Infantes e Crianças

Há três dias escrevi aqui um post com o título: “Crianças ou Adultos: Quem Está Desaparecendo?” (http://liberalspace.net/2014/03/10/criancas-ou-adultos-quem-esta-desaparecendo/). Minha atenção foi chamada para esse tópico por dois livros (que, segundo tudo indica, vou mencionar bastante nos próximos tempos):

Neil Postman, The Disapperance of Childhood

Diana West, The Death of the Grown-up

Conforme assinalei no post anterior, até o final da Idade Média (segundo Postman, até a invenção da prensa impressora por volta de 1450), não existia o que ele chama de criança (child) – que, para ele, é um conceito sociológico. Existia o infante (infant).

O infant (o ser humano até os sete anos), nesse período (até o início da Idade Moderna), não tinha direitos. Só passavam a ter (alguns poucos) direitos depois de se tornaem adultos (algo que se dava por volta dos sete anos). Certamente não tinham direito à educação, como hoje o entendemos. Cresciam analfabetas (como, de resto, também eram os adultos, em sua absoluta maioria). Aprendiam alguma coisa (em geral prática) vivendo no seio da família e da comunidade. Não tinham direito à saúde. Na realidade, não tinham nem mesmo direito à vida, posto que a prática de infanticídio era generalizada (e, em muitos lugares, vista como um direito dos pais: teve um filho de que não gostou, ou porque já tem demais, ou porque é defeituoso, ou porque é do sexo errado, mata – algo que acontece até hoje em alguns países presumivelmente civilizados em outros aspectos).

A propósito da “idade mágica” de sete anos, quando, em nossas sociedades modernas de algumas décadas atrás, os infantes começavam a frequentar a escola, tornando-se, não adultos, como na Idade Media, mas crianças (algo que continuariam sendo até os dezessete anos, por aí, ou seja, enquanto eram “de menor”), Postman assinala que a Igreja Católica Medieval considerava que, aos sete anos, o infante virava adulto, porque se tornava, mais ou menos nessa idade, plenamente capaz de discernir entre verdade e falsidade, entre bem e mal, entre certo e errado. Por isso, podia fazer sua “confirmação” (a confirmação era do batismo, em geral ocorrido quando o infante era bem novinho, para que ele não corresse o risco de “morrer pagão”), trabalhar, e até mesmo se casar – ou, pelo menos, ser “comprometido” em casamento, esperando para “consuma-lo” até que se tornasse púbere, porque, afinal de contas, o casamento era vista como tendo a finalidade precípua de propagar a espécie de forma não pecaminosa.

Hoje, a criança de sete a dezessete anos (e mesmo as mais novas) têm todo tipo de direito, que não vou discutir aqui, exceto em um caso. Até o direito de matar impunemente a ex-namorada aos dezessete anos, onze meses e vinte e oito dias, como plenamente noticiado nos jornais impressos e televisionados do dia de ontem, 12/3/2014).

Fiquem tranquilos que não vou discutir a questão da menoridade penal (que eu acredito que não deveria existir). Vou discutir outra coisa, a saber:

Se a criança, especialmente nessa faixa de sete a dezessete anos, é sujeita e portadora de direitos, inclusive alguns bem sofisticados, tem ela o direito de se recusar a frequentar a (isto é, uma, qualquer) escola? Eu acho que deveria ter. Concordo plenamente com a Igreja Católica que a criança de sete anos, pelo menos a de hoje, já tem condições de discernir entre verdadeiro e falso, bom e mau, bem e mal, certo e errado. A Igreja Católica, pelo que me consta, faz confirmação de crianças dessa idade. Igrejas Protestantes fazem profissão de fé ou promovem o batismo “nas águas” (batismo por imersão, reservado a adultos) de crianças dessa idade (um um pouquinho mais). Nosso governo bolivariano está vacinando meninas de onze anos contra uma moléstia sexualmente transmissível e dizendo a elas que, além da vacina, não devem se esquecer de que devem usar camisinha na hora de transar.

Ora, se aos doze anos (vamos ficar aqui, para ninguém se invocar com os sete) a criança já pode escolher se vai namorar ou não, se vai transar ou não,  e optar por ir para o céu (e não para o inferno), submetendo-se a confirmação, profissão de fé, batismo “nas águas”, por que não pode decidir se vai para uma escola para obter sua educação, ou se vai se educar por aí, umas com as outras, “em comunhão” (como dizia Paulo Freire), com a mediação (ou mediatização, na linguagem dele) do mundo – ou se vai se educar em casa, num regime de home education?

Todos os defensores dos direitos das crianças lhes negam esse direito básico de decidir como vai se educar. Se a criança em idade escolar (que vai, a partir de 2016, ser de quatro a dezessete anos) for flagrada não matriculada numa escola, os pais estão ferrados – ainda que sejam professores renomados tentando educar seus filhos em casa.

Acho isso um absurdo. (Como acho um absurdo não mandar para a cadeira elétrica o sujeitinho que matou a ex-namorada – e filmou o assassinato – dois dias antes de completar dezoito anos.

Está tudo errado.

Em São Paulo, 13 de Março de 2014.

Vagabundagem e Bagunça

Está bom… poderia ter dado a esse post o título de “Ócio e Indisciplina”. Mas fica esse título mais escrachado…

O que segue foi tirado de um post que publiquei no Facebook no dia 15/11/2012, Dia da Proclamação da República, feriadíssimo. Estava em casa, sozinho, e escrevi (com algumas pequenas alterações editoriais):

Aproveitando o feriado, hoje não pretendo fazer nada. Nada de útil, quero dizer. Só coisa inútil, mas prazerosa. Tipo beber um bom conhaque comendo um bom queijo… E/ou ficar batendo papo no Facebook… Ou lendo revistas, ou fuçando ora num livro, ora noutro…

Otium cum dignitate.

É preciso alcançar um nível razoável de auto-controle e auto-estima para conseguir voluntária e intencionalmente vagabundear, sem ter qualquer sentimento de culpa (algo especialmente difícil dadas as minhas profundas raizes calvinistas: sempre me ensinaram que uma pessoa desocupada é uma presa fácil para o Diabo).

Por outro lado, o Alípio Casali, que foi professor da minha mulher, Paloma Epprecht Machado Campos Chaves, um dia disse em aula, num lampejo de gênio filosófico, que a inteligência não prospera sem uma forte dose de vagabundagem.

Dias depois de ouvir isso, leio numa coluna do Gilberto Dimenstein algo parecido: a criatividade não prospera exceto em ambientes com uma forte dose de bagunça e desorganização…

É isso. Pensem sobre esses fatos (e não tenho dúvida de que são fatos).

Em São Paulo, 18 de Novembro de 2012

Steve Jobs (1955-2011)

Post que publiquei no Blog das Editoras Ática e Scipione em 10 de Outubro de 2011, no URL http://blog.aticascipione.com.br/eu-amo-educar/steve-jobs.

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Talvez nem seja necessária uma justificativa para escrever sobre Steve Jobs, neste momento em que ele acaba de partir, num blog em que trato essencialmente de educação e tecnologia. Ainda assim, esboço uma justificativa: em seu ciclo inicial, a empresa que Jobs fundou considerou a educação o seu principal mercado – entre 1977 e 1984, por exemplo, o Apple II (principal produto da casa) provocou o surgimento de uma quantidade enorme de softwares educacionais. Ao longo de sua trajetória, a Apple fez parcerias com um grande número de Distritos Educacionais na Califórnia (onde estava sua sede) e em outros estados; implantou, ainda, descontos substantivos para professores e alunos (como, de resto, faz até hoje).

Apple Jobs Silhouette

Apple Crying

Fotos: Divulgação/Apple

Meu primeiro contato com um microcomputador remonta a estes tempos: conheci um Apple II por volta de 1979, através de um colega da Unicamp, especialista em Linguística Computacional (algo que eu nem sabia que existia). O equipamento em si me chamou a atenção, mas quando ele me demonstrou as aplicações da linguagem de programação ProLog (Programming in Language) para o aprendizado de Lógica, eu me encantei. Ali na hora tomei a decisão de comprar um equipamento daqueles quando pudesse… Até hoje, cerca de 30 anos depois, ainda guardo o meu clone brasileiro do aparelho, fabricado pela Unitron.

Depois travei contato com a linguagem de programação Logo, desenvolvida no MIT – Massachusetts Institute of Technology, por Seymour Papert, para uso na educação, em especial pelas crianças. Havia, para o Apple II, pelo menos duas implementações de Logo: a da LCSI – Logo Computer Systems International, chamada Apple Logo, de Toronto, e a da Terrapin Logo, de Cambridge (MA), que era, segundo constava, a implementação mais próxima das diretrizes de Papert.

Enfim, apenas estas breves linhas justificam minha decisão de escrever sobre Steve aqui. Mas há mais. Muito mais. Em seu discurso de paraninfo na Universidade de Stanford, em 12 de junho de 2005, Steve diz uma série de coisas importantes em que eu venho insistindo neste blog. Vou especificar algumas.

