Valsinha

Um dia ele chegou tão diferente
do seu jeito de sempre chegar,
Olhou-a de um jeito muito mais quente
do que sempre costumava olhar,
E não maldisse a vida tanto
quanto era seu jeito de sempre falar,
E nem deixou-a só num canto,
pra seu grande espanto, convidou-a pra rodar…

E então ela se fez bonita
como há muito tempo não queria ousar,
Com seu vestido decotado
cheirando a guardado de tanto esperar,
Depois os dois deram-se os braços
como há muito tempo não se usava dar,
E, cheios de ternura e graça,
foram para a praça e começaram a se abraçar.

E ali dançaram tanta dança
que a vizinhança toda despertou,
E foi tanta felicidade
que toda cidade se iluminou,
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos
como não se ouvia mais,
Que o mundo compreendeu,
e o dia amanheceu em paz…

Esta magnífica canção de Chico Buarque e Vinícius de Morais vai ficar, por enquanto, como tema musical deste space.

Em São Paulo, sábado, 13 de Setembro de 2008

65 anos

No último domingo completei – e celebrei, em círculo limitado – 65 anos.

O Rubem Alves, que vai completar 75 em poucos dias disse, numa crônica a respeito (ainda não publicada), que essas idades não se celebram – lamentam-se. Discordo dele. Embora tenha uma série de coisas a lamentar, tenho bastante a celebrar.

Em 2003 fiz meu aniversário de 60 anos – e celebrei-o – em Salzburg, terra de Mozart, hospedado no Leopoldskron – um castelo do século XVII.

O ano passado fiz meu aniversário de 64 anos voando sobre o  Pacífico, de Tóquio para os Estados Unidos. Não tive como celebrá-lo, a não ser escrevendo sobre a data. O dia 7 de Setembro de 2007 durou, para mim, 36 horas, por causa dos fusos horários.

Este ano o aniversário durou apenas as 24 horas regulares, mas elas foram bem vividas. Ele foi passado, também, em parte, viajando – mas de carro e em boa companhia. Estivemos de manhã em São José dos Campos, depois em Campos do Jordão, e, à noitinha, de novo em São José dos Campos, de onde voltamos para São Paulo.

Estou passando por uma série de turbulências em minha vida pessoal, mas o dia do aniversário foi tranqüilo e feliz, passado com quem eu escolhi e queria passá-lo. Ganhei até um bolinho na hora do almoço…

Hoje é 11 de Setembro – dia do atentado terrorista às torres gêmeas do World Trade Center em Nova York – e dia do aniversário de minha – nossa – amiga Mary Grace Martins. Parabéns, Mary. Vamos jantar com ela.

Esta é a primeira mensagem que escrevo de São Paulo, cidade em que já trabalho há tempo e em que devo, doravante, também morar.

Em São Paulo, 11 de Setembro de 2008

Vidas

Houve época em que a duração média de uma vida era pequena. As pessoas viviam por volta de trinta anos. Casavam-se assim que a biologia permitia, tinham seus filhos cedo (um monte!), e morriam também cedo (em relação a hoje).

Os poetas românticos brasileiros morreram extremamente jovens: Laurindo Rabelo, o que mais durou, morreu com 38 anos (1826-1864); Álvares de Azevedo, com 20 anos (1831-1852); Junqueira Freire, com 22 (1832-1855); Casimiro de Abreu, com 21 (1839-1860); Fagundes Varella, com 33 (1841-1875); Castro Alves, com 24 (1847-1871)… [Dados retirados da Wikipedia.] Nenhum destes chegou as quarenta anos e alguns morreram quando mal haviam entrado nos vinte.

São chamados de “poetas românticos brasileiros”. Lendo sua obra, tem-se a impressão de que amaram muito – mas fica a pergunta: Quando??? A vida lhes foi tão curta!!! Quando eu hoje olho para uma pessoa de vinte anos, não imagino que possa ter vivido intensamente…

A expectativa de vida de uma pessoa que nasce hoje no Brasil chega aos setenta anos – mas isso é uma média. Provavelmente muitos dos que hoje são jovens passarão dos 120 anos, e os que hoje são crianças passarão dos 150 — tal é o desenvolvimento da ciência e da tecnologia.

Isso significa que quem morre, hoje, aos 85 anos, como Olavo Setúbal, já viveu mais do que quatro vidas de Álvares de Azevedo ou Casimiro de Abreu. Na verdade, Olavo Setúbal, com seus 85 anos ao morrer, viveu basicamente a soma das vidas de Álvares de Azevedo (20), Junqueira Freire (22), Casimiro de Abreu (21) e Castro Alves (24). Quatro vidas em uma. Deixando o amor ao dinheiro de fora, será que Olavo Setúbal amou tanto quanto apenas um deles???

