Tempus fugit… ergo, carpe diem

Que o tempo passa não é novidade alguma. Todo mundo sabe disso. Mas muitos não percebem que ele foge. Quem foge, anda depressa, corre. O tempo é assim. Passa depressa demais. Pela pressa com que passa, faz com que muitas vezes não o vejamos passar. O dia em que a gente falsificava a caderneta escolar para entrar em filme proibido para menores de 14 anos parece que foi ontem. Depois era a ânsia para que chegassem os 18 anos para a gente finalmente poder ver filme realmente proibido – hoje, quando filmes que eram realmente proibidos no meu tempo passam na Seção da Tarde, ninguém nem sequer entende a ansiedade com que a gente esperava os 18 anos… Depois, o medo de ficar velho aos 30… Tudo isso passa depressa, vôa…

Mais dois dias e chega o Outono — minha estação favorita. Será meu sexagésimo sétimo Outono. Nasci no finzinho do Inverno de 1943. Pena que, aqui em SP, as folhas das árvores não mudem de cor, em preparação para sua queda no Inverno. Mas mesmo sem o festival de cores, gosto do Outono. Talvez porque eu esteja no Outono da vida.

Meu sobrinho me perguntou no Facebook, quando dei as boas-vindas ao Outono de 2010: Como é o Outono da vida?

Tentei responder. Transcrevo aqui (com pequenas modificações: nunca consigo transcrever um texto meu sem modificá-lo um pouco).

A ordem em que dizemos as estações do ano é lógca: Primavera, Verão, Outono e Inverno.

A Primavera é a época que segue ao nascimento, em que as plantas brotam, vicejam, dão suas primeiras flores, frutificam pela primeira vez… As cores são novas, como nova é a pele das crianças e dos jovens: sem manchas e rugas.

O Verão é a época da exuberância da idade adulta, cheia de energia e realizações. É no Verão que em geral a nossa pele adquire manchas (em geral do Sol) e começa a se enrugar. É no Verão que as pessoas, inconformes com a passagem do tempo, começam a buscar as cirurgias plásticas…

No Outono, as folhas mudam de cor nas árvores, os cabelos, nas cabeças — e, em alguns casos, começam a cair, tanto as folhas como os cabelos. Mas há uma sensação de quietude e calma no ar. Nem o vento consegue balançar facilmente uma árvore totalmente sem folhas… Não há mais aquela ansiedade por fazer coisas no plano material. Há o desejo de fruir o que se construiu, e experimentar algumas delícias da vida para as quais não se teve tempo antes… É a hora de coletar e, quem sabe, botar no papel (ou no disco rígido) as memórias.

O Inverno… bem, o Inverno é o frio, os dias mais curtos e com menos luz, o prenúncio do fim. No caso das estações, prenúncio de um recomeço. Quem sabe no nosso caso também.

Muitos não chegam ao Outono, porque algum acidente, alguma doença, ou a vontade de algumm assassino não deixou. É um privilégio estar no Outono. É a época por excelência da fruitio vitae. A compensação de chegar à velhice, como uma vez disse a grande e sempre linda Ingrid Bergman, é que você adquire uma consciência viva de que não morreu cedo demais…

Mas, como disse um dia aquele estraga-prazeres do Rubem Alves, não é fácil, quando a gente chega ao Outono, passar a pensar em sua idade em termos, não de quantos anos você já viveu, mas em termos de quantos anos você ainda tem para viver… Mas a gente aprende. Karl Popper disse uma vez que o que torna a nossa vida valiosa é o fato de que ela tem fim, que a gente pode morrer. Se a gente não morresse, se a vida fosse interminável, ela não teria valor. Os jovens, que acreditam ainda ter um monte de anos pela frente, a arriscam desnecessariamente.

Ayrton Senna, que depois de amanhã faria 50 anos, é exemplo disso. Se não fosse corredor de F-1, provavelmente estaria vivo aqui entre nós ainda. Mas nós provavelmente nem saberíamos quem era, não teríamos, por ele, o reconhecimento que temos. E provavelmente não haveria o Instituto Ayrton Senna, e a Viviane Senna Lalli não seria a personalidade que se tornou.

Tudo, na vida, tem suas compensações. Fazemos trocas e permutas o tempo todo. Um pouco mais de excitação na juventude, em troca, quem sabe, de um pouco menos de vida… Um pouco mais de vida, em troca, quem sabe, de um pouco menos de excitação e glamour.

O mesmo sobrinho que me perguntou como é o Outono da vida colocou uma citação do atual Papa no FaceBook:

“Não sou um homem que está constantemente inventando e contando piadas. Mas acho que é importante olhar para o lado divertido da vida, aproveitar sua dimensão alegre, não levar tudo tão seriamente, não privilegiar o seu lado trágico. Eu diria que isso é indispensável para o meu ministério. Um escritor disse uma vez que os anjos podem vovar porque não se tomam muito a sério… Talvez pudéssemos também voar um pouquinho se não nos considerássemos assim tão importantes”. (Papa Bento XVI).

É isso. Belo texto.

O tempo foge. Por isso, aproveite a vida. Voe um pouco. Mas saiba que nem todo vôo aterriza tranqüilamente. Se não julgássemos a nossa vida tão importante e valiosa, voaríamos mais – a arriscaríamos mais.

Para vocês, Epitáfio, dos Titãs. A primeira música (da “nova geração”) que a Paloma me deu.

Titãs – Epitáfio

Devia ter amado mais, ter chorado mais
Ter visto o sol nascer
Devia ter arriscado mais e até errado mais
Ter feito o que eu queria fazer
Queria ter aceitado as pessoas como elas são
Cada um sabe a alegria e a dor que traz no coração
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar
Devia ter complicado menos, trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr
Devia ter me importado menos com problemas pequenos
Ter morrido de amor
Queria ter aceitado a vida como ela é
A cada um cabe alegrias e a tristeza que vier
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar…
Devia ter complicado menos
Trabalhado menos

Tempus fugit. Ergo, carpe diem. 

Em São Paulo, 19 de Março de 2010

O Ano Novo

Magnífico insight de Carlos Drummond de Andrade que encontrei no FaceBook. Não sei citar a referência, isto é, onde é que Drummond escreveu isso. Mas que é genial, isto é…

"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dá para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para diante vai ser diferente".

Mais uma “fatia do tempo” está chegando ao fim. Os projetos não concluídos neste ano ficam para o ano que vem. as esperanças se renovam… Este novo ano que chega vai ser melhor, neste ano vou conseguir fazer aquilo que não foi possível realizar no ano que finda… Quem sabe chega a sorte grande: milhões gordos na Sena de fim de ano…

Como o Natal, o Ano Novo é tempo de recomeçar, de passar as coisas a limpo, de sonhar novos sonhos ou, quem sabe, ressonhar os sonhos velhos, ainda não realizados.

Mas o período é também de contabilizar os sucessos e os insucessos, contar as bênçãos, fazer uma nota mental das bênçãos não vindas e das orações não atendidas… Mesmo num ano ruim há muita coisa por que ser grato.

Para mim foi um ano muito bom (“When I was 66, it was a very good year”…). No ano inteiro aconteceram coisas muito boas. Mas o fim do ano trouxe várias coisas boas pelas quais eu, em determinados momentos, nem ousava esperar mais. Estou muito feliz.

Mas espero que 2010 seja ainda melhor… 🙂

Em Ubatuba, 29 de Dezembro de 2009.

Isto É: Eles deram a virada

Ontem publiquei um post aqui sobre recomeços. O título foi “Natal e Ano Novo”.

Curiosamente, hoje fui comer um sanduíche na Padaria Ipanema, na Chácara Klabin, e vi, na Banca de Revistas ao lado, a Revista Isto É desta semana – cuja matéria de capa é exatamente recomeços, viradas…

A matéria complementa, com casos específicos e riquezas de detalhes, a importância dos recomeços, das viradas.

Transcrevo-a aqui para facilitar o acesso – embora o acesso seja livre no site da revista.