A primeira é que a escola às vezes atrapalha – e quando ajuda, frequentemente o faz sem querer. No discurso, Jobs diz que aos 17 anos foi enviado para a universidade (Reed College, uma instituição realmente cara), conforme promessa solene que seus pais adotivos fizeram à sua mãe biológica. O rapaz cursou apenas um semestre e desistiu. Ele explica:

“Depois de seis meses, eu não conseguia ver nenhum valor no que eu estava fazendo. Eu não tinha a menor ideia do que eu queria fazer com a minha vida nem de como a universidade poderia me ajudar a descobrir. E eu estava lá gastando toda a poupança que meus pais haviam feito durante sua vida inteira. Assim, decidi abandonar o curso na confiança de que as coisas de alguma forma iriam dar certo. Foi bastante assustador, na época, mas, olhando no retrovisor, aquela foi uma das melhores decisões que tomei em toda minha vida.”

Steve desistiu do curso, mas ficou durante um ano e meio rodando pelo campus universitário. Sem dinheiro, dormia em colchões no chão do quarto de seus amigos. Recolhia e devolvia garrafas para receber cinco centavos por cada uma, assim ganhando o dinheiro com o qual se alimentava (em geral, mal). No fim de semana andava mais de dez quilômetros para ir a um templo Hare Krishna para ganhar sua única refeição decente da semana.

O que fazia ele perambulando pelo campus?

“Tendo desistido da Universidade, eu não tinha a obrigação de frequentar as aulas de nenhum curso que não me interessava, e podia aparecer em aulas de cursos que pareciam interessantes. (…) Isso eu amava fazer. E muito daquilo em que tropecei enquanto seguia minha curiosidade e intuição, acabou por se tornar inestimável mais tarde em minha vida.”

Uma universidade sem dúvida é um lugar onde existem coisas interessantes. Às vezes é preciso procurar bastante, mas no final a gente geralmente acha. Steve achou. O quê? Um curso de caligrafia!

“O Reed College naquela época oferecia o que possivelmente era o melhor curso de caligrafia do país. Todos os posters existentes no campus, toda etiqueta de gaveta, tudo era maravilhosamente caligrafado à mão. Porque eu havia desistido do meu curso e não tinha de frequentar as aulas regulares, decidi fazer o curso de caligrafia para aprender a escrever de maneira assim tão linda. Aprendi sobre fontes com serifa e sem serifa, sobre a variação no espaço entre diferentes combinações de letras – tudo aquilo que torna a melhor tipografia um lugar fantástico. Era lindo, histórico, artisticamente sutil de uma forma que a ciência não tem jeito de capturar. E eu achei tudo fascinante. Mas nada daquilo parecia, nem mesmo de longe, ter qualquer utilidade para minha vida.”

O belo e o útil… A caixa de brinquedos e a caixa de ferramentas de Rubem Alves. Aqui está a diferença que Edgar Morin apontou, entre a prosa, que nos permite dizer o que precisamos ou queremos dizer, e a poesia, que nos dá l

Só muito mais tarde Steve descobriu quão útil aquele curso de caligrafia lhe foi, quando descobriu a importância do design nos produtos da Apple: o design limpo (clean), simples, atraente, lindo mesmo, em que forma e função se integram. Foi por isso que decidiu dar uma interface gráfica ao Macintosh, com tipos gráficos na tela que faziam lembrar o seu curso de caligrafia, deixando para trás, definitivamente, aquelas letras feias com espaço fixo entre elas que apareciam na tela dos outros computadores. Assim, Reed College acabou sendo útil para Steve – embora sem querer…

Agora, a explicitação da segunda grande lição que Steve nos dá no seu discurso de paraninfo. Ele já havia mencionado que, no seu único semestre como aluno regular da Universidade, “não tinha a menor ideia do que eu queria fazer com a minha vida nem de como a universidade poderia me ajudar a descobrir”, mas adiante diz: “Eu tive sorte: descobri o que eu amava fazer cedo na vida. Woz [Steve Wozniak] e eu fundamos a Apple na garagem da casa dos meus pais quando eu tinha 20 anos”.

Três anos depois de perceber que não tinha a menor ideia do que queria fazer da vida, Steve descobriu que queria projetar computadores. E projetou. O primeiro (o Apple I) e o segundo (o Apple II) não foram lá uma beleza em termos de design, mas este último se tornou um sucesso, mesmo assim. Foi ele que me atraiu (também) para a área de informática.

A lição de Steve é que o sucesso eventualmente chega para quem ama o que faz. E que quanto mais cedo a gente descobre o que é que a gente ama fazer, maiores são as chances de sucesso. Como é que Steve descobriu o que é que ele amava fazer? Ele não nos diz.

Ele reconhece que, quando desistiu da universidade, o fez por si mesmo e por consideração aos pais: estava perdendo seu tempo ali e desperdiçando o dinheiro deles. Sentiu-se perdido. No entanto, não perdeu a confiança de que “as coisas de alguma forma iriam dar certo”. Sabia que em algum momento descobriria o que queria fazer da vida. “A fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de coisas que se não veem”, já dissera São Paulo.

Foi só em retrospectiva que Steve conseguiu “unir os pontos” e enxergar com clareza como sua vida posterior se ligou com aqueles acontecimentos dos seus 17, 18 anos.

“Ninguém é capaz de conectar os pontos do passado para o futuro. Mas é possível conectá-los do presente para o passado, olhando no retrovisor. Assim, lá atrás, você tem de confiar que os pontos vão de alguma forma se conectar no futuro. Você precisa confiar em algo – seu instinto, seu destino, seu carma, seja o que for. Esta maneira de ver as coisas nunca me deixou na mão, e fez toda a diferença em minha vida.”

Steve não nos conta como descobriu o que amava fazer na vida, mas nos revela onde está a chave do segredo.

Às vezes pode parecer que as coisas não vão dar certo. Em 1985, Steve foi mandado embora da companhia que ele mesmo havia criado. Parecia que um desastre havia acontecido no caminho de seu encontro com o seu destino.

“Eu não conseguia ver, então. Mas as coisas acabaram acontecendo de tal maneira que ter sido mandado embora da Apple foi a melhor coisa que jamais podia ter acontecido comigo. O peso de ser bem sucedido foi substituído pela leveza de ser novamente um iniciante, agora menos certo acerca de tudo. Esse fato me libertou e me permitiu entrar num dos períodos mais criativos de minha vida.”

A insustentável leveza de ser capaz de começar de novo, sem o peso do passado. Mas, diz ele, não foi fácil:

“O remédio foi terrível, mas creio que o paciente precisava dele. Às vezes a vida acerta uma tijolada na cabeça da gente. Nunca perca a fé. Estou convencido de que a única coisa que me manteve em pé, disposto a continuar, foi o fato de que eu amava o que eu fazia. Você tem de encontrar o que você ama. Isso é verdade em relação ao seu trabalho, mas é verdade também em relação aos seus amores. Seu trabalho vai preencher um espaço grande de sua vida, e o único jeito de ficar satisfeito com o seu trabalho é fazendo aquilo que você considera um trabalho excelente. E o único jeito de fazer um trabalho excelente é amando o que você faz. Se você ainda não descobriu o que você ama fazer, continue procurando. Não se acomode. Como tudo o que diz respeito ao coração, você vai saber quando você encontrar aquilo que você ama fazer. E, como em qualquer relacionamento amoroso genuíno, as coisas só ficam melhores, a partir daí, com o passar do tempo. Assim sendo, continue a procurar, até que você ache. Não se acomode.”

É porque ele fazia o que amava fazer que Steve foi capaz de construir tantos produtos tão desejados por nós hoje. No entanto, em outro lugar, não no discurso de paraninfo, ele demonstra que o que o movia a fazer esses produtos não era um desejo altruísta de agradar o consumidor, nem mesmo o desejo egoísta de ganhar dinheiro: era a satisfação, talvez mais egoísta ainda, de saber que ele fez simplesmente o melhor que podia — e que podia fazer coisas da mais alta qualidade e beleza.

Eis o que disse, logo depois de lançar o Macintosh:

“Sabemos que o Mac vai vender zilhões, mas nós não o construímos para ninguém mais: nós o construímos para nós mesmos. Nós, que o construímos, seríamos o grupo que iria julgar e decidir se o Mac era fantástico ou não. Nós não iríamos sair de onde estávamos para fazer pesquisa de mercado. Nós simplesmente queríamos construir a melhor coisa que fôssemos capazes de construir.”

Em outras palavras, o Mac poderia ser um fracasso de mercado (como o Lisa, antes dele, o foi) – mas esse fato não os levaria a considerá-lo menos fantástico. Eis outra citação magnífica:

“Quando você é um carpinteiro fazendo uma linda cômoda, você não usa aglomerado na parte de trás, mesmo que aquela parte vá ficar grudada na parede e ninguém jamais a veja. Você sabe que a parte de trás da cômoda estará lá, em aglomerado. Para que você possa dormir bem à noite, a estética, a beleza, a qualidade têm de ser levadas ao extremo, em todos os aspectos”.

Termino com duas citações que me parecem ser as melhores de Steve, estas novamente retiradas do discurso de paraninfo:

“O tempo de sua vida é limitado. Por isso, não o desperdice vivendo uma vida ditada por terceiros. Não se deixe pegar na armadilha do dogma que lhe diz para viver com o resultado dos pensamentos de outrem. Não deixe que o barulho das opiniões dos outros abafe o som de sua própria voz interior. E, mais importante de tudo, tenha coragem para seguir a sua intuição, o seu coração. Eles de alguma forma já sabem o que você realmente quer se tornar. Tudo o mais é secundário.”

A segunda citação nos dá uma pista acerca do que pode ter levado Steve a encarar a vida tão a sério e a descobrir, depois de sair da Universidade, aos 17 anos, mas antes dos 20 anos, o que queria fazer de sua vida.

