Viuvez

Machado de Assis tem, em um de seus contos, uma frase que me parece extremamente perspicaz:

"A pobre mãe, viúva da pior viuvez desta vida, que é aquela que anula o casamento, conservando o cônjuge, só vivia para sua filha".

(Machado de Assis, Obra Completa, vol. II, p.758)

Em outras palavras: a pior viuvez desta vida é aquela em que morre o amor, mas o cônjuge é preservado.

Ainda em outras palavras: feliz é aquele cujo cônjuge morre antes que morra o amor… (essa é, por contraste, a boa viuvez – ou, pelo menos, a não pior).

As estatísticas oficiais refletem apenas a viuvez menos pior.

Quais seriam as estatísticas da pior viuvez? Da viuvez com o cônjuge preservado? Da viuvez dentro de um casamento que se mantém, não por amor, mas por inércia, por hábito, por conveniência, por interesse financeiro, por amor à aparência, por medo de mudança, por receio de que os filhos sofram, porque a igreja diz que o casamento é indissolúvel?

Em Bauru, 19 de Setembro de 2009

Administrar o Tempo é Planejar a Vida, v.2 (2009)

[Minha amiga Jennifer Corriero, mulher de meu mais amigo ainda Michael Furdyk, escreveu no Facebook hoje, 14/08/2009: “As decisões mais importantes da vida estão relacionadas a como nós escolhemos usar o nosso tempo”.

Concordo – e acrescento algo… À medida que ficamos mais velhos, e o tempo se torna, para nós, uma “commodity” cada vez mais escassa, a afirmação da Jennifer Corriero se torna mais verdadeira ainda (como se o pudesse). Conseqüentemente, administrar o tempo se torna, nessas condições, vitalmente essencial.

Por isso, estou transcrevendo (mais uma vez, com pequenas correções e melhorias), um artiguete que escrevi sobre o tempo (“Administrar o Tempo é Planejar a Vida”) que é o texto mais bem sucedido que jamais produzi. Ele hoje está disponível em dezenas de lugares (jornais, revistas, e em um sem número de sites na Internet).

Aqui vai o texto atual do artiguete:

Quem escreve sobre a administração do tempo geralmente o faz, não porque seja especialista na questão, mas, sim, porque quer aprender mais sobre o assunto. Pelo menos foi esse o meu caso. Vou relatar aqui algumas de minhas descobertas, como roteiro para a (possível) leitura do texto maior do qual este é um resumo (*).

1) Administrar o tempo não é uma questão de ficar contando os minutos dedicados a cada atividade em que nos envolvemos: é uma questão de definir prioridades. Provavelmente (numa sociedade complexa como a nossa), NUNCA vamos ter tempo para fazer tudo o que precisamos e desejamos fazer. Administrar o tempo é ter clareza sobre o que, para nós, é mais prioritário, dentre as várias coisas que precisamos e desejamos fazer, e tomar providências para que o mais prioritário seja feito – com plena consciência de que o resto provavelmente nunca vai ser feito (mas tudo bem: as coisas que compõem o resto, neste caso, não são prioritárias, ou não são tão prioritárias quanto aquelas que de fato fizemos).

2) Dentre as coisas que vamos listar como prioritárias, algumas estarão na lista porque nos são importantes, outras porque nos são urgentes. Assim, o prioritário é composto do importante e do urgente. É razoável supor que algo que não é NEM importante NEM urgente não estará na lista das maiores prioridades de ninguém. E, também, que a lista de todo mundo conterá coisas que são IMPORTANTES ao lado de coisas que são URGENTES. Não resta a menor dúvida de que as coisas que são ao mesmo tempo importantes E urgentes devem ser feitas imediatamente, ou, pelo menos, na primeira oportunidade. Poucas pessoas questionarão isso. O problema surge com coisas que consideramos importantes, mas que não são tão urgentes, e com coisas que são urgentes, mas às quais não damos muita importância.

3) Digamos que você considere importante ficar mais tempo com sua família do que você atualmente consegue ficar. Por outro lado, você tem de trabalhar x horas por dia – onde x é um número relativamente flexível, sobre o qual você tem razoável controle. Se, para você, trabalhar é mais importante do que ficar com a sua família, o problema está resolvido: você trabalha, mesmo que isso prejudique a convivência familiar. Mas e se o trabalho não é mais importante para você do que a convivência familiar? Nesse caso, provavelmente o trabalho é urgente, no sentido de que tem de ser feito, pois doutra forma você pode ser demitido (ou perder clientes, se for autônomo ou empresário) e pode vir a ter dificuldades para manter sua família (embora, sem trabalho, provavelmente vá poder passar mais tempo com ela…).

4) É nesse conflito entre o importante e o urgente que a maior parte de nós se perde, e por uma razão muito simples: algumas das tarefas que temos de realizar não são selecionadas por nós, mas nos são impostas. Isto é: não somos donos de todo o nosso tempo. Quando aceitamos um emprego, por exemplo, estamos, na realidade, nos comprometendo a ceder a outrem parte do nosso tempo (e, também, o nosso esforço, a nossa capacidade, o nosso conhecimento, etc.). Este é um problema real e de solução difícil: Não temos, em relação ao nosso tempo, toda a autonomia que gostaríamos de ter.

5) Acontece, porém, que geralmente usamos mal o tempo que dedicamos ao trabalho (e, por isso, temos de fazer hora extra ou trazemos trabalho para casa), ou até mesmo o tempo que passamos em casa e que poderia se considerado tempo de lazer. Usar mal o tempo QUER DIZER o seguinte: muitas vezes usamos o nosso tempo para fazer o que, tanto no trabalho como em casa, não é nem importante nem urgente para nós, mas apenas ou algo que sempre fizemos, pela força do hábito, ou, então, algo que nos foi solicitado e não tivemos coragem de dizer “NÃO”.

6) Alguém me disse, quando eu era criança, que a gente nunca deveria abandonar a leitura de um livro, por pior que ele fosse. Que bobagem! Mas até que descobri que isso era uma bobagem, desperdicei muito tempo terminando de ler coisa intragável e que de nada me serviu – por causa desse malfadado conselho! Por outro lado, uma vez me peguei dizendo à minha família que não poderia fazer algo (não me lembro exatamente o quê) domingo de manhã porque precisava ler os jornais. Eu lia, religiosamente, a Folha e o Estadão (principais jornais de São Paulo) aos domingos de manhã – e, no domingo, esses jornais são enormes! Lia por hábito. Achava que um professor tem de se manter informado. Mas quando disse que “precisava” ler os jornais me dei conta de que realmente não precisava lê-los. Perguntei-me o que de pior poderia me acontecer se eu não lesse os jornais… e NADA, foi a resposta que, honestamente, tive de dar. Se houvesse algo importante nos jornais provavelmente ficaria sabendo pelo noticiário da TV, ou pela VEJA (revista semanal). Mas daí me perguntei: e preciso ler a VEJA todas as semanas? Resposta: não. Existe algo que eu prefiro ler ou fazer naquelas manhãs de domingo que eu ganhei deixando de ler a Folha, o Estadão e a VEJA? Claro, muitas coisas – PARA AS QUAIS EU ANTES NÃO TINHA TEMPO. Ganhei as horas dos jornais, ganhei as horas da VEJA, fui ganhando uma horinha aqui outra ali, para as coisas que eu realmente queria fazer há muito tempo e para as quais não encontrava tempo (isto é, achava que não tinha tempo)…

7) Outras vezes não é a força do hábito que nos atrapalha, mas nossa incapacidade de dizer “NÃO”. Recusar um pedido de alguém de quem você gosta, ou a quem admira, a quem, portanto, não gostaria de desagradar, é uma das coisas mais difíceis da vida. (Estou pressupondo aqui que não se trata de seu chefe, que não pede, manda…) Mas nunca vamos conseguir administrar bem o nosso tempo, i.e., as nossas prioridades, se rotineiramente dermos aos outros (que não o nosso chefe no trabalho) o poder de determinar a nossa agenda. Admiro os que, mesmo diante de um pedido cativante de alguém a quem amam ou respeitam, são capazes de dizer: “Sinto muito, não posso. No momento estou dando atenção às minhas prioridades” – e as prioridades, no caso, podem até envolver ficar descansando, sem fazer nada, ou terminar de ler um romance cuja leitura nos é importante.

8) Administrar o tempo é ganhar autonomia sobre a nossa vida, não é ficar escravo do relógio. Administrar o tempo é uma batalha constante, que tem de ser ganha todo dia. Se você quer ter a autonomia de decidir pas
sar mais tempo com a família, ou sem fazer nada, ou nas leituras há tempo postergadas, você tem de ganhar esse tempo deixando de fazer outras coisas que são menos importantes para você. Em última instância, pode ser que você até tenha até de, eventualmente, arrumar outro emprego ou outra ocupação – ou de reduzir suas horas de sono.

9) O tempo é distribuído entre as pessoas de forma bem mais democrática do que muitos dos outros recursos de que nós dependemos (como, por exemplo, a inteligência, a capacidade de trabalho, o dinheiro). A menos que se trate do último dia de nossas vidas, todos os dias cada um de nós recebe exatamente 24 horas: nem mais, nem menos. O rico não recebe mais horas no dia do que o pobre, o professor universitário recebe o mesmo número de horas que o apedeuta; o executivo e o operário recebem quantidades de tempo exatamente idênticas a cada dia. Entretanto, apesar desse igualitarismo (que, convenhamos, não existe em relação à inteligência, à capacidade de trabalho, ao dinheiro), uns conseguem realizar uma grande quantidade de coisas num dia e outros, ao final do mesmo dia, têm o sentimento de que o dia se esvaiu e não fizeram nada. A diferença é que os primeiros percebem que o tempo, apesar de democraticamente distribuído, é um recurso altamente perecível. Um hora perdida hoje (perdida no sentido de que não realizei nela o que precisaria ou desejaria realizar) não é recuperada depois: é perdida para sempre. O mesmo vale para um dia, uma semana, um mês, um ano.

10) Há os que afirmam, hoje, que o recurso mais escasso na nossa sociedade não é dinheiro, não são matérias primas, não é energia, não é nem mesmo inteligência: é tempo. O tempo é o luxo do século XXI. Mas tempo se ganha, ou se faz, fundamentalmente de duas maneiras:

a) deixando de fazer (se possível, delegando) as coisas que não são nem importantes nem urgentes;

b) concentrando as prioridades nas coisas que são importantes e/ou urgentes.

11) A questão da delegação aponta para o fato de que, apesar de o rico ter a mesma cota diária de tempo do que o pobre, o rico tem uma enorme vantagem sobre o pobre: ele pode, mediante pagamento, contratar o tempo de terceiros. O assistente, a secretária, o motorista do carro ou o piloto do helicóptero, o mordomo, os empregados domésticos, todos eles são contratados (em geral para cuidar das urgências) a fim de que os que os contratam possam ter mais tempo para dedicar ao importante (importante, naturalmente, para eles). Mas mesmo os mais pobres delegam – como, por exemplo, quando a mãe manda a menina limpar a casa ou o pai manda o menino ir comprar alguma coisa de que ele precisa para fazer o seu trabalho.

