Como um século faz diferença. . . ou não!

Dei-me conta no último fim de semana (que, para nós, aqui em Salto, inclui a segunda-feira, no caso ontem, 25/4/2016) como um século faz diferença – embora seja relativamente pouco tempo (quando comparado com a história do Cristianismo, um século é apenas 1/20; se comparado com a eternidade, então…). No meu caso, por exemplo, só me faltam meros 27 anos para completar um século – se é que eu chego lá (tenho sérias dúvidas).

Comecei a refletir sobre essas coisas ao ler um livro (que não acabei ainda, mas acabarei logo, por ser uma delícia sua leitura) chamado Crowns in Conflict: The Triumph and the Tragedy of European Monarchy – 1910/1918, de Theo Aronson.

É um livro mais de biografia do que de história – embora trate de história também. Na verdade, biografia é história, não é verdade? História com foco numa vida individual – ou num conjunto delas, como no caso desse livro.

Cem anos atrás, em 1916, o mundo (principalmente a Europa) estava no meio a sua primeira guerra mundial, iniciada em 1914.

Cem anos atrás, em 1916, a Revolução Comunista na Rússia não tinha ainda acontecido, e a Rússia era governada pelos czares Nicolau e Alexandre, com a ajuda (? se aquilo foi ajuda…) do sinistro Rasputin. A Revolução Comunista deflagrada dezoito meses depois de Abril de 1916 não durou nem sequer um século – na verdade, nem ¾ de século. Vamos ver como nossos comunistinhas tupiniquins comemoram a Revolução Russa no ano que vem.

Na verdade, em 1910, cento e seis anos anos atrás, uma das datas foco do livro, de todos os principais países europeus apenas a Suíça e a França não eram governadas por cabeças coroadas. Devemos dar um certo crédito também a Portugal, que, nessa época, em 1910, estava tentando derrubar a sua cabeça coroada para implantar um governo republicano, em meio a inúmeros golpes de estado. (Nessa área, de implantação do republicanismo, ganhamos deles por cerca de vinte anos. Não sei se o ganho, no caso, foi progresso, como se verá adiante. Quanto a golpes de estado, creio que eles têm mais do que nós – mesmo contando o que o PT acredita estar em curso no momento).

Fiz, com a ajuda do livro e da Wikipedia, uma lista das cabeças coroadas da Europa em 1910 (por aí), dando as datas do monarca que governava então (monarca = rei, imperador, kaiser, czar, sultão, etc.). Coloco os países na ordem que considero mais adequada à realidade (sem defender essa ordem — embora abaixo fique claro por que coloco a Grã-Bretanha em primeiro lugar):

Grã-Bretanha: Rei Edward VII (1901-1910) e Rei George V (1910-1936)

Alemanha (incluindo a Prússia): Kaiser / Imperador Wilhelm II (1888-1918)

Áustria / Hungria: Imperador Franz Joseph (1848-1916) [o marido da Sissi]

Rússia: Czar Nicholas II (1894-1917)

Itália: Rei Victor Manoel III (1900-1946)

Bélgica: Rei Albert I (1909-1934)

Holanda: Rainha Wilhelmina (1890-1948)

Espanha: Rei Alfonso XIII (1886-1931)

Portugal: Rei Manuel II (1908-1910) [1910: República]

Grécia: Rei George I (1863-1913) e Rei Constantino I (1913-1917)

Sérbia: Rei Peter I (1903-1921) [quiseram copiar a gente…]

Bulgária: Czar Ferdinand I (1887-1918)

România: Rei Carol I (1866-1914)

Turquia: Sultan Mehmed V (1909-1918)

Noruega: Rei Hackon VII (1905-1957)

Suécia: Rei Gustav V (1907-1950)

Dinamarca: Rei Frederick VIII (1906-1912) e Rei Christian X (1912-1947)

Deixei os principados e assemelhados de fora (Mônaco, Liechtenstein, Luxemburgo, San Marino, Montenegro, etc.) bem como alguns outros países que não me pareceram tão centrais.

