Felicidade, individualismo, igualitarismo

Algumas observações, que deveriam ser desnecessárias, por tão óbvias, sobre o artigo transcrito abaixo, "A felicidade está de volta", de Richard Layard:

1) Nenhum liberal clássico jamais disse que o mero aumento de renda — a riqueza, pura e simples — é suficiente para nos fazer felizes. O que o autor chama de "a teoria econômica padrão", caso ele esteja se referindo ao liberalismo clássico, nunca afirmou isso. É uma grossa besteira afirmar que "a teoria econômica padrão [reza que isso — desenvolvimento econômico] deveria ter tornado todos nós mais felizes".

2) O liberalismo clássico nunca defendeu a tese de que a riqueza é condição suficiente para a felicidade. Disse, isso sim, que a LIBERDADE (não riqueza) é condição NECESSÁRIA (não suficiente) para um ser RACIONAL (um cachorro pode até ser feliz sem liberdade, mas não o ser humano).

3) Apesar do evidente disgosto com que o autor se refere a elas, foi o aumento de riqueza assinalado aconteceu exatamente em sociedades individualistas e competitivas (i.e., em sociedades capitalistas, para usar o termo que o autor parece ter medo de dizer, como se fosse um palavrão).

4) O fato de uma pessoa não se sentir feliz, mesmo se livre, simplesmente comprova que a liberdade não é uma condição suficiente para a liberdade — apenas necessária. Alguém pode ser livre e, entretanto, infeliz, por não ter maiores objetivos na vida, além de continuar vivendo, e, portanto, não ter um projeto de vida pelo qual lutar; ou, tendo um projeto de vida, por não ter sido capaz de transformá-lo em realidade. Dinheiro é apenas um meio. Ele não vem com a garantia de que vamos saber usá-lo para construir e transformar em realidade nosso projeto de vida — cuja realização vai nos fazer felizes.

5) A afirmação de que, "quando o desconforto material está finalmente banido, a renda adicional torna-se muito menos importante do que os nossos relacionamentos uns com os outros", não é novidade alguma. Abraham Maslow, em sua pirâmida de necessidades, já havia assinalado que dinheiro é extremamente importante para quem não o tem e o deseja (ou precisa dele), ou para quem o tem contadinho, mal dando para cobrir as necessidades da vida. Acima disso, outras coisas em geral se tornam mais importantes. Apesar de os ricos serem acusados de gananciosos que só pensam em dinheiro, a eles se aplica o que Aristóteles já sabia: dinheiro é meio, e nós só o desejamos porque ele pode nos trazer alguma outra coisa que desejamos. Bill Gates talvez seja a pessoa menos obcecada por dinheiro hoje em dia — e o menos ganancioso: o dinheiro que ele já tem ele está dando.

6) "O desejo de ser feliz é um aspecto central da nossa natureza". Concordo plenamente. Mas dada a natureza auto-centrada (auto-interessada, egoísta) do ser humano, o que o autor do artigo acrescenta não é verdade. Ele apela para o utilitarismo de Jeremy Bentham para defender uma tese igualitarista e não individualista. Diz ele: "Seguindo os preceitos do utilitarismo, um pensamento estabelecido pelo filósofo inglês Jeremy Bentham (1748-1831), eu quero uma sociedade na qual as pessoas sejam tão felizes quanto possível [CERTO] e na qual a felicidade de cada pessoa seja tão importante quanto à das outras" [ERRADO]. A idéia do utilitarismo é ter uma sociedade que maximize as possibilidades de as pessoas serem felizes — não uma sociedade em que todo mundo é igualmente feliz. Isso não vai acontecer nunca, e os utilitaristas, que não eram ignorantes nem utópicos, sabiam disso.

7) Afirma o autor na seqüência: "Esta deveria ser a filosofia a ser seguida em nossa época, a principal referência de toda política pública e de toda ação individual. E, por fim, ela deveria substituir o intenso individualismo que foi incapaz de nos tornar mais felizes." Talvez eu seja um péssimo leitor (por isso transcrevo o artigo na íntegra abaixo para que outros possam conferir), mas onde foi que o autor mostrou que é o individualismo que nos impede de nos tornar mais felizes??? Ele não mostrou nada que chegue perto dessa conclusão. Na verdade, ele nem mesmo discute essa questão. Ela simplesmente afirma (sem provar) que americanos e ingleses não se sentem mais felizes hoje do que há 50 anos (ele teria entrevistado gente que tinha pelo menos 20 anos 50 anos atrás, para poder comparar?) e afirma (também sem provar) que a depressão e a criminalidade tem aumentado (em termos absolutos ou em termos relativos ao número de pessoas existentes?). Mas talvez eu esteja a exigir demais de igualitaristas.

O resto, em especial a tentativa de encontrar um embasamento científico para o igualitarismo e o redistributivismo, dispenso-me de comentar.

Phoenix, AZ, 6 de Março de 2005

Abaixo o artigo citado:

http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/prospect/2005/03/02/ult2678u6.jhtm

02/03/2005

A felicidade está de volta

O aumento da renda média nas sociedades ocidentais não nos torna mais felizes, enquanto as sociedades cada vez mais individualistas e competitivas tornam alguns de nós decididamente infelizes

Por Richard Layard*

Em Londres

Os responsáveis pelas políticas públicas deveriam se inspirar mais uma vez no utilitarismo do filósofo inglês Jeremy Bentham (1748-1831), que permaneceu fora de moda por muitas décadas, mas que agora vem sendo reivindicado pela neurociência moderna.

Ao longo dos últimos 50 anos, nós, os ocidentais, fomos beneficiados por um crescimento econômico sem paralelo. Hoje, nós dispomos de casas, automóveis, férias e empregos melhores, e, sobretudo, de sistemas educacionais e de saúde mais aprimorados. Conforme reza a teoria econômica padrão, isso deveria ter tornado todos nós mais felizes.

Mas as pesquisas mostram que não é bem assim. Quando perguntam aos britânicos e aos americanos se eles se sentem felizes, eles respondem que não houve qualquer melhora neste campo nos últimos 50 anos.

Um número maior de pessoas sofre de depressão, enquanto a criminalidade –um outro indicador de insatisfação– está muito mais elevada.

Esses fatos representam verdadeiros desafios para muitas das prioridades que nós havíamos definido para nós mesmos, tanto como sociedades quanto como indivíduos. A verdade é que nós nos encontramos numa situação que o homem desconhecia anteriormente.

Quando as pessoas vivem no limite da sobrevivência, o progresso material de fato as torna mais felizes. As pessoas que vivem no mundo rico (ou seja, com uma renda anual acima de, digamos, US$ 20.000 –R$ 52.640– por pessoa) são mais felizes do que pessoas de países mais pobres, enquanto as pessoas que vivem em países pobres se tornam de fato mais felizes quando elas se tornam mais ricas.

Mas, quando o desconforto material está finalmente banido, a renda adicional torna-se muito menos importante do que os nossos relacionamentos uns com os outros: com a família, com os amigos e dentro da comunidade. O perigo vem de que nós sacrificamos em demasia os nossos relacionamentos ao perseguirmos uma renda maior.

O desejo de ser feliz é um aspecto central da nossa natureza. Além disso, seguindo os preceitos do o utilitarismo, um pensamento estabelecido pelo filósofo inglês Jeremy Bentham (1748-1831), eu quero uma sociedade na qual as pessoas sejam tão felizes quanto possível e na qual a felicidade de cada pessoa seja tão importante quanto à das outras.

Esta deveria ser a filosofia a ser seguida em nossa época, a principal referência de toda política pública e de toda ação individual. E, por fim, ela deveria substituir o intenso individualismo que foi incapaz de nos tornar mais felizes.

Contudo, o utilitarismo permaneceu fora de moda por muitas gerações, em parte por causa da crença segundo a qual a felicidade era demasiadamente insondável. Nos últimos anos, isso começou a mudar. A "ciência" da felicidade, que começou a se desenvolver nos Estados Unidos nos últimos 20 anos, defende a idéia segundo a qual a felicidade constitui uma dimensão objetiva da experiência (um dos pais desta idéia, Daniel Kahneman, recebeu o prêmio Nobel de economia em 2002).

