Ainda sobre o trem no Brasil

Recebi, a propósito de um artigo sobre "O Trem no Brasil", aqui neste Space (que transcrevo abaixo, mas que pode ser encontrada no URL http://ec.spaces.live.com/blog/cns!511A711AD3EE09AA!1137.entry) uma mensagem de um leitor chamado Serginho, de São Paulo, que tem 43 anos e que fez, quando criança, viagens de trem entre São Paulo e Maringá. Ele tem algumas dúvidas, que gostaria de esclarecer, para poder contar aos filhos sobre a experiência gostosa que era viajar de trem por longas distâncias aqui no Brasil de alguns anos atrás. 

Especificamente, ele pergunta:

1) Qual o tipo de trem que fazia esta viagem (São Paulo – Maringá)? (Por exemplo, modelo, cores dos vagões, máquina, etc.)

2) Qual o caminho percorrido? (Por exemplo, cidades onde passava e parava — sei que passava em Ourinhos)

3) Com relação ao modelo do trem pergunto porque viajei muito para o interior de São Paulo (Oswaldo Cruz) e os trens eram da Companhia Paulista/Fepasa e eram nas cores azul e creme, as máquinas eram na maioria das vezes vermelhas ou na cor azul. Partimos sempre da estação da Luz, acho que por volta das 23:00 horas.

Dei uma resposta individual a ele, mas já descobri que está incompleta. Aqui transcrevo a resposta, com os acréscimos de que me lembrei depois de enviá-la.

Caro Sérgio:

O de que realmente me lembro, no tocante à viagem de São Paulo para o Paraná, é o que disse na mensagem a que você se refere:

"As viagens que ficam mais gravadas em minha memória eram entre São Paulo (Estação Sorocabana) e Ourinhos, no famoso (e confiável) Expresso Ouro Verde. Saía da Sorocabana em São Paulo por volta das 22h (22h10, creio) e chegava a Ourinhos de manhã. O trem era lindo — verde, naturalmente. Íamos numa cabine leito, meus pais, meu irmão (mais novo 3 anos e 3 meses) e eu. Eu dormia no beliche de cima, como meu pai, meu irmão no beliche de baixo, com minha mãe. Isso se dava antes de eu completar sete anos. Minha mãe levava sanduíches de presunto e queijo e um sacolinha com queijo e goiabada. Viagem de trem para mim ficou para sempre associada com sanduíches de presunto e queijo e com Romeus-e-Julietas… "

O trem e a linha, neste caso, eram da Estrada de Ferro Sorocabana, não da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Os vagões do trem eram de ferro (ou algo que se lhe assemelhasse), não de madeira, e tinham a cor verda escura, que explica o nome nome do trem: "Expresso Ouro Verde". O trajeto do Expresso Ouro Verde era entre São Paulo (Estação Sorocabana, nome oficial Júlio Prestes) e Ourinhos. Ele saía da Sorocabana seguindo o trajeto da linha da Sorocabana, que era o mesmo trajeto da linha de trem metropolitano que, hoje, saindo da Júlio Prestes, passa por Barra Funda, Lapa, Domingos de Moraes, Presidente Altino, etc. Osasco, Carapicuíba, Barueri, Jandira, Itapevi, etc. (não me lembro se a ordem das estações é bem essa). Depois de Itapevi passava por várias estações, como Sorocaba, e acabava em Ourinhos. A linha da Sorocabana seguia mais ou menos o trajeto da Rodovia Raposo Tavares.

Tanto quanto eu saiba, o Expresso Ouro Verde terminava seu trajeto em Ourinhos. A linha da Sorocabana, e outros trens da Sorocabana, iam até Presidente Prudente — creio que até Presidente Epitácio, na divisa com Mato Grosso. Já fui nesse trem até a divisa, no início nos anos 60. Na divisa havia um ramal que ia para o Norte, ligando com outras cidades. Não sei se chegava a Dracena, encontrando a linha da Paulista. 

De Ourinhos para frente — quando eu era criança, na década de 40, o trem só ia até Apucarana, se bem me lembro: quando eu fazia esse trajeto Maringá era uma cidadezinha minúscula, morei lá de 1947 até 1951) –a gente baldeava para um trem bem mais vagabundo da Rede de Viação Paraná – Santa Catarina, que também tinha linha de Ourinhos para Curitiba e, acredito, dado o nome, para Florianópolis.

O trem que ia de São Paulo até Oswaldo Cruz, passando por Bauru, Marília, etc. era o da Paulista, que saía da Estação da Luz. Fiz algumas vezes esse trajeto, quando era criança (na verdade, nenê), porque nasci em Lucélia, do lado de Oswaldo Cruz.

Na verdade, o trajeto entre São Paulo e Oswaldo Cruz (indo, se não me engano, até Dracena) era feito, entre São Paulo e Jundiaí, pela Estrada de Ferro Santos-Jundiaí, que tinha locomotivas vermelhas (elétricas ou a diesel). A partir de Jundiaí começava a linha da Paulista, que ia, como disse, até Dracena (acredito). As locomotivas da Paulista, também elétricas ou a diesel, eram azuis. Por isso sua lembrança quanto à cor das locomotivas está absolutamente correta. O comboio trocava de locomotiva em Jundiaí — onde parava por cerca de 15 minutos.

Creio que, a partir da linha da Paulista em Bauru, saía uma nova linha, chamada Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, que ia, se bem me lembro, até Panorama (ou Pindorama, não me lembro bem).

A partir da linha da Paulista em Rio Claro, se não me engano, também saía a linha da Estrada de Ferro Araraquarense, que ia seguindo mais ou menos o trajeto da Rodovia Washington Luiz de hoje, passando por Araraquara, São José do Rio Preto, Fernandópolis, e indo não sei até onde.

Acho difícil que se fosse de São Paulo para Maringá de trem pela Paulista, via Bauru — a menos que se desse uma volta grande (porque acredito que deveria haver um ramal qualquer que ligasse Bauru a Ourinhos, no sentido Norte-Sul).

De Campinas saía uma linha, chamada Estrada de Ferro Mogiana, que ia para Jaguariuna, Mogi-Mirim, Mogi Guaçu, passava por Água da Prata e ia pra Minas, via Poços de Caldas, Borda da Mata, etc. Andei muito nesse trem, também, indo tanto para Poços como para Borda da Mata. Em parte dessa linha, entre Campinas e Jaguariuna, circula até hoje um trem turístico, adorado pelas crianças, puxado por uma Maria Fumaça. Meus netos menores (Gabriela, Marcelo e Felipe, junto com a Maria Luiza, neta postiça) fizeram a viagem há pouco tempo e adoraram.