———-

http://www.istoe.com.br/reportagens/27870_ELES+DERAM+A+VIRADA?pathImagens=&path=&actualArea=internalPage

Isto É, Edição: 2092, 1.Dez

Eles deram a virada

Histórias inspiradoras de homens e mulheres que tiveram a coragem de mudar o curso de suas vidas, seja na esfera pessoal, seja na profissional. Como e quando dar essa guinada e qual o perfil de quem conseguiu

Carina Rabelo e Francisco Alves Filho

Mudar de vida, realizar um sonho, executar projetos engavetados há tempos, tudo isso parece mais próximo de se tornar real quando um novo ano se aproxima. Nessa época, muitos prometem reinventar o próprio cotidiano, seja no campo pessoal, seja no profissional. “O ano-novo é o arquétipo do recomeço, uma outra chance para a esperança”, diz o teólogo Leonardo Boff. O problema é que várias pessoas não avançam além da promessa. “Muitas vezes, racionalmente reconhecemos que mudar seria o melhor, mas emocionalmente podemos não estar prontos”, afirma a psicóloga carioca Aline Sardinha.

Esse descompasso, entretanto, não consegue barrar a obstinação daqueles que estão decididos a dar uma virada na própria história. Essas pessoas encaram os dissabores e perseguem a felicidade, a qualidade de vida, o ideal. De onde tirar essa coragem? Como vencer a acomodação? Quando se dá o “estalo”? Essas respostas podem representar a diferença entre a realização pessoal e a insatisfação duradoura. Não há receita pronta, mas especialistas em comportamento indicam que idade ou classe social não são determinantes. As circunstâncias é que têm um peso significativo nessa decisão.

Existem viradas para superar momentos difíceis, como a demissão, o divórcio ou a doença, e aquelas opcionais, em que, mesmo estando bem, a pessoa sente necessidade de mudar. Este segundo tipo é o ideal, como identifica o consultor de negócios César Souza, autor do livro “O Momento da Sua Virada” (Ediouro). “Assim, há tempo para traçar o próximo patamar da vida e mais chance de a mudança dar certo”, diz ele. Um dos mais importantes requisitos para o êxito nessa empreitada é o temperamento, já que mudar radicalmente exige uma boa dose de coragem. “Quem tem medo só pensa no que pode dar errado e precisa de alguém que o empurre.

O corajoso sempre vê o futuro melhor do que o presente”, explica a psicóloga Rebeca Fischer, instrutora da Sociedade Brasileira de Programação Neurolinguística. Não é que o medo seja eliminado, já que mesmo aqueles que ousam sentem um “friozinho na barriga” ao dar um passo à frente.

O pulo do gato é manter os demônios sob controle.

O teólogo Boff acredita que todos têm potencial para vencer a inércia e seguir novos rumos. “O ser humano sempre quer a felicidade e o caminho para isso não é fazer emendas, mas buscar um novo começo.” ISTOÉ colheu histórias de pessoas que deram a virada em suas vidas. Elas contam de onde tiraram inspiração para enfrentar os novos desafios e mostram que, nessa hora, um dos melhores truques é acreditar naquele lema que afirma: o melhor está por vir. Feliz 2010!

Outras pistas

 

Virada_boesel.jpg

chamada.jpg

A semente da virada do ex-piloto Raul Boesel, 52 anos, foi plantada ainda na adolescência, em Londres, num memorável show da banda Pink Floyd, na década de 80.

Mas ficou engavetada durante décadas, tempo em que ele construiu uma sólida carreira de piloto. Boesel começou a correr no kart aos 16 anos e ficou no automobilismo até os 48, mas sempre se interessou pela tecnologia na música. “Só nunca imaginei que ela poderia ser a minha profissão.” Desgastado no automobilismo, aos 45 anos, já pensava mais em música do que nos carros. “Foi quando decidi que era hora de mudar.” Aos 49, um ano após deixar a carreira de piloto, se empenhou com toda a energia para se tornar DJ. Contratou um professor e passou a treinar três vezes por semana, quatro horas por dia. Até sentir-se seguro para  primeira performance, acumulou duas mil horas. “No início, havia muito preconceito. As pessoas diziam que seria apenas um hobby, que eu fazia aquilo para me manter na mídia e que eu era muito velho para estrear como DJ.”

Desde 2003, ele frequenta todos os anos os festivais de Ibiza, a meca da música eletrônica. Neste ano, se apresentou pela primeira vez na cidade espanhola. E os novos desafios continuam. “Agora, quero me dedicar à produção musical.” Realizado, diz que não se arrepende da escolha. “O automobilismo ficou para trás. Assisto a todas as corridas e dou apoio aos meus sobrinhos que estão praticando, mas correr não me faz falta.” Boesel diz perceber algumas semelhanças entre o automobilismo e a música. Como o ritmo intenso de viagens, por exemplo. Mas, na lista das vantagens, o trabalho como DJ tem uma recompensa maior.
“Ao contrário das pistas de kart, nas de dança, o contato com o púbico é direto.”

Adeus, mesmice

 

virada01.jpg

O administrador de empresas carioca Luciano Monteiro de Miranda, 34 anos, tinha um ótimo emprego, uma boa condição financeira, um namoro prazeroso, uma filha de 15 anos. Uma vida de novela, tendo como pano de fundo a Cidade Maravilhosa. Mas não estava feliz. Para reverter a situação, fez as malas e se mudou há três semanas para Vancouver, no Canadá, deixando para trás uma bem-sucedida carreira na área de vendas da IBM. Com o visto de imigrante em mãos, ele pretende adotar um estilo de vida totalmente diferente. “Decidi sair do meu País porque senti que precisava olhar para dentro de mim e ir em busca de novas aventuras”, conta Miranda. “Não queria levar aquela vida para sempre”, revela. O administrador, no entanto, reconhece ter sido difícil deixar a filha de 15 anos, a namorada e os pais, que têm mais de 70 anos. “Sempre que penso no quão significativa é essa mudança, bate uma ponta de desespero.

Para evitar isso, procuro não pensar naquilo de que estou abrindo mão. Só assim, terei forças para seguir em frente”, diz. Mas arrependimento não faz parte do seu repertório de emoções. Afinal, ele planejou a mudança durante dois anos e meio. Em Vancouver, não tem pressa de arranjar um emprego. “Quero me estabilizar, achar um apartamento e concluir o curso de inglês”, planeja Miranda, que admite ter ouvido muitas críticas da família e de amigos. “Eles não entendem por que saí de lá, se eu tinha tudo. Mas o fato é que eu não aguentava mais o rame-rame da vida que levava no Rio de Janeiro”, admite. Enquanto aproveita os novos ares, Miranda procura fazer todas as atividades de lazer que não fazia no Brasil, principalmente as ligadas a esportes. “Quando nos sentimos corajosos, temos forças para continuar lutando.”

Ela perdeu 20 quilos

 

Virada-04A_IE-2092.jpg

Virada-04-IE.jpg

Desde pequena, a psicóloga mineira Renata Gonzaga, 31 anos, brigava com a balança. Seu biotipo,de gordinha não era problema na infância, mas tornou-se uma preocupação na adolescência. “Tinha mais dificuldades para conseguir namorados, era motivo de brincadeiras”, recorda. Ela, porém, nunca tomava uma atitude séria para perder peso. “Fazia dieta um tempo, mas o objetivo era sempre ficar em forma para a próxima festa”, diz. Logo voltava a comer descontroladamente. O estalo veio de repente, de frente ao guarda-roupa. “Quando notei que para sair eu tinha apenas uma peça do meu tamanho, vi que era o momento de buscar uma solução definitiva.” A decisão de procurar o grupo Vigilantes do Peso coincidiu com o fim do curso de psicologia.

Em um ano, ela emagreceu mais de 20 quilos graças à reeducação alimentar. “Sou outra pessoa”, diz ela, que há dois anos mantém-se nos 61 quilos. Típico caso de gordinha com baixa autoestima e sinais de depressão, Renata aprendeu a importância da perseverança. “Para emagrecer é preciso mudar nossa cabeça e os nossos hábitos”, prega ela, que agora tem um incentivador a mais para manter o peso: o noivo, com quem vai se casar em breve.

O médico que dá as cartas

 

Virada-06-IE.jpg

Aos 17 anos, o carioca Leonardo Bello, 33, decidiu que queria ser médico, pois “gostava de ajudar as pessoas”. Após seis anos de faculdade, quatro de residência em imunologia pediátrica e dois anos de especialização na Alemanha, começou a questionar a sua escolha. “Ficava até dois dias e meio sem dormir”, lembra. Num desses plantões, conheceu uma pessoa que foi decisiva para sua virada – um médico de 60 anos, muito talentoso, mas pouco reconhecido no meio e com patrimônio modesto. “O grande problema da medicina é que, se você não tem talento para os negócios, vai dar plantão a vida toda. Não queria me matar de trabalhar e não ir além.” Durante a especialização na Alemanha, Bello se distraia com o pôquer online.