“Quando eu tinha 17 anos, li uma citação que dizia algo assim: ‘Se você viver cada dia como se fosse o último dia de sua vida, um dia qualquer você certamente estará certo’. Essa citação causou profundo impacto sobre mim. Desde então, nos 33 anos que decorreram de lá para cá, eu me olho no espelho toda manhã e me pergunto: ‘Se hoje fosse o último dia da minha vida, eu iria querer fazer o que estou prestes a fazer hoje?’ E sempre que a resposta foi ‘não’ por um número demasiadamente grande de dias seguidos, eu soube que precisava mudar alguma coisa”.

Que bela lição de educação. Que bela lição de vida. Estou convicto de que Steve só conseguiu nos legar essas lições porque abandonou a universidade.

Em São Paulo, 10 de Outubro de 2011, transcrito aqui em 11 de Outubro de 2011

Educação e Felicidade

Artigo que publiquei em 19/07/2011 no Blog das Editoras Ática e Scipione, no endereço http://blog.aticascipione.com.br/eu-amo-educar/educacao-e-felicidade.

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As competências não cognitivas, como a sensibilidade, as emoções, a criatividade, os valores e as atitudes não parecem relevantes ao trabalho pedagógico realizado na escola convencional.

Nos mais de 30 anos em que fui professor de Filosofia da Educação para as primeiranistas do curso de Pedagogia da Unicamp (95% dos alunos eram mulheres), fiz um levantamento com as minhas turmas sobre possíveis objetivos para a escola. O levantamento foi adaptado de algo que fazia meu colega Morris J. Weinberger, daUniversidade de Bowling Green, em Ohio. Vi o levantamento quando ele passou um ano sabático na Unicamp, em meados da década de 70 (acho que em 1976).

O levantamento listava 20 possíveis objetivos para a escola de Educação Básica e pedia que as alunas hierarquizassem individualmente esses objetivos segundo sua preferência, depois de discutir durante cerca de 30 minutos com as colegas. Aquele que fosse o principal objetivo da escola ficaria em primeiro lugar na resposta do aluno – e, claro, o objetivo colocado em vigésimo lugar não seria algo que a escola devesse perseguir, na opinião de quem estivesse respondendo ao levantamento. Na sequência, fazia-se a média da classe.

Estes são alguns dos possíveis objetivos listados para a escola:

  • “Ensinar o aluno a pensar criticamente”;
  • “Contribuir para que os alunos alcancem autonomia na vida”;
  • “Ajudar o aluno a se conscientizar dos problemas sociais e a aprender a lutar por uma sociedade melhor e mais justa”;
  • “Conseguir que o aluno assimile bem os conhecimentos apresentados e obtenha bom rendimento nas provas”;
  • “Contribuir para que o aluno possa entrar numa boa universidade e oportunamente arranjar um bom emprego”.

“Ajudar os alunos a alcançar a felicidade” sempre apareceu em penúltimo lugar nas respostas de minhas alunas. Só perdia para o objetivo que aparecia consistentemente em último lugar: “Ajudar os alunos a alcançar sucesso financeiro (enriquecer)”.

Vou deixar a questão do enriquecimento de fora. No tocante à felicidade, porém, considero essa consistente colocação em penúltimo lugar do objetivo relacionado à felicidade uma aberração muito séria. Uso o termo conscientemente. E me indago, sem encontrar uma resposta clara, acerca do que teria levado as alunas a essa aberração.

A educação, quando entendida como um processo mediante o qual nos desenvolvemos como seres humanos, tem que ver com a construção de capacidades que tornam possível que:

  • Sonhemos nossos próprios sonhos;
  • Transformemos nossos sonhos em projeto de vida consistente e defensável;
  • Realizemos esse projeto de vida, tornando-o “vida vivida”.

Quando conseguimos fazer isso, sentimo-nos realizados, bem-sucedidos na vida. Em outras palavras, sentimo-nos felizes. Logo, o principal objetivo da educação, entendida esta como processo de desenvolvimento humano, é que alcancemos a felicidade. O resto é meio.

Confesso que esse entendimento da educação e do desenvolvimento humano é derivado mais da cultura grega clássica do que da cultura cristã que dominou o Ocidente por tanto tempo. Por isso esse entendimento chega a soar um pouco pagão, talvez quase hedonista (embora em nenhum momento se faça referência a prazer). Esse entendimento parte do pressuposto de que o homem está aqui nesta Terra para conquistar, nesta vida, a felicidade, entendida como autorrealização, porque essa felicidade é sua por direito.

Os gregos tinham um conceito, representado pelo termo eudaimonia, que exprimia perfeitamente esse sentido da vida, para o qual a educação deveria decididamente contribuir: autorrealização. Para que alguém a alcance, afirmavam eles, precisa, acima de tudo, aprender a ser humano…

1.) Autoconhecimento
Para aprender a ser humano o homem precisa, primeiro, conhecer-se a si próprio. O autoconhecimento envolve a capacidade de identificar e reconhecer, em si próprio:

  • Os pontos fortes (strengths), ou talentos, e os pontos fracos (weaknesses), ou áreas a monitorar;
  • Os seus interesses, gostos, preferências, atitudes, paixões, valores, áreas de sentido ou importância especial;
  • O seu pertencimento a grupos significativos, como, por exemplo, a família, a vizinhança ou comunidade local, a comunidade dos amigos e colegas, os que partilham ideias religiosas, políticas ou filosóficas afins, a etnia, a nação, o continente, ou mesmo o planeta, que ajudam a dar sentido à vida.

2.) Criatividade
Criatividade é a capacidade de imaginar coisas que não existem e de encontrar formas de criá-las, de encontrar soluções novas e originais para problemas, recentes ou antigos, de encontrar problemas onde nenhum era visto etc.

3.) Tomada de decisão
A capacidade de tomar decisões envolve reconhecer situações que exigem uma escolha, identificar e avaliar as opções e alternativas, e selecionar a melhor alternativa com base em valores, interesses pessoais ou sociais e objetivos de vida.

4.) Gestão estratégica da vida
A capacidade de gerir estrategicamente a vida envolve a definição de um projeto de vida, incluindo aspectos pessoais, sociais e profissionais, além da determinação dos passos básicos necessários para transformá-lo em realidade.

5.) Construção da identidade
O processo de construção da identidade desemboca na capacidade de se ver e reconhecer como ser humano único e irrepetível e de respeitar e apreciar os demais seres humanos pelas semelhanças e diferenças que exibem em relação a si próprio.

6.) Busca de autorrealização
Por fim, tudo isso culmina com a autorrealização, que é a determinação de persistir sempre na tentativa de realizar o projeto de vida, vivendo de tal modo que se possa, um dia, fazer jus à sensação de ver seus objetivos alcançados, de ter cumprido seu dever consigo próprio, de ter alcançado sucesso, de ter vivido a vida em sua plenitude. A felicidade é isso.

A busca de autorrealização é compatível com dificuldades e mesmo fracassos em determinados pontos da jornada. Ela envolve a capacidade de perceber quando o projeto de vida definido precisa ter correções de rumo, ou ser até mesmo substituído, e de identificar as razões que tornam as mudanças necessárias, mas tudo isso sempre sem perder de vista que o fim principal do ser humano é se realizar nas múltiplas dimensões em que a vida se desdobra, e que incluem, pelo menos, a vida pessoal, social e profissional.

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Isso posto, é preciso reconhecer que a escola, como a conhecemos, aquela que podemos chamar de escola convencional, não parece ter muito a ver com nossa felicidade. Pelo contrário. Muitos de nós nos sentimos entediados e frustrados na escola. A escola convencional organiza suas atividades em aulas, e aulas são quase universalmente consideradas coisa extremamente chata.

Gostaria de sugerir duas razões para esse estado de coisas:

Em primeiro lugar, a felicidade tem componentes cognitivos (como a consciência de que você conseguiu realizar o seu projeto de vida, que é a face racional do seu sonho), mas também tem componentes não cognitivos: a sensação de autorrealização, o sentimento de satisfação pelo sucesso alcançado, o prazer que advém do reconhecimento de que você viveu a vida que queria viver em sua plenitude.

A escola convencional, porém, só foca o cognitivo. E não foca nem mesmo as competências cognitivas, preferindo apenas encher as cabeças de seus alunos de informações e conhecimentos. Como disse uma vez Sir Ken Robinson, a escola parece pressupor que seus alunos só têm cabeça, não têm coração nem corpo… E quer fazer da cabeça de seus alunos, como um dia disse Rubem Alves, umas cabeçonas obesas, com pouca agilidade… (Professores universitários, segundo Sir Ken Robinson, parecem achar que o único uso relevante de seus corpos é levar sua cabeça a conferências e congressos…).

As competências não cognitivas, a sensibilidade, as emoções, a criatividade, os valores, as atitudes, nada disso parece relevante ao trabalho pedagógico que tem lugar na escola convencional.

Alain de Botton, filósofo suíço, disse em entrevista à Folha de S. Pauloem 16/7/2011:

‎”Se uma pessoa for a uma boa universidade, como Harvard, Oxford ou Cambridge, e pedir aconselhamento sobre moral, ou se disser que quer aprender como viver, vão encaminhá-la para uma instituição psiquiátrica. As universidades acreditam que todos somos adultos racionais, que precisamos apenas de informação e dados, não de ajuda.”

