Ilha Bela – 2

Ilha Bela é, para mim, um local em relação ao qual tenho sentimentos ambivalentes. Ao mesmo tempo que acho maravilhosa a paisagem natural, e até mesmo da paisagem arquitetônica, vir aqui mais de uma vez por ano, para quem mora em Campinas (ou mesmo em São Paulo), é algo que considero inimaginável. E olhem que mesmo uma vez por ano já é muito.

Primeiro, há a demora na vinda. De Campinas, tenho de percorrer toda a Rodovia Dom Pedro, mais um pedaço da Carvalho Pinto, mais a Tamoyos, mais a estrada que vai de Caraguatatuba até São Sebastião, para, em seguida, atravessar a balsa e tentar minha sorte dirigindo dentro de Ilha Bela. Quando vim, em plena Quinta-feira (saí de Campinas às 9h), tive de dirigir a 80 km/h em toda a Tamoyos, exceto onde havia uma congestionamento (um caminhão de bebidas havia tombado, bloqueando parcialmente a pista de descida): nesse trecho a velocidade foi de 10 km/h, se tanto. A Tamoyos tem uma pista em cada direção, na qual a velocidade máxima é 80 km/h, e algo chamado de pista auxiliar, que nada mais é do que um estreito acostamento em que criminalmente se permite que os motoristas dirijam à velocidade máxima de 60 km/h (criminalmente porque além da estrada ficar sem acostamento, a largura da pista mal comporta um automóivel pequeno). Como já peguei várias multas nos diversos radares da estrada, e tive minha Carteira de Habilitação suspensa, procuro observar os limites de velocidade. O problema é que sou um dos poucos que fazem isso. Isso significa que, dirigindo eu a 80 km/h, forma-se imediatamente uma fila de carros atrás de mim. Mudo para a pista "auxiliar" — mas daí tenho de reduzir a velocidade para 60 km/h e se torna quase impossível voltar para a outra pista num dia de tráfego intenso, a menos que faça como o motorista típico da Tamoyos:  ligue o sinal e simplesmente jogue o carro na frente de outro que vem vindo atrás, obrigando-o a frear bruscamente ou a, se puder, desviar para a pista contrária. A estrada de Caraguatatuba a São Sebastião tem velocidade máxima de 60 km/h e é cheia de trechos com quebra-malos em que a velocidade máxima se reduz para 30 km/h. Em São Sebastião, achar o fim da fila da balsa é como brincar num complexo labirinto: só um gênio do mal desenharia um itinerário mais louco. Todo mundo estava perdido. E, por fim, a espera para atravessar o canal: na Quinta-feira foi de um pouco mais de duas horas, durante as quais se fica sentado dentro do carro, com o motor funcionando para permitir que o ar condicionado impeça que se morra por calor. Contando o tempo em que paramos para tomar um café, no Recanto Santa Bárbara (km 22 da Tamoyos) e para tomar um lanche (já dentro de São Sebastião), levamos nada menos do que sete horas para chegar aqui onde estamos. Não sei qual é a distância, mas não creio que seja muito mais do que uns 210 km de Campinas para cá. Velocidade média de ponto a ponto (incluindo as indispensáveis paradas): 30 km/h. Como é que alguém agüenta passar por esse ritual duas vezes por semana (como minha filha) é algo que ultrapassa minha capacidade de entendimento.

Segundo, há a movimentação na própria Ilha, em especial nas férias, em feriados e (mesmo fora de temporada) nos fins de semana. A Ilha  tem poucas ruas, todas elas estreitíssimas, tortas, e mal calçadas. Nelas parecem inexistir leis de trânsito (só vendo para acreditar onde estacionam os carros), respeito por pedestres, etc. Tudo que é restaurante ou loja é cheio, é difícil andar na rua, é um desafio arrumar lugar nas praias (em geral minúsculas) é um desafio, tudo é caríssimo… Se a gente resolver ficar em casa (que seria a minha solução parcial para esse conjunto de problemas), ainda sim é necessário sair para buscar água e comida. Meu genro comprou uma moto para facilitar a locomoção pela Ilha. Mas mesmo relevando o risco que é andar de moto num ambiente como o descrito, a moto carrega apenas dois — e não é o transporte ideal para compras de supermercado.

Terceiro, há o jeito e a postura do ilhabelino típico — que não vou comentar, mas que, quem já viu, conhece.

Enfim, para mim, exceto quando estou vendo a paisagem daqui de cima do morro (que, como disse, é uma das mais lindas que já me foi dado conhecer), é difícil de imaginar que alguém considere vir aqui o supra-sumo do lazer. Um dia do meu sítio me descansa muito mais do que uma semana aqui. A paisagem lá, apesar de não tão exuberante (falta o mar), é muito bonita também. Mas a diferença na qualidade de vida está na densidade populacional, que no sítio é de, no máximo, uma pessoa por hectare, contando os caseiros…

Quem leu a minha crônica de ontem vai se surpreender com o tom desta. Mas é chocante o contraste entre o ambiente físico de Ilha Bela (sua paisagem e sua arquitetura) e seu ambiente humano nos espaços públicos — isto é, fora das residências.

Mas prometi, na crônica de ontem, que relataria o meu dia. Levantei-me às seis ontem, escrevi a primeira crônica, e fiquei fuçando no computador (arrumando as coisas, porque não há Internet aqui na casa), até que o Gabriel acordou (por volta das 7h30, surpreendentemente cedo). Até que todo mundo se levantasse ficamos vendo fotos no computador, ouvindo as músicas do mp3 player dele, e batendo papo. Depois tomamos café e fomos para a praia do Engenho. Felizmente achamos um lugar bom, debaixo de um chapéu-de-sol, perto do bar e da água. Ficamos ali por volta de cinco horas, nadando (Gabriel e eu — as senhoras, a Sueli e a Tatiana, quase não entraram na água), tomando sorvete (ele), cerveja (eu e Sueli) e água de coco (Tatiana), comendo pasteizinhos, lula frita, etc. — tudo muito saudável. Depois voltamos para casa, brincamos na piscina mais um pouco, e almoçamos (embora eu estivesse satisfeito). Dormimos um pouco, porque ninguém é de ferro, acordamos, tomamos banho (como se não bastasse toda a água do mar e da piscina) e fomos para a Vila, comer pizza. Por incrível que pareça, entro no restaurante lotado e encontro a Paula, amiga de infância da minha filha mais nova, a Patrícia, esperando por sua pizza, junto ao marido e à filhinha. Coincidência. Depois do jantar, uma rápida andada pelo "espaço urbano", um cafezinho (mais um sorvete para o Gabriel), e volta para casa.

Nos interstícios das atividades descritas, achei tempo para arrumar o meu Quicken, que pretendo usar novamente, e que estava meio bagunçado, por causa de uso apenas esporádico.

E esta foi a manhã e a tarde do meu primeiro dia inteiro em Ilha Bela nestas férias de verão. Restam-me dois: hoje e amanhã. Segunda-feira, volto — espero que de forma não tão demorada: agendei a balsa para as 9h. Como vim na Quinta-feira, achei que não era necessário. Como viram, estava redondamente errado.

Em Ilha Bela, 5 de Janeiro de 2008.

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