De volta ao Brasil, teve a ideia de organizar um torneio entre amigos. O pequeno hobby se tornou um evento para 100 pessoas. Assustado com a magnitude da sua ideia despretensiosa, descobriu um novo traço da sua personalidade: o empreendedorismo.

“O pôquer me abriu várias oportunidades”, diz o médico, que, junto com dois sócios, criou a empresa Nutz, exclusiva para as competições de pôquer. O negócio cresceu, deu retorno financeiro e, em 2006, eles lançaram o torneio nacional. Há um ano e meio, o carioca trocou a medicina pelo jogo em definitivo. “Ganho dez vezes mais do que ganhava quando era médico”, diz Bello, que pretende utilizar parte dos ganhos para construir um centro de apoio às crianças portadoras de HIV. “Como médico, jamais teria dinheiro para concretizar este sonho.”

Largou o marido e abraçou o piano

 

Virada-07-ie-2092.jpg

Beth Ripoli, 57 anos, passou a infância atormentada pelo pai, que insistia para que ela estudasse piano. Obediente, fez aulas dos 6 aos 16 anos. Mas detestava, confessa. Aos 20, ela se casou e deixou Piracicaba (SP), para morar na capital. Livrou-se do instrumento para se tornar uma devotada dona-de-casa. Aos 30 anos, ficou doente – foi diagnosticada com artrite reumatoide. Procurou vários médicos, mas nenhum tratamento funcionava. “Eu não podia esticar a perna, levantar da cadeira e usar salto alto”, lembra. “Até que me aconselharam a praticar piano para exercitar a musculatura das mãos e dos braços.” Beth, então, entrou para a escola do Zimbo Trio. Após dois anos de aulas, foi convidada para tocar na noite. “Mas meu marido disse que não permitiria”, conta. Beth não teve dúvidas: pediu a separação. Sofreu perdas materiais e ficou impedida de ver o filho, então com 13 anos, por um ano. Em compensação, a dor da artrite sumiu. “E me diverti muito trabalhando nos bares nas turnês.” Aos 45 anos, gravou o primeiro CD, com composições próprias. Para completar a guinada, também encontrou um novo companheiro. Está casada há 21 anos com uma pessoa que respeita suas escolhas, gosta de frisar.

O chamado da saúde

 

Pic_Virada02.jpg

Algumas vezes, dar a virada é questão de saúde. Foi o caso do empresário paranaense Marcos Vilas Boas, 40 anos.

Em 2003, ele abriu uma empresa em São Paulo para ampliar seus negócios – uma rede de oito hotéis. “Trabalhava todos os dias, das 8h à 0h. Ao chegar em casa, não conseguia dormir e assistia à televisão durante a madrugada”, lembra Vilas Boas, que visitava a mulher e a filha em Curitiba apenas uma vez por mês. O sono só vinha induzido por remédios. As crises de enxaqueca eram frequentes e, pelo menos uma vez por mês, as dores insuportáveis o levavam ao hospital. Até que a rotina massacrante atingiu o limite das forças físicas. “Um dia, acordei e disse ‘chega!’”, afirma o executivo, que, para completar, fumava um maço de cigarros por dia. “Joguei o cigarro fora, procurei um médico e contratei um preparador físico.” Hoje, é um triatleta que nem lembra quando teve a última crise de enxaqueca. “Quanto mais a gente faz atividade física, mais tem disposição para trabalhar. Hoje, levo menos tempo para fazer as mesmas coisas. Tudo é possível com disciplina.” A televisão? Virou objeto de decoração em casa. “Assistir à tevê é a prova da falta do que fazer. Com este tempo, a gente faz esporte.”

Da farda ao consultório

 

Virada-10_IE-2092.jpg

Pic_Virada04.jpg

Como soldado do Exército, ele integrava a escolta do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Nas Forças Armadas desde os 19 anos, fazia parte de um pelotão de investigação criminal que prestava serviços às autoridades que vinham a São Paulo. Tudo caminhava para que o paulista Cleber Soares se consolidasse na carreira militar, até que conheceu a futura esposa, que o influenciou a cursar odontologia para trabalhar com ela numa clínica própria. Como os dois projetos eram incompatíveis, ele largou o Exército aos 27 anos para começar o novo curso. “As Forças Armadas ajudam muito na formação moral do ser humano, mas a rotina cansa”, diz Soares, atualmente com 33 anos. Ele também ficava preocupado com o futuro. “Na vida militar, além do expediente normal de trabalho, que inclui os finais de semana, existem os serviços extras. Queria ter mais tempo, construir uma família e ter mais dinheiro no futuro”, explica. Depois de formado dentista, Soares decidiu dar outra guinada e preferiu se dedicar à clínica que montou com a mulher. “Há poucos profissionais na área que têm perfil empreendedor”, afirma. O casal montou a Sorridents, uma rede de clínicas odontológicas. “Não havia nenhuma certeza de que a mudança que fiz fosse dar certo, mas arrisquei e funcionou”, diz o próspero empresário.

A mulher de diplomata que virou mãe de santo

 

Virada-11_IE-2092.jpg

A atribulada vida de mulher de diplomata trouxe Gisele Binon ao Brasil em 1959. Além dos salões acarpetados, a francesa doutora em letras pela Sorbonne foi visitar um terreiro de candomblé na Baixada Fluminense. Após oito anos viajando pela África, queria ver os rituais brasileiros de inspiração afro. A visita redefiniu a vida de Gisele. Ao som dos atabaques e diante da dança ancestral, ela entrou em transe. “Senti um frio na espinha e fui ao chão”, recorda. Intrigada, por muito tempo viveu um misto de temor e atração. Ao fim, rendeu-se e iniciou-se no candomblé. Nos anos seguintes, voltou para a França, separou-se do marido, deixou seus pais cuidando dos dois filhos e decidiu retornar ao Brasil. Em 1972, abriu um terreiro em Duque de Caxias (RJ), onde vive até hoje, aos 86 anos. “Decidi ser dona da minha vida”, diz. “Não queria mais a rotina triste e sem graça da França.” Não foi uma decisão fácil. Trocar Paris pelo Rio, a carreira de doutora em letras pela de mãe de santo, a rotina sofisticada de embaixadas pelo subúrbio carioca, nada disso foi feito sem medo. “Não há um caminho único. É preciso levar em conta as circunstâncias de cada um”, afirma ela. Com a separação, resolveu fazer o que seu coração mandava. “Não é fácil uma virada assim, principalmente para as mulheres, que ainda se dedicam ao lar, aos filhos e ao marido.”

Duas guinadas para dar certo

 

Virada-12-IE.jpg

Virada-13-IE.jpg

Cansado de sua função de metalúrgico na empresa Cosigua, Rodolfo Lima resolveu realizar o sonho de abrir o próprio negócio em 1989. Pediu demissão, juntou as economias e comprou um bar. “Foi a pior coisa. Desenvolvi alcoolismo, acabei com o negócio e com meu casamento”, recorda. O que poderia ter sido a grande virada terminou em decepção. Certa vez, alcoolizado, torceu o joelho e procurou ajuda na acupuntura. Deu tão certo – curou-se até do vício – que ele decidiu fazer um curso de terapias corporais, que engloba acupuntura, do-in e outras técnicas. Gostou, fez empréstimos bancários e deu uma nova chance ao seu lado empreendedor. “Primeiro, comecei a atender pacientes. Depois, a formar terapeutas”, conta. Hoje, é dono do Centro de Estudos do Corpo e Terapias Holísticas, que forma 80 alunos por ano, tem convênio com 13 empresas e dispõe de uma agenda de 2.500 clientes. Dessa trajetória, ele tirou uma lição importante: “Antes de fazer grandes mudanças, é preciso conhecer o novo terreno”, diz. Na primeira tentativa, a ansiedade de querer ser dono do próprio nariz o fez passar por cima de precauções básicas. Da segunda vez, estudou bastante para ter certeza de que era seu projeto de vida.

“Se tivesse desistido no primeiro fracasso, não teria chegado até aqui.”