Nossos filhos e netos hoje com dez anos, por aí, viverão quantas vidas de Álvares de Azevedo? Seis? Talvez sete? Amarão quantas vezes? Apaixonar-se-ão quantas? Irão se casar? Em caso positivo, quantas vezes? Mas será que esse modelo de casamento que temos sobreviverá diante de vidas tão longevas?

Há religiões que acreditam em reincarnação. O mais provável, porém, é que, com vidas tão prolongadas, a gente vá se reencarnar em si próprio e viver várias vidas num só corpo (se é que se pode dizer que o corpo aos 65 anos seja o mesmo corpo do adolescente, do jovem de 18, do ainda jovem de 30…).

Mesmo hoje, quando a vida ainda não é tão duradoura quanto será no futuro, já é difícil reconhecer em nós, hoje, a mesma pessoa que éramos quando tínhamos 13, 20, 35 anos… O que é que nos mantém os mesmos??? As células do corpo que tínhamos quando entramos na puberdade certamente já foram todas substituídas. O que é que nos permite dizer que o nosso corpo, hoje, maltratado e envelhecido, é o mesmo corpo daquele adolescente de carne firme de 15 anos?

Seria o fato de que aquele corpo é habitado pela mesma mente? Mas e a mente — não muda??? A minha mente hoje, aos 65 anos, é a mesma mente do adolescente bobão de 12 anos que eu era quando entrei no Ginásio em 1956? Dificilmente. Talvez minha mente, durante esse período, tenha mudado ainda mais do que o meu corpo…

John Locke, o maior filósofo do século XVII (na minha opinião), sugeriu que o que ancora a identidade pessoal é a memória. Eu, hoje, sou o mesmo menino de oito anos que se mudou de Maringá para Santo André em 1951 porque eu me lembro da mudança… E me lembro do meu primeiro amor (será legítimo usar o mesmo nome?), a Eladir Pereira, também de nove anos, como eu, à época… Eu me lembro de quando entrei no Ginásio em 1956, de quando entrei no Clássico, em 1961, de quando me apaixonei pela Reacy Camargo naquele mesmo ano no JMC… (Fiquem tranquilos: paro por aqui).

Mas nós, hoje, sabemos que a memória “plays tricks”, como dizem os anglófanos – nos pega peças, como diríamos nós no nosso tupiniquinês. Esquecêmo-nos de coisas que aconteceram (reprimimos algumas memórias que não causam dor, ou simplesmente esquecemos outras que não tiveram tanto significado), inventamos acontecimentos que não se deram (porque eles enriquecem nossa história de vida), embelezamos outros…

Enfim… Quantas vidas eu já vivi nesses 65 anos que vou completar em poucos dias? Vivi uma vida de criança, outra de adolescente, outra de jovem, outra de jovem adulto… Quantas outras? Restam-me ainda vidas para viver?

A gente em geral admira quem é capaz de viver uma só vida em vários anos. Um casal de noventa e poucos anos que celebra setenta cinco anos de casado (um com o outro!) é notícia suficiente para o Fantástico. Mas será que viver uma só vida em tantos anos é mérito ou demérito??? Quantas vidas terá vivido Castro Alves em seus vinte e quatro anos? Aos vinte e quatro anos eu estava me casando pela primeira vez, começando o que era (no mínimo) minha segunda vida – e Castro Alves estava terminando a única que teve… Ou será que Castro Alves teve apenas uma vida em seus 24 anos??? Se o Coronel Slade (Al Pacino, em Perfume de Mulher) está certo, quando afirma que se pode viver uma vida num minuto, é possível que Castro Alves tenha vivido centenas, milhares mesmo, de vidas nos seus curtos 24 anos…

É possível viver vidas puramente virtuais? Vidas que não são vividas no espaço-tempo, mas, sim, numa dimensão puramente mental, inventada ou preservada pela pessoa, em que as coisas acontecem conforme a sua vontade e não conforme as regras da interação humana na realidade não-mental, não-inventada?

E o que acontece quando deixamos a vida virtual irromper na vida real e gerar, nesta, fatos e consequências que não podemos mais controlar totalmente? 