12) Quem tem tempo não é quem não faz nada: é quem consegue administrar o tempo que tem de modo a poder fazer aquilo que precisa e que deseja fazer. Por outro lado, ser produtivo não é equivalente a estar ocupado. Há muitas pessoas que ficam ocupadas o dia inteiro exatamente porque são improdutivas – não sabem onde concentrar seus esforços e, por isso, ciscam aqui, ciscam ali, mas nunca produzem nada. Ser produtivo é, em primeiro lugar, saber administrar o tempo, ter sentido de direção, saber aonde se vai.

13) Administrar o tempo, em última instância, é planejar estrategicamente a nossa vida. Para isso, precisamos, em primeiro lugar, saber aonde queremos chegar (definição de objetivos): onde quero estar, o que quero ser, daqui a 5, 10, 25, 50 anos? O segundo passo é começar a “estrategiar”: transformar objetivos em metas (com prazos e quantificações) e decidir, em linhas gerais, como as metas serão alcançadas. O terceiro passo é criar planos táticos: explorar as alternativas específicas disponíveis para chegar aonde queremos chegar, escolher fontes de financiamento (emprego, em geral, é fonte de financiamento), etc. Em quarto lugar, fazer o que tem de ser feito: agir. Durante todo o processo, precisamos estar constantemente avaliando os meios que estamos usando, para verificar se estão nos levando mais perto de onde vamos querer estar ao final do processo. Se não, troquemos de meios (procuremos outro emprego, por exemplo).

14) Mas tudo começa com uma verdade tão simples que parece uma platitude: se você não sabe aonde quer chegar, provavelmente nunca vai chegar lá – por mais tempo que tenha.

15) Quando o nosso tempo termina, acaba a nossa vida. Não há maneira de obter mais. Por isso, tempo é vida. Quem administra o tempo ganha vida, mesmo vivendo o mesmo tempo. Prolongar a duração de nossa vida não é algo sobre o qual tenhamos muito controle. Aumentar a nossa vida ganhando tempo dentro da duração que ela tem é algo, porém, que está ao alcance de todos. Basta um pouco de esforço e determinação.

(*) Este artiguete é resumo, feito em 1998, de um livreto, Administração do Tempo, que escrevi em 1992. O texto foi levemente revisado dez anos depois, em 2008, e, novamente, agora, em 2009. De tudo o que escrevi este é o texto que mais repercussão teve. Já foi reimpresso dezenas de vezes em revistas, jornais e sites – e já fui chamado a dar uma dezena de entrevistas sobre o tema, até para revistas do porte de Você S/A.

Transcrito em Salto, 14 de Agosto de 2009

Ayrton Senna da Silva

Hoje faz 15 anos que Ayrton Senna morreu. Eu nunca fui um grande fã dele como corredor. Mas, como todo brasileiro, senti a sua morte. Tornei-me um fã incondicional, porém, desde a morte do Ayrton, de sua irmã Viviane Senna Lalli. Ela aproveitou a comoção que se gerou com a morte do irmão para criar uma obra social de grande significado, o Instituto Ayrton Senna. Mostrou como um desastre pode vir a trazer benefício para tanta gente.

Dez anos atrás, mais ou menos nesta época do ano, Maio ou Junho, a Márcia Teixeira, então Gerente de Educação da Microsoft, me procurou para dizer que a Microsoft e o Instituto Ayrton Senna estavam iniciando uma parceria na área de Educação e Tecnologia – e perguntou se eu gostaria de participar. Disse-lhe que sim. Um tempinho depois, creio que já em Junho, recebi um telefonema, enquanto estava esperando um filme no Shopping Eldorado, de Adriana Martinelli (hoje Martinelli Carvalho), dizendo-me que estava coordenando a parceria com a Microsoft dentro do Instituto e me convidando para integrar o Comitê Gestor da iniciativa, ao lado de Léa Fagundes, Fredric Litto, Hubert Alquéres (então Secretário Adjunto da Secretaria da Educação de São Paulo), Eduardo “Castor” da Silva (diretor do Gracinha), Fernando Rossetti (do Aprendiz e do próprio Instituto Ayrton Senna)… Gente de Universidade, de escola particular de Educação Básica, de Secretaria da Educação, de ONG. Aceitei na hora. (A propósito, ficar amigo do Castor e do Fernando foi um dos grandes sub-produtos desse empreendimento… Da Léa e do Fred já era amigo).

Creio que em Junho mesmo houve a primeira reunião do Comitê Gestor. Ali se escolheu o nome do programa (Sua Escola a 2000 por Hora – para aproveitar o fato de que o primeiro ano efetivo do programa seria o ano 2000 — e se fixaram as diretrizes que iriam nortear o programa nos próximos anos. Hoje o programa se chama Escola Conectada. Mas antes disso, a parceria gerou um filhote, o Comunidade Conectada, voltado para a Inclusão Digital através de meios extra-escolares.

Com o tempo o Comitê Gestor se dissolveu e apenas eu continuei a como consultor na área de Educação e Tecnologia.

Em 2003 elaborei, a pedido da Viviane, o projeto de uma parceria com a UNESCO, que resultou na criação, dentro do Instituto, de uma Cátedra UNESCO de Educação e Desenvolvimento Humano, que eu coordenei até o final de 2006.

Ao final de 2006 meus compromissos com a Microsoft estavam aumentando sensivelmente e eu havia sido convidado para ser Secretário Adjunto de Ensino Superior pelo governo do Estado de São Paulo. Concluí que era hora de sair do Instituto. Saí de lá deixando amigos. Além da Viviane e da Adriana, a Margareth Goldenberg, que dirige o Instituto no dia-a-dia.

Presto aqui minha simples homenagem à Viviane na data em que todos lembramos os quinze anos da morte de seu irmão. Agradeço a ela a oportunidade de ter participado desse magnífico trabalho durante sete anos e meio.

Em São Paulo, 1 de Maio de 2009

Que bom é viver frugalmente — quando isso se dá por escolha e não por necessidade…

Começo de noite, numa sexta-feira treze. São 20h30 — faltam três horas e meia para o fim oficial do dia. Espero que não haja mais tempo suficiente para acontecer uma daquelas desgraças em que os supersticiosos acreditam.

Estou sentado na varanda do meu apartamento, com os pés em cima de uma mesinha, admirando a vista da Chácara Klabin e, além da Ricardo Jafé, do Alto do Ipiranga. Perto dali está o Museu do Ipiranga –que fica no lugar em que foi proclamada a Independência do Brasil, no dia do meu nascimento, mas 121 anos antes. O riacho do Ipiranga, que passa lá, passa também quase do lado do nosso prédio. 

A temperatura caiu, faz um friozinho, e eu tomo vinho… Vamos jantar daqui a pouco: arroz parboilizado, carne moída, farofa… Um de meus pratos favoritos. Depois da meia noite vamos ao Extra, aqui pertinho, que fica aberto 24 horas por dia, para fazer a compra do mês. Afinal de contas, amanhã meus irmãos vêm jantar aqui amanhã. Embora pretendamos encomendar umas pizzas, é preciso ter pequenas coisas para mastigar e líqüidos gostosos para beber…

O vento fresco é gostoso… Acho lindo ver a cidade ir se acendendo aos poucos… As ruas, as janelas dos prédios. De vez em quando se ouve um carro ou uma moto que acelera, e, vez ou outra, ouvem-se foguetes. O lugar é residencial, silencioso. Os vizinhos, ciosos de sua privacidade. Moro aqui há mais de quatro meses, e não conheço os vizinhos — nem mesmo os três vizinhos de andar. Isso não me faz falta. Só fiquei sabendo que o porteiro é pastor evangélico de uma pequena comunidade da Assembléia de Deus em São Caetano do Sul. No prédio em frente ao meu mora uma conhecida, a Mila, que trabalha no CENPEC. Estivemos juntos em Brasília em Outubro último, num congresso da Interdidática. Por falar nisso, haverá um congresso da Interdidática aqui em São Paulo, em Abril, e daremos uma outra palestra (para quem não sabe, meus plurais não são majestáticos).

Sinto-me bem, feliz, em paz. Tenho muitos problemas a resolver em diversos departamentos da minha vida, tanto pessoais quanto profissionais. Mas estou bem, feliz e em paz comigo mesmo. O que mais pode alguém pedir?

Estou curtindo a noite, as luzes, o vento, o friozinho gostoso… Na cozinha, a carne descongela. Uma vez descongelada, em menos de meia hora faremos o jantar. Comeremos com calma, tranqüilos. Há três computadores abertos ao nosso redor — e mais dois desligados… Felizmente, não há ninguém para dizer que os fechemos, e que só pensamos em trabalho…

Em São Paulo, 13 de Fevereiro de 2009 – Sexta-feira treze

“A consciência por vezes é uma merda”

A frase que dá título a este artiguete me foi dita pelo Rubem Alves, em correspondência pessoal. Espero que ele me perdoe por citá-la, entre aspas, em público.

A consciência é, por vezes, isso aí que ele disse, porque ela não é racional, e, portanto, não reflete aquilo que racionalmente consideramos certo e errado: ela é, em grande medida, formada pela opinião dos outros, que procuram nos moldar e formar, assim condicionando e influenciando o que pensamos, o que valoramos, o que consideramos certo e errado… A consciência por vezes é uma merda porque uma vez gravado algum ditame em nossa consciência, não é fácil removê-lo de lá… Se alguém escreveu em nossa consciência, em algum momento, que, por exemplo, dizer palavrões é algo errado, que devemos a todo custo evitar dizê-los, que não devemos nem sequer chamar de bunda a parte de nosso corpo com que nos sentamos, vamos sempre sentir uma dorzinha na consciência ao dizer um palavrão – ainda que não seja realmente um palavrão, mas apenas, digamos, um palavrinho…

Certamente não basta que, com nosso pensamento racional, deixemos de acreditar que é errado aquilo de que nossa consciência nos acusa… Racionalmente, dizemo-nos que há horas em que apenas um enorme palavrão é a reação correta a algo de ruim ou absurdo que nos está acontecendo… Mas mesmo nessas circunstâncias a nossa consciência vai continuar, merdosamente, a nos acusar… Acho até que o Rubem Alves usou um palavrão (palavrinho?) na frase dele para desafiar a consciência de bom menino protestante que, mesmo em época que antecedia de muito a era do politicamente correto, aprendeu que o “certo” seria dizer “a consciência por vezes é um cocô…”. (Com toda a franqueza, acho esta última frase quase pornográfica de tão horrível…).