Essa citação sugere que a felicidade tem que ver com a realização de nosso projeto de vida. Para definir um projeto de vida e transformá-lo em realidade precisamos fazer escolhas e, como vimos em artigo anterior, escolhas têm que ver com valores. Valores são algo de que a escola foge como o diabo da cruz. A escola, sob uma pretensa adesão à ciência, têm se preocupado com fatos, não com valores que possam orientar as escolas e as ações. É isso que a citação de Alain de Botton sugere.

Em segundo lugar, a felicidade é algo que se alcança através da ação consciente e intencional.  Há os que dizem, com verdade, que a felicidade não é apenas uma linha de chegada, mas também todo o processo que leva a essa linha. O caminhar é tão importante quanto o destino, porque, ao desejar chegar a um determinado lugar, ao desejar transformar um projeto de vida em realidade, desejamos, também, os meios que nos levarão lá, os processos que permitem que o projeto de vida se concretize em nossa vida.

A escola convencional não dá quase nenhuma importância ao fazer, ao saber fazer, ao desenvolvimento de competências e habilidades. Na escola tradicional espera-se que o aluno fique passivamente quieto e que preste atenção ao que diz o professor. Assim sendo, há um claro descompasso entre a vida e a escola, entre a busca da felicidade e o que se aprende nos bancos escolares, entre aspectos cognitivos e aspectos vitais de nossa vida (para tomar emprestada uma frase de Hugo Assmann).

Ser feliz (diferentemente de estar contente) é uma condição duradoura, não um estado momentâneo. É feliz aquele que, sobre o alicerce de seus valores, é capaz de definir seu projeto de vida e transformá-lo em realidade. Em outras palavras, feliz é aquele cujos valores determinam os seus sonhos e que é capaz de transformar os seus sonhos em realidade. A felicidade existe – não é uma quimera.

O objetivo maior de nossa vida não é sobreviver: é alcançar a felicidade. Viver a vida em sua plenitude é ser capaz de fruir a vida, ser feliz… O papel fundamental da educação é nos ajudar a viver a vida que, com base em nossos valores, escolhemos para nós mesmos.

O que nos traz a felicidade é, portanto, a realização de um projeto de vida defensável, alicerçado em valores: não o mero alcançar daquilo que simplesmente queremos.

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Tomando emprestada uma ideia de Karl Popper, o que torna a vida o valor supremo é o fato de ela ter duração limitada e desconhecida: pode terminar a qualquer hora… Os jovens em geral não se dão conta disso: pensam que têm todo o tempo do mundo. São os mais velhos que em geral percebem que seu recurso mais valioso não é dinheiro ou qualquer outro: é tempo. Tempo de vida.

O tempo é um recurso interessante… É igual para todos: um dia tem 24 horas para todo mundo, rico ou pobre, culto ou inculto, britânico, suíço ou brasileiro. No entanto, uns conseguem fazer muita coisa em um dia, outros veem os dias passar sem conseguir fazer grande coisa…

Administrar o tempo não é tornar-se escravo do tempo, mas tornar-se senhor dele. Administrar o tempo não é ficar obcecado com o relógio: é definir prioridades e levá-las a sério. Tem tempo, não aquele que não faz nada, mas aquele que sabe administrar prioridades e fazer o que realmente importa para ele, no quadro de seu projeto de vida.

Não somos donos de boa parte de nosso tempo – pois o vendemos (em troca de dinheiro). Mas a importância do dinheiro está no fato de que ele também nos permite comprar tempo.  A solução do dilema está em conseguir ganhar dinheiro fazendo o que realmente importa.

Ser produtivo, portanto, não é estar sempre ocupado. (Na verdade, gente muito ocupada em geral não é muito produtiva). Ser produtivo é saber administrar o tempo, ter prioridades, ter sentido de direção, saber para onde se vai.

Administrar o tempo, em última instância, é planejar estrategicamente a vida. Quem dentre nós tem um projeto de vida, ou seja, realmente sabe o que deseja e espera da vida? Quem dentre nós tem um plano para onde deseja estar na vida daqui a 5, 10, 20, 50 anos? “Quem não sabe para onde vai nunca vai chegar lá – ou acaba indo para qualquer lugar” – vide Alice no País das Maravilhas.

A importância da administração do tempo está em que, quando acaba o nosso tempo, acaba a nossa vida. Quem administra o tempo ganha vida, ainda que viva o mesmo tempo que os outros. Prolongar a vida não é algo sobre o qual tenhamos muito controle. Mas ganhar mais vida, administrando o tempo, está ao alcance de todos!

Para planejar estrategicamente a vida o primeiro passo é determinar onde estamos e escolher aonde queremos chegar. Escolher aonde queremos chegar é definir um projeto de vida. A natureza da educação tem a ver com mudança: transformar o ser incompetente, dependente, inautônomo, arresponsável que nasce em um adulto capaz, competente, livre, autônomo para escolher sua vida e responsável pelas escolhas que faz.

Muitos de nós tentamos mudar os outros, ou as instituições, antes de entender que a mudança começa conosco: em realidade, só conseguimos mudar a nós mesmos. A educação deve ser voltada para a vida, nos capacitar para viver a nossa vida. Isso envolve a construção de competências, habilidades, valores, atitudes – e a aquisição de conhecimentos e informações. Mas a competência central é a de planejar estrategicamente a vida – para a qual a administração do tempo é essencial. Sem essa competência, ninguém será realmente feliz.

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Transcrito aqui em São Paulo, 12 de Agosto de 2011

Administrar o Tempo é Planejar a Vida, v.3 (2011)

Como continuo a mexer nesse artiguinho, transcrevo-o aqui novamente, com acréscimos e alterações.

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Quem escreve sobre administração do tempo geralmente o faz, não porque seja especialista na questão, mas, sim, porque quer aprender mais sobre o assunto. Pelo menos foi esse o meu caso. Vou relatar aqui algumas de minhas descobertas, como roteiro para a (possível) leitura do texto maior do qual este é um resumo (*).

1. Administrar o tempo não é uma questão de ficar contando os minutos dedicados a cada atividade em que nos envolvemos: é uma questão de definir prioridades. Provavelmente (numa sociedade complexa como a nossa), NUNCA vamos ter tempo para fazer tudo o que precisamos e desejamos fazer. Administrar o tempo é ter clareza sobre o que, para nós, é mais prioritário, dentre as várias coisas que precisamos e desejamos fazer, e tomar providências para que o mais prioritário seja feito – com plena consciência de que o resto provavelmente nunca vai ser feito (mas tudo bem: as coisas que compõem o resto, neste caso, não são prioritárias, ou não são tão prioritárias quanto aquelas que de fato fizemos).

2. Dentre as coisas que vamos listar como prioritárias, algumas estarão na lista porque nos são importantes, outras porque nos são urgentes. Assim, o prioritário é composto do importante e do urgente. É razoável supor que algo que não é NEM importante NEM urgente não estará na lista de prioridades de ninguém. E, também, que a lista de todo mundo conterá coisas que são IMPORTANTES ao lado de coisas que são URGENTES. Não resta a menor dúvida de que as coisas que são ao mesmo tempo importantes E urgentes devem ser feitas imediatamente, ou, pelo menos, na primeira oportunidade. Poucas pessoas questionarão isso. O problema surge com coisas que consideramos importantes, mas que não são tão urgentes, e com coisas que são urgentes, mas às quais não damos muita importância.

3. Digamos que você considere importante ficar mais tempo com sua família do que normalmente consegue ficar. Por outro lado, você tem de trabalhar x horas por dia – onde x é um número relativamente flexível, sobre o qual você tem razoável controle. Se, para você, trabalhar é mais importante do que ficar com a sua família, o problema está resolvido: você trabalha, mesmo que isso prejudique a convivência familiar. Mas e se o trabalho não é mais importante para você do que a convivência familiar? Nesse caso, provavelmente o trabalho é urgente, no sentido de que tem de ser feito, pois doutra forma você pode ser demitido (ou perder clientes, se for autônomo ou empresário) e pode vir a ter dificuldades para manter sua família (embora, sem trabalho, provavelmente vá poder passar mais tempo com ela…).

4. É nesse conflito entre o importante e o urgente que a maior parte de nós se perde, e por uma razão muito simples: algumas das tarefas que temos de realizar não são selecionadas por nós, mas nos são impostas. Isto é: não somos donos de todo o nosso tempo. Quando aceitamos um emprego, por exemplo, estamos, na realidade, nos comprometendo a ceder a outrem parte do nosso tempo (e, também, o nosso esforço, a nossa capacidade, o nosso conhecimento, etc.). Este é um problema real e de solução difícil: não temos, em relação ao nosso tempo, toda a autonomia que gostaríamos de ter.

5. Acontece, porém, que geralmente usamos mal o tempo que dedicamos ao trabalho (e, por isso, temos de fazer hora extra ou trazemos trabalho para casa), ou até mesmo o tempo que passamos em casa e que poderia ser considerado tempo de lazer. Usar mal o tempo QUER DIZER o seguinte: usar o nosso tempo para fazer o que, tanto no trabalho como em casa, não nos é nem importante nem urgente, mas apenas algo que, ou sempre fizemos, pela força do hábito, ou, então, algo que nos foi solicitado e não tivemos coragem de dizer “NÃO”.