E vidas vicárias? Há muitas mães cujas vidas são vicárias, i.e., consistem em viver a vida de seus filhos… Na verdade, pior ainda, há muitas mulheres cujas vida consistem em viver a vida de seus maridos… Em nenhum caso têm vida própria. Vivem a vida de outrem. Se essa vida lhes é subtraída, acaba também a sua…

Há inúmeros casos, entre os quais o dos meus avós maternos, em que as identidades de duas pessoas se mesclam de tal maneira que, quando uma morre, a outra morre em seguida… Pergunta importante: Isso é para ser celebrado ou lastimado???

E olhem que estou me limitando a discorrer, por assim dizer, sobre este lado da eternidade… Se houver uma vida futura, quem amou várias vezes aqui, serial ou paralelamente, vai amar quem na vida eterna futura? (A questão já foi levantada nos Evangelhos…)

Vidas. O que dá sentido à vida é o fato de que ela não é eterna, é mortal. Já escrevi sobre isso e vou escrever mais ainda. Preciso achar uma passagem linda de Popper sobre o assunto…

E quanto mais próxima do fim a vida está, mais sentido ela adquire. Ou mais pressionados ficamos para dar-lhe sentido…

Em Campinas, 30 de Agosto de 2008

NOTA acrescentada em 6 de Abril de 2017:

No dia seguinte ao dia 30 de Agosto de 2008, em que escrevi este artigo, parti de viagem para os EUA, a trabalho. Uma viagem de cinco dias, na Microsoft, em Redmond, WA. Saí de lá  no dia 5 de Setembro, e cheguei de volta ao Brasil no dia seguinte, 6 de Setembro. Nesse mesmo dia, véspera do meu aniversário de 65 anos, tomei uma decisão radical: sem voltar para a casa em que eu até ali havia vivido por cerca de 24 anos, comecei uma vida nova, em uma nova casa, em uma nova cidade, que este ano completará nove anos: a minha vida com a Paloma, minha mulher amada. Essa vida (de que número?) tem sido de longe a melhor das que eu já tive. Deus ajude a que continue assim.

EC

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Aos que deixam mensagens neste space

Em Dezembro deste ano fará quatro anos que mantenho este space. Já tinha um blog, antes, no Blogspot. Mas este space é mais do que simplesmente um blog. Permite-me compartilhar albuns de fotografias, listas de filmes e músicas preferidos, e, além do mais, receber comentários nos posts, nas fotos, e no próprio space – além, naturalmente, de manter uma lista de amigos (dos quais tenho mais de 400 aqui – quase quatro vezes mais dos que tenho no Orkut.

Criei este space em Dezembro de 2004 por sugestão de minha amiga Marcia Teixeira, da Microsoft – quando eu estava em Redmond, WA, na companhia de outra amiga, Ana Ralson, também da Microsoft.

O tempo passa rápido. Nesses quase quatro anos muita coisa aconteceu na minha vida. Não tenho idéia de quantos posts já escrevi aqui, nem de quantas fotos compartilhei. E não tenho paciência de contar.

Este post é dirigido aos que visitaram este space com certa regularidade durante esse período e tiveram a paciência de ler o que escrevi, ver as fotos que compartilhei, analisar as minhas sugestões de livros, músicas e filmes. Dentre eles, é dirigido especialmente aos que, tendo visitado o space, tomaram tempo para deixar uma mensagem de incentivo e elogio – por menor que fosse.

Quero agradecer as visitas de vocês.

Quando comecei a escrever, escrevia mais para mim mesmo, para permanentizar (se me permitem o neologismo) experiências que, doutra forma, poderiam se tornar voláteis, fugindo com o passar do tempo. Ou para registrar pensamentos e idéias sobre assuntos diversos, que, não registrados, poderiam ser rapidamente esquecidos.

Apesar de ter formação em filosofia, não sou especialista em nada. Interesso-me por tudo. Sou um generalista típico. Concordo com Terêncio, quando disse nihil humanum a me alienum puto: nada que é humano me é alheio. Aprecio mais, naturalmente, os aspectos mais elevados, heróicos mesmo, do ser humano. Emociono-me quando o ser humano é capaz de se transcender, de revelar o seu lado melhor, como Maurren Maggi fez ontem e as meninas do vôlei fizeram hoje cedo. Mas deliberadamente tento não ignorar os demais aspectos do ser humano, mesmo aqueles que freqüentemente me desgostam ou mesmo revoltam. Não os ignoro porque sei que, em determinadas circunstâncias, seria capaz de matar – na verdade, imagino situações em que seria capaz de matar sem guardar nenhum remorso. E sei que, se sou capaz de matar sem remorso, se as circunstâncias forem certas, também sou capaz de fazer outras coisas que considero erradas, sem sentir qualquer arrependimento. Assim sendo, tento nunca me esquecer do fato de que nós, humanos, somos seres complicados, muitas vezes contraditórios, que temos dificuldade em nos manter fiéis a nossos valores e ideais.