Também de Campinas, ou de Sorocaba, talvez, saía uma outra linha, chamada Ituana, que ia para Indaiatuba, Elias Fausto, Salto e Itu, etc. (se o ponto de origem fosse Sorocaba, como é mais provável, a ordem das estações se inverte). Conheço bem as estações ferroviárias dessas cidades porque tenho um sítio em Salto e circulo bastante por essas quatro cidades. Ainda há pouco passei por Cardeal, um bairro "rururbano" de Elias Fausto (fica entre Indaiatuba e Elias Fausto) e vi a estação ferroviária do lugarejo. 

Aqui está a mensagem "O Trem no Brasil", escrita em Salto, em 2 de agosto de 2006" (com pequenas correções e acréscimos):

"Fazia tempo que vinha procurando sites sobre a história do trem no Brasil. O trem foi muito importante na minha vida. Com um mês e doze dias fiz minha primeira viagem de trem. Nasci em 7/9/1943, em Lucélia, na chamada Alta Paulista. Meu pai escreveu um pequeno relato de meus primeiros dois anos. Eis o que ele diz sobre essa primeira viagem de trem, nos dias 19-20/10/1943:

"No dia 19 de outubro tomamos a jardineira até Tupã. O dia estava quente, mas o Oscarzinho dormiu quase o tempo todo. Só chorava quando a jardineira parava. Às 2 hs. da tarde chegamos a Tupã e às 3,45 tomamos o trem. A viagem não foi muito boa, pois o trem estava muito cheio! Metade da viagem foi feita no carro de 2ª classe, pois não pudemos arranjar lugar na 1ª classe, devido ao grande número de pessoas. Passamos a noite com o Nenê nos braços. Ele não deu trabalho, pois dormiu mais ou menos bem. Às 6 hs. da manhã chegamos a Campinas."

Como se vê, em Outubro de 1943 a linha da Paulista parece que chegava apenas até Tupã — não indo até Oswaldo Cruz, Lucélia, Adamantina, Dracena.

Esta foi a primeira de muitas viagens de trem do local de residência dos meus pais até Campinas, onde moravam minha avó materna e minha tia, irmã de minha mãe (que faleceu faz um mês, aos 85 anos — minha mãe faz 82 agora segunda-feira). Meus pais se mudaram de Lucélia para Irati, no Sul do Paraná, depois para Marialva, no Norte do Paraná, depois ainda para Maringá, também no Norte do Paraná, e, finalmente, para Santo André, em São Paulo, onde minha mãe e meus irmãos ainda residem (meu pai faleceu em 1991). Viajávamos sempre de trem.

As viagens que ficam mais gravadas em minha memória eram entre São Paulo (Estação Sorocabana) e Ourinhos, no famoso (e confiável) Expresso Ouro Verde. Saía da Sorocabana em São Paulo por volta das 22h (22h10, creio) e chegava a Ourinhos de manhã. O trem era lindo — verde, naturalmente. Íamos numa cabine leito, meus pais, meu irmão (mais novo 3 anos e 3 meses) e eu. Eu dormia no beliche de cima, com meu pai, meu irmão no beliche de baixo, com minha mãe. Isso se dava antes de eu completar sete anos. Minha mãe levava sanduíches de presunto e queijo e um sacolinha com queijo e goiabada. Viagem de trem para mim ficou para sempre associada com sanduíches de presunto e queijo e com Romeus-e-Julietas…

Quando mudamos para Santo André, o trajeto mudou. Pegávamos o trem subúrbio até São Paulo e lá pegávamos o trem da Estrada de Ferro Santos-Jundiaí para o interior. Em Jundiaí a locomotiva (vermelho meio escuro) era removida e uma locomotiva da Companhia Paulista de Estradas de Ferro assumia — linda, linda, azul… — e o trem passava a ser conduzida por empregados da Paulista. Em Jundiaí o trem parava uns 15 minutos e a plataforma da estação ficava cheia de vendedores ambulantes vendendo, entre outras coisas, "pipóóóóóóóóóóóca". Vendiam uva e figo também: Jundiaí é terra de uva e figo.

Campinas era um importante entrocamento ferroviário. Além dos trilhos da Companhia Paulista passarem pela cidade, começava ali também a linha da Companhia Mogiana, e havia um ramal, o da Companhia Ituana, que ligava Campinas diretamente à Estrada de Ferro Sorocabana, em Sorocaba, passando por Itu. Salto, onde estou agora, ainda tem sua estação — devidamente abandonada. Elias Fausto, aqui juntinho, também. Estive lá na semana passada e vi fotos da estação. A estação de Itu está bem mais conservada, mas tornou-se um Centrl Cultural, se não me engano.

De Santo André também íamos a Santos de trem. A cidade principal no trajeto de São Paulo para Santos era Paranapiacaba, pequena cidade, que nunca vi sem neblina, na beirada da serra, onde o trem começava a ser literalmente puxado para subir a serra. Emocionante.

Alguém cometeu um crime contra o Brasil, deixando todo o nosso enorme sistema ferroviário ser sucateado. Precisavam ser identificados e punidos os criminosos, post mortem, se necessário.

Por indicação do jornalista José Carlos Daltozo, de Martinópolis, SP, que tem escrito sobre Lucélia (vide artigo recente  "Lucélia – Terra Natal", neste space), encontrei o site http://www.estacoesferroviarias.com.br. Lá você pode encontrar fotos da estação ferroviária de sua cidade, se ela teve uma. E lá encontrei referência ao site http://www.trem.org.br, que, por sua vez, tem vários links relacionados. Uma mina de informação. Ao escrever essas referências me lembrei de que o meu caro amigo, Tonhão (Antonio Morales), de Bauru, um dia fez referências a sites sobre ferrovias. O pai dele foi ferroviário.

Vamos ajudar a preservar a memória do trem…"

Em São Paulo, 29 de Janeiro de 2008

Coréia – Miscelânea

Prometi, quando escrevi, há dias, uma pequena mensagem dizendo que estava indo para a Coréia, que nos dias seguintes comentaria alguns aspectos da vida lá. Acabei não fazendo isso. Tento fazê-lo agora, que já estou no aeroporto O’Hare, em Chicago, a caminho de casa.

o O o

Estava pensando, no avião que me levou de Seoul até Tokyo, depois de ter usufruído daquela maravilha que é o aeroporto de Incheon, em Seoul, que somos muito apressados ao desejar resultados de algumas ações — com a intervenção dos Estados Unidos no Irak (ou mesmo a intervenção americana no Vietnam).