O ponto de partida do livro de Theo Aronson é 1910, ano em que o Rei Edward VII, da Inglaterra, morreu. Ele, filho da Rainha Victoria, e pai de George V, que o sucedeu, era avô ou tio de boa parte desses outros monarcas – quase todos os monarcas europeus eram aparentados com a Rainha Victoria, que reinou de 1837 a 1901 (64 anos, só menos do que a atual rainha), e teve nove filhos, que se casaram, sem exceção, com realezas (em geral príncipes e princesas). Por isso, com o tempo, quase todo rei, rainha, príncipe, princesa, ou qualquer outra pessoa com outro título de nobreza na Europa era descendente da Rainha Victoria. (Theo Aronson tem outro livro sobre este tema: The Grandmama of Europa: The Crowned Descendants of Queen Victoria. A vida amorosa da Rainha Victoria foi muito, digamos, rica. Mesmo que nem todos os seus seis grandes amores, um dos quais foi seu marido e pai de seus nove filhos, tenham sido “carnais”, no fizer de Aronson, eles foram paixões. Vide, todos de Theo Aronson: Heart of a Queen: Queen Victoria’s Romantic AttachmentsQueen Victoria and the BonapartesVictoria & Israeli.)

Wilhelm II, da Alemanha, e Albert I, da Bélgica, eram netos de Edward VII (e bisnetos da Rainha Victoria). A atual rainha Elizabeth II da Inglaterra, é bisneta de Edward VII (filha de George VI, que era filho de George V, e, portanto, neto de Edward VII) e, por conseguinte, trisneta (caso o termo exista) da Rainha Victoria. A rainha Alexandra, mulher de Edward VII, era tia do Czar Nicholas II, da Rússia. O casal Nicholas II e Alexandra, da Rússia, era relacionado em parentesco com a família real da Grã-Bretanha tanto pelo lado de Nicholas como pelo lado de Alexandra – e, através dela, com as famílias reais do resto da Europa. (A vida amorosa de Edward VII foi meio conturbada. (Theo Aronson tem ainda outro livro de interesse no contexto: The King in Love: Edward VII’s Mistresses.)

Vou transcrever parte de um artigo da Wikipedia (Nicholas II of Russia) em que se discutem alguns dos parentescos do czar, só para dar uma ideia. Infelizmente o texto está em Inglês:

“Nicholas was born in Alexander Palace, Saint Petersburg, Russian Empire, the eldest son of Emperor Alexander III and Empress Maria Feodorovna of Russia (formerly Princess Dagmar of Denmark). He had five younger siblings: Alexander (1869–1870), George (1871–1899), Xenia (1875–1960), Michael (1878–1918) and Olga (1882–1960). Nicholas often referred to his father nostalgically in letters after Alexander’s death in 1894. He was also very close to his mother, as revealed in their published letters to each other. His paternal grandparents were Emperor Alexander II and Empress Maria Alexandrovna of Russia (born Princess Marie of Hesse and by Rhine). His maternal grandparents were King Christian IX and Queen Louise of Denmark. Nicholas was of primarily German, as well as Danish, descent. His last ethnically Russian ancestor was Peter the Great. Nicholas was related to several monarchs in Europe. His mother’s siblings included Kings Frederik VIII of Denmark and George I of Greece, as well as the United Kingdom’s Queen Alexandra (consort of King Edward VII). Nicholas, his wife Alexandra, and Kaiser Wilhelm II of Germany were all first cousins of King George V of the United Kingdom. Nicholas was also a first cousin of both King Haakon VII and Queen Maud of Norway, as well as King Constantine I of Greece. Nicholas and Wilhelm II were in turn second cousins once removed, as each descended from King Frederick William III of Prussia, as well as third cousins, as they were both great-great-grandsons of Tsar Paul I of Russia. In addition to being second cousins through descent from Louis II, Grand Duke of Hesse and by Rhine and his wife Wilhelmine of Baden, Nicholas and Alexandra were also third cousins once removed, as they were both descendants of King Frederick William II of Prussia.”

Mas voltemos ao nosso assunto: Um pouco mais de cem anos atrás (cento e seis, para ser preciso) o “default” (pelo menos na Europa) era ser governado por uma cabeça coroada. A Primeira Guerra Mundial acabou com várias monarquias e impérios – mas o digno de nota é que tantos tenham ficado, dos quais a mais importante é a Grã-Bretanha, cuja rainha, aquela cujo reino tem a maior duração de toda a história da Inglaterra, é ainda um símbolo de continuidade e estabilidade – sem falar que é objeto de quase veneração por boa parte de seus súditos. Ela está no trono desde 6 de Fevereiro de 1952 – eu tinha oito anos quando ela foi coroada. Desde então nós tivemos o Getúlio (pela segunda vez), o Juscelino, o Jânio, o Jango, o Castello Branco, o Costa e Silva, a Junta Militar Provisória, o Garrastazu Médici, o Geisel, o Figueiredo, o Collor, o Itamar, o FHC (duas vezes), o Lula (duas vezes), a Dilma (uma vez e um pouquinho) – e estamos preparando para o Temer. Isto sem falar nos intermediários, Café Filho, Nereu Ramos, Carlos Luz… Durante esse período tivemos uma República Presidencialista, uma República Parlamentarista, uma Ditadura Militar, outra República (supostamente nova)… Tivemos o impeachment do Collor e estamos com o impeachment da Dilma em curso.