Sigo, enfim, a sugestão de Karl Popper de que a especialização pode ser um pecado venial no cientista, mas, no filósofo, é um pecado mortal. E a sugestão de David Hume, de que, antes de sermos filósofos, sejamos homens.

Comecei escrevendo para mim mesmo mas, aos poucos, ao receber feedback, comecei a escrever pensando em quem lia. Os posts, com o passar do tempo, deixaram de ser apenas para mim. Passaram, pouco a pouco, a ser destinados a um público maior, muitas vezes indefinido e difuso, mas que começava a se caracterizar como um público meu, fiel (embora certamente não exclusivo) e constante em suas visitas a este space, e cujos comentários comecei a esperar até com ansiedade.

Vezes houve, admito, em que escrevi pensando em leitores específicos – mas sabedor de que o que escrevia iria alcançar um público maior, pois a natureza humana nos permite apreciar, como se dirigido a nós, até aquilo que foi destinado a outrem.

Sou extremamente grato pelos comentários – o mais das vezes gentis, elogiosos, críticos, amigos. Sou grato até pelos comentários abusados de alguns professores e alunos de pós-graduação da UNICAMP, devotos de Karl Marx – comentários que deixei intactos no local, embora todos eles fossem basicamente idênticos, ritualmente repetidos, como se seguissem uma cola. Os demais comentários foram feitos sobre o space como um todo, sobre posts no blog, sobre fotos nos albuns. Alguns vieram do distante Portugal, inclusive da minha cidade de Chaves, no Trás-os-Montes, onde fiz amigos virtuais através deste space. Estou ficando dependente desse feedback. Ele me estimula e desafia. Ele me anima a continuar escrevendo mesmo quando, não fosse ele, preferiria me isolar um pouco, recolhendo-me a mim mesmo (como o fiz recentemente durante cerca de um mês).

Muito obrigado. Um abraço. Voltem sempre.

Em Salto, domingo, 24 de Agosto de 2008

O Canto da Coruja

 

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Meu sítio se chama "O Canto da Coruja". Comprei-o em Setembro de 2001. Fará sete anos em poucos dias que o tenho.

Quando o comprei, chamava-se "São Benedito". Decidi na hora que, se o comprasse, iria mudar o nome, mas não tinha um nome escolhido ainda. Mas ao sair de lá no primeiro dia que estive lá, para conhecer a propriedade, vi duas lindas corujas sentadas em mourões da cerca de arame farpado. Decidi na hora que o nome do sítio, caso eu o comprasse, teria que ver com corujas…

Já fazia um bom tempo que eu colecionava corujas. Não sei exatamente porque comecei a colecioná-las. Talvez porque sejam símbolos de seres acadêmicos como eu.

Da segunda vez que fui ao sítio as corujas estavam de novo lá — e cantaram, quando passei perto delas. Um canto curto e meio assustado, antes de voarem, ariscas. Decidi o nome na hora: "O Canto da Coruja" — mantendo a ambigüidade: o canto, no caso, é a voz das corujas — mas é também a casa delas. A casa nossa.

Dia 15 de agosto, quando estava aqui, à noite, uma coruja caiu pela chaminé da lareira e ficou presa embaixo, pela tela. Com cuidado, abaixei a tela e ela voou – e foi para o mezanino. Peguei a câmera e fui lá — onde tirei essa linda foto.

Depois, abri todas as janelas, que dormiram abertas a noite inteira. No sítio dá pra fazer isso. No dia seguinte a minha coruja tinha tido embora.

Não sei se essa coruja é uma das que vi em 2001. Não sei quanto tempo uma coruja vive. Se não for uma delas, provavelmente é sua descendente. Mas não faz mal. O canto é dela também.

Em Salto, 23 de Agosto de 2008

19 de Agosto

Sempre me lembro desta data.

Foi neste dia, em 1967, quarenta e um anos atrás, que viajei pela primeira vez aos Estados Unidos. Já fiz referência ao fato em anos anteriores aqui neste Space. Faço-a novamente.