A consciência é nosso “super-ego”… Ela é formada pelos pais, pela comunidade, pela igreja, pela escola, pela mídia… Felizmente, essas diversas influências, muitas vezes, não agem na mesma direção. É terrível quando o fazem. Quando eu era criança, meus pais, a comunidade em que eu vivia, minha igreja, minha escola e a mídia pareciam estar todos de acordo que não era certo dizer palavrões. Bem… a comunidade de pares (os meninos que jogavam bola juntos no campinho) e o ambiente não-formal da escola, nem tanto… Nesses ambientes eu ouvia uma boa série de palavrões… Colegas de escola uma vez me chamaram (por causa de meu segundo nome) de Oscar Alho… Até de amigos da igreja com quem eu jogava bola eu ouvia palavrões… O Israel, crente que freqüentava a mesma igreja, um dia, quando jogávamos bola, e ele ia bater uma falta, me mandou ficar no cu da área… Minha consciência já era bem formada: eu ouvia esses palavrões e me sentia culpado – culpado de os haver ouvido, não de os haver dito, notem bem…

Quando criança, em regra eu me sentia culpado de ler um palavrão muito feio (que até hoje minha consciência não me permite escrever aqui) que estava pichado na parede de uma fábrica que ficava entre minha escola e minha casa… Eu tomava a firme resolução, ao sair de casa ou da escola, de que, ao passar pela fabrica, não iria olhar o palavrão… Mas meus olhos eram como que magneticamente atraídos por ele… Mesmo quando eu conseguia não olhar para ele, eu me lembrava de que ele estava lá e a palavra vinha à minha mente (a coisa eu nem tinha bem como imaginar ainda…). E eu, como acreditava então, pecava – e tinha de orar pedindo perdão a Deus por ter visto o palavrão – ou pensado nele, mesmo sem vê-lo… (Um dia, fui orar, enquanto andava, ao passar pelo palavrão na parede, de olhos fechados, como sempre, para que assim não o visse, e entrei com tudo num poste: Deus podia ter me protegido, em consideração ao esforço que eu estava fazendo para não ver o palavrão…). Por que é que, até hoje, mais de cinqüenta e cinco anos depois, eu consigo até dizer o palavrão, em determinados contextos, mas apenas no diminutivo, como se essa forma diminuísse o seu conteúdo pecaminoso, no qual eu não mais acredito? Por que eu consegui escrever cu, no parágrafo anterior, mas não consigo aqui dizer qual é o palavrão da parede da fábrica – mesmo que, racionalmente, eu há muito tempo tenha deixado de acreditar no fetiche das palavras, e, portanto, não mais acredite que seja moralmente errado dizer qualquer palavra (ainda que seja deselegante, e, portanto, desaconselhável dizer algumas delas em determinados contextos)??? A Adélia Prado, poetisa mineira que o Rubem Alves cita adiante, em texto que transcrevo, me ajudou a me livrar desse fetiche, quando escreveu um poema em que dizia “cu é lindo” – poema esse que foi usado numa escola católica, segundo consta, ligeiramente modificado: lá se dizia “céu é lindo”…).

Estou, porém, como dizia meu pai, rodeando o toco e levando um tempo enorme a preambular para chegar aonde eu quero… O assunto que eu quero discutir é casamento, separação, divórcio, adultério – e o papel que a religião tem na formação de nossa consciência sobre esses assuntos (que no fundo são apenas um) – consciência que, merdosamente, por vezes dá umas pontadas em relação a esses assuntos, mesmo quando a gente está racionalmente convencida de que não fez nada errado.

Começo citando um exemplo que me vem prontamente à mente. Na igreja que eu freqüentava quando criança, da qual o meu pai era pastor, havia um senhor nordestino, já prá lá da meia idade, que era um dos membros mais assíduos e dedicados. Como se isso não bastasse, ele era, do ponto de vista doutrinário defendido por meu pai, o pastor, inatacável. Meu pai não conseguia encontrar nele desvio doutrinário algum (coisa extremamente rara, pois ele via desvios doutrinários com grande facilidade, a torto e a direito: vivia escrevendo artigos contra os católicos romanos, os pentecostais, os glórias, os adventistas, os testemunhas de Jeová, os mórmons, até contra os batistas, os carismáticos e os avivados…). Apesar de pessoa simples (era pedreiro), esse senhor fazia umas das mais belas orações que me foi dado ouvir na minha infância e adolescência – belas no conteúdo e na forma. Não me esqueço delas até hoje. Mas ele tinha, na visão do meu pai, um problema sério… Havia sido casado, no Nordeste, antes de vir para São Paulo. Ninguém nunca soube o que exatamente se passou com esse casamento. O que se sabia é que, já separado, ou ainda não, ele veio tentar a vida em São Paulo. Veio e ficou. Um dia, lá atrás, uns vinte anos antes, encontrou uma outra mulher, apaixonou-se e passou a viver com ela (algo de resto bastante comum). Tiveram filhos: muitos. Eles viviam uma vida normal de casados – só que eram apenas “amasiados”, como se dizia então, naqueles tempos anteriores ao divórcio (linguagem que ainda prevalece em textos jurídicos de baixa qualidade hoje em dia). Ambos freqüentavam a igreja regularmente, na Escola Dominical, no culto do domingo à noite, nos estudos bíblicos de quarta-feira… As crianças eram criadas na fé e na moral cristã (o filho mais velho é pastor presbiteriano hoje…). No entanto, a consciência de meu pai não lhe permitia que ele deixasse aquele senhor já de meia-idade, crente fiel e zeloso, sob todos os aspectos temente a Deus, participar da Santa Ceia… Por quê? Óbvio: porque ele estava vivendo, na visão do meu pai, em adultério, e, portanto, em pecado… Na realidade, ninguém sabia se a primeira mulher do nosso amigo ainda existia ou se já havia morrido… Se ela já houvesse morrido, o nosso amigo seria viúvo e, portanto, poderia se casar de novo… Mas quem iria garantir que isso havia acontecido? Assim, em caso de dúvida, meu pai julgava contra o réu, não a favor dele… E o impedia de participar daquela que é chamada “A Ceia do Senhor”. Nos primeiros domingos do mês, no culto da noite, se celebrava a Santa Ceia. Nessa ocasião, o nosso amigo, crente assíduo e fiel, não vinha à igreja para não passar pelo constrangimento público de ver negada a sua participação na “Mesa do Senhor”… Desumano? Evidente. Não tenho dúvida acerca disso. Desumano e errado. Não sei como nosso amigo suportou a humilhação até a morte. Eu teria procurado outra igreja e outro pastor – ou teria abandonado a igreja de vez… Ele, não. Continuou na igreja – só fugia do constrangimento humilhante… Admirável a sua conduta, em especial quando vista em contraste com a do meu pai. Mas tenho certeza que sua consciência doía muito nos primeiros domingos do mês à noite, porque ela havia sido em grande parte moldada por aquele que na verdade era o seu algoz, o Rev. Oscar…

Meu pai era um presbiteriano fundamentalista. Quando jovem, havia sido católico romano fervoroso, participado da congregação mariana (hoje quase ninguém parece mais saber o que significava ser mariano, para um homem, ou filha de Maria, para uma mulher…). Mas ele era daqueles “ou tudo, ou nada”… Quando se desconverteu do catolicismo romano, e se converteu ao protestantismo presbiteriano, rejeitou tudo – ou assim ele pensava – que a Igreja Católica representava e passou a combatê-la com o fervor de um neófito zeloso, cujas atitudes beiravam o fanatismo… E passou a aceitar in totum a doutrina protestante-presbiteriana, na sua versão fundamentalista, como ele a entendia, então amplamente difundida e compartilhada. Dentro dessa visão, se alguém está vivendo com uma pessoa com quem não se casou, direitinho, segundo as leis da terra, no cartório, de papel passado, com uma penca de testemunhas, esse alguém está vivendo em pecado. Ou seja: nessa visão, o não cumprimento de uma lei humana implicava uma ofensa moral e espiritual (um pecado)… e cabia à igreja punir essa ofensa, ou, pelo menos, deixar claro que ela a tomava seriamente!

O Rubem Alves, num artigo que publicou há algum tempo, intitulado “A Praga”, escrito quando o Papa (acredito) ainda era outro, comentou:

“É bom atentar para o que o Papa diz. Porta-voz de Deus na Terra, ele só pensa pensamentos divinos. Nós, homens tolos, gastamos o tempo pensando sobre coisas sem importância tais como o efeito estufa e a possibilidade do fim do mundo. O Papa vai direto ao que é essencial: ‘O segundo casamento é uma praga!’

Está certo. O casamento não pertence à ordem abençoada do Paraíso. No Paraíso não havia casamento. Na Bíblia não há indicação alguma de que as relações amorosas entre Adão e Eva tenham sido precedidas pelo cerimonial a que hoje se dá o nome de casamento: o Criador, celebrante, Adão e Eva nus, de pé, diante de uma assembléia de animais, tudo terminando com as palavras sacramentais: ‘E eu, Jeová, vos declaro marido e mulher. Aquilo que eu ajuntei os homens não podem separar…’

Os casamentos, o primeiro, o segundo, o terceiro, pertencem à ordem maldita, caída, praguejada, pós-Paraíso. Nessa ordem não se pode confiar no amor. Por isso se inventou o casamento, esse contrato de prestação de serviços entre marido e mulher, testemunhado por padrinhos, cuja função é, no caso de algum dos cônjuges não cumprir o contrato, obrigá-lo a cumpri-lo.

Foi um padre que me ensinou isso. Ele celebrava o casamento. E foi isso que ele disse aos noivos: ‘O que vos une não é o amor. O que vos une é um contrato.’ Aprendi então que o casamento não é uma celebração do amor. É o estabelecimento de direitos e deveres contratuais. Até as relações sexuais são obrigações que devem ser cumpridas.

Agora imaginem um homem e uma mulher que muito se amam: são ternos, amigos, fazem amor, geram filhos. Mas, segundo a Igreja, estão em estado de pecado: falta ao seu relacionamento o selo eclesiástico legitimador. Ele, separado da antiga esposa, não pode se casar de novo porque a Igreja proíbe a praga do segundo casamento. Aí os dois, já no fim da vida, são obrigados a se separar para poder participar da eucaristia: cada um para um lado, adeus aos gestos de ternura… Agora está tudo nos conformes. Porque o Deus da igreja não enxerga o amor. Ele só vê o selo eclesial.

O Papa está certo. O segundo casamento é uma praga. Eu, como já disse, acho que todos são uma praga, por não ser da ordem paradisíaca mas da ordem da maldição. O símbolo dessa maldição está na palavra ‘conjugal’: do Latim, ‘com’= junto e ‘jugus’= canga. Canga, aquela peça pesada de madeira que une dois bois. O vínculo conjugal significa que, mesmo quando um dos cônjuges não quer mais estar junto do outro, a canga vai obrigá-lo, sob pena do ferrão divino…”

O artigo continua, e mais adiante citarei o que falta.