Às vezes, mudança, até mesmo muita mudança, não vem acompanhada de inovação e progresso – pelo contrário: a gente muda e a coisa fica pior. Tenho a nítida impressão de que, se somarmos todos os nossos presidentes, desde a Proclamação da República, o total não tem, em termos de cultura, valores, caráter, sensibilidade política, uma parcela do valor que tinha Dom Pedro II – ou que tem a atual Rainha da Inglaterra.

Karl Raymund Popper, em minha opinião o maior filósofo do Século 20, que era austríaco de nascimento, mas britânico de coração e por adoção, disse, em A Sociedade Aberta e seus Inimigos, que o que caracteriza a democracia não é, de modo algum, um sistema (o voto universal), porque, através do voto, podemos eleger um tirano, como a Alemanha fez, no caso do Hitler, um irresponsável ou um incompetente, como o Brasil fez, no caso do Lula e da Dilma. O que caracteriza a democracia, diz Popper, é a existência de mecanismos que permitem que detectemos com rapidez quando cometemos um erro na escolha dos governantes (por qualquer método, direto ou indireto) e que permitem que nos livremos dele também com rapidez e de forma indolor e não traumática. Para Popper – e eu concordo com ele – uma Monarquia Constitucional e Parlamentar como a britânica é o sistema político mais próximo do ideal. Não há impeachment: há o voto de não-confiança, que força uma nova eleição dentro de pouco tempo. A troca de governo, mesmo que ele tenha sido eleito um ano antes, não é traumática porque: (a) é parte da regra do jogo: o Primeiro Ministro não tem mandato, só ficando no governo enquanto goza da confiança da maioria do eleitorado; e (b) a monarquia garante a estabilidade e uma boa medida de continuidade.

Por isso, anos atrás (21/04/1993), quando houve um plebiscito aqui no Brasil sobre a regime e o sistema de governo, indagou-se dos eleitores qual regime político preferíamos (república ou monarquia) e qual sistema político (parlamentarismo ou presidencialismo). É interessante ler o seguinte artigo da Wikipedia e ali ver os resultados da votação:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Plebiscito_sobre_a_forma_e_o_sistema_de_governo_do_Brasil_(1993).

Eu votei pela monarquia e pelo parlamentarismo. Perdi nos dois itens. Ganhou a república presidencialista. Mas continuo achando que eu estava certo. Num plebiscito democrático a maioria leva – mas isso não quer dizer que esteja certa.

Há um ano e meio atrás a Dilma ganhou a eleição mais ou menos democrática (hoje sabemos que ela mentiu, caluniou seus adversários, usou dinheiro ilegal, fez o Diabo – até fraude pode ter havido). Deu no que deu.

Se fôssemos um sistema parlamentarista, a Dilma já estaria recolhendo seu seguro desemprego há pelo menos seis meses e o seu patrono já estaria mofando na cadeia, para onde ela também deve ir, depois de passado o trauma do impeachment.

A gente teria ganho pelo menos um ano na vida do país. Muita gente não teria perdido o emprego. Muita empresa não teria quebrada. E muita gente não precisaria, agora, fazer lavagem auricular depois de ouvir tanta besteira.

NOTA 1: Todos os livros de Theo Aronson mencionados estão disponíveis em formato e-book, formato Kindle, na Amazon, por preço ao redor de 4 a 6 dólares americanos. Cada um deles tem um número de página que vai de 350 a 600, por aí. Os interessados, como eu sou, na história da Europa, em especial na história das casas reais e das dinastias da Grã-Bretanha, têm aí, por cerca de 30 dólares (6 livros de +/- 5,00), uma mina de informações, em mais de duas mil páginas.

NOTA 2: Fiquei em dúvida se usava o termo “czar” ou “tsar”. Fui verificar e descobri que há disputa. Optei pelo termo “czar” com base neste artigo:

“Czar (tsar em russo) significa “imperador“. Foi o título utilizado pelos soberanos russos, no período de duração do Império Russo, entre 1547 e 1917. . . . O feminino de czar é czarina (“tsaritsa” em russo), sendo que o filho de um czar é designado por “tsarevitch” e a filha por “tsarevna.”

(http://www.significados.com.br/czar/)

Em Salto, 26 de Abril de 2016.

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