No final da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos e a União Soviética haviam ocupado a Coréia – ocupação necessária para derrotar o Japão, que a havia ocupado anteriormente. O Paralelo 38 ficou sendo a linha divisória entre a ocupação americana e a soviética.

Em 1949 a área que veio a se tornar a Coréia do Sul promoveu eleições – e o presidente eleito, Singman Rhee, entabulou negociações com a área que veio a se tornar a Coréia do Norte com vistas à unificação do país (que era unificado desde o século VII). Evidentemente a intenção de Rhee era unificar o país em um regime democrático, ou pelo menos amigo dos Estados Unidos.

Em meados de 1949, porém, o líder norte-coreano Kim-II Sung (Secretário Geral do Partido Comunista) pressionou Stalin para ajudá-lo a unificar o país debaixo do regime comunista. Nos meses seguintes, a Coréia do Norte transformou suas forças armadas numa forte máquina de guerra.

Os ânimos foram se exaltando de um lado e de outro e em Abril de 1950 Stalin autorizou a Coréia do Norte a atacar a do Sul.

As tropas da Coréia do Norte tiveram grande sucesso inicialmente – até que os Estados Unidos, com a aprovação da ONU, intervieram na guerra civil. Aos poucos o controle da guerra passou para as mãos dos americanos, que não só rechaçaram os norte-coreanos que haviam invadido a Coréia do Sul para trás do Paralelo 38 como invadiram o território da Coréia do Norte.

Com a invasão da Coréia do Norte, a China entrou na guerra, do lado dos coreanos do norte. Com a intervenção da China, as forças americanas recuaram até o Paralelo 38.

O fim negociado da guerra deixou as duas Coréias divididas — mas salvou a do Sul de se tornar comunista, como fatalmente aconteceria se a intervenção americana na guerra não houvesse acontecido.

Na época, houve muita crítica da ação americana — como sempre há, sempre que os Estados Unidos agem militarmente. Mais de 50 anos depois, porém, ao se comparar as duas Coréias, não há como não concluir que a ação americana foi extremamente benéfica para a Coréia do Sul — que se desenvolveu econômica, social e culturalmente, sendo, hoje, um país do primeiro mundo. A Coréia do Norte, em contrapartida, atrasadíssima do ponto de vista econômico, social e cultural, é, com Cuba, o último bastião do Comunismo. É verdade que tem a bomba atômica, porque os comunistas irresponsavelmente lhe passaram a tecnologia. Mas é só.

o O o

Fiquei hospedado em um dos hotéis Intercontinentais de Soul — o COEX (os dois ficam pertinhos um do outro). Fiquei abismado com o preço das coisas. No primeiro dia fui tomar um café no lobby e o preço do café — café preto, numa xícara média — foi de W 14.000: o equivalente a 15 dólares americanos (1 dólar = W 900). No frigobar do quarto, uma cerveja de lata Budweiser ou Hanneken custava W 9.500 — no Seven Eleven que ficava no Mall debaixo do hotel a mesma cerveja podia ser comprada por W 2.000. Provavelmente, fora do Mall era ainda mais barata. Uma coca em lata custava a W 7500 no frigobar, W 1.500 no Seven Eleven. Uma caixinha pequena de batatinhas fritas Pringle, W 5000 no hotel, W 1.200 no Seven Eleven.

Um café da manhã completo, no hotel, ficava em W 45.000 — ou seja, nada menos do que 50 dólares americanos. Acho inacreditável que os hotéis cobrem esses preços e os hóspedes pagam — quando com um esforço de nada podem ir ao Mall e comprar as coisas por cerca de um quinto do preço do hotel.

Apesar de ter minhas despesas custeadas pelos organizadores, recuso-me a tomar café da manhã no hotel ou a usar o frigobar. Saio, ando um pouco, e tomo café na rua ou compro o que quero consumir num Seven Eleven qualquer. Pago com o meu dinheiro, mas não contribuo para a manutenção de uma estrutura de preços absurda.

o O o

Andei bastante de metrô pela cidade. O sistema tem mais de quinze linhas, e cada linha tem umas 40 estações em média. Há linhas do metrô que vão até o aeroporto Incheon, que fica a 70 km do centro da cidade.

Andei em geral entre 9h e 16h — os trens sempre cheios. As estações não são tão bonitas, mas são bem cuidadas. O mesmo pode ser dito dos trens. A sinalização é perfeita. Consegui, olhando o mapa do metrô, decidir que linha deveria tomar, onde deveria fazer baldeação, etc. Cada linha tem um número e uma cor e as estações de cada linha têm nome mas também têm número, o que facilita muito as coisas, especialmente para o turista. Em cada estação está pintado, em letras grandes, o número da estação e, com letras menores, o número da estação seguinte, com uma flecha na direção que toma o trem que passa ali na plataforma. O hotel ficava na Linha 2, Verde, na estação 219 (Sumseong). Para ir ao TechnoMart era fácil: o Shopping Eletrônico fica na mesma linha, na estação 214. Parece pertinho. Da janela do meu quarto conseguia ver o prédio. Um dia em que o sol estava bonito resolvi ir a pé. Foi a maior fria. Levei uma hora e vinte minutos debaixo de um frio de gelar. Os problemas que dificultam a gente andar a pé (só havia eu andando a pé) são dois. Primeiro, o rio, enorme. Eu tinha de cruzá-lo, e tive de fazê-lo numa passagem para pedestre numa ponte longérrima e de acesso quase impossível para pedestres. Foi com muito custo que descobri como chegar ao acesso para a ponte, de dentro de um parque que fica na beira do rio. Segundo, as vias expressas que cortam a cidade, e há inúmeras, são bloqueadas com cercas e, por conseguinte, impossíveis de transpor por pedestres. Você tem de achar lugares em que pode passar por baixo delas, mas para isso tem de dar voltas imprevisíveis. Enfim, vivendo e aprendendo.

o O o

Nas lojas mais do centro sempre se encontra alguém que fala Inglês com alguma fluência — embora seja bem mais difícil na Coréia do que em Taiwan. Cingapura fala Inglês e Hong Kong falava Inglês até 1997. O governo coreano está enfatizando de todas as formas o aprendizado do Inglês. Estive numa mega-livraria e fiquei impressionado com a quantidade de livros de referência sobre o Inglês (Dicionários, Gramáticas, etc.) e de livros que testam o conhecimento de Inglês (TOEFL e outros). Há prateleiras e prateleiras de histórias infantis em Inglês, de material voltado para o Ensino Fundamental (livros texto) em Inglês, material de multimídia, etc.