A cada instante, nós nos sentimos bem ou mal, numa escala que se estende da miséria até o êxtase. Os nossos sentimentos de bem-estar ou mal-estar são afetados por muitos fatores, que vão desde o conforto físico até o nosso senso interior de significado. O que importa é a totalidade da nossa felicidade ao longo dos meses e dos anos, e não apenas os prazeres efêmeros. A nova ciência pode nos permitir medir essa quantidade de felicidade e explicar as suas características.

Para medir a felicidade, nós mesmos podemos perguntar a uma pessoa o quão feliz ela é, ou podemos perguntar aos seus amigos, ou ainda encarregar desta tarefa investigadores independentes. Em todos os casos, essa pesquisa resultará em conclusões similares.

A grande ruptura se deu no campo da neurociência. Richard Davidson, da Universidade do Wisconsin (EUA), identificou uma área, situada na parte esquerda do nosso cérebro, onde as sensações boas são experimentadas, e uma outra, situada no lado direito, onde as más sensações são experimentadas.

A atividade nessas áreas do cérebro altera-se drasticamente à medida que a pessoa tem experiências boas ou ruins. Aquelas que se descrevem a si mesmos como pessoas felizes são mais ativas do lado esquerdo do que as pessoas infelizes, e menos ativas do lado direito. Com isso, a antiga idéia behaviorista segundo a qual nós não podemos saber como outras pessoas se sentem, passa agora a ser atacada.

O desafio consiste em descobrir o que isso significa em termos de prioridades políticas em sociedades livres como as nossas. Se nós admitimos que os governos pudessem e deveriam ter por objetivo maximizar a felicidade, e não limitar-se simplesmente à renda, em que isso poderia afetar certas escolhas específicas no campo das políticas públicas?

Nós devemos começar estabelecendo os fatores-chave que afetam a felicidade de uma pessoa. A vida familiar e pessoal vem em primeiro lugar em todo estudo, enquanto a vida no trabalho e na comunidade ocupa uma posição importante. A saúde e a liberdade também são cruciais, e o dinheiro conta também, mas de uma maneira muito específica.

Dinheiro traz felicidade –até certo ponto

Eu começarei com o dinheiro –ou, mais especificamente, com a política de taxação da renda. Em qualquer sociedade, as pessoas mais ricas são mais felizes que as pessoas pobres. Ainda assim, à medida que um país ocidental se torna mais rico, a sua população, de maneira geral não se torna mais feliz.

A razão disso é que ao longo do tempo, os nossos padrões de vida e as nossas expectativas vão aumentando em função da nossa renda. Uma pesquisa do instituto Gallup perguntou aos americanos, ano após ano: "Qual é a menor quantidade de dinheiro de que uma família de quatro pessoas precisa para viver bem nesta comunidade?".

As quantias mencionadas aumentam proporcionalmente com a renda média. Uma vez que as pessoas vivem sempre comparando o que elas ganham com o que as outras possuem, ou com o que elas estão acostumadas a ter, eles só se sentirão mais confortáveis se a sua renda estiver relativamente acima da norma.

Esse processo pode ter efeitos contraproducentes. Se eu receber um incentivo que me permita trabalhar mais e ganhar mais, isso me tornará mais feliz. O mesmo acontece com outros membros da sociedade, que também se importam com o seu padrão relativo de vida.

Uma vez que a sociedade como um todo não pode elevar a sua posição em relação a si mesma, os esforços que os seus membros dedicam a esta finalidade poderiam ser considerados como sendo um desperdício –o equilíbrio entre lazer e trabalho tem sido alterado "de maneira não-eficiente" em favor do trabalho.

Para reforçar este ponto de vista, eu gostaria de situá-lo em termos de status, o qual pode derivar tanto do dinheiro que se ganha quanto do dinheiro que se gasta. As pessoas trabalham, ao menos em parte, para aumentarem o seu status. Mas o status é medido em função de um sistema de classificação: um, dois, três e assim por diante.

Então, se uma pessoa melhorar o seu status, outra pessoa estará o perdendo na mesma proporção. É um jogo de soma zero: sacrificar a vida privada com objetivo de aumentar o nível do seu status constitui um desperdício do ponto de vista da sociedade com um todo.

É por isso que essa competição implacável é tão destrutiva: nós perdemos uma parte considerável da vida em família e de paz de espírito ao perseguir uma coisa que, no seu conjunto, não pode ser alterada.

Ou, ao menos, é o que aconteceria conosco –se não precisássemos pagar impostos sobre a renda. Mas os tributos sobre o que se ganha desestimulam o trabalho. A maioria dos economistas vê na taxação um fator negativo, de desvantagem. Eles afirmam que quando alguém paga 100 libras esterlinas (cerca de R$ 505) em impostos, o impacto é maior do que parece –o tributo possui um "excesso de carga"– por causa da distorção que isso gera em tudo o que não está diretamente ligado ao trabalho.

Mas sem impostos, haveria uma distorção ineficiente em relação ao trabalho. Por isso, os impostos, até certo nível, podem ajudar a melhorar o equilíbrio entre o trabalho e a vida privada dos cidadãos, e, com isso, aumentar o senso geral de bem-estar numa sociedade. Eles funcionam como uma taxa sobre a poluição.

Quando eu ganho mais dinheiro e adoto um estilo de vida mais dispendioso, isso exerce uma pressão sobre os outros, que vão tentar se equiparar a mim –a minha ação faz subir o nível da norma e os torna menos satisfeitos com o que eles têm. Eu me torno igual ao dono daquela fábrica que expele fuligem sobre a lavanderia da vizinhança. E o remédio econômico clássico para questões ligadas à poluição é fazer com que o poluidor pague.

De vez em quando, as pessoas contestam este argumento. Elas alegam que esta maneira de ver as coisas faz o jogo dos invejosos ou ainda que ela vai contra o crescimento pessoal do indivíduo. É verdade que medidas como essas reduzem algumas formas de liberdade. Mas nós não podemos simplesmente descartar o caráter universal das comparações de status; o desejo de adquirir um status sempre maior é parte integrante dos nossos genes.

P
esquisas sobre o comportamento dos macacos mostram como isso funciona: quando um macaco macho é deslocado de um grupo no qual ele é o chefe para um outro grupo no qual o seu status é inferior, o seu cérebro experimenta uma queda brutal dos níveis de serotonina –o neurotransmissor mais claramente associado aos sentimentos de felicidade.

Portanto, se a competição humana por status se revela como uma deficiência –do ponto de vista da felicidade como um todo na sociedade– faz sentido reduzir ligeiramente essa liberdade, retirando pequenas quantidades dela por meio de uma política tributária.

Aqueles que querem acabar com os impostos deveriam explicar por que eles acham que nós deveríamos trabalhar mais e sacrificar a nossa vida em família e na comunidade em favor de uma competição por status cuja resultante acaba sempre sendo zero.

Eles podem argumentar que trabalhar duro é bom para os consumidores. Mas os trabalhadores são as mesmas pessoas que os consumidores. Não faz sentido matar nós mesmos no trabalho em proveito de nós mesmos como consumidores.

A isso, acrescenta-se uma outra consideração: quando nós trabalhamos mais e, com isso, aumentamos o nosso padrão de vida, nós apreciamos inicialmente o salto qualitativo que isso gera, mas logo nos acostumamos com ele.

Uma pesquisa demonstra que as pessoas não percebem adequadamente este processo de habituação, e que elas não se dão conta plenamente de que uma vez que elas experimentaram um estilo de vida superior, elas terão o sentimento de que é preciso continuar a aprimorá-lo. De fato, elas se tornarão viciadas nele. Mais uma vez, a receita econômica padrão para lidar com o vício do consumo é taxar essas despesas.