O Rubem Alves é, porque sempre foi, um protestante presbiteriano – mas nunca foi, que eu saiba, um protestante presbiteriano fundamentalista. Para ele, a instituição do casamento (ou do matrimônio, como preferem alguns) pertence não à “Cidade de Deus”, mas, sim, à “Cidade dos Homens” – aquela cidade que, segundo Agostinho, o inventor dessas expressões, é governada por “um bando de ladrões” – era assim que Agostinho via o governo (presciente o homem!). Como ressalta o Rubem Alves, não consta que Deus tenha celebrado o casamento de Adão e Eva no Paraíso… Deus simplesmente criou os dois e… bom, eles se encarregaram do resto. Em outras partes da Bíblia, no Novo Testamento, se esclarece que, no Céu, não haverá casamentos… Tudo isso parece corroborar a tese de que o casamento, como hoje o temos, é uma instituição humana, criada, como tantas outras, para arranjar e facilitar a nossa vida em sociedade – pelo menos em uma sociedade em que há propriedade privada, que deve ser transmitida por herança, etc.

A Igreja Católica Romana, porém, não acredita nisso. Continuo a citar o artigo do Rubem Alves.

“Por que o segundo casamento é uma praga para a Igreja Católica? Porque, para havê-lo, é preciso que o primeiro seja anulado pelo divórcio. Mas, se a Igreja admitir a anulação do primeiro casamento ela terá de admitir também que o sacramento que ela realizou não é aquilo que ela afirma ser: um ato realizado pelo próprio Deus. Permitir o divórcio equivale a dizer: o sacramento é uma balela. Donde, a Igreja é uma balela… Com o divórcio ela seria rebaixada do seu lugar infalível e passaria a ser apenas uma instituição falível entre outras. A Igreja não admite o divórcio não é por amor à família. É para manter-se veículo privilegiado das bênçãos divinas…

A Igreja, sábia, tratou de livrar seus funcionários da maldição do amor. Proibiu-os de se casarem. Livres da maldição do casamento, os sacerdotes têm a suprema felicidade de noites de solidão, sem conversas, sem abraços e nem beijos. Estão livres da praga…”

O artigo termina aí.

Há uma coisa, porém, que o Rubem Alves omite na sua interessante análise, a saber: o fato de que os diversos fundamentalismos protestantes, em geral extremamente críticos da Igreja Católica Romana, adotaram essa visão católica, sacramental, do casamento…

Para os protestantes não fundamentalistas, o casamento é uma instituição humana: pertence à “Cidade dos Homens”. A decisão de se casar é uma decisão inteiramente humana, tomada por um homem e uma mulher. Não é um ato no qual Deus tenha necessariamente participação. A igreja pode apenas, caso os nubentes assim o desejem, pedir a bênção divina sobre a união que se celebra (como, mal comparando, se pede a bênção divina sobre uma casa nova que se constrói ou um navio novo que se lança ao mar). Dentro desse entendimento, não é a igreja (ou Deus) que faz o casamento: a regulamentação da união é toda feita pelas leis da terra. A igreja apenas invoca a bênção de Deus sobre o casal. (Mesmo hoje, quando se faz um casamento religioso com efeito civil, o casamento é celebrado pelo pastor ou padre apenas porque as leis da terra facultaram à autoridade competente a delegação ao pastor ou ao padre do direito de celebrar casamentos).

Para os protestantes fundamentalistas, entretanto, o casamento é “divinizado”: ele deixa de ser apenas uma relação “biunívoca” entre um homem e uma mulher e passa a ser uma relação “triangular” entre um homem, uma mulher, na base, e, no vértice do triângulo, Deus. Quando o casamento se desfaz, rompe-se o triângulo e, assim, se desmancha não apenas a relação entre o marido e a mulher mas, para aquele considerado responsável pelo rompimento, também sua relação com Deus. Dentro dessa visão, o cônjuge responsável (“culpado”) pelo rompimento do elo matrimonial ofende não apenas o outro cônjuge, mas também a Deus – porque o casamento é, de fato, sacramentalizado.

As igrejas protestantes, mesmo as fundamentalistas, em geral se recusam a aceitar a tese católica romana de que o casamento é um sacramento, como o batismo e a eucaristia. Na prática, porém, as igrejas protestantes fundamentalistas endossam essa tese. Se esse cônjuge responsável pelo desfazimento de um casamento vier a se relacionar com outra pessoa, passa a ser considerado adúltero – embora tenha decidido encerrar o casamento antes de conviver maritalmente com a outra pessoa e até mesmo comunicado o fato ao cônjuge anterior. É por isso que ao nosso amigo, na igreja do meu pai, era negado o direito de participar da Santa Ceia, um sacramento oficialmente aceito pela Igreja Presbiteriana: porque ele havia violado o sacramento – oficialmente não aceito, mas na prática endossado por meu pai – do matrimônio… (Foi por isso que disse anteriormente que meu pai rejeitou tudo – ou assim ele pensava – que a Igreja Católica representava… Ele continuou aceitando a doutrina católica do casamento como sacramento). Dentro dessa visão, o cônjuge não considerado culpado pelo rompimento do vínculo matrimonial pode continuar a ter assento à “Mesa do Senhor” – ainda que seja mentiroso, ladrão, ou pior… (et qu’il y en a, il y en a…). Mas o considerado culpado, ainda que tenha uma vida impoluta, não pode… Essa a teologia do Rev. Oscar Chaves – que Deus lha perdoe.

Para os católicos romanos e os protestantes fundamentalistas, não basta que o amor seja infinito enquanto dure… eles querem torná-lo obrigatoriamente eterno. Mas como os amores em geral acabam, ou, pelo menos, são substituídos por outros maiores ou mais interessantes, surge o dilema: o que fazer? Os católicos romanos e os protestantes fundamentalistas em geral argumentam que o que deve ser feito é tentar “salvar o casamento” a qualquer custo. Isto implica, muitas vezes, tentar fazer, por uma série de mecanismos, e até mesmo artimanhas, com que um amor moribundo reviva, ou tentar convencer alguém a matar ou sublimar um grande amor em favor de um amor menor… O resultado é sofrimento… Sofrimento por causa da culpa – ou, pior, por causa da consciência de uma culpa que não deveria existir… É aí que se aplica como uma luva o dito alvesiano: a consciência por vezes é uma merda… Ela é, entre outras coisas, recipiente de um entulho religioso que deveria estar de muito ultrapassado.

Poderia parecer aos desavisados que aqueles que consideram o casamento como um contrato o vêem como uma instituição humana – afinal de contas, contratos podem ser rescindidos, e as leis terrenas da maioria dos países, inclusive do nosso, admitem hoje que o contrato matrimonial seja rescindido – até mesmo de comum acordo, consensual e amigavelmente, sem que seja necessariamente atribuída culpa a um dos cônjuges – e que um novo contrato seja estabelecido. Mas, como se pode perceber na frase do padre, citada por Rubem Alves, o contrato que católicos romanos e protestantes fundamentalistas vêem no casamento não é bilateral: é trilateral: Deus faz parte dele. Isso o torna irrompível.

Na verdade, os fundamentalistas protestantes às vezes são mais realistas do que o rei… Reconhecendo que, na prática, contratos são rompíveis, eles preferem falar, em relação ao casamento, não de contrato, mas de aliança (que é o símbolo material do casamento, quando, no Brasil, usada no dedo anelar esquerdo). Assim, para eles, mesmo que o contrato possa ser rompido, segundo as leis da terra, a aliança, celebrada pelo casal com Deus, é irrompível… O rompimento entre os cônjuges é sempre um rompimento também da aliança supostamente feita por ambos com Deus… Se esse rompimento se dá unilateralmente, por iniciativa de um dos cônjuges, este é visto como pecador… Se ele se separa oficiosamente e entra numa nova união (forçosamente também oficiosa) é adúltero… Se legal e oficialmente obtém o divórcio, e se casa de novo, tudo direitinho, segundo as leis da terra, ainda assim será visto como adúltero pela igreja (enquanto o cônjuge anterior ainda viver)…

Dentro visão católica romana e protestante fundamentalista, o contrato não é apenas um contrato terreno: é uma aliança sobrenatural, eterna. Mesmo que o amor acabe, o contrato-aliança tem de ser mantido, custe o que custar… Mesmo depois de o amor se ter ido, o contrato matrimonial permanece, tem de ser preservado a qualquer custo, mesmo na cláusula que exige dos cônjuges que se relacionem sexualmente um com o outro. (Não conheço outra defesa tão obscena do sexo sem amor como essa…)

É curioso que os protestantes fundamentalistas, que acusam os católicos romanos de toda sorte de erro, se unam a eles nessa visão do casamento, da separação, do divórcio, deixando de lado a visão mais sadia dos protestantes não fundamentalistas.

Acredito que tenha descoberto a razão…

Católicos romanos e protestantes fundamentalistas estão à busca de certezas… Quem se atrai a eles em geral está em busca de certezas… Não é à toa que os católicos tenham investido certos pronunciamentos do papa (sobre fé e prática, feitos ex cathedra) do atributo de infalibilidade… E também não é à toa que os protestantes fundamentalistas tenham atribuído característica semelhante (inerrância), não a pronunciamentos, mas à Bíblia Sagrada (devidamente expurgada de alguns livros que os católicos romanos aceitam e em geral interpretada de forma literal)… Ambos estão à busca de certezas, de coisas verdadeiras de forma absoluta, de sentimentos e relacionamentos eternos… No tocante ao casamento, esquecem-se de que sua base deve ser o amor, não a certeza, a infalibilidade, a inerrância – e que o amor, sendo sentimento, pode acabar… Ele não é imortal, posto que é chama – mas deve ser infinito enquanto dure (Vinicius de Moraes – o soneto é transcrito na íntegra adiante). [Vide adiante, também, em outro post, uma nova crônica, "Dois fatos importantes sobre o ser humano", publicada posteriormente].

Transcrevo parte de uma outra crônica do Rubem Alves, que me é muito cara, porque se refere a pássaros e gaiolas – e tenho, em meu coração, um lugar especial para seu livrinho A Menina e o Pássaro Encantado (que, por sinal, traduzi para o Inglês como The Little Girl and the Enchanted Bird):

“Escrevo hoje para os que casam, por medo de que, fascinados por um rito, se esqueçam do outro… . . .

O primeiro rito, sobre que todos sabem, e para o qual se fazem convites, é feito com pedras, ferro e cimento.

Mas há um outro rito, secreto, que se faz com o vôo das aves, com água, brisa, espuma e bolhas de sabão.