Se o país continuar nesse ritmo, logo vencerá esses desafio, porque, como dizia, no centro ainda se encontra gente que fala Inglês (em geral mal, mas com alguma fluência), mas fora do centro… Na sexta-feira fui até um outro local que é o paraíso da eletrônica: Yongsam, chamada de o Supermercado da Eletrônica. Precis
ei pegar três linhas do metrô para chegar lá. De metrô, levei uma hora e 15 para chegar lá. Lá, porém, me vi perdido. Ninguém falava Inglês. Há muitas coisas interessantes, mas é impossível conversar com eles. Se você faz o sinal de preço eles escrevem o preço na máquina de calcular — mas o diálogo acaba aí.

Na hora de voltar, passei apertado. Nas minhas outras andanças pelo metrô, sempre tomei o trem ou baldeei em estações com no máximo duas linhas. Yongsam, porém, é um entroncamento ferroviário. Por ali passam trens normais, trens de subúrbio, e as linhas do metrô. Por causa da viariedade de opções, há mais de doze plataformas — que não estão pintadas com as cores das linhas do metrô, porque muitas delas nem são do metrô… Minha salvação foi uma mocinha que, falando muito mal, que me disse que deveria ir para a plataforma quatro — eu estava na um. Fui até lá. Não era na quatro, era na cinco — mas a cinco era simplesmente do outro lado. Quando vi o nome da linhado metrô e a identificação da direção em que o trem iria, fiquei aliviado. Já estava me preparando para sair da estação e pegar um taxi. Neste caso, carrego sempre um cartão de visitas do hotel, em Inglês e na lingua local. Mostro o cartão e aponto para o nome do hotel. Funciona.

Em Chicago, 26 de Janeiro de 2008.

Coréia

Estou indo para a Coréia mais uma vez (a terceira). Acho Seoul uma cidade muito bonita, principalmente ao lado do rio, mas gosto do interior do país, também. Já andei de trem e de ônibus por algumas cidades distantes até três horas de Seoul.

E Seoul é o paraíso das TVs de tela líqüida, sendo a cidade sede de duas das maiores empresas do setor: LG e Samsung. No tocante a tecnologia, o melhor lugar de comprar, em Seoul, é o TechMart: oito andares (ou mais, não me lembro) só de tecnologia. Há um andar (enorme) só de câmeras, de todos os tipos. É de deixar o visitante zonzo.

Estou saindo daqui de São Paulo hoje à noite para Chicago. De lá pego um vôo para Seoul, via Tokyo. United all the way through. Chego lá no domingo à noite (21h40, no aeroporto). É viagem pra ninguém botar defeito — em termos de duração.

Participo de um encontro lá, onde darei duas palestras. Michael Fullan estará no mesmo evento, com uma palestra e uma oficina.

Irei escrevendo pequenos artigos sobre coisas que achar interessante na viagem. 

Em São Paulo (usando meu modem Claro), 17 de Janeiro de 2008

Ilha Bela – 4

Voltei hoje da Ilha Bela. Tinha hora marcada para 9h. No entanto, levantamo-nos mais cedo e às 8h estávamos na beira do canal. Embarcamos quase imediatamente, sem precisar pagar a hora marcada, que foi cancelada. O trânsito na estrada estava ótimo, de modo que o retorno foi muito diferente da ida.

Paramos para tomar café da manhã numa padaria em São Sebastião, porque não quisemos esperar o café na casa da Mary.

Ao passar por Caraguatatuba, resolvemos ir ver os nossos netos Gabriela e Felipe, que estavam com a mãe (Adriana) na casa da mãe dela, a Vera. Ficamos lá uns 45 minutos, brincamos um pouquinho com as crianças, e seguimos em frente.

Demos uma paradinha no Frango Assado da Carvalho Pinto, mas estava muito cheio para comer alguma coisa. Assim, fomos em frente e resolvemos entrar em Nazaré Paulista, para procurar um restaurante. Encontramos um restaurante familiar, com comida por peso, comemos alguma coisa, e partimos para a reta final até Campinas.

Chegamos em casa cerca de 13h30. Encerrado o passeio.

Em Campinas, 7 de Janeiro de 2008.

Ilha Bela – 3

Ontem 5 de Janeiro, passamos o dia inteiro na praia do Engenho, apesar de o tempo não estar prometendo, de manhã. :Até por volta das 13h era difícil dizer se o tempo iria se firmar ou não. Depois dessa hora, ficou bom — até com sol forte, em alguns momentos. A água sempre esteve quente.

Na praia, brincamos na água, o Gabriel e eu. O restante ficou na área (com exceção de uns cinco minutos em que a Sueli entrou na água). Comemos pastéis, de carne e de queijo, iscas de peixe, coisas assim. E tomamos cerveja e caipirinha.

À tardinha voltamos para casa. Cochilei um pouco. Mais tarde comemos um churrasquinho feito pelo Alexandre  (muito bom, por sinal) — e, daí, choveu forte, muito forte. Fechou o tempo de modo a tornar invisível a linda vista. Não dava pra ver nem a estação dos petroleiros. 

Ontem, exatamente por causa da ameaça de chuva, o dia esteve bem melhor do que anteontem: muito menos gente na praia e nas ruas. Cada vez mais me convenço de que estou me tornando gentófobo. Gosto de ficar quieto, sozinho, ou entào na companhia apenas de umas poucas pessoas que conheço e quero bem.

Meu outro genro, o Rubens, marido da Patrícia, chegou ontem dos Estados Unidos, onde estava com ela. Ela continua lá com o Marcelinho, por mais um tempo.

Hoje é Dia dos Reis. História improvável é a aquela de três reis levarem presentes valiosos ao menino que dormia na manjedoura… Mas há quem acredite.

Hoje o dia está bonito. Vamos ver o que faremos. Amanhã zarpamos de volta para casa — com hora marcada na balsa.

Em Ilha Bela, 6 de Janeiro de 2008.

Ilha Bela – 2

Ilha Bela é, para mim, um local em relação ao qual tenho sentimentos ambivalentes. Ao mesmo tempo que acho maravilhosa a paisagem natural, e até mesmo da paisagem arquitetônica, vir aqui mais de uma vez por ano, para quem mora em Campinas (ou mesmo em São Paulo), é algo que considero inimaginável. E olhem que mesmo uma vez por ano já é muito.