6. Alguém me disse, quando eu era criança, que a gente nunca deveria abandonar a leitura de um livro, por pior que ele fosse. Que bobagem! Mas até que descobri que isso era uma bobagem, desperdicei muito tempo terminando de ler coisa intragável e que de nada me serviu — por causa desse malfadado conselho! Por outro lado, uma vez me peguei dizendo a meus filhos que não poderia fazer algo com eles (não me lembro exatamente o quê) num domingo de manhã porque precisava ler os jornais. Naquela época eu lia, religiosamente, a Folha e o Estadão (principais jornais de São Paulo) aos domingos de manhã – e, no domingo, esses jornais são enormes! Lia por puro hábito. Achava que um professor tem de se manter informado. Mas quando disse que “precisava” ler os jornais me dei conta de que realmente não precisava lê-los. Perguntei-me o que de pior poderia me acontecer se eu não lesse os jornais… e NADA, foi a resposta que, honestamente, tive de dar. Se houver algo importante nos jornais provavelmente fico sabendo no noticiário da TV, ou na VEJA (revista semanal). Mas daí me perguntei: eu preciso ler a VEJA todas as semanas? Resposta: não. Existe algo que eu prefiro ler/fazer naquelas manhãs de domingo que ganhei? Claro, muitas coisas, como, por exemplo, sair com os filhos – PARA AS QUAIS EU ANTES NÃO TINHA TEMPO. Ganhei as horas dos jornais, ganhei as horas da VEJA, fui ganhando uma horinha aqui outra ali, para as coisas que eu realmente queria fazer há muito tempo e para as quais não encontrava tempo (isto é, achava que não tinha tempo)…

7. Outras vezes não é a força do hábito que nos atrapalha, mas nossa incapacidade de dizer “NÃO”. Recusar um pedido de alguém de quem você gosta, ou a quem admira, e que, portanto, não gostaria de desagradar, é uma das coisas mais difíceis da vida. (Estou pressupondo aqui que não se trata de seu chefe, que não pede, manda…). Mas nunca vamos conseguir administrar bem o nosso tempo, i.e., as nossas prioridades, se rotineiramente dermos aos outros (que não o nosso chefe no trabalho) o poder de determinar a nossa agenda. Admiro os que, mesmo diante de um pedido cativante de alguém a quem amam ou respeitam, são capazes de dizer: “Sinto muito, não posso. No momento estou dando atenção às minhas prioridades para o dia de hoje” – e as prioridades, no caso, podem até envolver ficar descansando, sem fazer nada, ou terminar de ler um romance cuja leitura nos é importante.

8. Administrar o tempo é ganhar autonomia sobre a sua vida, não é ficar escravo do relógio. Administrar o tempo uma batalha constante, que tem de ser ganha todo dia. Se você quer ter a autonomia de decidir passar mais tempo com a família, ou sem fazer nada, ou nas leituras há tempo postergadas, você tem de ganhar esse tempo deixando de fazer outras coisas que são menos importantes para você. Em última instância pode ser que você até tenha até de, eventualmente, arrumar outro emprego ou outra ocupação – ou reduzir suas horas de sono.

9. O tempo é distribuído entre as pessoas de forma bem mais democrática do que muitos dos outros recursos de que nós dependemos (como, por exemplo, a inteligência, a capacidade de trabalho, o dinheiro). A menos que se trate do último dia de nossas vidas, todos os dias cada um de nós recebe exatamente 24 horas: nem mais, nem menos. O rico não recebe mais horas no dia do que o pobre, o professor universitário recebe o mesmo número de horas que o apedeuta; o executivo e o operário recebem quantidades de tempo exatamente idênticas a cada dia. Entretanto, apesar desse igualitarismo (que, convenhamos, não existe em relação à inteligência, à capacidade de trabalho, ao dinheiro), uns conseguem realizar uma grande quantidade de coisas num dia e outros, ao final do mesmo dia, têm o sentimento de que o dia se esvaiu e não fizeram nada.

10. A diferença é que os primeiros percebem que o tempo, apesar de democraticamente distribuído, é um recurso altamente perecível. Uma hora perdida hoje (perdida no sentido de que não realizamos nela o que precisaríamos ou desejaríamos realizar) não é recuperada depois: é perdida para sempre. O mesmo vale, com muito maior razão, para um dia, uma semana, um mês, um ano. (Ou uma década: em economia fala-se frequentemente em “décadas perdidas”).

11. Há os que afirmam, hoje, que o recurso mais escasso na nossa sociedade não é dinheiro, não são matérias primas, não é energia, não é nem mesmo inteligência: é tempo. O tempo é o luxo do século XXI. Mas tempo se ganha, ou se faz, fundamentalmente de duas maneiras:

  • deixando de fazer (ou, então, se possível, delegando) as coisas que não são nem importantes nem urgentes;
  • concentrando as prioridades nas coisas que são importantes e/ou urgentes.

12. A questão da delegação aponta para o fato de que, apesar de o rico ter a mesma cota diária de tempo do que o pobre, ele tem uma enorme vantagem sobre o pobre: ele pode, mediante pagamento, contratar o tempo de terceiros. O assistente, a secretária, o motorista do carro ou o piloto do helicóptero, o mordomo, os empregados domésticos, todos eles são contratados (em geral para cuidar das urgências) a fim de que os que os contratam possam ter mais tempo para dedicar ao importante (importante, naturalmente, para eles). Mas mesmo os mais pobres delegam – como, por exemplo, quando a mãe manda a menina limpar a casa ou o pai manda o menino ir comprar alguma coisa que o pai precisa para fazer o seu trabalho.

13. Quem tem tempo não é quem não faz nada: é quem consegue administrar o tempo que tem de modo a poder fazer aquilo que precisa e que deseja fazer. Por outro lado, ser produtivo não é equivalente a estar ocupado. Há muitas pessoas que ficam ocupadas o dia inteiro exatamente porque são improdutivas – não sabem onde concentrar seus esforços e, por isso, ciscam aqui, ciscam ali, mas nunca produzem nada. Ser produtivo é, acima de tudo, saber administrar o tempo, ter sentido de direção, saber aonde se vai.

14. Administrar o tempo, em última instância, é planejar estrategicamente a vida. Para isso, precisamos, em primeiro lugar, saber aonde queremos chegar (definição de objetivos): onde quero estar, o que quero ser, daqui a 5, 10, 25, 50 anos? O segundo passo é começar a “estrategiar”: transformar objetivos em metas (com prazos e quantificações) e decidir, em linhas gerais, como as metas serão alcançadas. O terceiro passo é criar planos táticos: explorar as alternativas específicas disponíveis para chegar aonde queremos chegar, escolher fontes de financiamento (emprego, em geral, é fonte de financiamento), etc. Em quarto lugar, fazer o que tem de ser feito: agir. Durante todo o processo, precisamos estar constantemente avaliando os meios que estamos usando, para verificar se estão nos levando mais perto de onde vamos querer estar ao final do processo. Se não, troquemos de meios (procuremos outro emprego, por exemplo).

15. Mas tudo começa com uma verdade tão simples que parece uma platitude: se você não sabe aonde quer chegar, provavelmente nunca vai chegar lá – por mais tempo que tenha.

16. Quando o nosso tempo termina, acaba a nossa vida. Não há maneira de obter mais tempo. A morte é o fim absoluto do nosso tempo. Por isso, tempo é vida. Quem administra o tempo ganha vida, mesmo vivendo o mesmo tempo. Prolongar a duração de nossa vida não é algo sobre o qual tenhamos muito controle. Aumentar a nossa vida ganhando tempo dentro da duração que ela tem é algo, porém, que está ao alcance de todos. Basta um pouco de esforço e determinação.

17. Nossa morte pode chegar a qualquer hora, através de um acidente, um atentado, ou uma doença grave. Se nada disso acontecer, provavelmente viveremos mais de setenta ou mesmo de oitenta anos. Isso significa que, mesmo desconhecendo a hora de nossa morte, há um momento na vida, na maior parte dos casos antes de completarmos cinquenta anos (viver mais de cem anos é ainda exceção), em que teremos vivido mais anos do que ainda vamos viver. Mesmo reconhecendo que a definição desse momento é arbitrária e imprecisa, é importante defini-lo – e é importante redefinir nossas prioridades para a metade mais curta de nossa vida.

18. Eventos que colocam nossa vida em sério risco, como um infarto ou um acidente grave, em geral nos fazem agudamente conscientes da precariedade da nossa vida: num minuto estamos vivos, no seguinte, talvez não. Mas é o fato de que a vida é altamente precária que imprime valor a ela e torna extremamente importante administrar o tempo (no sentido aqui visto). Se fôssemos imortais, se nada que fizéssemos ou deixássemos de fazer pudesse causar ou apressar o fim de nossa vida, ela não teria tanto valor (porque, então, não viveríamos sob a égide do tempo, mas, sim, sob a égide da eternidade). É o fato de que algumas de nossas decisões podem encurtar nossa vida, apressar o seu fim, ou mesmo encerrá-la, que imprime valor às nossas decisões e que torna a definição e hierarquização de prioridades, que é a essência da administração do tempo, tão importante.

(*) Este artiguete é resumo, feito em 1998, de um livreto, Administração do Tempo, que escrevi em 1992. O texto do resumo vem sendo levemente revisado nos últimos doze anos e pouco. A última revisão foi feita hoje (e acrescentou os itens 17 e 18). De tudo o que escrevi este é o texto que mais repercussão teve. Já foi reimpresso dezenas de vezes em revistas, jornais e sites – e já fui chamado a dar uma dezena de entrevistas sobre o tema, até para revistas do porte de Você S/A.