Estes são argumentos em favor da taxação não no sentido de obter dinheiro com ela, e sim com o objetivo de restringir a atividade que é poluidora e causa dependência, e com isso contribuir para manter o delicado equilíbrio entre a vida pessoal e o trabalho.

Tais argumentos deveriam ser incorporados à luta democrática e social contra os cortes de impostos que o governo britânico vem operando. Há também a questão da equidade.

O principal argumento em favor da redistribuição sempre foi o de que um ganho adicional proporciona menos felicidade adicional a uma pessoa rica do que a uma pessoa pobre. Até recentemente, essa noção não passava de uma pura especulação; mas os elementos que foram levantados nas pesquisas confirmam agora que isso é verdade.

De que outra maneira poderíamos nós refrear o impacto da competição implacável? Nós precisamos partir da natureza humana tal como ela é, mas nós podemos também alterar os valores e os comportamentos por meio dos sinais que as nossas instituições transmitem.

Uma focalização explícita na felicidade poderia permitir mudar as atitudes em relação a muitos aspectos da política, inclusive nos campos da educação e do treinamento, das políticas regionais e dos pagamentos relacionados com o desempenho.

Respeito

Num certo sentido, o que as pessoas mais almejam é o respeito. Elas procuram alcançar o status econômico porque isso proporciona respeito. Mas nós podemos aumentar ou diminuir o peso que atribuímos ao status. Numa sociedade cada vez mais competitiva e que valoriza cada vez mais a meritocracia, a vida se tornará cada vez mais difícil para as pessoas situadas na parte inferior das escala das capacidades, a não ser que nós desenvolvamos critérios mais abrangentes para o respeito.

Nós deveríamos respeitar as pessoas que cooperam com outras sem obter com isso qualquer ganho financeiro para elas mesmas, e quem se mostrar talentoso e empenhado em qualquer nível de atividade. Isso explica por que é tão importante fazer com que cada pessoa possa desenvolver uma habilidade.

Na Grã-Bretanha, isso significa garantir que todos os jovens possam ter acesso a uma aprendizagem se eles desejarem, de modo que aqueles que não obtiveram um sucesso acadêmico na escola ou na universidade possam conhecer o gosto do orgulho profissional, e evitar assim ingressar na vida adulta considerando a si mesmos como pessoas fracassadas.

Da mesma forma, nós deveríamos considerar com ceticismo instituições que atribuem um maior peso à posição, tais como as que determinam uma remuneração em função do empenho da pessoa (em inglês, "performance-related pay" – PRP).

A idéia que está por trás do PRP é que ao remunerar as pessoas em função daquilo que elas realizam, nós estabelecemos o melhor sistema possível de incentivos. Nos casos em que nós podemos medir o nível de desempenho das pessoas de maneira acurada, nós deveríamos remunerá-las em função disso –pessoas tais como representantes de vendas que viajam, vendedores de divisas estrangeiras ou jóqueis de competições hípicas. E nos casos em que o desempenho depende dos esforços de uma equipe, nós deveríamos recompensar a equipe, a partir do momento em que o seu desempenho pode ser medido sem ambigüidade.

Contudo, os gurus da administração de empresas com freqüência buscam algo mais: eles querem que a cada ano seja feita uma equiparação entre a remuneração individual e a performance individual. O problema é que na maioria dos empregos, não existe uma medição objetiva do desempenho individual, o que faz com que as pessoas precisem ser avaliadas em comparação com os seus colegas de trabalho.

Mesmo se as avaliações procuram ser objetivas em vez de comparativas, a maioria das pessoas sabe quantas pessoas pertencem a cada grau da escada. O efeito disso é a tendência a incluí-las dentro de um ranking.

Se todo mundo estivesse de acordo quanto aos critérios dessas classificações, esses rankings até que não seriam tão ruins. Mas várias pesquisas demonstraram que existem muito poucas correlações entre os critérios de classificação utilizados pelos profissionais encarregados de fazer essas avaliações.

Com isso, uma grande parte de auto-estima (e com freqüência uma remuneração muito baixa) está sendo vinculada a um processo de classificação duvidoso que altera fundamentalmente a relação de cooperação entre um empregado e o seu patrão, e entre um empregado e os seus colegas de trabalho.

É impossível evitar fazer comparações entre as pessoas, uma vez que a hierarquia é necessária e inevitável. Algumas pessoas são promovidas e outras não. Além disso, as que são promovidas precisam receber um salário maior, uma vez que elas são talentosas e que o empregador busca formar um quadro de pessoas talentosas.

Assim, a remuneração é importante por exercer uma influência decisiva em certos momentos-chave, sendo uma maneira de influenciar as decisões das pessoas em relação às atividades ou na escolha entre um empregador e outro.

Felizmente, as promoções e as mudanças de um emprego para outro continuam sendo relativamente pouco freqüentes para a maioria das pessoas. Na vida de trabalho cotidiana, os valores de remuneração relativos não costumam fazer parte das suas preocupações as mais importantes. Mas a PRP muda tudo isso.

Os economistas e os políticos tendem a acreditar que, quando as motivações financeiras para o desempenho são aumentadas, as outras motivações permanecem as mesmas. Mas n
em sempre isso acontece, conforme mostra o seguinte exemplo.

Num centro educacional em Israel, os pais quase sempre chegavam com atraso para buscar os seus filhos, o que levou o estabelecimento a instituir uma multa por atraso. O resultado desta medida foi uma surpresa: um número maior de pessoas acabou se atrasando. A partir daquele momento, elas haviam passado a considerar a fato de chegarem atrasadas como algo que elas tinham direito de fazer, a partir do momento em que elas pagavam por isso; a multa tornou-se o preço a pagar por isso.

A ética profissional deveria ser altamente valorizada. Se nós não a cultivarmos, podemos acabar não conseguindo aprimorar os níveis de desempenho, e nem sequer produzir trabalhadores que gostam do que fazem.

Os incentivos financeiros exercem efeitos importantes sobre as carreiras que as pessoas escolhem, e os empregadores para os quais elas decidem trabalhar. Mas, a partir do momento em que alguém se junta a uma organização, o respeito da igualdade também constitui um poderoso efeito motivador. Nós deveríamos explorar esta motivação. Em vez disso, o governo, nos últimos 30 anos, andou desmoralizando os trabalhadores, valorizando constantemente certos tipos de motivações que eles consideram como sendo "de nível inferior".

Se quisermos ter uma sociedade mais feliz, nós deveríamos nos concentrar sobretudo nas experiências que as pessoas valorizam por considerarem que elas valem realmente a pena e não porque outras pessoas determinaram que elas são importantes –acima de tudo, no que diz respeito aos relacionamentos no quadro da família, no trabalho e na comunidade.

Relações sociais

Ao que tudo indica, os confortos adicionais dos quais podemos agora desfrutar aumentaram de alguma maneira o nosso nível de felicidade, mas que a deterioração dos nossos relacionamentos nos tornou menos felizes.

Nesse contexto, o que a política social deveria tentar realizar, apesar dos efeitos limitados que ela tem sobre a nossa vida privada? A seguir vamos propor alguns exemplos do que poderia ser feito.

Divórcios e lares desfeitos vêm se tornando cada vez mais comuns. Uma pesquisa mostra que as crianças oriundas de lares desfeitos estão mais propensas a sofrerem de depressão quando adultas. Para proteger as crianças, o Estado deveria agir no sentido de tentar tornar a vida em família mais viável, estabelecendo melhores horários escolares, horários de trabalho mais flexíveis, creches cujos regulamentos foram realmente comprovados.

Deveria também haver mais tempo livre, no quadro do trabalho, para permitir o exercício da maternidade e da paternidade. Aulas de educação parental deveriam também ser obrigatórias no currículo escolar e uma prática automática para os pais antes do nascimento de um filho.

Conforme mostram as pesquisas, o desemprego é uma experiência de vivência tão difícil quanto a do divórcio. Ela ofende a nossa necessidade de nos sentirmos necessários para a sociedade. Por isso, a redução das taxas de desemprego deveria ser um objetivo prioritário.