Herói, que nada

 

Virada-15-IE.jpg

Virada-14-IE.jpg

A vida de Marcelo Vieira parecia um filme de aventura. Aos 26 anos, o paulista, oficial do Exército desde os 19, se tornou comandante e instrutor do pelotão que integrou as forças de paz da Organização das Nações Unidas (ONU) no Haiti. Suas funções iam desde o treinamento teórico até as instruções dos armamentos militares e explosivos. Naquela mesma época, ele concluiu a faculdade de design. Bateu a indecisão: o jovem não sabia qual rumo dar à sua vida. Foi então que Vieira decidiu utilizar como critério aquilo que realmente o fazia feliz – a possibilidade de desenvolver atividades diversificadas. No Exército, isso não era possível, segundo ele. “Aquela rotina seria a minha vida para sempre”, afirma. O ex-militar, hoje com 28 anos, conta ter ouvido muitas críticas. “As pessoas achavam que eu não deveria abandonar a estabilidade do Exército por um mercado incerto, que oscila com as crises.” Mas, como todas as pessoas que têm coragem para dar a virada, ele não deu ouvidos. “Não tenho nenhum arrependimento em relação à minha escolha. Claro que sinto saudades, mas o que eu queria mesmo era inovar.” Vieira percebeu que as apresentações em power point para grandes empresas eram um nicho de mercado na época.

“O conhecimento da formulação de estratégias militares me ajudou a desenvolver os projetos na área de tecnologia”, diz ele, dono da empresa Meu Estúdio, especializada em apresentações corporativas.

Tudo por um amor suíço

 

Pic_Virada03.jpg

Há dois anos, a catarinense Denise Prado, 46 anos, deixou um casamento de 17 anos e três filhos – uma menina de 17, outra de 15 e um menino de 10. “Estávamos no limite, já dormíamos em quartos separados”, conta. Denise era dona de uma escola de dança de salão em Florianópolis e, em uma das aulas, conheceu Bernardo, um suíço. Os dois engataram um romance, até que ele teve que voltar para casa. Mas o novo casal continuou se comunicando freneticamente pela internet. Ao perceber que Denise estava envolvida com outro homem, o marido sentenciou: “Vá embora com ele, eu cuido das crianças.” A catarinense não sentiu culpa, e sim alívio, mas a decisão não ocorreu sem conflitos. “Fui muito julgada.

A minha sogra ficou indignada. O meu irmão não me perdoa até hoje. O que me deu forças foi a certeza de que, se eu não fosse para a Suíça, me arrependeria para o resto da vida”, afirma.

A filha do meio foi a que mais sofreu. Ela chorava muito, pedia para que eu voltasse. Retornei para ficar um mês com ela.”, lembra. Denise conta que planeja levar os filhos para estudar na Suíça. Quanto às críticas, diz ter a consciência tranquila.

“Se meus filhos tiverem algum problema com isso, que procurem um psicólogo”, sentencia, ao lado de seu suíço.

Conheça outras histórias inspiradoras

Francisco Alves Filho

O empresário que virou mochileiro

Depois de passar décadas dirigindo empresas, ele aproveitou um momento de crise para largar tudo. E hoje passa os dias rodando o mundo e curtindo a natureza.

Mesmo quando passava boa parte de seus dias em intermináveis reuniões de negócios para administrar suas duas empresas, a Companhia Mercantil Itaipava e a Rede Bandeirantes de Postos, além de outros pequenos negócios, o carioca Richardson Valle não deixava de pensar nas questões espirituais e ambientais. Nos raros momentos de folga, viajou para a China, Índia e outros cantos do planeta, onde pôde captar o que chama de energias positivas. “Sempre me interessei pelos mistérios da alma, mas não tinha tempo para me dedicar a eles como gostaria”, diz ele.

A oportunidade surgiu em 2006, quando suas empresas entraram numa grave crise que culminou no fechamento de todo o grupo. Valle enxergou, no meio dos dissabores, uma oportunidade positiva: poderia finalmente mergulhar nos estudos dos temas que mais o interessavam. Ele conta que resistiu às boas propostas para trabalhar como executivo de outras empresas e ter direito a benesses que dão segurança e conforto. “Fui empresário por quase cinco décadas. Percebi que havia chegado a hora de fazer aquilo de que realmente gostava”, diz Valle, hoje com 65 anos.

Depois de certificar-se que os dois filhos do ex-casamento estavam amparados, tornou-se um mochileiro internacional e há três anos viaja o planeta aprimorando o espírito e a relação com o meio ambiente. “Aprendi que os dois assuntos estão intimamente ligados”, diz.

 

DD-6817-1.jpg

Há poucos dias, o ex-empresário chegou de uma viagem pelos Andes peruanos e já está novamente na estrada, dessa vez rumo à Floresta Amazônica. “Não tenho mais um endereço fixo, cada dia posso estar num lugar diferente”, afirma. “Meu carro é o metrô, o ônibus ou meu tênis”. O momento crucial de sua mudança aconteceu no intervalo entre a derrocada de seus negócios e os convites para voltar a trabalhar nas empresas de amigos. Segundo ele, até hoje, as propostas são freqüentes. “Alguns amigos não entendem que estou melhor assim”, diverte-se ele. “Acho que todos devem correr atrás de sua felicidade e é isso que estou fazendo.”

Do Sena para o Leblon

A história do jovem economista francês que largou o trabalho em Paris para ter uma vida mais tranquila perto do mar, no Rio.

Na praia do Leblon, no Rio de Janeiro, ele é conhecido como Mateus. Quem o vê de short e sem camisa batendo papo com os amigos na areia pode imaginar que é um típico carioca. Seu verdadeiro nome, no entanto, é Matthieu Stanic, um jovem de 26 anos nascido em Paris, que há um ano trabalhava de terno e gravata como operador do mercado financeiro numa importante seguradora francesa. “Trabalhei 3 anos lá com um objetivo em mente: juntar dinheiro para viajar ao Brasil e viver perto do mar”, conta ele, que é formado em Economia. Conseguiu o bastante para viajar, mas para se manter aqui tem sido criativo e diversificado. Dá aulas de francês na praia, onde junta o útil ao agradável, já trabalhou como gandula nas redes de vôlei e como ajudante de pescadores. “Sou inquieto e tenho a necessidade de mudar constantemente”, explica. “A única coisa que não muda é meu fascínio pelo mar”.  E pelo Rio de Janeiro.

Por conta dessa inquietude, Matthieu já planeja novas mudanças. “Pode ser que volte a trabalhar na antiga função para juntar dinheiro e comprar um veleiro”, diz o jovem, sem precisar datas. O certo é que ele não hesita um minuto quando acha necessário renovar sua rotina. Mas prefere não dar conselhos. “Eu sou solteiro, sem dependentes. É difícil dizer a alguém que tem família e outras responsabilidades que mude tudo na vida”, pondera. Mas quando fala de si mesmo, diz que em momento algum conseguirá parar e viver um cotidiano que não o satisfaça. E admite que, algumas vezes, isso causa contratempos. “Não é fácil dizer a uma namorada que seu coração está pedindo uma mudança, que precisa viajar, sair por aí. Isso já aconteceu comigo”, conta. “Mas é preciso ser sincero consigo mesmo e com as pessoas que se ama”. Difícil discordar dos argumentos desse franco-carioca.

Do tédio a uma nova experiência

Paulo deixou o trabalho num cartório para fazer um curso de garçom na Espanha. Deu tudo errado. Mas ele está feliz.

Durante 10 anos, o paulista Paulo Rodolfo Simeão trabalhou num cartório, fazendo serviços burocráticos. Desde 2007, mora na Espanha e se diz muito mais feliz do que era quando vivia no Brasil. Por aqui, Paulo teve problemas com o chefe e conta que não suportava mais a sobrecarga de trabalho e a remuneração incompatível com o estresse que enfrentava. No entanto, a decisão pela mudança veio acompanhada de uma grande decepção. Ele fez um teste em São Paulo para trabalhar como garçom na Espanha. Foi selecionado, mas teria de pagar R$ 4 mil para assumir o cargo na cidade de Palma de Maiorca. “Quando cheguei lá, não tinha empresa, não havia nada. Era uma fraude”. Desiludido, ficou desempregado durante um mês e meio, até que soube de uma empresa que contratava pessoas para serviços domiciliares.

