Vícios Privados e Virtudes Públicas

Meu último artigo aqui neste blog teve como título “Pessimismo vs Otimismo: O Pecado Original vs a Perfectibilidade Humana“. Vou continuar a comentar o tema.

Vimos hoje, ao vivo e em cores, o PMDB abandonar a base aliada em uma reunião de três minutos, sem a menor cerimônia. Os jornais informam que o PP fará o mesmo, provavelmente amanhã, tendo 30 dos 49 membros de sua base congressual já se manifestado nesse sentido.

Diante desse quadro, vi amigos meus se manifestarem dizendo, com pesar, que essa decisão de abandonar o governo no momento presente não se dá, na maioria dos casos, “por virtude” — dando-se por interesse.

Por isso resolvi voltar à carga retomando o tema do último artigo que publiquei aqui.

A grande lição de economia política de Adam Smith é a seguinte: a natureza humana é um desastre (neste aspecto Smith era um verdadeiro herdeiro de seus antepassados e contemporâneos calvinistas). Para ele, ao construir sua filosofia política, se formos esperar que as pessoas se transformem e passem a agir com motivos elevados (o “novo homem” dos socialistas, que pensa primeiro no “bem comum”, deixando seus interesses pessoais de lado), nada conseguiremos realizar, seja na política, seja na economia. Temos, isto sim, segundo Smith, de encontrar mecanismos e incentivos para conseguir que as pessoas façam a coisa certa ainda que a partir de motivos pouco recomendáveis.

O liberalismo clássico é um sistema realista. Trabalha a partir do que temos, não a partir do que gostaríamos de ter. Mas consegue que a coisa certa seja feita, a partir de motivos até inconfessáveis. Ele transforma, como disse Bernard de Mandeville, vícios privados em virtudes públicas. É isso que estamos vendo agora: virtudes públicas (fazer a coisa certa), ainda que por motivos viciados (interesses pessoais muitas vezes inconfessáveis).

Quem quer converter os outros e transforma-los em santos altruístas e igualitários é o socialismo. O liberalismo clássico — e o presbiterianismo calvinista, do qual deriva — não acreditam na perfectibilidade humana. Trabalham em cima do “eu venho como estou” – ou do “eu tento fazer o melhor com aquilo que tenho”.

Em São Paulo, 29 de Março de 2018.

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