O primeiro rito nasceu de uma mistura de alegria e tristeza. Viram o vôo do pássaro, ficaram alegres. Mas logo o pássaro se foi e ficaram tristes. Não lhes bastava que a alegria fosse infinita enquanto durasse. Queriam que ela fosse eterna. E disseram: ‘Queremos o vôo do pássaro, eternamente.’ E que coisa melhor existe para conter o vôo do pássaro que uma gaiola? E assim fizeram. Engaiolaram o pássaro e chamaram os mágicos, ordenando-lhes que dissessem as palavras do bruxedo: ‘Para sempre, até que a morte os separe.’

A definição mais precisa desse rito, eu a ouvi da boca de um sacerdote. ‘Não é o amor que faz um casamento’, ele afirmou. ‘É o contrato’. Contratos são feitos de promessas.

Assustei-me. Sabia que assim era, no civil, casamento-contrato, rito frio da sociedade, para definir os deveres (sobre os prazeres se faz silêncio) e a partilha dos bens e dos males. Sociedade é coisa sólida. Precisa de pedra, ferro e cimento. Garantias. Testemunhas. Documentos. O futuro há de ser da forma como o presente o desenhou. Para isso, os contratos. E a substância do contrato são as promessas. Sim. Ele estava certo. ‘Não é o amor que faz o casamento. É o contrato’. São as promessas.

Promessas são as palavras que engaiolam o futuro. Por isso elas se fazem acompanhar sempre de testemunhas. Se o pássaro engaiolado, em algum momento do futuro, mudar de sentimento e de idéia e resolver voar, as testemunhas estão lá para reafirmar as promessas feitas no passado. O dito e contratado não pode ser mudado.

Muitas são as promessas que os noivos podem fazer: prometo dividir os meus bens, prometo não maltratá-la, prometo não humilhá-lo, prometo protegê-la, prometo cuidar de você na doença. Atos exteriores podem ser prometidos.

Assim se fazem os casamentos, com pedra, ferro, cimento – e, espera-se, amor.

Mas as coisas do amor não podem ser prometidas. Não posso prometer que, pelo resto da minha vida, sorrirei de alegria ao ouvir seu nome… Não posso prometer que, pelo resto de minha vida, sentirei saudades na sua ausência…

Sentimentos não podem ser prometidos. Não podem ser prometidos porque não dependem da nossa vontade. Sua existência é efêmera. Só existem… enquanto existem! Como o vôo dos pássaros, o sopro do vento, as cores do crepúsculo.

O casamento contratual é um rito de adultos, porque somente os adultos desejam que o futuro seja igual ao presente. A sua gravidade, a sua seriedade, os passos cadenciados, processionais, as suas roupas, as suas máscaras, as palavras sagradas, definitivas, para sempre, o que Deus ajunta os homens não podem separar, a exaltação dos deveres: tudo dá testemunho de que esse é um ritual adulto.

O outro ritual, entretanto, se faz com o vôo das aves, com água, espuma e bolhas de sabão. É secreto, para ele não há convites. Secreto foi o casamento de Abelardo e Heloísa, o mais belo amor jamais vivido – o mais belo, mas proibido… Para esse tipo de amor não há convites, nem lugar certo, nem hora marcada: ele simplesmente acontece.

‘Amor é dado de graça, é semeado no vento, na cachoeira, no eclipse…’ (Drummond). Esse tipo de amor não precisa de altares: sempre que ele acontece o arco-íris aparece: a promessa de Deus, porque Deus é amor. Pode ser a sombra de uma árvore, um carro, uma cozinha, um banco de jardim, um vagão de trem, um aeroporto, uma mesa de bar, uma caminhada ao luar…

Não há promessas para amarrar o futuro. Há confissões de amor para celebrar o presente. ‘Como és formosa, querida minha, como és formosa! Há mel debaixo da tua língua!’, ‘O teu rosto, meu amado, é um canteiro de bálsamo e os teus lábios são lírios…’ (Bíblia Sagrada); ‘Eu sei que vou te amar, por toda a minha vida eu vou te amar, em cada despedida eu vou te amar, desesperadamente eu sei que vou te amar…’ (Vinícius); ‘Eu te amo, homem, amo o teu coração, o que é, a carne de que é feito, amo tua matéria, fauna e flora… Te amo com uma memória imperecível’ (Adélia Prado).

E os convidados, muito poucos, vestem-se como crianças: pés descalços, balões coloridos nas mãos: eles sabem que o amor fica somente se permanecermos crianças, eternamente…

‘Ego conjugo vobis in matrimonium’, diz um velho com rosto de criança.

Para vós invoco os prazeres que voam nos ventos e as alegrias que moram nas cores: beleza, harmonia, encantamento, magia, mistério, poesia: que essas potências divinas lhes façam companhia.

Que o sorriso de um seja, para o outro, festa, fartura, mel, peixe assado no fogo, coco maduro na praia, onda salgada do mar…

Que as palavras do outro sejam tecido branco, vestido transparente de alegria, a ser despido por sutil encantamento.

E que no final das contas e no começo dos contos, em nome do nome não-dito, bem-dito, em nome de todos os nomes ausentes e nostalgias presentes, de ágape e filia, amizade e amor, em nome do nome sagrado, do pão partido e do vinho bebido, sejam felizes os dois, hoje, amanhã e depois…”

Que coisa mais linda… mais protestantemente linda. Mas os católicos romanos a refugam. Infelizmente, os protestantes fundamentalistas ficaram, nesse aspecto, do lado dos católicos e tentaram até mesmo ir adiante, com sua doutrina da aliança matrimonial. Para eles, casamento é contrato, aliança. Trouxeram Deus para o casamento na forma de gaiola – não na forma do canto e da beleza do pássaro. Trouxeram Deus para o casamento para tentar eternizar e engaiolar o amor – esquecendo-se de que o amor só sobrevive em liberdade, e deixando de lado o fato de que, no Novo Testamento, Deus é um Deus de amor, não um Deus de contratos, pactos e alianças, como era o Deus do Antigo Testamento…

“Ama”, disse Agostinho, o mais protestante dos pais da igreja, que antecedeu o protestantismo em mais de mil anos, “e faze o que quiseres”.

Como prometi…

Soneto de Fidelidade

Vinicius de Moraes

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

(Vinicius de Moraes, "Antologia Poética", Editora do Autor, Rio de Janeiro, 1960, pág 96.)

Em São Paulo, 13 de Fevereiro de 2009 – Sexta-Feira 13.

Mensagem a Garcia

Transcrevo, abaixo, como mensagem de fim de ano, um texto, com o título acima, atribuído a Elbert Hubbard e datado de 22/2/1899. O texto tem quase cento e dez anos, portanto. A transcrição é feita, com pequenos ajustes de tradução, de uma publicação do SESI/SENAI, que eu digitalizei sem anotar o nome e a data, lastimavelmente perdendo o original.

Acho o texto fantástico. Topei com ele quando, há uns 12 anos, tentava ser empresário. Cheguei a ter mais de trinta funcionários na ocasião. Desisti, depois, por causa das dificuldades apontadas por Hubbard. Dispensei todos os funcionários, vendi uma casa que tinha para pagar os acertos, e escolhi trabalhar sozinho dali para frente. Não me arrependi.

Eis o texto:

———-

Em todo este caso cubano, um homem se destaca no horizonte de minha memória como o planeta Marte no seu periélio. Quando irrompeu a guerra entre a Espanha e os Estados Unidos, o que importava a estes era comunicar-se rapidamente com o chefe dos insurretos, Garcia, que se sabia encontrar-se em alguma fortaleza no interior do sertão cubano, mas sem que se pudesse precisar exatamente onde. Era impossível comunicar-se com ele pelo correio ou pelo telégrafo. No entanto, o Presidente [MacKinley] tinha de assegurar-se da sua colaboração, e isto o quanto antes. Que fazer?

Alguém lembrou ao presidente: "Há um homem chamado Rowan; e se alguma pessoa é capaz de encontrar Garcia, há de ser Rowan".

Rowan foi trazido à presença do Presidente, que lhe confiou uma carta com a incumbência de entregá-la a Garcia. De como este homem, Rowan, tomou a carta, meteu-a num invólucro impermeável, amarrou-a sobre o peito, e, após quatro dias saltou, de um barco sem coberta, alta noite, nas costas de Cuba; de como se embrenhou no sertão, para, depois de três semanas, surgir do outro lado da ilha, tendo atravessado a pé um país hostil e entregado a carta a Garcia, são coisas que não vêm ao caso narrar aqui pormenorizadamente. O ponto que desejo frisar é este: MacKinley deu a Rowan uma carta para ser entregue a Garcia; Rowan pegou a carta e nem sequer perguntou: "Onde é que ele está?"

Hosanas! Eis aí um homem cujo busto merecia se fundido em bronze perene e sua estátua colocada em cada escola do país. Não é de sabedoria livresca que a juventude precisa, nem de instrução sobre isto ou aquilo. Precisa, sim, de um endurecimento das vértebras, para poder mostrar-se altiva no exercício de um cargo; para atuar com diligência, para dar conta do recado; para, em suma, levar uma mensagem a Garcia.

O general Garcia já não é deste mundo, mas há outros Garcias. A nenhum homem que se tenha empenhado em levar avante um empresa, em que a ajuda de muitos se torne precisa, têm sido poupados momentos de verdadeiro desespero ante a imbecilidade de grande número de homens, ante a inabilidade ou falta de disposição de concentrar a mente numa determinada coisa e fazê-la.

Assistência irregular, desatenção tola, indiferença irritante e trabalho mal-feito parecem ser a regra geral. Nenhum homem pode ser verdadeiramente bem-sucedido, salvo se lançar mão de todos os meios ao seu alcance, quer da força, quer do suborno, para obrigar outros homens a ajudá-lo, a não ser que Deus onipotente, na sua grande misericórdia, faça um milagre enviando-lhe como auxiliar um anjo de luz.

Leitor amigo, tu mesmo podes tirar a prova. Estás sentado no teu escritório, rodeado de meia dúzia de empregados. Pois bem, chame um deles e peça-lhe: "Queira ter a bondade de consultar a enciclopédia e de me fazer uma descrição sucinta da vida de Corregio."

Dar-se-á, porventura, o caso de o empregado dizer calmamente: "Sim, senhor" e executar o que lhe pediu?

Nada disso! Olhar-te-á perplexo e de soslaio para fazer uma ou mais das seguintes perguntas:

  • Quem é ele?
  • Que enciclopédia?
  • Onde é que está a enciclopédia?
  • Fui eu acaso contratado para fazer isso?
  • Não quer dizer Bismarck?
  • E se Carlos o fizesse?
  • Já morreu?
  • Precisa disso com urgência?
  • Não será melhor que eu traga o livro para que o senhor mesmo procure o que quer?
  • Para que quer saber disso?