“Fui contratado para cuidar de um casal de idosos”, conta. “Ganho menos do que no Brasil, mas sou mais feliz. Não preciso lidar com documentos, burocracia, conviver com juízes e auditores e ficar preso no escritório. Gosto de conviver com o ser humano e lidar com questões emocionais”. Com o casal de idosos – ele tem 75 anos, e ela 72 – Paulo aprendeu a importância de aproveitar a vida, cuidar da alimentação e fazer atividades físicas para viver bem por muitos anos. “Um dia, pretendo voltar ao Brasil e trabalhar com saúde ou estudar medicina.”

———-

Transcrito em São Paulo, 14 de Dezembro de 2009

Gratidão

A mensagem abaixo me foi enviada pela minha irmã mais nova, Eliane. Achei-a, mais do que linda, muito profunda. Transcrevo-a aqui. Sei que ela não vai objetar.

———-

Gratidão

Agradeço a DEUS porque eu não escolhi, mas fui escolhida.

Agradeço pela vida do João. O sentimento que nos une há 32 anos, não cabe em palavras!

Agradeço pela vida e pela saúde perfeita dos meus filhos Vitor e Diogo, herança de Deus em minha vida.

Agradeço pelos meus pais, pelo amor, cuidado, ensinamentos, sacrifícios, por tudo que eles representaram em minha vida, principalmente pela herança que me deixaram: a Fé e o Amor!

Agradeço pela vida dos meus irmãos: Eduardo, Flavio e Priscila.

Agradeço pela vida de todos meus  queridos que já voltaram para o nosso verdadeiro lar e venceram a morte.

Agradeço por ter perdoado a todos que me machucaram, e peço perdão a quem eu possa ter machucado.

Agradeço pelos caminhos que percorri, as necessidades que passei,anos de dificuldades e muito trabalho, que tanto me fizeram chorar, mas consegui superar com a ajuda de algumas poucas pessoas, que agradeço eternamente!

Agradeço porque tenho aprendido a respeitar os sagrados sentimentos das outras pessoas, apesar de muitas vezes não ter sido respeitada.

Agradeço a tantas pessoas que esperei amor e carinho, e não recebi, mas aprendi que não se pode dar aquilo que não se tem. Mas também agradeço por cada pessoa que passou na minha vida, e outras que ainda estão presentes, e me doaram amor.

Agradeço por todas as situações que eu não tive controle e sempre  considerei como perdas, na realidade me fizeram mais forte, e me ajudaram a resgatar  outros valores, e assim  recebi muito mais do que me foi tirado.

Agradeço por tudo que vivi e aprendi até agora. Algumas coisas bem difíceis, mas que me ensinaram o verdadeiro sentido da liberdade.

Hoje me sinto livre!

Livre das ilusões, dores, lágrimas, mentiras, tristeza, erros, culpas, hoje enfim estou liberta!

Agradeço por essa liberdade, e por ter me tornado quem eu sou.

Agradeço por querer me tornar uma pessoa cada vez melhor, para quando eu for embora, possa ir em paz e deixar um caminho de luz!

Agradeço por poder agradecer!

———-

Ane, obrigado pela mensagem.

Em São Paulo, 14 de Dezembro de 2009

The need to rest – really rest!

Message I sent to a friend of mine, who works like crazy, and now is feeling unwell, with pain all over… Lack of real rest is charging its price.

“I am sorry to say what I am going to say…

To go to the gym after (or during) work is not to rest…

To work for the community on weekends is not to rest…

To go to Disneyland on your vacation is not to rest…

Even machines need time down. Really down, inactive (not doing something else).

Much more we, complicated, sophisticated and delicate organisms that we are…

Believe me. I know.

Buddhists also know… “

São Paulo, on December 14th, 2009

Natal e Ano Novo

É apropriado que o Natal esteja próximo do Ano Novo. Uma semana apenas separa as duas ocasiões no calendário cristão ocidental.

A razão porque é apropriado que as duas festas estejam quase juntas é que ambas têm que ver com nascimento: o nascimento de Jesus, no dia 25 de Dezembro, o nascimento de um novo ano, no dia 1º de Janeiro. Nascimento é começo, é início, é princípio…

Gosto das duas festas assim juntinhas, porque na ocasião celebramos nossos recomeços. Não é por outra razão que as pessoas nessa época fazem resoluções que decidem cumprir a partir do ano novo. Ano novo, vida nova.

Nossa vida é uma sucessão de recomeços. A primeira escola, uma nova escola, o começo da vida pós-escolar. O primeiro emprego, um novo emprego, o começo da vida na aposentadoria. O primeiro amor. Um novo amor. O primeiro casamento. Um novo casamento. O primeiro filho. Um novo filho.

Recomeços são sinais de que somos seres em construção, de que não estamos acabados, de que ainda não chegamos ao fim, de que acreditamos que temos ainda vida para viver… E de que somos arquitetos e construtores de nós mesmos. E dessa tarefa devemos contas em primeiro lugar a nós mesmos. Talvez apenas a nós mesmos.

E a morte: o fim de tudo ou ainda outro recomeço?

A motivação maior por trás das crenças na imortalidade da alma, na transmigração de almas (reincarnação), na ressurreição do corpo está em nossa inconformidade ou pelo menos relutância em aceitar que a morte é o fim.

Neste Natal e Ano Novo desejo a você um bom recomeço. Bons recomeços, quem sabe, assim no plural… E que os recomeços façam você feliz – ou ainda mais feliz.

Em São Paulo, 14 de Dezembro de 2009

Bênçãos

Apesar de minha religiosidade deixar muito a desejar (para usar um eufemismo), gosto das bênçãos que o Judaísmo e o Cristianismo contribuíram para a nossa cultura.

Esta é a chamada “Bênção Aarônica”, encontrada no Velho Testamento (Números 6). Sempre a achei muito bonita:

“O Senhor te abençoe e te guarde.
O Senhor faça resplandecer o rosto sobre ti e tenha misericórdia de ti.
O Senhor sobre ti levante o rosto e te dê a paz”

(Números 6. Texto original em Hebraico:

יְבָרֶכְךָ יְהוָה, וְיִשְׁמְרֶךָ – yevarechecha Adonai veyishmerecha
יָאֵר יְהוָה פָּנָיו אֵלֶיךָ, וִיחֻנֶּךָּ – ya’er Adonai panav eleicha vichunecha
יִשָּׂא יְהוָה פָּנָיו אֵלֶיךָ, וְיָשֵׂם לְךָ שָׁלוֹם – yissa Adonai panav eleicha veyasem lecha shalom)

[Texto hebraico retirado da Wikipedia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Benção_sacerdotal]

Esta é uma bênção cristã antiga, do século IV, também muito bonita, que encontrei no site “Povo Metodista” (e transcrevo aqui com pequenas modificações de forma):

“Que o Senhor esteja ao teu lado, como teu amigo e companheiro de jornada;
que o Senhor esteja sobre ti, velando por ti e te abençoando;
que o Senhor esteja abaixo de ti, calçando os teus pés e firmando os teus passos;
que o Senhor esteja à tua frente, como a luz que ilumina a tua caminhada;
que o Senhor esteja às tuas costas, guardando-te completamente de pessoas maldosas e desleais;
que o Senhor esteja dentro de ti, dando-te força, coragem, fé e vontade de viver;
e que o Senhor esteja ao teu redor, envolvendo-te completamente com o seu amor.”

———-

Em Comentário, Sueli Cavalcanti Jardim me enviou esta bênção, irlandesa, que tomo a liberdade de acrescentar aqui, agradecendo a contribuição:

“Que a estrada se erga ao encontro do teu caminho;
Que o vento esteja sempre às tuas costas;
Que o sol brilhe quente sobre tua face;
Que a chuva caia suave sobre teus campos;
E, até que nos encontremos de novo,
Que Deus te guarde na palma de suas mãos.”

[Se outros leitores tiverem conhecimento de outras bênçãos, e quiserem compartilhá-las, ficarei grato.]

———-

Em 14.6.2012, dois meses antes de ele morrer (e dezenove dias antes de eu me casar com a Paloma na Igreja), o Rubem Alves me enviou uma série de poemas, cada um mais lindo do que outro, que eu guardo com carinho e cuidado, e, entre eles, estava a “Bênção Irlandesa”, que é quase idêntica à que a Sueli havia me enviado menos de três anos antes:

“Que o caminho seja brando a teus pés,
Que o vento sopre leve em teus ombros;
Que o sol brilhe cálido sobre tua face;
Que as chuvas caiem serenas em teus campos.
E até que eu de novo te veja,
Que Deus te guarde
Na palma de suas mãos!”