Vim de Santo André para Campinas de trem, no dia 19. Saí de Viracopos, à noite, pela PanAm. Parei no Rio (no antigo aeroporto do Galeão) e, de lá, o vôo seguiu nonstop até Nova York (aeroporto JFK). Em Nova York peguei outro avião, se não me engano da TWA (TransWorld Airlines, defunta como a PanAm) e fui para Pittsburgh — onde me esperava o casal William Eichleay, com a filha de 13 anos (linda – sentava-se sobre uma perna, deixando à vista a calcinha), que me hospedaram durante quase dez dias antes de eu ir morar no dormitório do Seminário (Pittsburgh Theological Seminary). As aulas começavam apenas no dia seguinte ao Labor Day — que acontece na primeira segunda-feira de Setembro.

Foi um momento decisivo na minha vida.

Iria completar 24 anos dias depois. No ano anterior, tinha tido razões de sobra para concluir que os meus sonhos estavam todos condenados e que o mundo estava por desabar sobre minha cabeça. Em Agosto (Agosto… sempre Agosto) de 1966 fui expulso do Seminário Teológico Presbiteriano de Campinas. Estava em meu terceiro ano. Era excelente aluno. Modéstia à parte, havia quebrado tudo o que era record nas médias do Seminário. Mostrava grande habilidade especialmente em filosofia e em línguas, nestas, em especial em Grego e Latim. Em Grego fechei três semestres puxados de estudos, com aulas diárias, com a média de 99,81. Eu não tinha dúvida, naquela época, de que meu futuro estava na vida acadêmica. Imaginava-me em alguns anos professor de Exegese do Novo Testamento, ou de Teologia do Novo Testamento, ali mesmo, no próprio seminário, na Av. Brasil em Campinas. Mas veio a bordoada. Perdi a bolsa de estudos do Presbitério Paulistano. Precisava viver: em três dias arrumei emprego na Bosch, no bairro da Boa Vista, em Campinas. (Incidentalmente, em 7 de Agosto [!] de 1924, 42 anos antes, quase no dia, minha mãe havia nascido numa fazenda ali mesmo naquele bairro da Boa Vista). Na Bosch, fui analista de custos. A atividade não era de todo maçante naqueles dias anteriores ao computador porque se exigia bastante raciocínio e cálculo — e eu gostava disso. Mas a função não tinha nenhum futuro para alguém como eu. Parecia fim de jogo.

Mas outras portas se abriram. Ganhei bolsa para ir estudar em Pittsburgh e, por isso, o Agosto seguinte, que hoje comemoro, trazia grandes promessas. Quase todas cumpridas.

Em 8 de Agosto de 1972, cinco anos depois desse Agosto de 1967, defendi meu doutorado na Universidade de Pittsburgh, sob a orientação do grande mestre que foi William Warren Bartley III — falecido jovem.

Mais um Agosto.

Um ano antes, em Agosto de 1971, tive problemas pessoais que quase resultaram na minha separação de minha primeira mulher – e resultaram na perda de um grande amigo. Mas os problemas conjugais foram equacionados de forma satisfatória por um tempo (até num outro Agosto, dali três anos), e pude voltar minha atenção para a tese, que concluí em Maio do ano seguinte (1972) e defendi no dia que indiquei. (A propósito, no dia 11 de Agosto de 1971 assisti ao filme Summer of 42 pela primeira vez.)

Em Agosto (!) de 1972 me mudei de Pittsburgh, na Pennsylvania, para Hayward, na Californa, do outro lado do país, na Baía de San Francisco, juntinho da cidade, para assumir meu primeiro emprego, como Professor de Filosofia na California State University de Hayward. As aulas começariam, como sempre, no dia seguinte ao Labor Day. No intervalo, aluguei um apartamento em Castro Valley (20928 Wilbeam Avenue), ali pertinho. Logo em seguida foi concebida minha filha Andrea, que veio a nascer em 25 de Junho de 1973 e que teve, no endereço que acabei de dar, sua primeira casa.

Em Agosto (!) de 1974 comecei a dar aulas na UNICAMP. Meu contrato só saiu em Maio do ano seguinte, mas foi retroativo a 1/7/1974. Mas a primeira aula que dei na UNICAMP foi em Agosto de 1974 — na disciplina Filosofia da Educação I, que ficou sob minha responsabilidade durante 32 anos. Era a primeira turma de Pedagogia da UNICAMP. De vez em quando ainda encontro alunas daquela primeira turma — agora todas formadas, algumas com Doutorado e dando aula na UNICAMP…

Ainda em Agosto de 1974 dei uma palestra na Faculdade de Educação da UNICAMP sobre o tema "Pesquisa em Filosofia da Educação: A Questão da Doutrinação". Foi nessa palestra que o olhar intenso da Sueli, então assistente de pesquisa na área de Psicologia Genética (Piaget) da universidade, despertou minha atenção. Apenas dois meses depois estávamos vivendo juntos, embora ambos, em Agosto, ainda estivéssemos casados e morando com os respectivos cônjuges.