E aposto dez contra um que, depois de haveres respondido a tais perguntas, e explicado a maneira de procurar os dados pedidos e a razão por que deles precisas, teu empregado irá pedir a um companheiro que o ajude a encontrar Garcia, e depois voltará para te dizer que o tal homem não existe. Evidentemente, pode ser que eu perca a aposta; mas, segundo a lei das médias, jogo na certa.

Ora, se fores prudente não te darás ao trabalho de explicar ao teu "ajudante" que Corregio se escreve com "C" e não com "K" , mas limitarás a dizer-lhe meigamente, esboçando o melhor sorriso: "Não faz mal; não se incomode", e, dito isto, te levantarás e procurarás tu mesmo.

E esta incapacidade de atuar independentemente, esta inépcia moral, esta invalidez da vontade, esta atrofia de disposição de solicitamente se pôr em campo e agir – são as causas que transferem para um futuro inalcançável o advento do socialismo. Se os homens não tomam iniciativa de agir em seu próprio proveito, que farão quando o resultado do seu esforço for necessário para redundar em benefício de todos?

Por enquanto parece que os homens ainda precisam de ser feitorados. O que mantém muito empregado no seu posto e o faz trabalhar é o medo de, se não fizer, ser despedido no fim do mês. Anuncie precisar de um taquígrafo, e nove entre dez candidatos à vaga não saberão ortografar nem pontuar – e, o que é pior, pensam que não é necessário sabê-lo.

Poderá uma pessoa destas entregar uma carta a Garcia?

"Vê aquele guarda-livros", dizia-me o chefe de uma grande fábrica.

"Sim, que tem?"

"É um excelente guarda-livros. Contudo, se eu o mandasse transmitir um recado, talvez se desobrigasse da incumbência a contento, mas também podia muito bem ser que no caminho entrasse em duas ou três casas de bebidas, e que, quando chegasse ao seu destino, já não se recordasse da incumbência que lhe fora dada. "

Será possível confiar a um tal homem uma carta para entregá-la a Garcia?

Ultimamente temos ouvido muitas expressões sentimentais, externando simpatia para com os pobres entes que mourejam de sol a sol, para com os infelizes desempregados à cata de trabalho honesto, e tudo isto, quase sempre entremeado de muita palavra dura para com os homens que estão no poder.

Nada se diz do patrão que envelhece antes do tempo, num baldado esforço para induzir eternos desgostosos e descontentes a trabalhar conscienciosamente; nada se diz de sua longa e paciente procura de pessoal, que, no entanto, muitas vezes nada mais faz do que "matar o tempo", logo que ele volta as costas. Não há empresa que não esteja despedindo pessoal que se mostra incapaz de zelar pelos seus interesses, a fim de substituí-lo por outro mais apto. Este processo de seleção por eliminação está se operando incessantemente, em tempos adversos, com a única diferença que, quando os tempos são maus e o trabalho escasseia, a seleção se faz mais escrupulosamente, pondo-se fora, para sempre, os incompetentes e os inaproveitáveis. É a lei da sobrevivência do mais apto. Cada patrão, no seu próprio interesse, trata somente de guardar os melhores – aqueles que podem levar uma mensagem a Garcia.

Conheço um homem de aptidões realmente brilhantes, mas sem a fibra precisa para gerir um negócio próprio e que, ademais, se torna completamente inútil para qualquer outra pessoa, devido à suspeita insana que constantemente abriga de que seu patrão o esteja oprimindo ou tencione oprimi-lo. Sem poder mandar, não tolera que alguém o mande. Se lhe fosse confiada uma mensagem a Garcia, retrucaria provavelmente: "Leve-a você mesmo".

Hoje este homem perambula errante pelas ruas em busca de trabalho, em quase petição de miséria. No entanto, ninguém que o conheça se aventura a dar-lhe trabalho porque é a personificação do descontentamento e do espírito de réplica. Refratário a qualquer conselho ou admoestação, a única coisa capaz de nele produzir algum efeito seria um bom pontapé dado com a ponta de uma bota número 42, sola grossa e bico largo.

Sei, não resta dúvida, que um indivíduo moralmente aleijado como este não é menos digno de compaixão que um fisicamente aleijado. Entretanto, nesta demonstração de compaixão, vertamos também uma lágrima pelos homens que se esforçam por levar avante uma grande empresa, cuja horas de trabalho não estão limitadas pelo som do apito e cujos cabelos ficam prematuramente encanecidos na incessante luta em que estão empenhando contra a indiferença desdenhosa, contra a imbecilidade crassa e a ingratidão atroz justamente daqueles que, sem o seu espírito empreendedor, andariam famintos e sem lar.

Dar-se-á o caso de eu ter pintado a situação em cores demasiado carregadas? Pode ser que sim; mas, quando todo mundo se apraz em divagações, quero lançar uma palavra de simpatia ao homem que imprime êxito a um empreendimento, ao homem que, a despeito de uma porção de empecilhos, sabe dirigir e coordenar os esforços de outros, e, que, após o triunfo, talvez verifique que nada ganhou; nada, salvo a sua mera subsistência.

Também eu carreguei marmitas e trabalhei como jornaleiro, como também tenho sido patrão. Sei, portanto, que alguma coisa se pode dizer de ambos os lados.

Não há excelência na pobreza de per si; farrapos não servem de recomendação. Nem todos os patrões são gananciosos e tiranos, da mesma forma que nem todos os pobres são virtuosos.

Todas as minhas simpatias pertencem ao homem que trabalha conscienciosamente, quer o patrão esteja, quer não. E o homem que, ao lhe ser confiada uma carta para Garcia, tranqüilamente toma a missiva, sem fazer perguntas idiotas, e sem a intenção oculta de jogá-la na primeira sarjeta que encontrar, ou praticar qualquer outro feito que não seja entregá-la ao destinatário, este homem nunca fica "encostado", nem tem que se declarar em greve para forçar um aumento de ordenado.

A civilização busca ansiosa, insistentemente, homens nestas condições. Tudo que um tal homem pedir, se lhe há de conceder. Precisa-se dele em cada cidade, em cada vila, em cada lugarejo, em cada escritório, em cada oficina, em cada loja, fábrica ou venda. O grito do mundo inteiro praticamente se resume nisso: Precisa-se, e precisa-se com urgência, de um homem capaz de levar uma mensagem a Garcia.

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Feliz Ano Novo

Em São Paulo, 26 de Dezembro de 2008

A oração de Jabez

Apesar de já ter lido a Bíblia inteira várias vezes e de ter estudado teologia por vários anos, nunca tinha prestado atenção a um trechinho de I Crônicas: o versículo 10 do capítulo IV. Ali, perdida no meio de uma genealogia (os descendentes de Judá), há uma pequena oração digna de nota. Minha irmã Priscila a transcreveu recentemente no Orkut dela. Eis a oração (numa mescla que faço de várias traduções para o Português e para o Inglês):

“Ah, que tu me abençoasses, ampliando os meus limites e sobre mim colocando a tua mão, para que o mal não me alcance e me machuque”.

A oração é bonita, curta e objetiva.

Em primeiro lugar, Jabez na realidade não ousa pedir: ele mais expressa um desejo do que pede. (Uma das traduções brasileiras traduz o começo da oração por “Oh! tomara que me abençoes”). Se eu fosse um exegeta ousado, sugeriria que talvez Jabez reconheça que não mereça a bênção que deseja receber…

Em segundo lugar, Jabez não se refere a uma bênção genérica: ele explicita o que deseja… Novamente, se eu fosse um exegeta ousado, diria que Jabez, mesmo reconhecendo que não merece a bênção que deseja, tem fé que sua oração vai ser atendida.

Jabez deseja, primeiro, que seus limites sejam expandidos. Expandir limites significa crescer, desenvolver-se. Crescimento e desenvolvimento são processos de mudança. Jabez quer mudar, quer que suas fronteiras se estendam e seus horizontes se ampliem…

Mas ele também deseja, em segundo lugar, que esse processo de mudança e expansão de limites seja, tanto quanto possível, sem dor…

Jabez parece saber que, quando mudamos, ainda que seja por decisão própria, refletida e consciente, problemas de vários tipos podem surgir.

Às vezes, nós mesmos temos dificuldades em lidar com as mudanças trazidas pela realização de nossos desejos e sonhos e enfrentamos problemas por causa disso. (Alguém já disse, com propriedade, que devemos ter muito cuidado com o que sonhamos, porque sonhos muitas vezes se tornam realidade…)

Outras vezes, são os outros que têm dificuldades em lidar com nossas mudanças, porque nem sempre gostam delas, sentem-se prejudicados – e, às vezes, até se revoltam, e procuram nos causar problemas.

Por isso Jabez pede a Deus que o proteja dos males que processos de mudança podem trazer – ou, pelo menos, que o mal não o alcance e machuque.

Sábio, o Jabez. E provavelmente feliz, porque, segundo consta, no próprio versículo, Deus concedeu a Jabez o que ele lhe pediu.

Em São Paulo, 26 de Dezembro de 2008

Por que nos emocionamos?

Acabei de receber, numa lista (Rede Liberal), enviado pelo Embaixador José Osvaldo de Meira Penna, do alto de seus noventa e tantos anos, um conjunto de slides, com fundo musical, sobre Paraty.

Ele pode ser visto no seguinte URL (que, como gentileza aos meus leitores fiéis, eu disponibilizo):

http://www.infoutil.org/paraty.pps  

Mas o que me intriga é o seguinte… O que leva uma pessa, que já viveu perto de cem anos de vida, se emocionar com um conjunto de fotos, acompanhada de um fundo musical, a ponto de se dar ao trabalho de enviá-lo a seus amigos???

Se você encarar a vida da perspectiva de quem tem hoje dezoito anos, quem tem cinqüenta anos está praticamente morto. Provavelmente esse pessoal se pergunta: será que gente de 50 anos ainda sente emoções??? Ou ainda transa???

E, no entanto, aqui está o Embaixador, com mais de noventa anos, gastando o seu cada vez mais precioso tempo, e demonstrando mais emoção do que provavelmente existe na maioria das transas dos jovens de hoje, para enviar um conjunto de slides, com fundo musical, que é, num certo plano, um verdadeiro orgasmo — um orgasmo espiritual, talvez?

Em Campinas, 30 de Agosto de 2008

O ciúme

Há uma canção linda chamada "O ciúme", de Caetano Veloso…

Eis a letra:

Dorme o sol à flor do Chico, meio-dia…
Tudo esbarra embriagado de seu lume.
Dorme ponte, Pernambuco, Rio, Bahia.
Só vigia um ponto negro: o meu ciúme…

O ciúme lançou sua flecha preta,
E se viu ferido justo na garganta
Quem, nem alegre, nem triste, nem poeta,
Entre Petrolina e Juazeiro canta… 

Velho Chico, vens de Minas,
De onde o oculto do mistério se escondeu…
Sei que o levas, todo em ti, não me ensinas,
E eu sou só, eu só, eu só, eu…

Juazeiro, nem te lembras dessa tarde,
Petrolina, nem chegaste a perceber
Mas, na voz que canta tudo ainda arde…
Tudo é perda, tudo quer buscar, cadê?