O governo britânico tem obtido bons resultados, lançando mão de políticas adequadas que permitiram a reinserção das pessoas no mercado de trabalho, o que, de maneira geral, permitiu evitar a geração de pressões inflacionárias neste campo.

A condução de boas políticas também permitiu dividir por dois as taxas de desemprego na Dinamarca e na Holanda. Contudo, a Alemanha e, sobretudo, a França têm se mostrado lentas em adotar essas políticas. Políticas deficientes em relação aos desempregados e políticas salariais equivocadas nas empresas são as causas principais do elevado nível de desemprego na Europa. A segurança do emprego não é a questão a mais importante.

A segurança do emprego é algo que as pessoas querem, enquanto uma proteção razoável é algo que uma sociedade rica tem condições de proporcionar. O mesmo pode ser dito em relação a garantir boas condições de trabalho, isso se o estresse não obrigar uma grande quantidade de pessoas mais frágeis a se refugiarem na inatividade e na dependência do Estado.

É absurdo alegar que a globalização reduziu a nossa capacidade de prover uma vida civilizada para os nossos trabalhadores. Ao contrário, essas condições aumentaram –contanto que a remuneração aumente apenas proporcionalmente com a produtividade.

O aumento da criminalidade entre 1950 e 1980 é a demonstração mais estarrecedora de que o crescimento econômico não aumenta automaticamente a harmonia social. Este aumento das taxas de crimes ocorreu em todos os países avançados, exceto no Japão, e as suas causas não foram completamente esclarecidas.

Uma dessas causas é o anonimato. As taxas de criminalidade são elevadas quando existe uma alta mobilidade geográfica. É claro, o melhor termômetro para se prever a quantidade de crimes numa comunidade é o número de pessoas que cada morador conhece nos arredores de sua casa, num raio que corresponde a um passeio de 15 minutos: quanto mais pessoas eles conhecem, quanto menor é a taxa de crimes.

Por isso, nós deveríamos tentar favorecer e dar consistência às comunidades, em vez de recorrer a campanhas pouco realistas do tipo "faça as coisas com a sua bicicleta" ou emigrar para outros países para resolver os nossos problemas, tal como os economistas defensores do livre mercado costumam recomendar com freqüência.

A defesa de um apoio regional visando a ajudar as comunidades a prosperarem torna-se muito mais forte quando se focaliza a felicidade e não quando o objetivo é puro e simplesmente o aumento do produto interno bruto (PIB) por si só.

A importância de manter o foco na felicidade poderia também nos ajudar a repensar as prioridades no plano da previdência social. Um dos mais antigos problemas que afligem a humanidade são as doenças mentais. Um terço dentre nós deverá ser acometido de alguma doença mental em algum momento da nossa vida, e pelo menos a metade dentre nós precisará lidar com algum caso de insanidade mental dentro da sua família.

Problemas psiquiátricos

Dos 5% de pessoas mais infelizes na nossa sociedade, 20% são pobres (no quinto grau mais baixo da nossa escala de renda), mas 40% dentre elas são mentalmente deficientes. Então, se nós quisermos produzir uma sociedade mais feliz, a prioridade para o NHS (sigla inglesa para Serviço Nacional de Saúde) deveria ser de investir muito mais nos serviços de saúde mental.

Apenas 15% das pessoas acometidas de algum tipo de depressão clínica chegam a consultar um especialista (um psiquiatra ou um psicólogo). Para os outros, a maior parte se contenta com uma consulta de dez minutos com um médico generalista e com algumas pílulas. A maior parte das pessoas deprimidas quer se submeter a uma psicoterapia, de maneira a entender o que está acontecendo dentro da sua mente.

Os testes clínicos mostram que a terapia adequada é tão eficiente quanto os remédios, e tem efeitos muito mais duradouros. Mas, na maioria dos setores da sociedade, esse tipo de terapia simplesmente não está disponível entre os serviços fornecidos pelo NHS, ou ainda, ela implica um tempo de espera intolerável.

Se nós quisermos reduzir a miséria, o NHS deveria oferecer tratament
os terapêuticos destinados às pessoas com problemas de saúde mental e ainda ajudá-los a retornar ao trabalho, uma vez o tratamento terminado.

Por fim, existe também o "ethos" –o ambiente social, familiar e escolar– em meio do qual os nossos filhos crescem. Uma das pesquisas mais desanimadoras que foram realizadas nos últimos anos foi dirigida pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Como parte de um questionário mais amplo, colegiais de 11 a 15 anos de idade responderam se eles concordavam com a afirmação segundo a qual "na sua maioria, os alunos da minha classe são simpáticos e prestativos".

Proporcionalmente, a quantidade dos que responderam "sim" situou-se acima dos 75% na Suécia na Suíça e na Alemanha, em 53% nos Estados Unidos e abaixo de 46% na Rússia e na Inglaterra.

Estas descobertas estão afinadas com as apurações de pesquisas nas quais grupos de adultos devem responder a perguntas sobre confiança. Uma pergunta que volta com freqüência é: "Você diria que é possível confiar na maioria das pessoas –ou você diria que não existe prudência em excesso quando se trata de lidar com as pessoas?".

Na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, os que responderam: "Sim, é possível confiar na maioria das pessoas" caiu de 55% em 1960 para abaixo de 35% nos dias de hoje.

Desde os tempos mais remotos da história da humanidade, as pessoas mais idosas sempre se queixaram de um suposto declínio dos valores morais.

Mas existem algumas evidências de que isso está realmente acontecendo agora. Em várias épocas diferentes, cidadãos americanos, representativos das diversas camadas da população, responderam se eles acreditam que as pessoas "vivem hoje uma vida tão boa –no plano da moral e da honestidade– quanto o faziam no passado".

Em 1952, o número de pessoas que responderam "sim" equiparou-se ao das pessoas que disseram "não". Em 1998, um número três vezes maior de entrevistados respondeu "não".

Nós vivemos numa época em que o individualismo alcança níveis sem precedentes. A obrigação mais importante que muitas pessoas consideram ter é obter o máximo de si mesmo, de maneira a realizarem o seu potencial da melhor maneira possível.

Trata-se de um objetivo tão assustador quanto solitário. É claro, elas estão conscientes de que elas têm obrigações para com outras pessoas também, mas estes compromissos não se baseiam em nenhum conjunto claro de idéias.

A antiga visão do mundo religiosa se foi; e o mesmo aconteceu com a religião dominante do Pós-guerra que preconizava a solidariedade social e nacional. Assim, nós ficamos desprovidos de qualquer conceito do bem comum ou de significado coletivo.

No mundo contemporâneo, o senso comum baseia-se em duas idéias dominantes –derivadas (erroneamente) das idéias de Charles Darwin e Adam Smith.

Da teoria da evolução defendida por Darwin foi inspirada a idéia segundo a qual se você não procurar lutar para defender os seus próprios interesses, ninguém o fará no seu lugar. Da análise do mercado elaborada por Smith decorre a idéia segundo a qual a auto-suficiência não é tão destrutiva uma vez que, por meio de intercâmbios voluntários de especialidades, todos nós nos tornaremos tão completos até onde for possível, levando-se em conta os nossos recursos, a tecnologia de que dispomos e os nossos gostos.

Mas os nossos gostos não são dons que recebemos ao nascer, e todas as sociedades bem-sucedidas sempre se encarregaram de ajudar os seus cidadãos a adquiri-los. Isso sempre estimulou os sentimentos comunitários e proporcionou o conceito de bem comum.

Então, qual deveria ser o nosso conceito de bem comum? Durante o século 18, o século do Iluminismo, Bentham, junto com outros filósofos, defendia a idéia de que a boa sociedade era aquela cujos membros eram tão felizes quanto possível.

Assim, toda política pública deveria ter por objetivo de produzir a maior felicidade da maior quantidade possível dos seus membros, enquanto as decisões privadas deveriam do mesmo modo almejar a maior felicidade possível a de todos aqueles afetados. Durante o século 19, este ideal inspirou um bom número de reformas de caráter social. Mas, no século 20, ele foi atacado por duas forças principais.