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Em São Paulo, 3 de Março de 2011

Os Homens são Eternas Crianças a Brincar na Areia…

Deliciosa crônica de Antonio Prata em seu blog, no UOL.

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http://antonioprata.folha.blog.uol.com.br/arch2011-01-02_2011-01-08.html

Crônicas e Outras Milongas

05/01/2011

Bando

Antonio Prata

Publicado na revista Los Dos

Nós, homens, somos seres amaldiçoados: passamos metade da vida buscando a mulher ideal e a outra metade procurando desculpas para sair com os amigos, sem que ela fique brava com a gente.

Mulheres, não nos julguem mal. Há algo de infantil em nossa alma que nunca amadurece. Um sentimento de bando que começa ali no tanque de areia, com quatro ou cinco hominhos cavucando e jogando conversa fora, e jamais se perde. “Que que cê tá fazendo aí, castelo?”. “Não, vulcão. E você?”. “Um túnel”. “Ah, legal. Posso ajudar?”. “Chega aí. Cava desse lado que eu cavo desse, vamos ver se junta”. O futebol de terça à noite, a cerveja domingo à tarde, o boliche ou a pescaria nada mais são do que repetição da mesma cena: quatro ou cinco moleques, sem nenhuma mulher por perto, dedicando-se a alguma tarefa simples e inútil.

Entenda, cara leitora, que não é por machismo que queremos ficar entre os do mesmo gênero, algumas horas por semana. É que a presença feminina sempre nos inibe. Exige seriedade, responsabilidade, maturidade. Diante de uma mulher, não há como não assumirmos nossas inúmeras personas de filhos, maridos, alunos. Por mais a vontade que estejamos, uma parte de nosso ser sempre estará alerta, preocupada em não falar com a boca cheia, não botar mostarda no feijão, usar corretamente os pronomes e plurais. Por que é assim? Porque as mulheres são chatas? Nada disso, é porque não queremos fazer feio, queremos impressioná-las bem, escondendo o Homer Simpson que vive em cada um de nós.

Se você for pensar bem, todos os grandes feitos do homem foram desculpas que arrumaram para ficar com os amigos sem que suas mulheres brigassem. Veja as grandes navegações: você nunca achou estranho que os caras saíssem da Península Ibérica e dessem a volta na África atrás de especiarias? É que eles precisavam de uma ótima explicação para se meterem em barcos por meses, só com homens e tonéis de bebida, parando de porto em porto. Voltando carregados de canela, cravo, cardamomo, açafrão e companhia, a barra ficava um pouquinho menos suja, em casa.

Mais tarde, Cabral, Pero Vaz e sua turma disseram que iam pras Índias, mas cruzaram o Atlântico, chegaram ao Brasil e encontraram várias índias nuas, “com as vergonhas mui saradinhas”, como escreveu Caminha ao rei. O que fizeram nossos portugas, para não dar chabu, na volta? Carregaram seus barcos com troncos de uma árvore de onde se extraía boa tinta vermelha, para tecidos. Disseram, “olha só, querida, erramos o caminho, voltamos meses após o combinado, mas agora você pode, finalmente, tingir as cortinas da sala”.

Assista Apolo 13 e você vai ver que a ida a Lua foi basicamente a mesma coisa. Um bando de homens construindo um brinquedinho capaz de levar três deles até nosso satélite natural. Fazer o que, lá? Picas! Ficar sem tomar banho, batendo papo, urinando num saquinho (sem se preocupar em levantar ou abaixar a tampa), comendo só comida industrializada, depois pousar, descer, coletar umas pedras, entrar na nave e voltar pra Terra. É o tanquinho de areia, elevado à milésima potência. E quando a nave falha e a brincadeira ameaça dar em tragédia, qual é a primeira cena que o filme mostra? A esposa de um deles, puta, ligando pra NASA: “que que tá acontecendo?!”. O cara lá da agência espacial, espécie de líder do tanquinho, diz pra mulher ficar calma, eles vão dar um jeito naquilo. Então convoca todos os cientistas e, por dias a fio, trabalham sem descanso. Claro. O que estava em jogo ali não era só a vida de três seres humanos, mas a palavra de todos os homens da Terra, quando dizemos que não é para elas se preocuparem ao sairmos, que vamos logo ali, encontrar uns amigos, fazer sei lá que coisa simples e inútil, mas voltamos antes do jantar – com um potinho de canela, suco de pau Brasil, uns peixes da pescaria ou uma pedra da lua.

Não era de se admirar que, com tanto em jogo, os astronautas chegassem vivos.

Escrito por Antonio Prata às 00h53

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Transcrito aqui em Lisboa, 05 de Janeiro de 2011

“Se não vos fizerdes como crianças…”

Interessante o artigo de João Pereira Coutinho na Folha de hoje (28/12/10 – já 29/12 em Lisboa) — http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2812201021.htm. Transcrevo trechos abaixo.

Faz-me lembrar de uma frase genial de Thomas Sowell, que é um dos motes deste blog:

“Parecemos estar nos movendo na direção de uma sociedade em que ninguém é responsável por aquilo que faz ou fez e todos somos responsáveis por aquilo que os outros fazem ou fizeram”.

O governo e as leis nos tratam, a nós adultos, como menores incapazes. Se ganhamos pouco, o governo suplementa nossa renda com uma bolsa – ou várias. Se ficamos desempregados, temos seguro desemprego – mesmo sem tê-lo contratado. Se nos queimamos com o café do McDonald’s, o governo decreta que temos direito a uma indenização por ter o McDonald’s feito aquilo que devia fazer, a saber, servido café quente, e não frio. Se pegamos câncer do pulmão porque fumamos a vida inteira, o culpado é o fabricante de cigarros, não nós, em nossa decisão de fumar. 

Enfim, diante desse quadro, é surpresa que nos tornemos cada vez mais crianças – quem sabe na esperança de, assim, herdar não só o Reino dos Céus, mas também o da Terra?

Eis o que diz (em parte) o artigo de Coutinho:

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Campanhas nos dizem o que devemos ser, pensar, comer, dizer, como nos devemos comportar.   . . .

A triste verdade é que estamos mais infantis do que nunca. O jornalista britânico Michael Bywater, em livro sobre a matéria (“Big Babies, Or: Why Can’t We Just Grow Up?”, grandes bebês, ou por que não podemos simplesmente ficar adultos), já tinha alertado para o fato: a todas as horas, em todos os lugares, são infindas as campanhas que tratam o parceiro como criança.

Campanhas que nos dizem o que devemos ser, pensar, comer, dizer, como nos devemos comportar, vestir e até se despir, ou não fosse o sexo o prato principal das sociedades adolescentes em que vivemos.

Essa infantilização absoluta dos cidadãos não é apenas praticada por autoridades democraticamente eleitas, que aconselham roupa quente quando faz frio ou guarda-chuva quando cai chuva.

Encontra-se na quantidade obscena de publicações que determinam ‘estilos’ e ‘tendências’ como se um ser adulto precisasse de ter um ‘estilo’ e cultivar uma ‘tendência’. Escreve Bywater, em frase primorosa: ‘O meu pai não tinha estilo de vida. Ele tinha uma vida.’ Curioso. O meu também. E o seu, leitor?

No Ocidente balofo e pós-ideológico, ninguém tem uma vida para viver em paz. Porque só é possível ser adulto quando somos deixados em paz: nós, confrontados com as nossas escolhas e responsabilidades, sem uma mão paternalista a guiar as nossas existências.

O circo em volta impede essa autonomia ao prolongar perpetuamente a infância. Quando somos tratados como crianças, dificilmente deixaremos de ser crianças.”

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Em Lisboa, 28 de Dezembro de 2010

A criança e a liberdade

Não é preciso ensinar uma criança a ser livre.

Basta que se façam duas coisas para que ela seja livre:

  • Primeiro, não escravizá-la, ainda que seja a nossas crenças, nossos valores morais, nossos costumes mais queridos;
  • Segundo, não deixá-la acostumar-se com a servidão a outrem — ainda que seja uma servidão desejada, com base na afeição, a um déspota de aparência benigna e supostamente bem intencionado.

Em Monte Alegre do Sul, 25 de Novembro de 2010

“Vitrines de Amsterdã”

O artigo de João Pereira Coutinho na Folha de S. Paulo de hoje toca em vários assuntos já discutidos aqui: a obsessão com a exposição e o aparente desprezo pela privacidade, o sentido da amizade na Internet, e as virtudes do esquecimento.

Discordo de alguns pontos.

Os contatos na Internet (FaceBook, por exemplo) não são, a meu ver, amizades: são apenas contatos, mesmo. Também tenho poucos amigos. Mas tenho milhares de contatos. Não sei se meus poucos amigos se fizeram por acaso, como pretende Coutinho.

Apesar das discordâncias, vale a pena ler o artigo.

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Folha de S. Paulo
20 de Abril de 2010

JOÃO PEREIRA COUTINHO
Vitrines de Amsterdã


É porque existe um espaço só nosso que há liberdade de pensarmos como entendemos


RECEBO CONVITES de amizade todos os dias. Por e-mail. Alguém deseja ser meu amigo e convida-me para integrar uma lista virtual em que existem dezenas ou centenas ou milhares de amigos virtuais. A pretensão encanta-me e remete-me para memórias de infância. No recreio da escola, alguém se aproximava, alguém perguntava: "Queres ser meu amigo?".