———-

Treze anos depois de eu escrever este artigo, em 3 de Dezembro de 2022, minha irmã Priscila de Campos Chaves me enviou a bênção abaixo, que parece ser uma versão mais completa da Bênção Irlandesa que a Sueli e o Rubem Alves me enviaram  (a segunda estrofe é basicamente a mesma). Transcrevo-a, fazendo pequenos ajustes no texto:

“Que o caminho seja brando a teus pés,
O vento sopre leve em teus ombros.
Que o sol brilhe cálido sobre tua face,
As chuvas caiam serenas em teus campos.
E, até que eu de novo te veja,
que Deus te guarde na palma de suas mãos!

Que a estrada abra à tua frente,
que o vento sopre levemente em tuas costas,
que o sol brilhe morno em e suave em tua face,
que a chuva caia de mansinho em teus campos.
E, até que de novo nos encontremos,
Que Deus te guarde na palma das suas mãos!

Que as gotas da chuva molhem suavemente o teu rosto,
que o vento suave refresque o teu espírito,
que o Sol ilumine teu coração,
que as tarefas do dia não sejam um peso nos teus ombros.
E, até que nos vejamos uma vez mais,
Que Deus te envolva no manto do seu amor!”

Em São Paulo, 13 de Novembro de 2009; revisado e ampliado em Salto, 3 de Dezembro de 2022.

Salvos da Perfeição – 2 (ou: "No limite entre a teologia e a poesia está o 'O Reino da Delicadeza'. . . ")

Estou lendo o livro ao qual já fiz referência em post anterior: Salvos da Perfeição, de Elienai Cabral Júnior, publicado pela Editora Ultimato. Vejam o link do livro:

http://ultimato.com.br/blogs/salvos_perfeicao/o-livro/

Estou gostando muito, O Elienai (como o Rubem Alves) se insere naquele “Ponto de Mutação” em que a teologia se torna poesia.

Eis alguns exemplos da Introdução, onde ele não alcança ainda os níveis mais altos de sua prosa poética:

"Ao lado da invenção de nossa humanidade como uma idéia de amor, temos a contrapartida triste do pecado. Não acho que o pecado tenha sido descrito como uma transgressão à regra do fruto proibido, mas o acolhimento da sugestão venenosa da Serpente de saber como Deus. De ver como Deus. De ser como Deus. De desprezar, portanto, a vida humana. "[…] seus olhos se abrirão e vocês, como Deus, serão conhecedores […]" (Gn 3.5). Fugir à nossa humanidade divinizando-nos é como sempre pecamos." (pp.16-17). "Pior que a pretensão tola de querer ser como Deus é a religião, em nome de Deus, subestimar a vida humana e insinuar um jeito angelical de viver como um ideal de santidade. Demoniza o que é humano e impõe uma agenda de pretensa divinização da vida." (p.17).

No processo de ler o livro, encontrei o blog do Elienai, no URL

http://elienaijr.wordpress.com/

Num magnífico post de seu blog, que tem o apropriado título de "O Reino da Delicadeza" sua teologia poética é capaz de mostrar a sua face mais linda e refrescante. Tomo a liberdade de aqui o transcrever na íntegra:

[Início da transcrição]

Um desconforto vem me acompanhando há bastante tempo. A dificuldade com que muitos recebem a proposta de uma religião radicada no amor e não no medo, na liberdade e não no patrulhamento moral, na maioridade e não na infantilização.
Ouço de tudo. Aquele que acredita que para algumas pessoas uma espiritualidade baseada na consciência e responsabilidade, frutos livres de uma relação de amor e não de constrangimento, é perigosa, quando não, pouco producente para os engajamentos religiosos. Há pessoas, afirmam com um pragmatismo encabulado, que precisam de regras, coerção e cobrança. Precisam de uma religião legalista. Caso contrário, não conseguem vencer seus vícios e pecados.

Outros desconfiam da liberdade. Pregar um Deus que ama em completa independência do desempenho humano é muito arriscado. Deus também é justiça! A Graça de Deus tem que ter limite. Se a pessoa não tiver medo do inferno, vai fazer tudo o que der na cabeça. Se não souber que existe uma punição divina para os seus deslizes, vai se tornar alguém imoral.

Vejo o descontentamento de alguns com a sugestão de que a imperfeição não é pecaminosa, mas um dom divino que torna a vida significativa e mais bonita. E, apesar de ninguém conseguir uma vida perfeita, esbravejam que Deus não pode abrir mão de que sejamos perfeitos.

Tirando de lado a questão semântica, de que a imperfeição a que me refiro é alusão ao que não está pronto, ao que é livre para ser, ou ao que está sempre em via de se tornar. Liberdade e não inconseqüência, leveza e não leviandade. O que, então, incomoda tanto algumas pessoas?

Por que o anúncio libertador de que Deus não espera de nós a perfeição amedronta alguns?

Desconfio de algo. Se tirarem o medo, ou a culpa, de sua fé, ficam sem fé. Se crer em Deus não for um movimento em busca de blindagem diante da insegurança do mundo, ou absolvição sem fim de uma insuperável culpa, revelam-se incrédulos. Ateísmo desesperado.

A religião a que fomos apresentados é um comportamento motivado pelo medo. Medo de não ser aprovado, o que é o mesmo que não ser amado. Ou medo de estar fazendo a coisa errada e ganhar um destino infernal. Foi a partir desse medo que aprendemos a rejeitar comportamentos tidos como réprobos. Fazemos e deixamos de fazer coisas pelo medo de sermos punidos pela implacável justiça divina.

Mas também medo de ficarmos expostos aos infortúnios de uma orfandade religiosa. Vivemos em um mundo inseguro, que muitas vezes se mostra desfavorável à nossa busca de bem estar. A religião promete um apadrinhamento divino. Foi a partir desse medo e da expectativa de um arranjo sobrenatural para garantir uma vida de exceção que aprendemos a cultuar nossas divindades.

A voz divina que aprendemos a ouvir é ou a voz ameaçadora frente à nossa vida moral, ou a voz de uma barganha com o Céu, que em troca de devoção e obediência, oferece a proteção que poucos tem. Propor uma espiritualidade movida por amor e, portanto, gratuidade não é um remendo possível ao que já tínhamos, mas um novo e levíssimo tecido religioso.

E a metáfora não é minha. É de Jesus. A religião que ele propõe não pode ser colocada como remendo em pano velho, ou vinho novo em odre velho. Em ambos os casos a convivência implicará em ruptura. O vinho novo da gratuidade no relacionamento com Deus exige um novo odre. É muita dinâmica para pouca dilatação. Tecer uma relação baseada no amor reivindica um novo tecido. É muita tensão para pouca resiliência.

Por que muitos reagem agressivamente à proposta de que Deus não espera nossa perfeição, mas tão somente nossa integridade? Porque se tirarmos a voz culpabilizadora de sua fé, ficam com uma fé muda. Sua reação escrupulosa revela a compreensão do que pregamos como uma ameaça à sua fé. Intimidam os olhos assustados e hostis. Cansa ver-se nos olhos de alguns religiosos como um inimigo de Deus. Iconoclasta.

Mas não terá sido a mesma tensão vivenciada por Jesus?
Enxergo a mesma dificuldade em seus discípulos quando Jesus sugere outra lógica para a nossa relação com Deus. No momento mais imponente de seus argumentos. Ressurreto contra toda a injustiça e humilhação de sua morte. Com uma prova material irrecusável, forte, violenta. Irresistível. Com visibilidade incontestável. Jesus afirma que nesta exata hora o melhor será sumir. Substituir a presença irresistível, visível e poderosa pela sutileza de uma brisa: o outro paráclito tem o nome de vento, o Espírito de Cristo ao invés do Cristo ressurreto. Ele diz que sumirá nesta hora para o bem de seus discípulos.

Uma presença delicada e discreta invoca e sensibilidade e cuidados como “não apaguem o Espírito.” “Não entristeçam o Espírito.” “Não resistam ao Espírito.” Uma presença que não nos substitui no enfrentamento da vida. Que não nos infantiliza em proteções excepcionais. Que não manipula comportamentos. Sem regras. Que faz da liberdade o ambiente próprio para a nova humanidade esboçada em Jesus. “Onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade.”

