“O Sacerdote e o Feiticeiro”

Ontem (15/4/14) fiquei relendo os quatro livros já publicados pelo Elio Gaspari sobre a dupla Geisel-Golbery:

*  As Ilusões Armadas: A Ditadura Envergonhada (2002, 417p)

*  As Ilusões Armadas: A Ditadura Escancarada (2002, 507p)

*  O Sacerdote e o Feiticeiro: A Ditadura Derrotada (2003, 538p)

*  O Sacerdote e o Feiticeiro: A Ditadura Encurralada (2004, 525p)

Apesar de o termo “Ditadura” aparecer nos quatro volumes, Gaspari insiste que não se trata da uma “História da Ditadura Militar Brasileira”. Trata-se, isto sim, do papel da dupla Ernesto Geisel e Golbery do Couto e Silva na Ditadura Militar — na verdade, até mesmo na sua preparação.  Os dois primeiros volumes, que possuem a expressão “As Ilusões Armadas” no título discutem os governos militares até Emílio Garrastazu Médici — principal responsável por colocar fim a essas ilusões. Ao terminar o seu governo, o Médici tinha quebrado a coluna vertebral dos grupos que defendiam a luta armada. Os dois últimos volumes traçam o esforço de Geisel, com o apoio e a ajuda de Golbery, para colocar em andamento o fim da Ditadura Militar — mas de forma “lenta, gradual e segura”.

Antes de continuar, dois parênteses:

Parêntese 1: Relendo é “façon de parler”… O que fiz, a maior parte do tempo, foi leitura dinâmica ou “browsing”, só relendo mesmo, com atenção e cuidado, pedaços selecionados, especialmente aqueles que, na leitura original, eu havia sublinhado.

Parêntese 2: Sempre achei que Gaspari deveria ter achado um outro adjetivo para o título do segundo livro, para que os quatro tivessem um adjetivo com “E” qualificando “Ditadura”. Mas, provavelmente, ele não é virginiano, como eu…

Fim dos parênteses.

Li com atenção mesmo a Introdução ao primeiro volume. A obra começou como um artigo (que Gaspari esperava que viesse a ter umas 60 páginas) sobre a dupla de colegas, amigos, co-conspiradores, artífices da distensão política na fase final da Ditadura: Geisel (o “Sacerdote”) e Golbery (o “Feiticeiro”).

Gaspari ganhou até mesmo uma bolsa para escrever esse artigo nos EUA em 1984. Concluiu que o que tinha a dizer não cabia em um artigo. Pediu permissão a quem lhe deu a bolsa para que o artigo virasse um livro que, imaginava, teria umas 300 páginas. A coisa foi crescendo e o artigo virou uma coleção (ainda inacabada até hoje) de quatro livros com perto de 2.000 páginas. As datas em que foram publicados estão acima: de 2002 a 2004. Ou seja: Gaspari levou cerca de 18 anos (1984-2002) para escrever esses quatro volumes, que daí foram publicados ao longo de basicamente três anos.

O primeiro livro cobre 1964-1968, por aí, com uma boa incursão no período anterior à deflagração do Golpe Militar de 31 de Março / Primeiro de Abril de 1964: o período da derrocada do Jango. Vai até basicamente o AI-5, baixado em 13/12/1968. Cobre, portanto, o final do governo Goulart (quando as diversas conspirações corriam soltas), o governo Castello Branco e o Governo Costa e Silva (que era detestado por Geisel e Golbery).

O segundo livro cobre 1969-1973, por aí: o período da Junta Militar e do Garrastazu Médici. Com esse livro se chega a Geisel.

O terceiro livro cobre basicamente 1973: as tratativas do Geisel “ungido”, sempre com a colaboração de Golbery, para conter os radicais que se opunham a eles e obter apoio de segmentos importantes, como a Igreja Católica. (Mais sobre a relação com a Igreja Católica abaixo, mas basta dizer aqui que, na posse do Geisel, os cinco cardeais que o Brasil possuía estiveram presentes, até Dom Paulo Evaristo Arns – obra do Golbery). Mas o livro de certo modo recapitula, de forma meio telegráfica, a atuação militar e política da dupla Geisel e Golbery, desde os primórdios. A amizade dos dois remonta aos bancos escolares.

O quarto volume cobre basicamente os primeiros  três quartos do governo Geisel, de sua posse, em Março de 1974, até Outubro de 1977, quando ele demitiu o Ministro do Exército linha-dura, defensor dos torturadores e assassinos, que estava planejando um golpe contra Geisel: o General Sylvio Frota.

Na ocasião da publicação do primeiro volume (2002) Gaspari informou que os quatro volumes estavam prontos, e que seriam publicados em sequência rápida, mas que iria escrever mais um volume, o quinto, cobrindo o último quarto do governo Geisel, depois da demissão de Frota (Outubro de 1977 até Março de 1979, quando transmitiu o governo a Figueiredo). No governo Figueiredo ele não tinha nenhum interesse, afirmou. (Curiosa, essa frase, não?)