A comparação é talvez ofensiva para a infância: nesses tempos, havia pelo menos o contato real com um ser humano real. Hoje, nem isso: a palavra "amizade", usada na internet, é uma traição da sua natureza verdadeira. A amizade não é um convite. É um acaso. O melhor de todos os acasos.

E quem é amigo de dezenas, ou centenas, ou milhares de pessoas, obviamente não é amigo de uma só. A amizade implica tempo, disponibilidade. E, como no amor, existe na amizade uma dimensão de sacrifício e exclusividade que o ruído cibernauta contamina. Na minha vida profissional, conheço dezenas de pessoas.

Mas os meus amigos são tão poucos que não excedem os dedos de uma mão.

Recebo convites de amizade todos os dias. Todos os dias nada respondo, uma forma educada de recusar perguntas que não se fazem. Mas sei que pertenço a uma espécie em vias de extinção.

Conta o "Courrier Internacional", na sua edição portuguesa, que o maior site social é o Facebook, com os seus 350 milhões de utilizadores. Se fosse um país, o Facebook seria o terceiro mais povoado, depois da China e da Índia.

Um admirável mundo novo? Será. Mas um mundo novo traz dilemas novos. E novas ameaças. Não falo da ameaça metafísica, ou existencial, de sermos incapazes de manter ligações significativas com alguém. As ameaças lidam também com a privacidade, ou com o valor que conferimos à privacidade num mundo onde nos expomos e espiamos.

Ainda segundo a revista, e só nos EUA, um adolescente em cada cinco e um jovem adulto em cada três já enviou fotografias ou vídeos seus onde estão nus ou seminus. Mas não é preciso entrar nessas doces pornografias para ver nas "redes sociais" o que os turistas encontram nas vitrines de Amsterdã: a revelação pública da intimidade. Em fotos ou palavras. Lamentos ou pensamentos.

Alguns especialistas discordam. E defendem que, no mundo moderno, não faz mais sentido defender a esfera privada. Porque tudo é privado; ou, inversamente, tudo é público, o que facilita a comunicação, a partilha e, em certos casos, a denúncia da violência e da arbitrariedade.

Não estou convencido. Creio, aliás, no oposto: a conquista da privacidade, só possível no Ocidente com a emergência do Cristianismo, não foi apenas importante ao garantir aos homens um refúgio último e pessoal em que a consciência, e não a pressão da turba, é soberana. A conquista da privacidade, conferindo a Deus o que é de Deus e a César o que é de César, permitiu também o culto de outras liberdades.

Como relembra o escritor Jordi Soler no mesmo número da revista, é precisamente porque existe um espaço nosso, e só nosso, que existe também a liberdade de pensarmos como entendemos; de nos reunirmos com quem quisermos; e de nos expressarmos sem temer as interferências do poder político com a sua pata potencialmente censória.

Quando expomos voluntariamente a nossa privacidade, estamos voluntariamente a entregar a desconhecidos o que levou séculos a conquistar e preservar. Uma rendição da nossa identidade. Não será de espantar, por isso, que comecem a surgir vozes preocupadas. Como Alex Türk, presidente da Comissão Nacional de Informática e Liberdade, da França. Para Türk, todos os interessados deveriam poder solicitar às autoridades judiciais e aos servidores de internet o "direito ao esquecimento". O direito a podermos apagar do mundo virtual as pegadas que fomos deixando, e que outros foram copiando, sobre os nossos trajetos passados.

Num dos seus contos mais notáveis, "Funes el Memorioso", Jorge Luis Borges construiu uma parábola sobre um homem incapaz de esquecer. O conto de Borges não é apenas a descrição sardônica do infeliz e insone Funes, que após acidente juvenil passou a registrar, com precisão patológica, cada minuto, gesto, palavra ou imagem do mundo em volta. Uma coleção interminável que o impede de viver normalmente. O conto é uma elegia sobre a importância do esquecimento. Porque sem esquecimento não existe liberdade para continuarmos ainda e um pouco mais.

jpcoutinho@folha.com.br

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Em São Paulo, 20 de Abril de 2010

A Felicidade

No dia 6 de Maio de 2005 (cinco dias antes de encontrar a Paloma no SENAC da Lapa) ministrei uma palestra na PUC do Rio de Janeiro, num evento patrocinado pelo Instituto Telemar (hoje Instituto Oi Futuro), cuja coordenação, na área da educação, estava nas mãos de Maíra Pimentel – como, de resto, continua até hoje. Escolhi como tema e título para a palestra o seguinte:

“A educação, a felicidade, o tempo e a vida”.

Comecei falando sobre a educação e a escola. Disse que a educação que faz com que aprendamos a viver e a fruir a vida pouco tem que ver com aquela educação que receebemos na escola. A maior parte do que a gente aprende na escola não serve pra viver… E isto porque ou não serve pra nada, ou só serve pra gente continuar na escola…

A educação que importa, a educação que faz com que aprendamos a viver e a fruir a vida, a gente a adquire vivendo… e fruindo a vida.

No meu Discurso de Formatura no Curso Clássico, em Novembro de 1963,citei uma quadrinha de um poeta de Americana, Antonio Zoppi, encontrada em um livrinho chamado Uma Vida que Nasce, que dizia:

Sapiência não se esmola,
Tem de ser adquirida:
Na doce vida da escola
Ou na acre escola da vida.

Já estava parcialmente preocupado com a temática naquela Primavera de 1963. Meu discurso assinalava (entre outras coisas) que no JMC (escola do tipo internato em que fiz o Curso Clássico) a gente aprendia nas aulas mas também muito (e coisas mais importantes) na vida ali no internato, fora das aula. Ali, fora das aulas, o JMC era uma escola de vida, melhor, talvez, do que a escola circunscrita pelas paredes das salas de aula. Mas a quadrinha de Zoppi enfatiza que a vida, ela própria, é uma escola (mesmo quando não tem relação nenhuma com qualquer a escola, dentro ou fora das salas de aulas). 

Fiz um levantamento, nos mais de 30 anos em que dei aula para as primeiroanistas do curso de Pedagogia da UNICAMP, sobre os objetivos possíveis para a escola. Listava vinte possíveis objetivos para a escola e pedia que elas os hierarquizassem segundo sua preferência. Aquele que fosse o principal objetivo da escola ficaria em primeiro lugar. E assim por diante. O objetivo colocado em vigésimo lugar, não seria, na realidade, um objetivo que a escola deveria perseguir.

“Ajudar os alunos a alcançar a felicidade” sempre apareceu em penúltimo lugar. (Em último lugar sempre apareceu: “Ajudar os alunos a alcançar sucesso financeiro”.

No tocante à felicidade, isso é, no meu entender, uma séria aberração. A felicidade tem que ver com nosso projeto de vida e com nossos valores.

Ser feliz (diferentemente de estar contente), é uma condição duradoura, não um estado momentâneo. É feliz aquele que, sobre o alicerce de seus valores, é capaz de definir seu projeto de vida e transformá-lo em realidade. Em outras palavras, feliz é aquele cujos valores determinam os seus sonhos e que é capaz de transformar os seus sonhos em realidade.

Transcrevo abaixo um artigo de Stephen Kanitz, publicado na VEJA de 22 de Junho de 2005 – quarenta e cinco dias depois da minha palestra. O artigo definir a felicidade. É um artigo interessante, que vale a pena ler. Mas, estranhamento, o artigo não menciona valores. E isso considero uma falha grave.

Diz Kanitz:

“O conceito de felicidade que uso em meu dia-a-dia é difícil de explicar num artigo curto. Eu o aprendi nos livros de Edward De Bono, Mihaly Csikszentmihalyi e de outros nessa linha. A idéia é mais ou menos esta: todos nós temos desejos, ambições e desafios que podem ser definidos como o mundo que você quer abraçar. Ser rico, ser famoso, acabar com a miséria do mundo, casar-se com um príncipe encantado, jogar futebol, e assim por diante. Até aí, tudo bem. Imagine seus desejos como um balão inflável e que você está dentro dele. Você sempre poderá ser mais ou menos ambicioso inflando ou desinflando esse balão enorme que será seu mundo possível. É o mundo que você ainda não sabe dominar. Agora imagine um outro balão inflável dentro do seu mundo possível, e portanto bem menor, que representa a sua base. É o mundo que você já domina, que maneja de olhos fechados, graças aos seus conhecimentos, seu QI emocional e sua experiência. Felicidade nessa analogia seria a distância entre esses dois balões – o balão que você pretende dominar e o que você domina. Se a distância entre os dois for excessiva, você ficará frustrado, ansioso, mal-humorado e estressado. Se a distância for mínima, você ficará tranqüilo, calmo, mas logo entediado e sem espaço para crescer. Ser feliz é achar a distância certa entre o que se tem e o que se quer ter.”

Para ele, portanto, como se constata na última frase, “ser feliz é achar a distância certa entre o que se tem e o que se quer”.

Para ele, ser feliz não é, necessariamente, eliminar essa distância, conseguindo ter tudo o que se quer. Muitas vezes, queremos muito uma coisa (ou uma pessoa), e quando a alcançamos, o ter aquela coisa (ou aquela pessoa) não mais nos faz feliz – porque agora passamos a querer mais…

Se não conseguimos nem sequer encurtar um pouco a distância entre o que se tem e o que se quer, tendemos a desanimar, achando que a felicidade não existe – é uma quimera.

A felicidade, para ele, está em contrar “a distância certa” entre aquilo que se tem e aquilo que se quer. O sonho deve sempre ser ajustado de modo a ficar um pouco à frente da realidade, para que haja uma tensão sadia entre o sonho e a realidade que nos motiva e nos leva a continuar lutando.