Somente um Deus com presença discreta, uma quase ausência, é capaz de lembrar-nos de que não somos escravos, mas filhos e não nos esmagar com sua absurda e insustentável grandeza. Daí compreendermos a imagem de Deus permitindo a Moisés ver a sua glória escondendo-o com a mão em uma fenda na rocha. Vê as suas costas, desfilam sua bondade e misericórdia. Tudo de Deus que podemos ter sem sermos desintegrados. Suas costas. Sua ausência de poder e força.

A presença discreta de Deus é a nossa única chance de integridade.

Um Deus discreto é um Deus quase ausente. Uma religião que continua ao substituir seus processos de infantilização é uma religião com pouquíssima religião. A vida proposta por Jesus a Nicodemos, nascida do Espírito, como o vento que ninguém sabe de onde vem e nem para onde vai.

Uma religião com pouco pastoreio e muita tolerância. Com dogmas frágeis e ritos sutis. Que deixa morrer suas instituições para sobreviver sua gente. Que desiste da hierarquia e esconde-se nos santos anônimos. Que ri dos jogos de poder e reverencia os gestos de amor. Que abre os braços, em cruz, para os riscos para não deixar de abraçar os vivos. Acolhimento das angústias e inseguranças das liberdades. Fermentação de humanos.

Um lugar que é menos espaço e mais ajuntamento. Um culto que é menos tempo e mais encontro.

Só uma religião discretíssima sobrevive a um Deus que é Espírito.

Só uma religião discretíssima sobrevive à maioridade dos religiosos.

Elienai Cabral Junior

[Fim da transcrição]

Obrigado, Volney (Faustini) por essa descoberta…

Escrito e transcrito em São Paulo, 18 de Outubro de 2009

Salvos da Perfeição – 1

Tenho tido, recentemente, a bem-aventurança de fazer alguns amigos que, apesar de eu os ter encontrado há pouco, parece que eu conheço há muito tempo…

Um deles é Volney Faustini.

Conheço, de nome, a família Faustini desde que me mudei do Paraná para Santo André, em 1952. Ouvia então, em disco (78 rpm), os magníficos duetos de Martha Faustini e Carlos René Egg. Adorava (e ainda adoro) o “Jesus o Bom Pastor”. Em 1961 fiquei conhecendo João Faustini, um dos irmãos da Martha, e não foi só de nome, pois me tornei aluno dele, no Instituto José Manuel da Conceição, em Jandira – onde o meu pai já havia sido colega da Martha na década de 30. Também lá fiquei conhecendo o Çláudio Marcos, irmão mais novo, que foi estudar lá. Depois fiquei conhecendo a Loyde, o Zwinglio, o Sérgio e o Valter. Mas o Volney, filho do Valter, só conheci agora.

Recebi do Volney, hoje, a indicação de um livro, com o título acima – escrito por Elienai Cabral Júnior (publicado pela Editora Ultimato). Vejam o link do livro:

http://ultimato.com.br/blogs/salvos_perfeicao/o-livro/

Já comprei o livro com base apenasmente (como diria Odorico Paraguaçu) no título, pois o título se casou perfeitamente com algo que venho pensando – e dizendo, em privado — por algum tempo.

No meu entender, a tradição judaico-cristã coloca a perfeição apenas em Deus. Assim, perfeito há apenas um: Deus. A despeito da existência de alguns textos que pareçam indicar o contrário, não faz parte da tradição judaico-cristã a perfectibilidade do homem – a busca de sua, gradual ou repentina, perfeição. 

Segundo a Bíblia, nossos primeiros pais, Adão e Eva, não foram criados perfeitos. Na verdade, foram criados imperfeitos e foram até proibidos de tentar ganhar a perfeição – algo que supostamente conseguiriam se comessem do fruto da árvore do bem e do mal. Deus os proibiu de comer desse fruto… (O Deus do Velho Testamento é um Deus que não admite concorrentes…)

A chamada queda, portanto, se deu porque nossos primeiros pais foram seduzidos pelas palavras da Serpente, que dizia que, se eles desobedecessem a Deus e comessem do fruto da árvore do bem e do mal, se tornariam iguais a Deus – vale dizer, perfeitos como ele.

O chamado pecado original, portanto, foi a busca humana da perfeição, alicerçada na crença de que ela era alcançável pelo homem. Essa crença na perfectibilidade humana é descrita como problemática porque ela gera uma série de pecados secundários: a soberba, o orgulho, a presunção, a arrogância. A presunção, porque ela nos faz imaginar que podemos nos tornar perfeitos, como Deus. A arrogância, porque ela inevitavelmente nos faz acreditar que estamos chegando perto… Tudo isso gera a soberba e o orgulho, pecados maiores e originais. E a soberba e o orgulho geram, por sua vez, o desprezo e a intolerância porque aqueles que se revelam ser humanos demais, pecadores demais, imperfeitos demais.

Saltando do Velho para o Novo Testamento, temos a parábola do Fariseu e do Publicano, em que esses pecados ficam claramente revelados e denunciados por Jesus – sempre descrito como “o Homem”, ou “o Filho do Homem”.

Aproveitando aqui, com a devida autorização dela, algumas coisas que a Paloma escreveu (em privado) recentemente, analisando a parábola do Fariseu e Publicano, relatada em Lucas 18:9-14. temos o seguinte quadro…

O texto da parábola começa assim:

"Propôs Jesus também esta parábola a alguns que confiavam em si mesmos, por se considerarem justos, e desprezavam os outros" (Lucas 18:9).

Na época de Jesus a sociedade judaica estava dividida. Jesus escolheu como objeto de sua parábola representantes de dois dos grupos em que se dividia a sociedade judaica: um fariseu e um publicano.

Os fariseus eram a elite religiosa daquele tempo. Os bons. Em suma: os perfeitos. Os publicanos, por outro lado, eram a “casta desprezada”, algo como os dalits, os intocáveis da Índia. Em suma: os símbolos da imperfeição.

Como esclarece Lucas, a parábola não foi contada para os publicanos, imperfeitos, cheios de pecados, mas, sim, para os fariseus, “que confiavam em si mesmos por se considerarem justos, e desprezavam os outros”.

Na parábola de Jesus o fariseu faz uma oração, atribuindo aos “demais homens” uma série de pecados que ele se vangloria de não cometer. Diz ele, em sua oração: “Oh Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros”. Não satisfeito de falar de seus méritos em relação “ao demais homens”, ele se compara diretamente com o publicano que orava mais embaixo, buscando mostrar a sua  superioridade (dele próprio, fariseu, naturalmente): “Graças te dou porque não sou . . . como este publicano”. Ainda não satisfeito, ele acrescenta méritos adicionais seus: “Jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho” (Lucas, 18:11).

Embora o termo “fariseu” tenha assumido, provavelmente desde que essa parábola entrou para a literatura mundial, um sentido relacionado à falsidade e à hipocrisia, Jesus não questiona que o fariseu era uma pessoa boa. Provavelmente, o fariseu não fazia mesmo nada do que ele alegava não fazer, e fazia tudo aquilo que afirmava fazer. O problema dele não era que ele dizia uma coisa e fazia outra.

Também na parábola, Jesus não nega que os publicanos eram pecadores. Na realidade, nem o próprio publicano nega isso – pelo contrário: ele o admite e confessa com todas as letras. Sua oração foi apenas: “Oh Deus, tem misericórdia de mim, pecador” (Lucas, 18:13).

É interessante que o publicano da parábola não se comparou com ninguém. Poderia ter dito: “Graças te dou, oh Deus, porque não sou soberbo, orgulhoso, presunçoso e arrogante como esse fariseu…” Mas não o fez. Apenas demonstrou que tinha consciência de que pecador e, portanto, imperfeito – e pediu a misericórdia de Deus.

O final da parábola é curto e grosso. Jesus concluiu: “Digo-vos que este [o publicano] desceu justificado para sua casa, e não aquele [o fariseu]; porque todo o que se exalta será humilhado; mas o que se humilha será exaltado” (Lucas, 18:14).