A primeira questionou a possibilidade de se conhecer o que outras pessoas sentiam. Segundo este "behaviorismo", tudo o que nós podemos fazer é ficar observando os comportamentos das pessoas. Nós não podemos fazer nenhuma inferência sobre os seus estados interiores. Esta idéia desumana surgiu no campo da psicologia, com John Watson e Pavlov, e transferiu-se para a economia por intermédio de Lionel Robbins, John Hicks e outros.

Se nós admitimos esta abordagem, nós não podemos mais pensar na felicidade como um objetivo a ser alcançado. Tudo o que se pode dizer de uma pessoa é que oportunidades estão à sua espera se ela souber agarrá-las. Se ela tiver perdido a capacidade de tirar proveito delas, isso é irrelevante.

A partir deste ponto, há uma distância muito curta até as concepções que definem o bem-estar individual em termos de poder aquisitivo, e o bem-estar de uma nação em termos de produto interno bruto (PIB) ajustado para o lazer. Nós precisamos desesperadamente substituir o PIB, por mais que este seja ajustado, por instrumentos de medição mais sutis do bem-estar nacional.

Felizmente, esta onda no campo da psicologia já passou, e o senso comum foi restabelecido. Nós nunca poderíamos ter vivido juntos caso nós não tivéssemos idéia alguma do que os outros sentem. E agora, a nossa idéia está sendo confirmada por sólidos avanços nos campos da psicologia e da neurociência.

Bentham

A tese de Bentham nos fornece meios de medição cada vez mais práticos para as políticas públicas e para a ética pessoal. Eu a modificaria apenas num dos seus aspectos –no sentido de conferir um peso maior à meta de melhorar o grau de felicidade daqueles que são os menos felizes, excluindo com isso a opressão das minorias (isso também serve para rebater a objeção superficial que chegou a ser apresentada contra o utilitarismo segundo a qual o abuso brutal contra uma pequena minoria seria aceitável se tal abuso fizesse com que a maioria se tornasse mais feliz).

A segunda frente de ataque contra a tese da felicidade maior veio da filosofia. Desde o início, ela tem sido objeto de muitas críticas, enquanto uma filosofia alternativa, baseada nos direitos individuais começou a ficar na moda.

Mas esta logo apresentou dois inconvenientes sérios. Primeiro, é difícil solucionar o dilema quando direitos entram em conflito entre si. Em segundo lugar, a filosofia é altamente individualista. Ela lhe diz o que você está no direito de esperar, e o que você não deveria fazer. Mas ela fornece poucas indicações sobre aquilo que você deveria fazer –qual carreira você deveria escolher, ou como você deveria se comportar quando o seu casamento vai para o brejo.

A regra de Bentham fornece uma estrutura para pensar a respeito dessas questões, o que a filosofia dos direitos não faz: a sua visão do bem comum é por demais limitada para nos guiar
na tentativa de trabalhar pelo bem dos outros. Mas será que a regra de Bentham em si é sólida o suficiente para poder integrar também o conceito dos direitos? A seguir, vamos considerar duas grandes objeções a esta suposição.

Primeiro, o que há de tão especial a respeito da felicidade? Por que a maior felicidade possível? Por que não a maior saúde, autonomia, realização, liberdade possível, e daí por diante?

Se eu lhe perguntar por que a saúde é uma coisa boa, você vai apresentar razões diversas: as pessoas não deveriam sentir dor. Sobre a autonomia: as pessoas se sentem melhor quando elas podem controlar a sua vida. E daí por diante.

Mas seu eu lhe perguntar por que a felicidade é uma coisa boa, você responderá que é evidente por si só. E a razão disso está profundamente enraizada em nossa biologia. Nós somos programados para tirar proveito de experiências que são boas para a nossa sobrevivência, o que explica por que nós sobrevivemos.

Nós também fomos programados em parte para ter um senso de justiça. Se uma refeição precisa ser compartilhada por duas pessoas, a maioria dentre nós aceita (às vezes com relutância) que os alimentos devem ser divididos em duas partes iguais – partindo do pressuposto de que, em princípio, os outros contam da mesma forma que nós.

Se você concatenar esta idéia com o fato de que cada um de nós quer ser feliz, você acaba desembocando no princípio de Bentham. É uma concepção tão idealista quanto realista. Ela coloca os outros num nível de igualdade com nós mesmos, lá mesmo onde eles deveriam estar, mas, ao contrário de certos sistemas morais, ela também nos permite levar em conta a nossa felicidade.

A segunda objeção consiste em que a regra incentiva o senso de oportunidade. Não é bem assim. Todos nós sabemos que nós não podemos avaliar cada ação, em cada momento, contra o princípio de Bentham como um todo. É por isso que nós precisamos ter sub-regras, tais como a honestidade, a determinação a cumprir uma promessa, a gentileza, e daí por diante, as quais nós costumamos seguir normalmente como algo lógico e natural.

E, além disso, é também por esta razão que nós precisamos de direitos claramente definidos, e incorporados a uma Constituição. Mas quando regras morais ou direitos legais acabam conflitando entre si, nós precisamos do um princípio abrangente para guiar-nos, o que é proporcionado pelas concepções de Bentham.

Esta regra é também criticada por estipular os objetivos antes de definir os meios, por considerar apenas as conseqüências das ações como sendo dignas de consideração moral, e não a natureza das ações em si. Mas isso é um erro.

Isso por que as conseqüências de uma decisão incluem necessariamente a ação, e não apenas aquilo que ocorre como resultado desta ação. Uma ação horrível –por exemplo, prender um inocente com objetivo de salvar vidas– iria exigir que ela seja excepcionalmente adequada e que o seu resultado seja extraordinariamente positivo para se revelar justificada. Nós deveríamos considerar os efeitos diretos de uma ação pesando a sua moralidade, do mesmo jeito que nós fazemos com os seus resultados.

Para nos tornarmos mais felizes, nós deveríamos mudar as nossas atitudes interiores do mesmo modo que as nossas circunstâncias externas. Eu estou me referindo à filosofia perene que nos permite encontrar a força positiva dentro de nós mesmos, e para enxergar o lado positivo que outros possuem.

Tal compaixão, por nós mesmos e por outros, é algo que pode ser aprendido. Ela foi muito bem descrita por Daniel Goleman no seu livro intitulado "Emotional Intelligence" ("Inteligência Emocional", editado no Brasil pela editora Objetiva, em 1995), e ela deveria ser ensinada nas escolas.

Toda cidade deveria ter uma política visando a promover uma filosofia de vida mais saudável junto à juventude, e visando a ajudá-los a distinguir entre uma tendência hedonista a curtir prazeres superficiais e a felicidade real.

Então, a minha esperança é de que neste novo século nós consigamos finalmente adotar a maior felicidade possível da humanidade como sendo o nosso conceito de bem comum. Isso teria dois resultados. Serviria como um guia claro para a política.

E, além disso, sendo isso ainda mais importante, ele nos inspiraria em nossa vida cotidiana em obter um prazer maior em nos dedicar à felicidade de outros, e a promovê-la. Desta forma, todos nós poderíamos nos tornar menos imbuídos de nós mesmos e mais felizes.

*Richard Layard tem sido um conselheiro de longa data do Partido Trabalhista para questões de mercado de trabalho. Ele é também membro de honra do partido. O seu livro, "Happiness: Lessons from a New Science" (Felicidade: Lições de uma Nova Ciência) será lançado (na Grã-Bretanha) em 3 de março, pela editora Allen Lane.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

 

A "novilíngua" e a justiça, o liberalismo, a cidadania, e o republicanismo

George Orwell, em sua célebre utopia negativa, 1984, criou o termo “newspeak” (em geral traduzido para o Português como “novilíngua”) para designar mudanças em conceitos importantes que os totalitarismos procuram introduzir na mente das pessoas, para que elas venham a acreditar que determinados termos de nossa língua significam algo totalmente diferente do que normalmente significam – às vezes, algo totalmente oposto.