Trinta anos depois, em 2004, dei uma palestra, em Agosto, na primeira edição do evento TecEduc@tion, em São Paulo. O evento aconteceu de 25 a 27 do mês.

Agostos e Agostos que se empilham em cima de mim.

Aproximo-me do mês de Agosto sempre com alguma trepidação: um misto de expectativa e apreensão. Talvez um resquício de superstição num racionalista ateu. Tenho um pressentimento de que, qualquer ano desses, um mês de Agosto me leva — como aquele bom Agosto de 1967 me levou. Só que, desta vez, para sempre. Sem me dar a chance completar mais um ano dali a uns dias.

Em Campinas, 19 de Agosto de 2008.

The road less traveled by

Transcrevo, a partir de um e-mail de Robert Fendt acerca de Og Leme, com tradução do primeiro, os versos finais do poema de Robert Frost The Road not Taken:

I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I —
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference

É com um suspiro que conto isto,
Tanto, tanto tempo já passado:
Duas estradas separavam-se num bosque e eu –
Eu segui pela menos viajada,
E isso fez toda a diferença.

São Paulo, em 5 de Agosto de 2008

A Passagem do Tempo: Sunrise, Sunset – Do Nascer ao Pôr do Sol

Como dizia Fiori Gigliotti ao irradiar os jogos de futebol na Rádio Bandeirantes, "o tempo passa!". Yes, it does. Tempus fugit, já diziam os latinos. Sunrise, Sunset, que fez parte da trilha de Fiddler on the Roof, fala disso de forma muito poética. Força-me a perguntar onde é que eu estava enquanto o tempo passava… 

[Vide, no Tou Tube, http://www.youtube.com/watch?v=nLLEBAQLZ3Q].

[Aproveitem e vejam também Dou You Love Me? http://www.youtube.com/watch?v=h_y9F5St4j0&feature=related]

Sunrise, Sunet é uma das canções de que mais gosto, tanto a música como a letra – especialmente na voz de Perry Como.

Meu querido amigo Joseph Stein, ex-marido de minha ainda mais querida amiga, Patricia Gleason, a cantava – e a cantava muito bem.  Lembro-me de ouvi-lo cantar Sunrise, Sunset em Jerusalem, em 1984. Fiquei emocionado. Eu tinha quarenta anos então (minha filha mais nova, também Patrícia, tinha oito — estava para fazer nove, no final do ano).

Minha vida teve vários envolvimentos com as vidas do Joe e da Patricia. Por exemplo, eu estava com ela Los Angeles em 1978 quando ouvi You Needed Me [objeto de um outro post recente] pela primeira vez. Voltamos juntos de Los Angeles a Chicago num daqueles vôos que saem à meia-noite e chegam de manhã — e no qual não servem nem café. Não sei como me lembro com tanto detalhe dessas coisas. Então ela não estava casada com o Joe. Ficou casada pouco tempo. O casamento era daqueles que, por fora, parecia perfeito. Ambos eram muito bonitos — na verdade, ele era um cara bonito e ela era linda. Por dentro, quantos problemas! Felizmente, ela teve uma outra chance e hoje, pelo que sei, vive feliz.

A Patricia Gleason chegou a ocupar, nos anos 90 e no começo desta década, um cargo que eu desejei muito, e não obtive, no início dos anos setenta: o de diretor do Oldenborg Center for Modern Languages and International Relations, no Pomona College. Se eu tivesse obtido o cargo que então pleiteei, e que perdi na finalíssima, para uma mulher, porque Pomona College precisava ter mulheres em posição de direção, minha vida teria sido totalmente diferente. Provavelmente nunca teria voltado ao Brasil.

Curiosamente, portanto, minha volta ao Brasil se deve ao programa de "Ação Afirmativa" americano, que eu tanto detesto. Talvez não devesse falar tão mal desse programa… Sem ele, provavelmnte teria ficado nos Estados Unidos e não teria a Patrícia, o Rodrigo, a Tatiana, o Gabriel, a Gabriela, o Marcelo, o Felipe… Não teria mais um monte de coisas (embora, certamente, provavelmente tivesse outras).