Tanta gente canta, tanta gente cala,
Tantas almas esticadas no curtume…
Sobre toda estrada, sobre toda sala,
Paira, monstruosa, a sombra do ciúme…

Vejam três lindas interpretações dessa canção no YouTube:

* Gal e Caetano:

http://br.youtube.com/watch?v=z33oNmI9FG4

* Maria Bethânia, cada vez mais linda com seus cabelos grisalhos:

http://br.youtube.com/watch?v=V43n8N_GBdY&NR=1

* Ricardo Vignini, com viola caipira:

http://br.youtube.com/watch?v=z3IeiPuriqo&NR=1

Pena não ter a versão com Pena Branca e Xavantinho… Se alguém souber onde posso encontrá-la, ficarei imensamente grato se entrarem em contato comigo (tenho-a em mp3).

[Ana Maria, obrigado… How can I ever thank you?]

Em Campinas, 30 de Agosto de 2008

O elogio à pobreza – material e do espírito (não nessa ordem)

Parte da herança funesta do Cristianismo, que o Socialismo prontamente absorveu, é o elogio à pobreza – material e espiritual.

A Bíblia – em especial o Novo Testamento – desanca os ricos. "É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus" (Mar 10:23-25). Um jovem rico fica desolado quando ouve de Jesus a injunção de que venda tudo o que tem e dê o dinheiro aos pobres (Mat 16:21). Ou seja, se quiser manter a sua fortuna, ficará fora do Reino dos Céus. 

Por outro lado, o mesmo Novo Testamento elogia os pobres – mesmo sem deixar clara a razão desse elogio à pobreza. Mais do que as referências elogiosas aos pobres materiais – a pobreza ali é tido como meritória e virtuosa, ao contrário da riqueza – assusta-me o elogio à pobreza espiritual.

Nas Bem-Aventuranças, Jesus declara bem-aventurados os "pobres de espírito", afirmando que "deles é o Reino dos Céus" (Mat 5:3; Luc 6:20).

Sempre tive dificuldade em entender essa bem-aventurança. Na verdade, a dificuldade não está tanto em entender o que foi  dito. Até acho que entendo. Minha dificuldade está em entender que justificativa poderia haver para bem-aventurar os pobres de espíito… Que fosse os pobres de matéria, ainda vá – mas os pobres de espírito !?!?!?

O que poderia ser um pobre de espírito?

Um site espírita que encontrei na Internet tenta definir pobre de espírito da seguinte forma: "É necessário explicar primeiro o que Jesus quis dizer com pobres de espírito. São as pessoas que não querem ser o centro das atenções, que não buscam só o seu destaque individual, mas sim, trabalham para a coletividade, mesmo que isso venha a incomodar sua própria vida. Os pobres de espírito são as pessoas que buscam o conhecimento, a riqueza interior, deixando as aparências exteriores em segundo plano. Estas pessoas cultivam a humildade e a caridade e por isto o Reino dos Céus será delas."

(http://www.espirito.org.br/portal/palestras/geap/palestra14.html)

Ora… não sei de onde o autor dessa passagem tira essa definição de pobre de espírito. Pobre de espírito é quem busca conhecimento e riqueza interior??? Quer o autor nos fazer crer que pobreza de espírito é, na verdade, riqueza de espírito??? Faça-me o favor.

No meu entender, pobre de espírito é alguém que tem carência de espírito, ou seja, alguém cuja habilidade mental – para usar uma linguagem meio politicamente correta – deixa a desejar… Enfim, um – agora usando uma linguagem politicamente incorreta – retardado mental. É nesse sentido que usamos o termo quando chamamos alguém de "pobre de espírito". Contrário ao que pretende o site espírita, chamar alguém de "pobre de espírito" certamente NÃO É elogiá-lo. 

Até aí, tudo bem… Acho que o meu entendimento da expressão "pobre de espírito" é correto. Meu problema é outro.

Meu problema é: (a) Por que esse tipo de pessoa seria bem-aventurado? (b) Por que esse tipo de pessoa herdaria o Reino dos Céus?

Na verdade, tenho um terceiro problema: (c) Se o Reino dos Céus será herdado por esse tipo de gente, quem mais vai querer ir para lá??? Mas esse problema reconheço que não é meu).  

Lanço essas perguntas para quem ouse tentar respondê-las. Anos de estudos da religião e da teologia não me deram uma resposta.

Devo, porém, qualificar um pouco minha afirmação anterior. Mas a qualificação será feita não em nome de meus anos no estudo da religião e da teologia, mas, sim, em nome de minha experiência de vida.

Entendo que os pobres de espírito sejam bem-aventurados, se, por bem-aventurança, se considera, apenas, uma felicidade negativa, como a ausência de sofrimento, físico ou mental. Isso quer dizer que entendo que os pobres de espírito sejam bem-aventurados se bem-aventurado é o cara não-infeliz, totalmente desencucado, mesmo que sua não-infelicidade ou seu desencucamento sejam decorrentes, digamos, de sua… pobreza de espírito, de sua incapacidade de imaginar coisas que pudessem fazê-lo feliz além do feijão-com-arroz (ou baião de dois) diário.

Esse entendimento da expressão é corroborado por ditos dos Evangelhos em que se recomenda que não devemos nos preocupar com o dia de amanhã, com o que haveremos de comer, de beber e de vestir porque… "Olhai os pássaros que voam; eles não semeiam nem colhem, nem ajuntam comida em celeiros; contudo, seu Pai celestial os alimenta… Olhai os lírios do campo, como crescem! Eles não tecem nem fiam e, entretanto, nem mesmo Salomão em toda a sua glória se vestiu como eles"… (Mat 6:25-29; Luc 12:22-24). Em miúdos: não é preciso ficar trabalhando, dando o duro – na hora Deus proverá. (Ou o Lulla).

O problema – devo dizer o pobrema??? – é que quanto menos pobres de espírito somos, mais crescem as nossas "infelicidades" – até mesmo nossas "misérias", ambos os termos entre aspas. Imaginamos coisas que não temos, passamos a querê-las, ainda que supérfluas, e nos sentimos infelizes quando não conseguimos… Se não temos carro, sonhamos com um, ainda que seja um Brasília amarela 1977. Se temos um Brasília 77, queremos um Monza 1986. Se temos um Monza 86, queremos um Escort XR3 vermelho 1993. Se temos o Escort, queremos um Corolla 2000. Se temos o Corolla 2000, queremos um Corolla 0, novinho em folha. Se temos o Corolla novinho, queremos um Hilux. Se temos o Hilux, queremos um BMW. Se temos o BMW, queremos uma Ferrari (da cor do XR3)… [Aqui entre nós, só consinto em colocar a Ferrari no feminino – nos outros casos todos usei o masculino.] Todos esses quereres ocorrem a quem não é pobre de espírito e consegue ir saindo, pouco a pouco, da pobreza material. Quem mora debaixo da ponte há décadas se contentará com um carrinho de empurrar lixo, ou com uma bicicleta – se tanto.

Os santos eremitas encontraram uma forma de bem-aventurança ou felicidade coerente com a bem-aventurança citada: não querer nada. Quem não quer nada é bem-aventurado porque nada lhe falta. Mas a felicidade é negativa. Talvez tenha sido isso que Jesus quis dizer quando afirmou que os pobres de espírito são bem-aventurados. São bem-aventurados apenas porque nada querem; e nada querem exatamente porque são pobres de espírito. São (nesse sentido negativo) mais felizes do que os ricos de espírito que, por mais que tenham, sempre conseguem se sentir infelizes por não ter alguma coisa que sua rica imaginação (parte do seu espírito) pode lhes sugerir…

Eis o que digo em meu artigo "Justiça Social, Igualitarismo e Inveja", publicado em 1991:

"O desejo é a energia básica que alimenta a evolução humana. O que chamamos de felicidade é o estado criado pela satisfação de nossos desejos: ficamos felizes quando nossos desejos são realizados e infelizes quando não o são. A experiência nos mostra que, em regra, desejamos o maior grau possível de felicidade – um estado em que todos os nossos desejos são satisfeitos – e que temos cada vez mais desejos.

Na verdade, nossa felicidade não depende necessariamente de bens materiais ou objetivos: depende, fundamentalmente, de nossos desejos. Se estes são satisfeitos, seremos felizes. Caso contrário, não. 

Se nossos desejos são poucos, ou facilmente realizáveis, não é tão difícil ser feliz. Na verdade, quem nada deseja não tem como ser infeliz, pois não terá nenhum desejo frustrado ou contrariado. O asceta, definido como aquele que conscientemente procura reduzir seus desejos a um mínimo, é, devemos presumir, tanto mais feliz quanto menos deseja.

É preciso registrar, também, que há uma relação estreita entre, de um lado, felicidade e, de outro lado, conhecimento e imaginação. imaginação – ou, talvez seja melhor dizer, entre felicidade e ausência de conhecimento e imaginação. E isto por uma razão simples: não podemos desejar aquilo de que não temos conhecimento ou que somos incapazes de imaginar. Só o (de alguma forma) conhecido ou imaginado pode ser objeto de desejo. Assim sendo, quem ignora e é incapaz de imaginar as várias possibilidades que a vida oferece tem seus desejos circunscritos por sua falta de conhecimento e imaginação, e pode, por causa disso, ser mais feliz do que quem muito conhece ou é capaz de imaginar e, em conseqüência disso, muito deseja, mas não tem como satisfazer seus desejos.

É inegável, porém, que, embora o asceta, o ignorante e o não-imaginativo (que têm poucos desejos) possam ser felizes, sua felicidade é negativa, vazia e estéril, por decorrer do fato de que (conscientemente ou não) pouco desejam. Além disso, sua ética (no caso do asceta) e seu comportamento são involutivos, não levam à evolução humana.

O progresso e o desenvolvimento humano não são frutos da felicidade (negativa) causada pela ausência ou supressão do desejo. São conseqüência, isso sim, muito mais do desejo insatisfeito – mas que se acredita poder satisfazer. São a ética e o comportamento daqueles que observam ou imaginam estados e coisas que não possuem, e resolvem atingi-los ou consegui-los, que produz o progresso e o desenvolvimento humano."

(http://chaves.com.br/TEXTSELF/PHILOS/Inveja-new.htm)

Gosto de ver TV porque a TV me mostra, freqüentemente, um mundo diferente do meu. Programas como o do Sílvio Santos, o do Gugu, o do Luciano Hulk, nos mostram gente extremamente rica explorando a pobreza – material e de espírito – de outras pessoas.