Primeiro, há a demora na vinda. De Campinas, tenho de percorrer toda a Rodovia Dom Pedro, mais um pedaço da Carvalho Pinto, mais a Tamoyos, mais a estrada que vai de Caraguatatuba até São Sebastião, para, em seguida, atravessar a balsa e tentar minha sorte dirigindo dentro de Ilha Bela. Quando vim, em plena Quinta-feira (saí de Campinas às 9h), tive de dirigir a 80 km/h em toda a Tamoyos, exceto onde havia uma congestionamento (um caminhão de bebidas havia tombado, bloqueando parcialmente a pista de descida): nesse trecho a velocidade foi de 10 km/h, se tanto. A Tamoyos tem uma pista em cada direção, na qual a velocidade máxima é 80 km/h, e algo chamado de pista auxiliar, que nada mais é do que um estreito acostamento em que criminalmente se permite que os motoristas dirijam à velocidade máxima de 60 km/h (criminalmente porque além da estrada ficar sem acostamento, a largura da pista mal comporta um automóivel pequeno). Como já peguei várias multas nos diversos radares da estrada, e tive minha Carteira de Habilitação suspensa, procuro observar os limites de velocidade. O problema é que sou um dos poucos que fazem isso. Isso significa que, dirigindo eu a 80 km/h, forma-se imediatamente uma fila de carros atrás de mim. Mudo para a pista "auxiliar" — mas daí tenho de reduzir a velocidade para 60 km/h e se torna quase impossível voltar para a outra pista num dia de tráfego intenso, a menos que faça como o motorista típico da Tamoyos:  ligue o sinal e simplesmente jogue o carro na frente de outro que vem vindo atrás, obrigando-o a frear bruscamente ou a, se puder, desviar para a pista contrária. A estrada de Caraguatatuba a São Sebastião tem velocidade máxima de 60 km/h e é cheia de trechos com quebra-malos em que a velocidade máxima se reduz para 30 km/h. Em São Sebastião, achar o fim da fila da balsa é como brincar num complexo labirinto: só um gênio do mal desenharia um itinerário mais louco. Todo mundo estava perdido. E, por fim, a espera para atravessar o canal: na Quinta-feira foi de um pouco mais de duas horas, durante as quais se fica sentado dentro do carro, com o motor funcionando para permitir que o ar condicionado impeça que se morra por calor. Contando o tempo em que paramos para tomar um café, no Recanto Santa Bárbara (km 22 da Tamoyos) e para tomar um lanche (já dentro de São Sebastião), levamos nada menos do que sete horas para chegar aqui onde estamos. Não sei qual é a distância, mas não creio que seja muito mais do que uns 210 km de Campinas para cá. Velocidade média de ponto a ponto (incluindo as indispensáveis paradas): 30 km/h. Como é que alguém agüenta passar por esse ritual duas vezes por semana (como minha filha) é algo que ultrapassa minha capacidade de entendimento.

Segundo, há a movimentação na própria Ilha, em especial nas férias, em feriados e (mesmo fora de temporada) nos fins de semana. A Ilha  tem poucas ruas, todas elas estreitíssimas, tortas, e mal calçadas. Nelas parecem inexistir leis de trânsito (só vendo para acreditar onde estacionam os carros), respeito por pedestres, etc. Tudo que é restaurante ou loja é cheio, é difícil andar na rua, é um desafio arrumar lugar nas praias (em geral minúsculas) é um desafio, tudo é caríssimo… Se a gente resolver ficar em casa (que seria a minha solução parcial para esse conjunto de problemas), ainda sim é necessário sair para buscar água e comida. Meu genro comprou uma moto para facilitar a locomoção pela Ilha. Mas mesmo relevando o risco que é andar de moto num ambiente como o descrito, a moto carrega apenas dois — e não é o transporte ideal para compras de supermercado.

Terceiro, há o jeito e a postura do ilhabelino típico — que não vou comentar, mas que, quem já viu, conhece.

Enfim, para mim, exceto quando estou vendo a paisagem daqui de cima do morro (que, como disse, é uma das mais lindas que já me foi dado conhecer), é difícil de imaginar que alguém considere vir aqui o supra-sumo do lazer. Um dia do meu sítio me descansa muito mais do que uma semana aqui. A paisagem lá, apesar de não tão exuberante (falta o mar), é muito bonita também. Mas a diferença na qualidade de vida está na densidade populacional, que no sítio é de, no máximo, uma pessoa por hectare, contando os caseiros…

Quem leu a minha crônica de ontem vai se surpreender com o tom desta. Mas é chocante o contraste entre o ambiente físico de Ilha Bela (sua paisagem e sua arquitetura) e seu ambiente humano nos espaços públicos — isto é, fora das residências.

Mas prometi, na crônica de ontem, que relataria o meu dia. Levantei-me às seis ontem, escrevi a primeira crônica, e fiquei fuçando no computador (arrumando as coisas, porque não há Internet aqui na casa), até que o Gabriel acordou (por volta das 7h30, surpreendentemente cedo). Até que todo mundo se levantasse ficamos vendo fotos no computador, ouvindo as músicas do mp3 player dele, e batendo papo. Depois tomamos café e fomos para a praia do Engenho. Felizmente achamos um lugar bom, debaixo de um chapéu-de-sol, perto do bar e da água. Ficamos ali por volta de cinco horas, nadando (Gabriel e eu — as senhoras, a Sueli e a Tatiana, quase não entraram na água), tomando sorvete (ele), cerveja (eu e Sueli) e água de coco (Tatiana), comendo pasteizinhos, lula frita, etc. — tudo muito saudável. Depois voltamos para casa, brincamos na piscina mais um pouco, e almoçamos (embora eu estivesse satisfeito). Dormimos um pouco, porque ninguém é de ferro, acordamos, tomamos banho (como se não bastasse toda a água do mar e da piscina) e fomos para a Vila, comer pizza. Por incrível que pareça, entro no restaurante lotado e encontro a Paula, amiga de infância da minha filha mais nova, a Patrícia, esperando por sua pizza, junto ao marido e à filhinha. Coincidência. Depois do jantar, uma rápida andada pelo "espaço urbano", um cafezinho (mais um sorvete para o Gabriel), e volta para casa.

Nos interstícios das atividades descritas, achei tempo para arrumar o meu Quicken, que pretendo usar novamente, e que estava meio bagunçado, por causa de uso apenas esporádico.

