por um ano no Pomona College, em Claremont, CA., tive o privilégio de ficar amigo de J. Charles King, professor de Filosofia Política, radical defensor da liberdade, interessado em Ayn Rand. (Depois de sair de Pomona Charles se tornou presidente do Liberty Fund). Um dia, enquanto almoçávamos, ele me perguntou se eu já havia lido Ayn Rand. Disse-lhe que não. Na verdade, nem sabia quem era ela. Ele me sugeriu que lesse Atlas Shrugged. Minha vida nunca mais foi a mesma, e desenvolvi, a partir daquele momento, um interesse que se tornou definitivo em Filosofia Política, em geral, nas ideias liberais e libertárias, em particular,  e, mais particularmente ainda, nas ideias de Ayn Rand.

Minhas leituras e as coisas que escrevi na área da Filosofia Política nunca se casaram, porém, com minha pesquisa sobre doutrinação e lavagem cerebral. Até agora.

Mas antes de falar nesse encaixe, uma outra coisa.

A partir de 2008 me interessei, agora por razões pessoais, pelo tema da Alienação Parental. A Alienação Parental acontece, em casos de separação de casais com crianças ou adolescentes, quando um dos genitores, em regra aquele que foi contra a separação, procura manipular o afeto dos filhos para que eles venham a deixar de amar, ou mesmo a odiar, e não tratar civilmente, o genitor que optou pelo término do casamento.

A Alienação Parental é algo tão violento que tem sido descrito por vários autores como uma tentativa de um genitor de, desejando mas não tendo coragem de assassinar o cônjuge que o abandonou, atingi-lo através do assassinato frio do amor que os filhos têm, mesmo pelo cônjuge que buscou a separação. Isso se dá, no início, através de afirmações de que a mamãe / o papai destruiu nossa família, agora tem outros interesses, abandonou vocês, etc. À medida que o processo evolui, pode-se chegar ao extremo de os filhos serem manipulados a tal ponto que afirmam não querer ver mais o outro genitor, chamar o genitor que se separou de traidor, adúltero, etc. A coisa fica feia. É como se o genitor abandonado falasse para o outro: “Você também vai ter de experimentar o que é perder o amor de alguém que lhe é importante”. Vingança, pura e simples. O cônjuge atingido inegavelmente sofre. Mas sofrem também os filhos.

Meu interesse no caso começou por uma razão prática mas logo me dei conta que estava tratando, mais uma vez, de algo muito parecido com reforma do pensamento e do afeto, lavagem cerebral, reeducação. . .

Além de tudo isso, a partir de 2009 gradualmente voltei a frequentar a igreja, que eu havia abandonado em por volta de 1970, quase quarenta anos antes. A participação na Escola Dominical reacendeu em mim o interesse na questão que era objeto de minha pesquisa de 1974-1976: pode haver uma formação religiosa genuinamente educacional, não doutrinadora, que respeita a liberdade e autonomia da criança, que não tenta impor-lhe um conjunto de crenças, valores e comportamentos, mas abre a sua mente para que ela, de um lado, entenda o fascínio que possuem para a humanidade as questões levantadas pelas religiões, mas, de outro lado, perceba que todas as respostas dadas a essas questões são, na melhor das hipóteses, incompletas, na hipótese do meio falhas, e na pior das hipóteses nocivas – e se posicione livre e autonomamente em relação à religião com pleno conhecimento de tudo isso?

Como é que todas essas questões se conectam e se amarram? Agora, parece-me, os liames estão evidentes.

Ultimamente, no Facebook, tenho me envolvido com várias discussões, especialmente com cristãos conservadores, alguns fundamentalistas, mesmo, sobre uma série de questões complicadas, muitas delas envolvendo a liberdade de expressão numa sociedade laica e pluralista, como é a brasileira.

Numa dessas discussões alguém sugeriu (mais ou menos) que o Grupo Porta dos Fundos, ao fazer seus vídeos irreverentes sobre algumas facetas do Cristianismo, teria uma agenda malévola e sinistra, qual fosse, controlar as mentes das crianças cristãs para que elas oportunamente viessem a rir de coisas sagradas e a ridicularizar a fé de seus pais, etc.  assim levando adiante a tarefa dos incréus de exterminar a religião cristã da face da Terra.

Em minha resposta sugeri que, se o problema fosse a tentativa de controlar a mente das crianças cristãs, a estratégia do Grupo Porta dos Fundos era bem menos eficaz do que a estratégia das Escolas Dominicais convencionais, etc. Tensoooo…

De repente, vi que a pesquisa de 1974-1976, a questão da doutrinação / lavagem cerebral, a acusação contra os moonies, a questão da Alienação Parental, meu interesse por uma filosofia da educação liberal, que respeita a liberdade e a autonomia da criança e do adolescente, e minha exploração da possibilidade de uma educação religiosa (ou moral, ou política) que evite a doutrinação e a lavagem cerebral, tudo isso estava relacionado.

Por isso, voltei a trabalhar no meu livro sobre o Liberalismo – mas, agora, com um foco nessas questões que podem ser classificadas e descritas como, no fundo, educacionais. A defesa da liberdade passa pelo direito de cada um, especialmente das crianças e adolescentes, de não terem sua mente controlada por vários tipos de adultos em casa, na escola dominical, na escola regular, na televisão, nos comerciais, etc.

O círculo começa a se fechar.

A questão é se eu fico dentro ou fora dele. . .

Em São Paulo, 5 de Fevereiro de 2014.

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