Os totalitarismos socialistas são em geral desavergonhados a respeito de suas reconceitualizações. Tomemos alguns exemplos.

1. Justiça

O conceito de justiça significa, desde a Antigüidade, o direito de cada um de receber e manter o que lhe é devido, aquilo que lhe é de direito – aquilo a que ele faz jus (vocábulo que está na raiz tanto do termo “justiça” como do termo “jurisprudência”).  Assim, justa é uma ordem social em que cada um, por direito, recebe e mantém retornos proporcionais à conjunção de sua capacidade e seus esforços – enfim, proporcionais aos seus méritos.

Como é evidente que alguns possuem maiores capacidades (por tê-las herdado ou por tê-las adquirido) e/ou despendem maiores esforços na consecução de seus objetivos e de suas metas, resta também evidente que a sociedade mais justa será desigual nos retornos finais de cada um.

Esse o sentido de justiça que toda a humanidade aceitou desde tempos imemoriais.

Com o surgimento das ideologias socialistas, e, depois, dos regimes totalitários socialistas, foi inventado um novo conceito de justiça (que, às vezes, por pejo, é chamado de “justiça social”, mas que, outras vezes, tenta se passar simplesmente por “justiça”, pura e simples.

Segundo esse novo conceito de justiça, cada um tem o direito de receber e manter – não o que lhe é devido, em decorrência de sua capacidade e de seus esforços, não aquilo a que ele faz jus, mas, sim – aquilo de que ele necessita, ou acha que necessita, ou que alguns iluminados acham que ele necessita. “De cada um, segundo as suas habilidades (capacidade e esforços), e a cada um, segundo as suas necessidades”, é o moto marxista.

Se esse conceito de justiça tivesse ficado restrito ao contexto marxista em que se originou, até que não seria tão perigoso. O marxismo está desacreditado e o socialismo que ele procurou implantar morreu – embora muitos tentem ressuscitá-lo “com uma nova face” (Vide o artigo “A Nova Face do Socialismo”, neste blog).

O problema maior é que autores que não se pretendem marxistas, como John Rawls, e mesmo instituições que deveriam ser anti-marxistas, como a Igreja Católica, adotaram esse conceito de justiça (como eu demonstro em meu artigo “Justiça: a Verdadeira e as Falsas”, aqui neste blog).

Não preciso repetir o que já disse em outros artigos, aqui neste blog. O leitor interessado pode ir lá e ler o que eu disse.

Esse novo conceito de justiça, às vezes chamado de “justiça social”, é, na verdade, um conceito de injustiça. Aristóteles e outros filósofos anteriores ao surgimento do socialismo marxista sempre defenderam a justiça de uma ordem social não-igualitária, desde que as desigualdades decorressem do mérito (capacidade + esforços) de cada um – e não de privilégios arbitrariamente atribuídos.

Voltando a Orwell, o newspeak socialista conseguiu denominar de justa uma ordem social igualitária – que, no conceito de justiça comumente aceito, é injusta, dada a desigualdade de capacidade e de esforços entre os seres humanos.

2) Liberalismo

Nos Estados Unidos a esquerda (lá tipicamente situada no Partido Democrata) conseguiu surripiar, por reconceitualização, um outro conceito tradicional importante.

Tradicionalmente, liberal é aquele que defende as liberdades individuais, os direitos individuais à vida, à liberdade, e à propriedade. O termo “liberal” vem do Latim “liber”, que quer dizer, simplesmente, “livre”.

Nos Estados Unidos, porém, liberal é quem é social democrata, isto é, alguém que ingenuamente espera que possa haver um socialismo democrático, ou um “socialismo com uma face humana” — algo que Ludwig von Mises e Friedrich von Hayek já demonstraram, à saciedade, ser impossível.

Felizmente o resto do mundo não sucumbiu ao esforço de reconceitualização americano. Fora dos Estados Unidos, liberalismo é sinônimo de liberdade, não de igualitarismo.

3) Cidadania

Mais recentemente, o termo “cidadania” foi vítima de violenta reconceitualização pela esquerda socialista e socializante. Cidadão sempre foi aquele que goza dos benefícios de proteção e segurança providos por um determinado estado (por uma determinada “polis” – termo grego que gerou o termo “cidade”, de onde vem “cidadania”). São Paulo, por exemplo, se orgulhava de ser “cidadão romano” – isto é, de poder usufruir dos benefícios de proteção e segurança que o Império Romano concedia aos que lhe eram cidadãos – categoria que se opunha à dos “escravos”.

Hoje em dia, porém, na novilíngua socialista e socializante, ou mesmo simplesmente ingenuamente bem intencionada, “cidadão” é aquele que é titular de uma gama de direitos que não tem fim – que inclui os direitos individuais clássicos à vida, à liberdade e à propriedade, mas que também inclui pseudo-direitos econômicos (a emprego, a salário “digno”, que, no Brasil, inclui o décimo terceiro salário, a salário desemprego, a férias, etc.) e sociais (educação, saúde, moradia, transporte, etc.).

Porque nossa atual constituição é pródiga em direitos, Ulysses Guimarães houve por bem, quando de sua promulgação, denominá-la “Constituição Cidadã”. Um desastre de constituição a tal Constituição Cidadã. Uma constituição que multiplica direitos que só podem ser efetivados às custas dos direitos mais básicos do indivíduo à vida, à liberdade e à propriedade.

4) Republicanismo

O governo Lula resolveu inovar conceitualmente mais uma vez. Com certa vergonha de se denominar socialista, resolveu se denominar “republicano”.

Tradicionalmente, republicano é o governo de poderes limitados, divididos e descentralizados, em que:

a)      Os poderes do estado são severamente restringidos e se limitam apenas à manutenção da segurança e da ordem;

b)      O estado só pode fazer aquilo que lhe é expressamente autorizado pela constituição e pelas leis que são compatíveis com a constituição, enquanto o cidadão pode fazer tudo o que a lei não lhe proíbe;

c)      os poderes do estado são divididos entre três diferentes poderes ou esferas de governo: legislativo, judiciário e executivo;

d)      se algo deve ser feito pelo estado, só será feito pelo governo central, federal, se não puder ser feito, nos termos da lei, nos níveis locais ou estaduais;

Hoje em
dia, aqui no Brasil, o governo Lula resolveu chamar “republicano” qualquer medida ou iniciativa que expanda os poderes do poder executivo do estado – considerado como o grande responsável pela “coisa pública” (res publica). Se se trata de aumentar a ingerência do governo no mercado, na educação, na saúde, nas questões da moradia, do transporte, do meio ambiente, etc. – ou de aumentar impostos para supostamente fazer essas coisas — então a medida é “republicana”. Os que combatem essas iniciativas de expansão da área de ação de um governo que considera o bolso do cidadão como algo do qual ele pode livre e impunemente lançar mão, são “anti-republicanos”.

Como se vê, a esquerda é criativa, quando se trata de modificar o sentido de conceitos para enganar o povo – e, naturalmente, de lançar mão de expedientes espúrios e escusos para roubar o nosso dinheiro para supostamente dá-lo aos pobres, à la Robin Hood.

Mas ladrão criativo não merece a minha admiração.

Campinas, SP, 26 de Fevereiro de 2005

A nova face do socialismo

Pego, de forma mais ou menos aleatória, duas matérias do Correio Popular de Campinas de hoje (20/02/2005).

Na p. 2 do primeiro caderno, em uma carta, o leitor Emanuel Madruga critica as “inversões de valores” existentes na realidade brasileira. Madruga afirma que Ronaldo Nazário teria gasto R$ 2.736.000,00 com seu casamento com Daniella Cicarelli. Segundo Madruga, esse dinheiro daria, mensalmente, um rendimento de R$ 54.720,00 (2% ao mês) – mais do que o salário anual de um "médico que salva vidas”.