E esta foi a manhã e a tarde do meu primeiro dia inteiro em Ilha Bela nestas férias de verão. Restam-me dois: hoje e amanhã. Segunda-feira, volto — espero que de forma não tão demorada: agendei a balsa para as 9h. Como vim na Quinta-feira, achei que não era necessário. Como viram, estava redondamente errado.

Em Ilha Bela, 5 de Janeiro de 2008.

Ilha Bela – 1

Sete horas da manhã.

Estou sentado numa cadeira semi-preguiçosa numa varanda, contemplando uma das mais lindas paisagens que a natureza tem a proporcionar. Do alto do Morro Ponta das Canas, em Ilha Bela, vejo, à esquerda, São Sebastião, bem à frente, o canal que separa Ilha Bela do continente, e, mais à direita, até perder de vista, Caraguatatuba e o que lhe fica ao Norte. O dia está razoavelmente claro, mas como é cedo, e o sol não apareceu ainda, há uma espécie de bruma matinal que me impede de ver além de Caraguá. Em dias claros e de sol, porém, é possível ver até Maresias.

Estou na casa dos sogros de minha filha Tatiana, Mary e Ernesto. O Ernesto faleceu no início deste ano — escrevi um artigo sobre isso aqui no blog. Mas a Mary agora parece estar bem: recobrou o bom ânimo e o excelente humor.

A casa fica quase no cocuruto do morro e tem uma vista de quase 180 graus. A vista da frente e do lado esquerdo ninguém nunca roubará. A do lado direito está sendo roubada em cerca de 30 graus, diria, por uma nova construção. Apesar da altura, consigo ouvir, a esta hora, o mar batendo nas pedras lá embaixo. Há um coral de passarinhos cantando. Acabei de ver um casal de beija-flores piruetando pelas flores, no seu balé matinal.

Não tenho acesso à Internet, aqui. Quando o Ernesto morreu, creio que pressupondo que não viriam aqui com tanta freqüência (ele e a Mary moravam aqui, para eles não era veraneio), cancelaram a linha de telefonia fixa, passando a depender apenas dos celulares. Com isso foi-se a Internet Ilimitada que o Ernesto usava. Hoje vou ter de ir à Vila para ver se encontro algum lugar que me dê acesso à rede. Vou estar aqui até segunda cedo e não agüento ficar desconectado tanto tempo.

Todos dormem ainda. O Gabriel, como de costume, foi dormir comigo e com a Sueli. Estava excitadíssimo com nossa chegada. Primeiro, quis nos mostrar suas recém-adquiridas competências de pescador. Ganhou da vó Mary uma vara de pescar de carretilha e está se aperfeiçoando na arte. Disse que já pescou vários peixes, especialmente a partir do pier da Vila. Ontem, porém, logo depois que chegamos, fomos à prainha privada do condomínio, onde, segundo ele, era possível pescar também. Mas a maré estava enchendo e, assim, quando ele jogava a linha (com isca de lula), a água logo trazia o anzol de volta à praia. A demonstração ficou para hoje. Ficou frustrado na hora, mas logo esqueceu. Afinal de contas, havia tanta coisa a fazer! Férias, para ele, são coisa séria (como deveriam ser para todo mundo).

Depois da prainha, Gabriel e eu ainda ficamos fazendo molecagens na piscina por um bom tempo. A água parecia artificialmente aquecida: estava bem para lá de morna. O Gabriel tem um projeto no momento, que é conseguir que eu aprenda a plantar bananeira na piscina. Nunca consegui e, provavelmente, não vai ser agora, mas ele não desiste. Planta algumas bananeiras para eu ver, me obriga a tentar mais uma vez, e, depois do meu fracasso, me corrige, e, muitas vezes, me imita, mostrando onde errei. Dizem os que estão de fora que a imitação é perfeita. Na realidade, quem olha de fora da piscina deve achar ridículo o meu desempenho (ou, como preferem alguns pseudo-sofisticados, a minha performance). Mas é divertido — e dá ao Gabriel um ar de superioridade totalmente merecido.

Após os exercícios na piscina, tomamos banho, tomamos lanche, e o Gabriel foi me mostrar o seu Livro de Records Guiness. Gosta é dos records mais extravagantes, como o do homem que conseguiu puxar um automóvel enganchado a suas pálpebras.

É interessante como criança se interessa pelo macabro em uma determinada idade. Ontem ele me perguntou se eu conhecia a Praia da Caveira, que fica no outro lado da ilha (que dá para o mar aberto). Disse-lhe que não. Perguntou-me se sabia por que a praia se chamava "da Caveira". Tornei a dizer-lhe que não. Ele me explicou, então, que era porque um navio, há muito tempo, naufragou nas costas da Ilha, e todo mundo se afogou. Depois de algum tempo, começaram a aparecer na praia algumas caveiras, fato que acabou dando a ela o seu nome atual. Perguntei-lhe se ainda hoje seria possível encontrar caveiras por lá, e garantiu-me que não. Fiquei mais tranqüilo… É do outro lado da Ilha, mas nunca se sabe.

Depois da pesquisa no Livro de Records, deitamo-nos numa rede na varanda, ele ficou ouvindo o seu mp3, e eu fiquei fazendo massagem nos pés dele. Estava eu quase dormindo quando ele disse que precisávamos entrar, porque, caso contrário, as muriçocas nos jantariam em caso contrário (apesar do Off que havíamos passado em nossas pernas e braços). Entramos e continuamos o processo no quarto onde eu iria dormir (e de fato dormi). Acabamos dormindo ali.

Hoje não sei o que faremos. Estou por conta dele. O que ele decidir, depois de devidamente aprovado pelos pais dele, eu farei (com o devido consentimento conjugal…). Mais tarde relato.

Em Ilha Bela, 4 de Janeiro de 2008.

Hotéis, tecnologia e serviços

É difícil imaginar o que mais os hotéis de qualidade vão inventar, em termos de tecnologia nos apartamentos, para atrair clientes.

Em Taipei o hotel em que fiquei — The Tango — é relativamente pequeno, não tem uma recepção enorme, como os hotéis tradicionais, mas é dedicado a "Business Travellers": tem um quarto excepcional e um serviço de primeiríssima qualidade.

No quarto há uma TV de plasma de 42", acoplada a aparelho de DVD (que toca qualquer coisa), rádio FM, etc., tudo no melhor som estéreo e controlado (como as luzes do quarto) por um só controle remoto. No banheiro há um chuveiro delicioso e um jacuzzi incomparável — com uma TV de cristal líqüido de 21" bem onde ficam os seus pés — com controles embutidos na parede. Dá para ficar horas ali se deliciando com o banho massageador e assistindo à TV. (A programação em Inglês das redes de televisão asiáticas precisa melhorar, porém. Mas em geral há CNN, Fox News, BBC News, ESPN, etc.).