É disso que trata o filme Match Point, de Woody Allen. Há momentos, na vida da gente, em que a bolinha do tênis bate na rede, sobe, e pode cair de um lado ou de outro. Vale a pena conferir… Mas essa é outra história…

A propósito, para fechar a referência, a Patricia Gleason fez doutorado em Harvard, na área de teologia feminista (of all things!), e escreveu um excelente livro sobre a teologia de Friedrich Schleiermacher (Schleiermacher and Gender Politics), que eu tenho em minha estante. O livro foi escrito já sob seu novo nome: Patricia E. Günther-Gleason. 

Não sei por que em geral só a mulher muda o nome quando casa. O Joe (que, infelzmente, eu perdi de vista), quando se casou com a Patricia, adotou o nome de Joseph Gleason-Stein. Achei um barato, então, que ele se dispusesse a fazer isso. Mostra que era um indivíduo pouco convencional por detrás do terno escuro. Gosto de gente que tem coragem de desafiar as convenções, as verdades e as práticas estabelecidas. Joe era um cara assim.  

Saindo do passado e voltando a Sunrise, Sunset, e ao presente, qualquer hora (no futuro) traduzo a letra inteira dessa música… Por enquanto traduzo só as duas primeiras estrofes:

É esta a menina que carreguei?
É este o menino com que brinquei?
Não me lembro de ter ficado mais velho!
Quando foi que eles o ficaram?

Quando foi que ela se tornou tão linda?
Quando foi que ele ficou tão alto?
Parece que foi apenas ontem
Que eram tão pequenos?

O nascer do sol, o pôr do sol
O nascer do sol, o pôr do sol

                    o O o

Is this the little girl I carried?
Is this the little boy at play?
I don’t remember growing older
When did they?

When did she get to be a beauty?
When did he get to be so tall?
Wasn’t it yesterday
When they were small?

Sunrise, sunset
Sunrise, sunset

Swiftly flow the days
Seedlings turn overnight to sunflowers
Blossoming even as we gaze

Sunrise, sunset
Sunrise, sunset

Swiftly fly the years
One season following another
Laden with happiness and tears
What words of wisdom can I give them?
How can I help to ease their way?

Now they must learn from one another
Day by day
They look so natural together
Just like two newlyweds should be
Is there a canopy in store for me?

Sunrise, sunset
Sunrise, sunset

Swiftly flow the days
Seedlings turn overnight to sunflowers
Blossoming even as we gaze

Sunrise, sunset
Sunrise, sunset

Swiftly fly the years
One season following another
Laden with happiness and tears

Em Salto, 2 de Agosto de 2008 (2 da manhã)

Tempos que não voltam mais…

[Conforme prometido na crônica "Eu era pobre e feliz… e não sabia", aqui está a crônica, escrita em 1954 por meu pai, Oscar Chaves, e enviada ao “Programa da Saudade”, da Radio Difusora (não Tupi, como eu disse) pelo apresentador do programa, Décio Pacheco da Silveira, por quem meu pai tinha enorme admiração.]

Por que gostamos de recordar os dias passados, longínquos, saudosos, da nossa infância?

Todos nós, depois de grandes, temos um pouco da nostalgia e do sentimentalismo de Casemiro de Abreu, quando chorava, nos versos, a sua “infância querida que os anos não trazem mais”.

Sim, amigo, você tem as suas recordações, com certeza. Eu também as tenho. E como é doce lembrar aquele tempo em que a gente, inocente e despreocupado, “adormecia sorrindo e despertava a cantar”.

Minha cidade era pequena, sossegada e poética, escondida entre as montanhas grandes e corcundas lá do oeste de Minas: Patrocínio. Foi lá que meus pais nasceram, e foi lá que eu vi a luz do sol e me criei. Patrocínio antiga era melhor e mais encantadora do que a de hoje. Talvez eu tenha esta impressão por causa dos sonhos e das alegrias da minha meninice. Tudo, antigamente, parecia melhor, mesmo com o atraso e com a falta de conforto que havia. Ainda me lembro de minha cidade sem luz elétrica. Parecia mais gostosa ainda, pois, em vez de brincarmos à noite, nós, os moleques, nos sentávamos ao redor da “Sia Adélia”, a velhinha magra e bondosa que nos contava histórias todas as noites, à porta de sua casa.

Que histórias extraordinárias ela nos contava! Almas do outro mundo, mulas sem cabeça, assombrações, homens que viram lobisomens… Ela contava, com arte de mestre, coisas que nos deixavam arrepiados!