Conclui a Paloma: Deus nos ama, não por causa do que somos, ou do que fazemos, ou do que deixamos de fazer, ou de quão perfeitos somos, ou de quão perto da perfeição chegamos. Deus nos ama em função do que ele é.

Fim da citação da Paloma…

A sentença final de Jesus resume, de maneira incomparável, a mensagem evangélica da justificação pela graça, mediante a fé – não pelas obras. A justificação vem, não em função do que fazemos ou deixamos de fazer, ou em função de quão perfeito somos, ou de quão perto da perfeição chegamos. A justificação é um ato de graça, unilateral, gratuito e sempre imerecido.

O Jesus descrito nos Evangelhos como o Filho do Homem não buscou a companhia de gente que se julgava perfeita. Pelo contrário. Condenou os soberbos, orgulhosos, presunçosos e arrogantes, que se achavam perfeitos, ou pertos da perfeição. Jesus buscou a companhia dos admitidamente imperfeitos, Disse que os últimos seriam os primeiros, e os que tentavam ser primeiros seriam os últimos… Recusou-se a condenar uma adúltera que os que se presumiam perfeitos tentavam apedrejar, dizendo uma frase lapidar: “Aquele que estiver sem pecado, atire a primeira pedra!”… Moral da história: ninguém é sem pecado, ninguém é perfeito…

A doutrina que Jesus prega e a vida que ele vive mostram que, pela graça e pelo perdão divinos, estamos salvos da necessidade de tentar nos tornar perfeitos… 

Salvos da perfeição… O título do livro de Elienai Cabral Júnior é um primor. Ironizando, é um título perfeito. Espero que não me decepcione lendo o livro…

(Vítor: essa discussão é mais uma contribuição para o nosso Centro de Teologia Alternativa…)

Em Salto, 1º de Outubro de 2009

Orfandade

O meu post anterior foi sobre viuvez. Especialmente sobre a viuvez que existe quando alguém deixa de amar o cônjuge, mas, por alguma razão, não se separa dele… 

Este é sobre orfandade. Especialmente sobre a orfandade de pai ainda vivo. Da orfandade causada pela (real ou pretendida) morte do amor e do carinho pelo pai…

O anterior, eu o escrevi com a ajuda de Machado de Assis. Este eu escrevo com a ajuda da Danuza Leão, em sensível artigo publicado na Folha de hoje (20/09/2009), e transcrito adiante.

Ao lê-lo, pensei, naturalmente, no meu pai – e senti enorme saudade dele, com quem briguei muito na vida.

Mas pensei também, e principalmente, nos meus filhos. Hoje tenho dúvida de que, quando eu morrer, meus filhos venham a sentir saudade de mim desse jeito limpo e puro.

Nas piores brigas com meu pai, nunca deixei de amá-lo, nunca me julguei no direito de faltar-lhe com o devido respeito, nunca acreditei que podia ofendê-lo, atirar-lhe pedras…

Que eu me lembre, meu pai nunca me disse que me amava. Também não me lembro de ter sido acariciado por ele, nem mesmo quando criança. Acho que o presente mais caro que ele me deu foi uma caneta Parker 51, quando entrei no Ginásio, passando o concorrido Exame de Admissão do Américo Brasiliense em Santo André (1955). Ele era franco, sisudo, severo, duro nas palavras. Mesmo quando ele ficou dois anos sem falar comigo, depois de me dizer, no auge de uma discussão sobre religião, que preferia que eu tivesse nascido morto a que eu realmente acreditasse naquilo que estava lhe dizendo – mesmo então, nunca tive dúvida de que, no fundo, ele me amava, e nunca imaginei que, ao dizer e fazer o que disse e fez, ele estivesse renunciando a mim. E nunca me passou pela cabeça dizer-lhe que, então, eu renunciava a minha condição de filho, que ele não era mais meu pai, e que dali para a frente eu seria órfão de pai vivo… 

É isso que me permite sentir uma saudade limpa e pura dele hoje.

Será que mudaram as gerações? Será que mudaram porque mudou o nosso jeito de educar os filhos?

Os filhos de hoje, se você lhes faz todas as vontades, é o melhor pai do mundo (testemunhado, muitas vezes, até mesmo publicamente, no Orkut). Mas se não lhes faz a vontade em um só quesito que seja, ou não lhes atende uma só das inúmeras solicitações de apoio financeiro que fazem, eles removem o testemunho que haviam dado no Orkut, declaram para quem quiser ouvir que você não é mais pai deles, e não têm o menor escrúpulo de desrespeitar você grosseiramente, até mesmo com ofensas sérias, achando-se no direito de criticar não só as suas ações, mas  as suas convicções, os seus valores, o seu caráter, como se eles fossem sumidades intelectuais e autoridades morais, e você, pobre coitado, um burro insensível, imoral, cheio de falhas de todos os tipos, que só sabe fazer besteira na vida…

De um tipo assim não se sentirá saudade, quando ele não estiver mais aqui.

Ou será que sim?

———-

Folha de S. Paulo
20 de Setembro de 2009

DANUZA LEÃO
Lembrando de meu pai


E nos dizia que por amor uma mulher deve fazer tudo, pois nada é mais importante na vida


HOJE ACORDEI pensando em meu pai. Não é todos os dias que a gente se lembra dos que já se foram; e de alguns, quando a gente lembra, não dá para falar, porque ainda dói muito. Mas um dia você acorda lembrando de alguém que significou muito na sua vida, mas que na época você não sabia, só foi saber depois.

Não sou muito de datas, mas durante anos lembrei do dia do seu aniversário, do dia de sua morte; o tempo foi passando e fui aos poucos me esquecendo desses dias. E pensando bem, lembrar dele no dia do seu aniversário, da sua morte, não tem nenhuma importância. Tanto não tem que hoje, que não tem nada a ver com essas datas, acordei lembrando muito dele.
Desde que éramos pequenas, volta e meia eu e minha irmã ouvíamos nosso pai falar, um pouco brincando, um pouco a sério: "vocês não me dão valor, não escutam o que eu digo, um dia vocês vão ver que eu tinha razão". É claro que entrava por um ouvido e saía pelo outro, e ele, felizmente, não percebia.

Talvez depois que as pessoas morrem tenhamos uma tendência a idealizá-las, e é exatamente o que sinto pelo meu pai. Mais do que uma questão de inteligência, ele teve, desde cedo, o dom de saber o que era a vida; sem ilusões, guardando mesmo assim um lado muito poético dentro dele. O que, aliás, nos confundia muito. Quando falava no amor, era de um lirismo total; quando ainda jovem, foi eleito Príncipe dos Poetas Capixabas, teve seus poemas publicados em Vitória, onde morávamos, e tinha até o físico de um poeta -um pouco no gênero Castro Alves. E nos dizia que por amor uma mulher deve fazer tudo, pois nada é mais importante na vida.

Mas veja como era complicado ser sua filha: logo que me casei, não existiam telefones no Rio. Ou você comprava -e era um bem que se declarava no Imposto de Renda- ou se conseguia por meio de pistolão. Como meu marido era dono de um jornal, não foi difícil conseguir um, e meu pai disse logo que o telefone tinha que ser no meu nome, pois se alguma coisa acontecesse, tipo o casamento não dar certo, o telefone seria meu. Ora, como compreender um pai com posições tão diferentes? Quando pedi que ele me explicasse como poderia me dar conselhos tão opostos, ele sem nenhuma paciência, disse "ah, mas será que vocês não entendem? Mas não faz mal, um dia vocês vão entender". Como ele tinha razão.

Era como se ele tivesse nascido sabendo onde a vida nos ia levar, como se tivesse o dom de prever o futuro; por experiência ou um dom muito especial e raro, sabia onde iríamos parar com nossas escolhas, nossos casamentos, nossos amores. E bem que tentou nos explicar como é a vida, mostrando que em circunstâncias exatamente iguais, uma hora se deve agir de um jeito, na outra de outro jeito, mas isso é difícil de explicar -e de entender. Talvez por saber demais, a vida para ele foi muito pesada.

Ah, meu pai sabia das coisas. O que eu não daria para sair hoje com ele para almoçar, comermos aquela moqueca de lagosta de que ele gostava tanto e falar de tudo que aconteceu em todos esses anos, depois que ele se foi.

Do quanto ele tinha razão em tudo que me dizia; que saudade de você, meu pai.

danuza.leao@uol.com.br

———-

Em Salto, 20 de Setembro de 2009