Em Taichung fiquei num hotel novo, o The One, de 46 andares, também dedicado a "Business Travellers". Além de ter tudo o que o The Tango tem, possui um computador à disposição no quarto, impressora (com uma boa porção de papel), material de escritório de todo tipo (grampeador, furador, clips, régua, borracha), O televisor é Sony de 54", plasma HDTV. No TV também há um televisor, menor.

Aqui em Tóquio estou no Four Seasons – Chinzen-so. Este é um hotel tradicional, não é um hotel de executivos. Fica no meio de um jardim privativo que é um verdadeiro "pulmão verde" nesta cidade "selva de pedras" (desculpem os dois lugares comuns…). Mas o quarto é de cair o queixo. Na cabeceira da cama, controla-se tudo, inclusive a abertura e o fechamento das cortinas. Mas o imbatível é o "Home Theater", com televisor de plasma, DVD player, CD/CD-ROM player, Minidisc recorder (sic), e, o maior luxo, um cabo disponível, conectado ao sistema, para você conectar seu MP3 player / iPod. Estou ouvindo minhas músicas (Anne Murray, agora), em maravilhoso estéreo ambiente, sem precisar ficar com fones enfiados nos ouvidos. Há até uma tomada para você deixar o MP3 player / iPod carregando enquanto ele toca, para que não fique descarregado quando você tiver de sair.

Há mais. Pela rede local do hotel posso não só enviar faxes como documentos para serem impressos e encadernados no Business Center — por um preço… bem: esqueçamos o preço (quando uma lata de cerveja Kirin, japonesa, custa 900 yens, ou oito dólares e pedradinha, no Mini-Bar do quarto, quanto você esperaria pagar pela impressão e encadernação de um documento de vinte páginas?)

Daqui a pouco vou sair e ir até Akihabara, o bairro das lojas de eletrônicos. Vou de metrô, apesar de ter de fazer uma transferência. O taxi, segundo a linda Concierge, fica em cerca de 3.000 / 3.500 yens — por perto de trinta dólares (e a distância é a de cinco estações do metrô, apesar da transferência). Amanhã vou, com o meu grupo (funcionários da Microsoft), visitar a cervejaria Kirim. Espero compensar lá o preço que paguei ontem pela cerveja que tomei aqui no quarto…

ET: Anne Murray canta agora "Brige over Troubed Waters". Faz-me lembrar Simon and Garfunkel, famosíssimos quando fui para os Estados Unidos em 1967, quarenta anos atrás.

Em Tokyo, 3 de Setembro de 2007

Cultura asiática

Mesmo depois de ter estado na Ásia uma vintena de vezes, em diversos países (China, Hong Kong, Macao, Taiwan, Korea, Malaysia, Singapore, Thalland, India, Japan), ainda me surpreendo com algumas características da cultura asiática.

Antes de sair do hotel (estou na lounge da Singapore Airlines, no aeroporto de Taipei) vi, na CNN Asia, a chegada (menos dois, assassinados) dos coreanos que foram feitos reféns do Taliban. Eles deram uma entrevista coletiva ao chegar em Seoul.

Até aí, nada de estranho. O que me causou espécie for ver vários deles pedir desculpas ao país por ter se colocado na posição de permitir o embaraço e o constrangimento de terem sido feitos reféns — e de pedir desculpas ao país pelo incômodo e o trabalho (e, pelo jeito, o dinheiro) necessários para libertá-los. Alguns se comprometeram a trabalhar ainda mais para o país para compensar o tempo e o trabalho gastos na sua libertação.

Os reféns se envergonharam do trabalho que deram ao país — em especial ao governo. E ficaram envergonhados não porque tivessem feito algo que merecesse censura, mas, simplesmente, porque, por descuido ou desatenção, colocaram-se na posição de se deixarem apanhar pelos seqüestradores.

Fiquei pasmo.

No Brasil, milhões de cidadãos dão mais trabalho ao governo e mais ônus aos seus compatriotas não fazendo nada. E ninguém fica constrangido ou envergonhado, muito menos disposto a trabalhar mais para o país para compensar o tempo e o dinheiro gasto com eles. Na verdade, no Brasil há gente dispensando trabalho para não perder uma bolsa não sei o quê.

Fiquei imaginando qual teria sido a reação dos reféns se fossem brasileiros.

Em Taipei, 2 de Setembro de 2007

Meu "Personal Tour Guide"

O nome de família dele é Mr. Hsu — pronunciado Mr. Shu. Descobri há algum tempo que o "h" antes do "s" em Chinês transliterado para caracteres latinos tem o mesmo som que teria se estivesse depois do "s". Mr. Shu, portanto, é como soa o seu nome — mas se escreve Mr. Hsu. Chung-Hsiang é o seu primeiro nome, ou nome dado. O segundo componente desse nome, mais uma vez, se pronuncia "Shiang". Ele foi, ontem e hoje (continuará sendo até daqui umas três horas), meu Personal Tour Guide. 

Sujeito simpático. O Inglês dele é razoável — a pronúncia, bem ruim. Mas tem bom vocabulário e entende bem o que lhe digo. Pessoalmente, é um cara legal. Bom, legal entre termos: para Personal Tour Guide está mais do que bom (da mesma forma que a Mônica Veloso, segundo o Zé Simão, depois que ele a viu pelada na Playboy, para o Renan, está mais do que boa).

Explico-me. Ele é, afinal de contas, um Tour Guide. Incorporou isso em sua essência humana. Trabalha para uma companhia de turismo, faz cinco anos. E leva a sério o seu trabalho. Tem 59 anos e é aposentado de um trabalho industrial como engenheiro de computação". Começou a trabalhar com turismo depois de se aposentar.  

Quando foi me apanhar no hotel ontem às 6h50 da manhã, carregava duas mochilas. Numa tinha coisas pessoas (afinal de contas, poderia ter de dormir em Hualien, se eu optasse por ficar mais um dia, como optei) e na outra tinha mapas e mais mapas e informações sobre pontos de interesse em Hualien e redondezas que ele compilou para mim, usando a Internet. Carregava também quatro garrafas de água, duas para ele e duas para mim. Já tinha as passagens do trem nas mãos e, como descobri depois, já tinha feito as reservas nos restaurantes onde comeríamos e no hotel em que eventualmente ficaríamos. Profissional ao extremo.