Estamos todos ainda esperando esse quinto volume – se é que vai ser só um, ou se é que será algum… Chequei no Google e há boatos de que ele possa vir à luz em 2014 – dez anos depois do quarto volume. Mas há quem diga que só em 2015. E há mesmo os que acham que ele pode nunca publicar esse último volume, embora certamente o esteja escrevendo.

O que mais me chamou a atenção ao reler a obra foi o seguinte. . . Elio Gaspari, como ele mesmo diz na Introdução ao primeiro volume, foi comunista, membro de carteirinha do PCB, o pecezão. No entanto, ficou próximo, depois de que saíram do governo, de Geisel, Golbery e Heitor Aquino Ferreira (que, entre outras funções, foi secretário pessoal dos dois primeiros, e que manteve um diário que, segundo Gaspari, impresso chegaria a umas 1500 páginas). Golbery deu a Gaspari, para uso na elaboração de seu opus magnum, as 25 caixas de documentos que tinha. Relutou, mas quando percebeu que elas estavam ficando emboloradas em seu sítio perto de Brasília, cedeu. Geisel também deu a ele (via sua filha) cópias das doze fitas que continham mais de 30 encontros de uma hora e meia de depoimentos gravados por Geisel — depoimentos feitos a Gaspari. E deu outros documentos, além de conversar com ele pessoalmente várias vezes. Heitor Aquino deu a Gaspari cópias de partes do diário e deixou que ele visse/lesse outras partes. Gaspari diz que esse diário é o relato mais fascinante da “história privada” vivida por participantes do governo militar que jamais se escreveu (e que está esperando publicação, se é que vai ser publicada). Heitor Aquino e Élio Gaspari ficaram grandes amigos — uma amizade que já dura bem mais de 30 anos — talvez mais de 40.

Acho isso tudo muito fascinante.

O relato dos quatro livros não deixa de colocar Geisel e Golbery debaixo de uma luz relativamente favorável e mesmo simpática – embora não esconda os seus “malfeitos” (como gosta de dizer a ANTA). Mas esses malfeitos aparecem mais como coisas que deveriam ter feito e não fizeram, ou coisas que deveriam ter feito antes e só quiseram / conseguiram fazer depois — como demitir o detestável Frota.

Geisel é chamado de “O Sacerdote”, sem dúvida, porque era de família protestante e tinha uma postura que pontificava, parecendo muito mais alto do que seus 1m78. Segundo Gaspari, porém, seu vínculo religioso era apenas cultural. Golbery é chamado de “O Feiticeiro” porque era considerado, pelos outros e provavelmente por si próprio, como um bruxo, o grande bolador de grandes esquemas. Glauber Rocha o chamou de um “gênio da raça”.

O curioso é que, num determinado momento, em que Geisel era presidente e seu irmão, o general Orlando Geisel, um influente membro do Estado Maior das Forças Armadas (EMFA), houve negociações entre os militares, representados pelos dois irmãos, e os cardeais Aloysio Lorscheider e Ivo Lorscheiter, repectivamente presidente e secretário geral da Conferência Nacional dos Bispos Brasileiros (CNBB) – que representavam a Igreja Católica, naquele momento a maior força da oposição, de a voz mais alta a denunciar as torturas, os desaparecimentos, os assassinatos sumários.

Naquele momento, o destino do Brasil estava, ali, sendo decidido, em um “summit” curioso, por quatro gaúchos, parentes dois-a-dois, descendentes de colonos alemães pobres, que fizeram carreira naquelas que eram, provavelmente, as duas únicas instituições capazes de possibilitar que meninos pobres, mas talentosos, viessem, anos depois, a estar entre as personalidades mais importantes da vida do país: o Exército e a Igreja.

Duas notas finais:

Primeira Nota (de um virginiano): no livro, o sobrenome de Dom Aloysio é grafado LorscheiDer e o de Dom Ivo, LorcheiTer. Dificilmente é descuido. Mas, não sendo, merecia uma explicaçãozinha nas notas de rodapé. Ou, quem sabe, a explicação foi dada e eu não a vi.

Segunda Nota: Os quatro livros do Elio Gaspari foram reeditados em papel este ano (2014) em decorrência dos 50 anos do Golpe Militar e estão também distribuídos em e-book pela Amazon Brazil pela bagatela de R$ 8,91 cada volume. Cada volume sai mais barato que uma edição da VEJA — ou um cone de sorvete da Parmalat. Do primeiro volume do e-book saiu uma versão “enhanced”, que, além do texto e das fotos, contém conteúdos multimídia (clips de áudio e de vídeo). Custa cerca do dobro, talvez 1 real a mais. É de imaginar que os outros volumes também venham a receber, “in due time”, suas versões enriquecidas por conteúdos multimídia. Mas, na minha opinião, a versão e-book simples, por menos de 9 reais, está de graça: 4 dólares por volumes.

Em Salto, 16 de Abril de 2014

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