O sonho da pessoa que aparece nesses programas geralmente é ganhar algo como 35 ou 50 mil reais para… comprar ou construir uma casinha própria!!! Meus Deus do céu, que casinha se pode comprar ou construir com 50 mil reais??? Qualquer pedaço de terra que me interesse, pelado, sem nenhuma benfetoria, custa no mínimo dez vezes mais… Mas esse pessoal pelo menos quer alguma coisa!

A reforma (ainda que impressionante) de uma casinha paupérrima, sem água encanada e tudo o mais, situada no fim do mundo (devo dizer "no cu do Judas"???), feita pelos patrocinadores do segmento "Lar, Doce Lar" do programa do Luciano Hulk (ao qual, admito, assisto todos os sábados – gosto dele: mais ainda da mulher dele, que não me parece tão babaca…), e mostrada no sábado passado, é evidência de que aquilo que a maior parte das pessoas (no Brasil) considera felicidade (ou bem-aventurança material) seria, pela minoria chamada de privilegiada, considerado uma desgraça total, absoluta. Será que qualquer membro da classe média brasileira (cujo teto superior de rendimento é 4.500,00 reais por família) se consideraria bem-aventurado de morar na casa reformada no sábado passado??? Tenho certeza que não. Provavelmente referiria pagar aluguel no Meyer ou na Vila Clementino.

[A pobre moça que morava na casa que foi reformada era pobre de bens materiais mas não tanto de espírito: na verdade, espiritualmente era (é) uma heroína. Levou um tiro que a deixou em cadeira de roda, mas ainda assim cuida da casa e dos filhos como se não tivesse nenhum problema. Na realidade, ela uma lição de vida. Fico contente que o programa do Hulk lhe tenha dado uma casa melhor. Discordo, isto sim, da exploração da pobreza e da desgraça alheia.]

E aqui chega o ponto em que o fiísico se liga ao mental, o material se liga ao espiritual…

Por que alguém que se julgaria extremamente feliz em morar no fim do mundo (i.e….), numa casinha simples, mas bem decorada pela Tok Stok, dada de mão beijada, e, portanto, não correspondendo a nenhum grande esforço seu (além de escrever uma carta) – por que, repito, seria essa pessoa bem-aventurada e digna de herdar o Reino dos Céus?

Para ser bem pessoal, refraseio a pergunta: Por que eu não?

Explico… Nasci de pais pobres. Só vim morar em casa com água encanada, luz elétrica e banheiro dentro quando me mudei para Santo André, com oito anos e meio. Durante todo o tempo em que morei com meus pais, nunca morei em casa própria: só em casa alugada (e cujo aluguel nem era pago por meus pais, mas, sim, pela Igreja Presbiteriana do Brasil). Até que completei 32 anos, em 1975, quando já trabalhava na UNICAMP, sempre morei em casa alugada. Em 1975 comprei minha primeira casa, financiada pelo SFH, mas com meu próprio dinheiro, decorrente do meu trabalho e do meu esforço. Paguei a entrada com uma pequena poupança. Paguei as 180 prestações com o meu salário. Depois de nove anos comprei outra… Não me considero rico (ainda falta a minha Ferrari  vermelha, admito), mas também não sou pobre. Procuro viver corretamente. Por que eu não sou bem-aventurado? Por que eu não sou digno de herdar o Reino dos Céus, seja lá o que esse reino???

Transcrevo a seguir um artigo de João Luiz Mauad, relevante. Ele mesmo cita uma matéria de jornal.

"Pobreza não é virtude

por João Luiz Mauad em 20 de agosto de 2008

Talvez não exista nada mais representativo das diferenças culturais entre as sociedades brasileira e americana do que o tratamento que dispensam à riqueza e à pobreza.  Enquanto os americanos costumam reverenciar a riqueza, os brasileiros a demonizam de todas as formas possíveis, como se ela fosse um pecado mortal e sua posse sinônimo de má índole ou crime pregresso. Já a pobreza, se – graças aos esforços politicamente corretos da esquerda – já não é mais motivo de vergonha, como foi um dia lá por aquelas bandas, pelo menos ainda não se tornou razão de orgulho altaneiro, como é por aqui.

Um amigo, que estudou por vários anos nos EUA durante a década de 70, conta que, certa vez, assistindo a uma cerimônia de fim de ano no campus da universidade, deparou-se com algo bem estranho. Havia na platéia dezenas de senhores e senhoras segurando placas com números os mais variados. Sem nada entender, perguntou a um colega o que era aquilo. Para sua surpresa, ficou sabendo que os números escritos nas tais placas, expostas com orgulho para o alto, significavam a quantidade de milhões de dólares que cada um deles já havia feito – nos EUA, se costuma dizer que alguém faz dinheiro, ou seja, transforma trabalho em dinheiro, e não que ganha como se diz por aqui – desde que deixara a faculdade. Não é incomum também que os ex-alunos façam doações generosas às universidades, numa forma de demonstrar gratidão pela ajuda na obtenção do sucesso.

Aqui no Brasil, por outro lado, muita gente é levada a esconder o dinheiro que possui, ainda que obtido licitamente e a troco de muito trabalho, para não despertar o preconceito alheio. Enquanto isso, ser pobre virou sinônimo de virtude. A começar pelo indefectível "Central da Periferia", programa apresentado na TV pela atriz Regina Casé, cuja proposta é a exaltação dos hábitos e costumes das gentes da dita "periferia", o "pobrismo" no país de Macunaíma está mais em alta do que nunca. Tudo que emana dos pobres é "do bem", é "tudo de bom". Vejam, por exemplo, o famigerado estilo "funk" de música, que mistura uma batida horrível com letras degradantes, e virou uma verdadeira cachaça país afora.  Ou a moda "cachorra" e suas calças torturantes de tão apertadas, que vestem onze de cada dez adolescentes do país.

Uma das conseqüências mais visíveis desse estado de coisas está no fato de a maioria dos políticos, de uns tempos para cá, fazer questão de declarar-se formalmente pobre.  Alguns, inclusive, declaram-se tão miseráveis que dá até pena.

Dos candidatos a prefeito do Rio de Janeiro, por exemplo, apenas um declarou possuir algum patrimônio, ainda que este não chegue nem perto do que se possa chamar de riqueza. Só para se ter uma idéia do descalabro reinante, um certo candidato – representante daquela que Nelson Rodrigues chamaria de "esquerda festiva" – chegou a apresentar uma declaração de bens onde tudo que consta é uma caderneta de poupança com pouco mais de 11 mil reais. Alega também que mora de favor, num apartamento emprestado pela octogenária vovozinha de sua mulher.

Tudo bem, ninguém tem nada com a vida privada dele, mas o indigitado é filho de uma família de classe média e detentor de mandatos legislativos há vários anos. Portanto, seguindo a lógica dos fatos, de duas, uma: ou o fulano é um perdulário inconseqüente que, já na meia-idade, ainda não conseguiu poupar nada nem adquirir um único bem de valor, malgrado uma renda bem acima da média nacional; ou, por pura demagogia, esconde o patrimônio que tem.

A idiossincrasia pobrista chegou a tal ponto que o velho desejo de ascensão de classe sequer existe mais. Essa característica comportamental, tão estranha quanto absurda, pôde ser vista com clareza a partir da divulgação recente de um estudo estatístico (a meu ver capenga, mas isso é o que menos importa aqui) da FGV, amplamente comentado pela mídia, onde se procura demonstrar que a classe média é hoje a maioria no país. Vejam esta matéria do jornal Folha de São Paulo (os grifos são meus):

CLASSE MÉDIA EMERGENTE SE ACHA POBRE

ELVIRA LOBATO

DA SUCURSAL DO RIO

Poucas notícias provocaram mais reação em Vila Kennedy – bairro de 200 mil habitantes, na zona oeste do Rio – do que a pesquisa da Fundação Getulio Vargas que classificou como classe média as famílias com renda mensal a partir de R$ 1.064. Até moradores com rendimento acima desse patamar se vêem como pobres e rejeitam serem chamados de classe média.

"É uma baixaria. Fiquei revoltado quando vi a notícia na TV. A classificação é vazia e mentirosa", reagiu o aposentado João Galdino de Melo, presidente da Associação dos Moradores de Vila Progresso. Pai de três filhos, que estudam e trabalham, Galdino diz não ter dúvida de que sua família é pobre, embora a renda familiar atinja R$ 2.400.

(…)

Mara Martins, 32, cinco filhos, tem renda familiar mensal de R$ 1.800, somando a pensão de R$ 200 que recebe do pai de um dos filhos; (…) Ela diz que ficou "doente" ao saber da notícia sobre a classe média, da qual, agora, seria parte. "A única roupa que comprei para mim neste ano foi um vestido, de R$ 10. Nunca fui a um cinema. Trabalho todos os dias e não tenho lazer. Classe média, para mim, tem de ter lazer."

(…)

O ex-funcionário da Petrobrás José Camilo Neves, 57, taifeiro aposentado, tem pensão de R$ 3.400 por mês, mas nem ele se considera classe média, pois cinco pessoas dependem de sua renda, não tem lazer e mora em rua sem calçamento, que há até pouco tempo tinha esgoto a céu aberto.

A posse de bens de consumo não foi considerada pelos entrevistados de Vila Kennedy como indicador de classe média, porque mesmo os que se definem como pobres possuem televisão, geladeira, fogão, DVD, aparelho de som e pelo menos um telefone celular.

Na avaliação do aposentado João Galdino de Melo, 51, a renda familiar mínima para definir classe média deveria ser de R$ 4.000 por mês. Isso porque ele e os filhos têm rendimento conjunto de R$ 2.400 e a família se considera pobre, morando na periferia da cidade, onde o Estado é ausente.

Os salários dos filhos não são suficientes para pagar as despesas deles, e o pai, cuja pensão é de R$ 1.200, paga parte delas. Os três estudam em faculdade particular.

Galdino leva a reportagem da Folha até sua casa, para mostrar o padrão de vida da família. Na garagem, um Fiat Prêmio de 18 anos. A casa tem TV, geladeira, fogão, aparelho de som, DVD e computador. A TV por assinatura e a internet rápida são oferecidos por operador clandestino. (…)

Independentemente dos eventuais erros cometidos no referido estudo, está na cara que há muita gente aí com medo de perder as benesses do assistencialismo estatal que o status de pobre lhes confere, bem como alguns outros que assim reagem por puro oportunismo político, como parece ser o caso do Presidente da Associação dos Moradores. O fato, porém, é que a ascensão de classe, uma realização que, num passado não muito distante, seria motivo de orgulho para qualquer um, hoje passou a ser considerado quase uma desonra. É a velha luta de classes, cantada em prosa e verso pela esquerda irresponsável, mostrando a que veio."

Em Campinas, 28 de Agosto de 2008