Ontem, cansei-me um pouco, com o roteiro e o calor — e a experiência do almoço não foi muito positiva, como já relatei (a comida, na verdade, estava, para o meu gosto, perto do insuportável). Assim quando, antes de rumar para o hotel, por volta das 18h30, ele queria ir direto para o restaurante, disse a ele que não estava com fome, estava cansado, e preferiria ir direto para o hotel. Ele não se conformou. A reserva no restaurante, segundo ele, já estava feita e paga por sua companhia: como poderia eu não ir? Disse a ele que havia viajado durante 45 horas nos dois dias anteriores, estava cansado, e preferiria ir para o hotel e ficar sem jantar. Só concordou porque não havia outro jeito. Afinal de contas, eu era o cliente a quem ele tinha de atender bem — caso contrário eu poderia reclamar para a Microsoft, que era a contratante, e ele estaria mal. Comprometeu-se, no entanto, a me levar a comida numa quentinha. Disse que não era preciso — mas ele insistiu e eu concordei. Felizmente, quem não concordou, fiquei sabendo mais tarde, foi o restaurante… Livrei-me de ter de jogar fora comida que, para os outros, seria muito boa.

Finalmente, fiquei livre dele para o dia, tirei uma soneca, acordei, escrevi meus blogs, dormi, acordei hoje cedo, tomei café e fui para o lobby trabalhar no computador, porque a Internet, no quarto, ainda estava kaput.

Hoje cedo, estava chovendo — relativamente forte. Às 9h nos encontramos no lobby. Ele havia comprado dois guarda-chuvas. Descobri que iríamos à praia (para ver e fotografar, não para entrar na água, felizmente). Eu indaguei se a praia seria um bom programa para uma manhã de chuva… Ele me respondeu, de uma forma inapelável: dia de chuva é que é melhor, pois há menos gente. Dito e feito: havia bem menos gente do que nós dois, simplesmente não havia ninguém mais. A praia era do mesmo tipo das outras que mencionei: em vez de areia branca e fina tem uma espécie de cascalho cinza meio grosseiro. Mas era bonita. O duro foi tirar fotografia com uma mão, segurando o guarda-chuva com a outra. Fiquei aliviado que não havia nenhum turista e, especialmente, nenhum nativo da cidade ali na praia. Se houvesse, iria pensar que éramos doidos de andar pela praia na chuva, totalmente vestidos, e com o guarda-chuva aberto…

Depois fomos para o Taroko State Park, o parque nacional mais famoso de Taiwan, pelo jeito, e que fica na cordilheira central que corta Taiwan de norte a sul. Felizmente a chuva parou e o tempo limpou rápido, porque o lugar é realmente lindo. Saindo do nível do mar, em pouco tempo se chega a picos muito altos. Os mais altos da cordilheira têm perto de 4 mil metros — mil metros mais altos do que o nosso Pico da Neblina, escondido lá perto da Venezuela.

O que mais me impressinou na montanha do parque foram as formações rochosas. A montanha é toda de rocha. E, dentre as rochas, a mais impressionante é o mármore. Fomos por uma estrada que segue ao longo de um rio, e o leito do rio parece ser totalmente de mármore, de várias cores. Uma coisa impressionante. A montanha está tombada: ninguém pode explorar mais o mármore que está ali, mas fico imaginando a riqueza que está ali à vista de todos. O canyon pelo que corre o rio parece ter sido cavado, como se fosse a golpes de picareta, por um terremoto em tempos imemoriais.

O parque é muito bem infra-estruturado. Há museus, lojas, banheiros muito bons, local para explicações às crianças acerca das rochas, da vegetação, do meio-ambiente, brincadeiras, etc. Mr. Hsu me comprou três DVDs: um sobre Taiwan, outro sobre Taipei e, finalmente, um sobre o Taroko State Park. Ele realmente leva o seu trabalho a sério.

Quando chegou cerca de quatro horas, ele ainda queria me mostrar mais algumas coisas (vilas aborígenes, etc.), mas eu disse a ele que "enough was enough". Ele custou a se conformar: ele ganha para ser tour guide e quer mostrar tudo o que conhece. Agora, aqui na estação de trem (lotadíssima), veio me dizer que iria comprar um lanche para eu comer no trem, porque iríamos chegar a Taipei só às 19h30. Disse a ele que era totalmente desnecessário, porque havia comido bem no almoço (o que foi verdade — falo disso já-já). Ele insistiu. Que tal um snack? Disse a ele que uma barra de chocolate seria OK. Saiu para procurar. Vi que comprou uma caixa de chocolate.

Mas preciso falar do almoço. Almoçamos num restaurante, na entrada do parque, administrado por aborígines e com comida mais no estilo dos aborígines do que dos aqui chamados "chineses étnicos" (os taiwaneses, eles próprios). Gostei bem mais do que da comida de ontem. Havia arroz, lula (calamare) frita, bambu cozido, "soy sauce", para tempero, e a infalível sopa (hoje de ostras — que não comi). Só, mas (tirante a sopa, que não provei, apesar de ter insistido três vezes) bom. A lula estava deliciosa, especialmente com o molho de soja, e os brotos de bambu estavam muito bons mesmos. Será que a gente acha pra comprar no Brasil e sabe como preparar?

Agora já estou no trem e ele está abrindo a caixa de chocolate. Quando saímos da van em que nos movimentamos ontem e hoje o dia inteiro, ele me observou que seria de bom tom dar uma gorjeta ao motorista, que dirigiu tão bem e foi tão cortês (e que era aborígine). Perguntei quanto seria razoável e ele me sugeriu 200 dólares taiwaneses (algo equivalente mais ou menos 6,50 dólares americanos). Dei o que ele sugeriu e o motorista pareceu ficar muito agradecido.

Bom, encerro aqui este capítulo sobre Hualien. Foi uma experiência interessante. Hoje tirei inúmeras fotos. Não me conformo que hoje cedo, ao tr
ansferir para o computador as fotos tiradas ontem, eu, destraídamente, as apaguei todas e, depois, dei um Undo que não funcionou. Perdi todas. Quase duzentas. Lamento principalmente as fotos do templo budista da Mestre Cheng Yen e as do festival aborígine (sobre o qual não cheguei a comentar, mas foi bonito). É isso. Fazer as coisas distraídamente dá nisso.

Em Hualien (o finzinho no trem de volta a Taipei),  26 de Agosto de 2007