Eu, o Raul e o Mauro (meus manos), o Joãozinho da S’Adélia, o João do Nilo, o Bias seu irmão, o Walterson (que nós chamávamos de Son) e outros, nós nem piscávamos, eletrizados pelas palavras da nossa boa velhinha. A noite, lá pelas dez horas, quando ela se despedia de nós e entrava em sua casa, nós ficávamos com um medo terrível de nos separarmos para dormir. Parecia-nos ver aquele vulto branco que toda sexta-feira, à meia-noite, gemia debaixo da árvore, perto da porteira, e que costumava montar na garupa do cavaleiro que transitasse por aquelas bandas…

Eu e os manos tínhamos receio até de atravessar a rua, pois nossa casa ficava bem em frente à casa da S’Adélia. – Boa e inteligente velhinha!

Às vezes, sentados em grupos, na calçada de minha casa, à noite, nós fazíamos um dueto triste e dolente, que enchia o “Largo da Cadeia”. Cantávamos a “Tristeza do Jeca”, “O Meu Boi Morreu”, “A Madrugada que já passou”… E esse dueto, bem afinado e sentimental, não deixava de ter a sua poesia e a sua beleza simples. No dia seguinte, no Grupo Escolar, dona Amélia, minha professora, que morava perto, elogiava, alegre e entusiasmada, as vozes tão bonitas que tinham cantado lá no Largo…

E o futebol, no Largo da Cadeia? A molecada se reunia ali, e quase sempre, com bola de pano (ponta de meia velha) a peleja chegava a tal ponto de entusiasmo que terminava em briga. Quanto dedão machucado, quanta unha arrancada naqueles jogos!

E o Carnaval, então? Era uma beleza! Tudo inocente e engraçado. Não tinha as imoralidades, as malicias de agora. A coisa mais engraçada para nós era ver o Tito padeiro vestido de mulher, muito sério, pela rua afora. O Raul Rodrigues, narigudo e feio, vestido de caipira, era também um número extraordinário! Homens de perna de pau, altos, da altura das casas, mascarados, saíam pelas ruas e jardins, acompanhados da meninada… E o povo cantando: “A baratinha, Yayá, a baratinha Yoyô”, “Periquito louro, do bico dourado”… Oh, tempos felizes aqueles!… Não voltam mais, nunca mais!

Depois fomos crescendo, tomando rumos diferentes, separando-nos devagarzinho… Uns, a morte levou. Outros, levou-os a vida. Separamo-nos.

Faz 20 anos que deixei minha terra (*). Tenho-a visitado de vez em quando. Mas não é mais a minha querida Patrocínio. Tudo diferente. Os amigos velhos não estão mais lá. S’Adélia morreu há pouco tempo, cheia de anos e de bondade. O Totonho, seu marido, que ensaiava a banda de música, também morreu há pouco. O Raul lá está ainda, o meu mano. O Mauro formou-se em Lavras, e trabalha em Belo Horizonte. O Walterson é hoje um médico ilustre na Capital mineira. O João do Nilo e o Bias sumiram-se, não sei para onde. Minha querida mãe também (que tantos socos me deu na cabeça por causa do futebol no Largo da Cadeia) está em Belo Horizonte. Eu cá estou, em São Paulo, como ministro do Evangelho, pregando a doutrina de Jesus aos meus bons patrícios.

Mas tenho saudades, imensas saudades da minha terra. Se me fosse dado viver outra vez, eu gostaria de nascer e passar a minha infância lá mesmo, em Patrocínio, meu querido rincão mineiro. Mas não nessa Patrocínio atual. Naquela outra, aquela antiga, poética, inocente, e sem luz elétrica…

Oscar Chaves
Santo André, SP – 1954

(*) Meu pai saiu de Patrocínio em 1934 para ir estudar no Instituto José Manuel Conceição, em Jandira, SP, de 1934 a 1938. Eu estudei no mesmo Instituto de 1961 a 1963.

Me, myself and I

Letra da música de Billie Holiday citada num dos posts de hoje:

Me, myself and I
Are all in love with you.
We all think you’re wonderful.
We do!

Me, myself and I
Have just one point of view:
We’re convinced
There’s no one else like you.

It can’t be denied, dear,
You brought the sun to us.
We’d be satisfied, dear,
If you’d belong to one of us.

So, if you pass me by,
Three hearts will break in two.
‘Cause me, myself and I
Are all in love with you.

Em Salto, 24 de Julho de 2008