Acontece que o dinheiro gasto é do próprio Ronaldinho, e ele, até segunda ordem, tem todo direito de gastar o que lhe sobra, depois das “facadas” do(s) governo(s), como bem lhe aprouver – inclusive agradando sua linda Daniella e desagradando o leitor do jornal. O autor da carta aparentemente acha que deveria haver um jeito de impedir o Ronaldinho de gastar o seu dinheiro segundo os seus próprios critérios (dele, Ronaldinho). Ao falar de “inversão de valores”, o autor evidentemente sugere que o dinheiro do Ronaldinho deveria ser gasto segundo os critérios dele (autor da carta) – não segundo os critérios do dono do dinheiro.

É essa a mentalidade redistributivista, que é a nova face que o socialismo assume em nossos dias.

No mesmo jornal, em um artigo sobre a Globalização, André Gonçalves Fernandes, juiz de direito na vizinha Sumaré, a cidade mais violenta do Estado de São Paulo, afirma que “alguém já disse que os socialistas sabem dividir riquezas, mas não sabem criá-las, e os liberais são peritos na criação de riquezas. sem saber dividi-las”. Segundo o juiz articulista, “é urgente a descoberta de uma fórmula que concilie criação de riqueza com sua divisão justa no mundo inteiro”.

O juiz, evidentemente, é defensor da existência de “fórmulas” que permitam a uns tomar, e dar a terceiros, o dinheiro de outros.

É o seguinte o raciocínio do juiz.

O socialismo não deu certo, porque os socialistas não sabem gerar riquezas. Acabam, assim, socializando a pobreza. Mas os socialistas são exímios distribuidores de riquezas (acrescento: ainda que dos outros). Tendo em vista o fato de que os liberais são bons em gerar riquezas, porque não juntamos aquilo em que cada um é melhor e formamos uma nova ordem social? Nessa ordem, os liberais capitalistas trabalhariam, gerando riquezas, e os socialistas governariam, distribuindo as riquezas geradas pelos liberais. Trabalho, como socialistas o vêem, é quase inevitavelmente "governar" — distribuir riquezas dos outros para os seus protegidos.

É essa a mentalidade redistributivista, que é a nova face que o socialismo assume em nossos dias de “economia mista”: capitalistas geram riquezas para que os socialistas as confisquem e as dêem para quem não consegue gerá-las – guardando, naturalmente, uma boa fatia para eles mesmos, a título de “overhead”, porque, afinal, no mundo capitalista não se espera de ninguém que trabalhe de graça, não é verdade, e governar e distribuir riquezas é trabalho duro, não é mesmo?

É esse o "mundo novo" que o Fórum Mundial Social diz ser possível.

Perfeito, não?

Exceto que ninguém perguntou aos liberais capitalistas se eles continuariam trabalhando para dar suas riquezas para os socialistas distribuir – além de um certo ponto. O que acontecerá se, como no famoso livro de Ayn Rand (Atlas Shrugged / Quem é John Galt?), os geradores de riqueza entrarem em greve e não derem mais sua imprescindível contribuição para a festa dos amantes do dinheiro alheio com seus protegidos incompetentes?

Campinas, SP, 21 de Fevereiro de 2005

Liberdade e direitos

Liberdade, Direitos e Deveres

Talvez a característica mais marcante do pensamento liberal clássico seja sua insistência na tese de que nossa liberdade está alicerçada no reconhecimento de direitos, pertencentes e inerentes ao indivíduo, que não são concedidos pelo Estado e que, portanto, nem o Estado pode abolir — embora lhe compita garanti-los.

São estes os direitos reconhecidos pelo liberalismo para cada indivíduo:

* o direito à vida

* o direito à segurança (da própria pessoa e de seus bens)

* o direito à liberdade

O direito à liberdade se desdobra em vários direitos:

* o direito à livre expressão (de opiniões, de estilos de vida)

* o direito à livre locomoção (de ir e vir)

* o direito à livre associação (com quem concorde em se associar com ele)

* o direito à ação na busca de sua felicidade (da forma que lhe parecer mais adequada)

* o direito à propriedade (de terra, bens e dinheiro — os meios de se buscar a felicidade)

Esses direitos são considerados naturais pelo pensamento liberal porque eles nos pertencem simplesmente em virtude de sermos seres humanos — não em virtde de sermos cidadãos deste ou daquele país. Sendo naturais, nascemos e morremos com eles: por isso, são também imprescritíveis e inalienáveis. Se eles não forem observados, não teremos condições de nos manter e sobreviver, muito menos de viver a vida que escolhemos viver, como seres racionais e livres.

Cada direito que eu tenho (ou que qualquer pessoa tem) impõe um dever a todos os demais seres humanos.

No caso dos chamados direitos individuais, o dever imposto a todos os demais seres humanos é um dever negativo: o dever de não interferir com meus direitos. Esse é um dever "negativo", pois se trata de um dever de não-agir, de inagir. Assim, se alguém está interferindo com o meu direito de expressão, ou por me obrigar a me expressar, quando não quero, ou por me impedir de me expressar, quando desejo fazê-lo, eu posso, num país livre, chamar a polícia para que ela obrigue esse alguém a parar de interferir com meu direito de expressão.

É por isso que as liberdades que correspondem a esses direitos — liberdade de expressão, locomoção, associação, propriedade, ação — são chamadas de liberdades negativas (ou formais). Eu sou livre para me expressar ou agir quando ninguém me impede de fazê-lo. Não é necessário, para que eu tenha liberdade de expressão ou ação, que alguém me dê um microfone, ou um palanque, ou uma estação de rádio, ou uma estação de televisão, ou um jornal, ou uma editora, ou um site na Internet. Isso cabe a mim conquistar, se concluir que preciso desses meios para ser feliz — isto é, para viver a vida que, racional e livremente, escolhi para mim.

Pensadores de esquerda inventaram, porém, há pouco tempo (é bom que se diga), uma outra modalidade de direitos: os chamados direitos sociais, que envolveriam o direito à educação, o direito ao tratamento de saúde, o direito à moradia, o direito ao transporte, o direito ao emprego, o direito à aposentadoria, o direito a uma remuneração mínima e digna (mesmo na ausência de emprego), e não sei quantos mais direitos (o número aumenta a cada dia e com assustadora rapidez). Afirmam eles que os direitos individuais (a que correspondem as liberdades negativas ou formais) defendidos pelos liberais de pouco valem sem esses novos direitos. Na verdade, alguns chegam a chamar os direitos de expressão, locomoção, associação, propriedade e ação de "direitos burgueses" — considerando essa expressão uma expressão pejorativa.

Mas há um problema sério com esses alegados direitos sociais. Se eles são de fato direitos (como alegam os pensadores de esquerda), eles devem impor um dever correspondente sobre todos os seres humanos e sobre cada um deles, individualmente. Assim, se alguém tem direito a educação ou a tratamento médico, e não os está recebendo, alguém tem o dever de provê-los; se alguém tem direito ao emprego e está desempregado, alguém tem a obrigação de lhe dar um emprego ou de lhe pagar uma remuneração digna à guisa de seguro desemprego (mesmo que ele nunca tenha feito tal seguro) ou à guisa de renda mínima que todo ser humano deve ter, mesmo que desempregado.

Mas quem é esse alguém que tem tais deveres? Você? Se alguém estiver com câncer ou com AIDS e bater à sua porta exigindo que você cumpra o seu dever de lhe dar tratamento médico, você reconhecerá esse dever e fará isso? Se alguém estiver desempregado e bater à sua porta exigindo que você cumpra o seu dever de lhe dar um emprego ou uma remuneração digna enquanto estiver desempregado, você reconhecerá esse dever e fará isso?

Dificilmente.

As pessoas em geral não reconhecem que esses deveres recaiam sobre elas, individualmente. Entretanto, muitos alegam que esses deveres recaem sobre o governo. Mas o governo não tem um centavo que não seja confiscado de você ou de mim — e confiscado quer dizer tomado pela força, pois se não pagarmos nossos impostos, seremos presos. Assim, se é o governo que tem o dever de dar cobertura a todos os direitos sociais, em última instância somos você e eu que o estaremos fazendo, através de nossos impostos.