É muito interessante essa sugestão… Só faltam os valores.

Valor é aquilo que a gente luta para ganhar ou manter…

Há valores que são meios, coisas que só se tornam valores porque nos permitem fazer coisas que de fato queremos (e.g. dinheiro)

A realização da nossa vida, no sentido mais pleno do termo, isto é, não a nossa mera sobrevivência, é o valor maior que temos – o valor que não é meio para nada, que é um fim em si mesmo. essa realização é a nossa felicidade. O que nos traz a felicidade é a realização de nossos valores  – não o alcançar daquilo que meramente queremos.

Como já disse no post anterior, tomando emprestada uma idéia de Karl Popper, o que torna a vida o valor supremo é o fato de ela ter duração limitada e desconhecida: pode terminar a qualquer hora… Os jovens em geral não se dão conta disso: pensam que têm todo o tempo do mundo. São os mais velhos que em geral percebem que seu recurso mais valioso não é dinheiro ou qualquer outro: é tempo… Tempo de vida.

Tempo é vida!

E onde fica a educação nisso tudo?

O ser humano nasce incompetente e, por causa disso, totalmente dependente, sem autonomia, sem ser capaz de assumir responsabilidade pelos seus atos, pelo seu destino. 

Mas nasce com uma enorme capacidade de aprender. Aprender é se tornar capaz de fazer aquilo que antes não se era capaz de fazer.

A educação é o processo que, através da aprendizagem, nos torna competentes para viver e autônomos para escolhar nossa vida

Viver não é apenas sobreviver, manter-se vivo… Viver é ser capaz de fruir a vida, ser feliz… O papel fundamental da educação é nos ajudar a viver a vida que, com base em nossos valores (aquilo que lutamos para ganhar ou manter), escolhemos para nós mesmos…

Assim, o papel fundamental da educação é nos a definir um projeto de vida, com base em nossos valores, e transformá-lo em realidade. Em outras palavras: o papel fundamental da educação é nos ajudar a ser felizes…

O tempo é um recurso interessante… É igual para todos: um dia tem 24 horas para todo mundo, rico ou pobre, culto ou inculto, britânico, suíço ou brasileiro. No entanto, uns conseguem fazer muita coisa em um dia, outros vêem os dias passar sem conseguir fazer grande coisa…

Administrar o tempo não é tornar-se escravo do tempo, mas tornar-se senhor dele. Administrar o tempo não é ficar obsecado com o relógio: é definir prioridades e levá-las a sério. Tem tempo, não aquele que não faz nada, mas aquele que sabe administrar prioridades e fazer o que realmente importa para ele.

Não somos donos de boa parte de nosso tempo – pois o vendemos (em troca de dinheiro)… Mas a importância do dinheiro está no fato de que ele também nos permite comprar tempo.  A solução do dilema está em conseguir ganhar dinheiro fazendo o que realmente importa…

Ser produtivo, portanto, não é estar sempre ocupado. (Na verdade, gente muito ocupada em geral não é muito produtiva…). Ser produtivo é saber administrar o tempo, ter prioridades, ter sentido de direção, saber para onde se vai.

Administrar o tempo, em última instância, é planejar estrategicamente a vida

Quem dentre nós tem um projeto de vida, ou seja, realmente sabe o que deseja e espera da vida?

Quem dentre nós tem um plano para onde deseja estar na vida daqui a 5, 10, 20, 50 anos?

“Quem não sabe para onde vai nunca vai chegar lá – ou acaba indo para qualquer lugar” (Vide Alice no País das Maravilhas).

A importância da administração do tempo está em que, quando acaba o nosso tempo, acaba a nossa vida… Quem administra o tempo, ganha vida, ainda que viva o mesmo tempo que os outros. Prolongar a vida não é algo sobre o qual tenhamos muito controle. Mas ganhar mais vida, administrando o tempo, está ao alcance de todos!

Para planejar estrategicamente a vida o primeiro passo é determinar onde estamos e escolher aonde queremos chegar. Escolher aonde queremos chegat é definir um projeto de vida.

A natureza da educação tem que ver com mudança: transformar o ser incompetente, dependente, inautônomo, arresponsável que nasce em um adulto capaz, competente, livre, autônomo para escolher sua vida e responsável pelas escolhas que faz…

Muitos de nós tentamos mudar os outros, ou as instituições, antes de entender que a mudança começa conosco: em realidade, só conseguimos mudar a nós mesmos

A educação deve ser voltada para a vida, nos capacitar para viver a nossa vida. Isso envolve a construção de competências, habilidades, valores, atitudes – e a aquisição de conhecimentos e informações. Mas a competência central é a de planejar estrategicamente a vida – para a qual a administração do tempo é essencial

Sem isso, ninguém será realmente feliz

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http://veja.abril.com.br/220605/ponto_de_vista.html 

Ponto de vista

Stephen Kanitz

Uma definição de felicidade

"Felicidade é um processo, e não um lugar onde finalmente se faz nada. Fazer nada no paraíso não traz felicidade, apesar de ser o sonho de tantos brasileiros"

Todas as profissões têm sua visão do que é felicidade. Já li um economista defini-la como ganhar 20.000 dólares por ano, nem mais nem menos. Para os monges budistas, felicidade é a busca do desapego. Autores de livros de auto-ajuda definem felicidade como "estar bem consigo mesmo", "fazer o que se gosta" ou "ter coragem de sonhar alto". O conceito de felicidade que uso em meu dia-a-dia é difícil de explicar num artigo curto. Eu o aprendi nos livros de Edward De Bono, Mihaly Csikszentmihalyi e de outros nessa linha. A idéia é mais ou menos esta: todos nós temos desejos, ambições e desafios que podem ser definidos como o mundo que você quer abraçar. Ser rico, ser famoso, acabar com a miséria do mundo, casar-se com um príncipe encantado, jogar futebol, e assim por diante. Até aí, tudo bem. Imagine seus desejos como um balão inflável e que você está dentro dele. Você sempre poderá ser mais ou menos ambicioso inflando ou desinflando esse balão enorme que será seu mundo possível. É o mundo que você ainda não sabe dominar. Agora imagine um outro balão inflável dentro do seu mundo possível, e portanto bem menor, que representa a sua base. É o mundo que você já domina, que maneja de olhos fechados, graças aos seus conhecimentos, seu QI emocional e sua experiência. Felicidade nessa analogia seria a distância entre esses dois balões – o balão que você pretende dominar e o que você domina. Se a distância entre os dois for excessiva, você ficará frustrado, ansioso, mal-humorado e estressado. Se a distância for mínima, você ficará tranqüilo, calmo, mas logo entediado e sem espaço para crescer. Ser feliz é achar a distância certa entre o que se tem e o que se quer ter.

O primeiro passo é definir corretamente o tamanho de seu sonho, o tamanho de sua ambição. Essa história de que tudo é possível se você somente almejar alto é pura balela. Todos nós temos limitações e devemos sonhar de acordo com elas. Querer ser presidente da República é um sonho que você pode almejar quando virar governador ou senador, mas não no início de carreira. O segundo passo é saber exatamente seu nível de competências, sem arrogância nem enganos, tão comuns entre os intelectuais. O terceiro é encontrar o ponto de equilíbrio entre esses dois mundos. Saber administrar a distância entre seus desejos e suas competências é o grande segredo da vida. Escolha uma distância nem exagerada demais nem tacanha demais. Se sua ambiç
ão não for acompanhada da devida competência, você se frustrará. Esse é o erro de todos os jovens idealistas que querem mudar o mundo com o que aprenderam no primeiro ano de faculdade. Curiosamente, à medida que a distância entre seus sonhos e suas competências diminui pelo seu próprio sucesso, surge frustração, e não felicidade.

Quantos gerentes depois de promovidos sofrem da famosa "fossa do bem-sucedido", tão conhecida por administradores de recursos humanos? Quantos executivos bem-sucedidos são infelizes justamente porque "chegaram lá"? Pessoas pouco ambiciosas que procuram um emprego garantido logo ficam entediadas, estacionadas, frustradas e não terão a prometida felicidade. Essa definição explica por que a felicidade é tão efêmera. Ela é um processo, e não um lugar onde finalmente se faz nada. Fazer nada no paraíso não traz felicidade, apesar de ser o sonho de tantos brasileiros. Felicidade é uma desconfortável tensão entre suas ambições e competências. Se você estiver estressado, tente primeiro esvaziar seu balão de ambições para algo mais realista. Delegue, abra mão de algumas atribuições, diga não. Ou então encha mais seu balão de competências estudando, observando e aprendendo com os outros, todos os dias. Os velhos acham que é um fracasso abrir mão do espaço conquistado. Por isso, recusam ceder poder ou atribuições e acabam infelizes. Reduzir suas ambições à medida que você envelhece não é nenhuma derrota pessoal. Felicidade não é um estado alcançável, um nirvana, mas uma dinâmica contínua. É chegar lá, e não estar lá como muitos erroneamente pensam. Seja ambicioso dentro dos limites, estude e observe sempre, amplie seus sonhos quando puder, reduza suas ambições quando as circunstâncias exigirem. Mantenha sempre uma meta a lcançar em todas as etapas da vida e você será muito feliz.

Stephen Kanitz é administrador por Harvard

(www.kanitz.com.br)

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Em São Paulo, 20 de Março de 2010