Mas pode ser que nem você nem eu queiramos fazer isso — ou queiramos ser obrigados a fazer isso. Pode ser que você e eu concordemos que há muitas pessoas que, se receberem uma remuneração sem trabalhar, não vão procurar emprego muito seriamente. Pode ser que você e eu discordemos de um estatista (não confundir com estadista) como Cristóvam Buarque que acha que toda mulher com filhos, trabalhadora ou desempregada, seja remunerada, sem trabalhar, para que crie os filhos, até que eles passem de cinco anos, achando que, se mais esse suposto direito social vier a ser reconhecido, vai haver muita gente que vai fazer de ter filhos uma profissão (como já acontece nos Estados Unidos, em que mães solteiras recebem casa e alimentação gratuita do governo) — e que a conta vai bater no seu e no meu bolso… [Vide minha nota sobre a proposta de Cristóvam Buarque, abaixo].

Os chamados direitos sociais, portanto, não são direitos, porque eles impõem a terceiros deveres positivos, ou seja, o dever de agir de diferentes formas (e não apenas de não interferir), dever esse que viola a sua liberdade de ação e o seu direito à propriedade de seu próprio dinheiro. Não pode haver um direito que, para ser implementado, envolva a violação das liberdades básicas e dos direitos de outra pessoa.

Liberdades: As Negativas (Formais) e as Assim-chamadas Positivas (Substantivas)

No sentido tradicional do termo, liberdade quer dizer liberdade negativa ou formal. Nesse sentido, uma pessoa é livre se ela não é coagida por outras pessoas, isto é, se não é obrigada a agir, ou constrangida a deixar de agir, por terceiros.

O que recentemente veio a ser chamado de "liberdade positiva" ou "liberdade substantiva" (ou, às vezes, com muita "cara de pau", "liberdade real", como se a outra não fosse), é algo que está muito mais próximo de “capacidade, habilidade, meios, recursos, poder ou possibilidade real” do que de liberdade.

É óbvio que qualquer pessoa, no Brasil, é livre para, por exemplo, comprar uma mansão no Morumbi — livre no sentido de que ninguém a obriga a, ou impede de, comprar uma mansão no Morumbi. Como também é óbvio que muitas pessoas não têm meios ou recursos financeiros para comprar uma mansão no Morumbi, alguns filósofos (geralmente de esquerda) resolveram, arbitrariamente, negar que essas
pessoas sejam livres para comprar a referida mansão.

Foi assim que surgiu a noção de "liberdade positiva" ou "liberdade substancial". Ser livre, nesse sentido, é poder (isto é, ter meios ou recursos, capacidade ou habilidade, possibilidade real de) fazer aquilo que se deseja fazer.

Outro exemplo. É óbvio que qualquer pessoa, no Brasil, é livre para, por exemplo, obter um doutorado na USP — livre no sentido de que ninguém a obriga a, ou impede de, fazer esse doutorado. Mas também é óbvio que muitas pessoas não conseguem fazer esse doutorado porque não têm capacidade ou preparo suficiente para ser aprovada nos processos seletivos. Em decorrência disso, muitos filósofos (em geral de esquerda) negam, de maneira arbitrária, que essas pessoas sejam livres para fazer esse doutorado.

Por que afirmou que os defensores da liberdade positiva ou substantiva sejam arbitrários na sua conceituação de liberdade?

A resposta básica é que a aquisição de uma mansão no Morumbi ou o acesso a um doutorado da USP é livre. Que a aquisição e o acesso são livres quer dizer que ninguém é obrigado a, ou impedido de, se valer deles. Ser livre, porém, não quer dizer que todos precisam ser capazes de fazer essa aquisição ou de aceder a esse doutorado. A liberdade, no caso, é uma condição, extremamente importante (na verdade, sine qua non), para que alguém possa fazer alguma coisa — mas não é condição suficiente. Para que as pessoas possam fazer uso dessa liberdade, elas precisam cumprir outras condições: ter dinheiro suficiente (no caso da mansão) ou ter capacidade e preparo (no caso do doutorado) — ou, talvez, ainda alguma outra coisa.

Que as pessoas não sejam igualmente ricas ou igualmente capazes ou preparadas pode ser algo a ser lamentado — mas não significa que sejam menos livres.

Cortland, OH, 14 de Janeiro de 2005 (Transcrição de algo escrito em 16 de Fevereiro de 2002 em outro blog meu)

Justiça: a verdadeira e as falsas

Vou tecer aqui, especialmente inspirado no artigo "An Untitled Letter", de Ayn Rand, publicado em "Philosophy: Who Needs It?" (A Signet Book, New American Library, New York, 1982, pp. 102-119), algumas considerações sobre o conceito de justiça, especialmente relacionadas ao livro A Theory of Justice, de John Rawls (disponível em tradução brasileira).

O conceito de justiça, segundo Aristóteles, tem que ver com a forma como se distribuem as riquezas de uma sociedade (isto é, os bens e recursos existentes em uma determinada sociedade) — inclusive bens e recursos intangíveis, como reconhecimento, glória, fama. É pressuposto que esses bens e recursos tenham valoração positiva, isto é, sejam desejáveis (sejam vistos como riquezas).

Uma distribuição justa, segundo Aristóteles, é aquela que é feita com base no que cada um contribuiu para a criação ou existência dessas riquezas. Quem mais contribuiu, recebe mais. Quem nada contribuiu, nada recebe. O mundo de fala inglesa tem um verbo de tradução difícil para o Português: "to earn". A melhor tradução desse verbo é "fazer por merecer", "fazer jus a". Uma distribuição justa é aquela em que os bens e recursos vão para aqueles que "earned them", isto é, que fizeram por merecê-los, que fizeram jus a eles, em virtude de sua contribuição para a criação ou existência desses bens e recursos.

Essa visão de justiça é corretamente denominada de retributiva. Uma distribuição justa é aquela que retribui cada um na proporção de sua contribuição para a criação dos bens e recursos existentes em uma sociedade.

Essa visão de justiça, que considero a visão clássica, e que é pressuposta até mesmo nos Evangelhos (na parábola dos talentos), pressupõe que as pessoas são diferentes, tanto por sua dotação genética como pelo contexto e pela forma em que são criadas, em suas qualidades, habilidades, competências, ambição, persistência, perseverança, etc., e, que, portanto, vão contribuir de forma diferenciada para os bens e recursos que vão existir em uma determinada sociedade. Nada mais justo, portanto, dentro dessa visão, que cada um faça por merecer, ou faça jus a, uma cota desses bens e recursos proporcional à sua contribuição para a geração dessas riquezas.

Na época atual se tornou costume defender, porém, o que se chama de uma "nova justiça".

O Papa Paulo VI, segundo divulgou o New York Times de 2 de Janeiro de 1973 (trinta anos atrás), conclamou o mundo a buscar "uma nova justiça". Diz ele (segundo o jornal): "A verdadeira justiça reconhece que todas as pessoas são, em substância, iguais. (…) O que é menor, ou mais pobre, ou mais sofredor, ou mais indefeso, ou mesmo aquele que mais baixo caiu, merece, tanto mais, ser assistido, levantado, cuidado e honrado. Aprendemos isso com o Evangelho" (apud PWNI, p. 103).

É notável como se pode dizer tanto em tão poucas linhas.

Em primeiro lugar, o Papa Paulo VI defende a tese de que "todas as pessoas são, em substância, iguais". O que quer dizer isso? Que têm iguais qualidades? Iguais habilidades? Iguais competências? Igual ambição? Igual persistência e perseverança? Provavelmente ele teria suficiente bom senso para responder que não. Mas no que consistiria então essa "igualdade em substância"? O Papa não explica.

Em segundo lugar, note-se que o Papa coloca num mesmo pacote "o menor, o mais pobre, o mais sofredor, o mais indefeso" — que são categorias que, digamos, não têm conotação moral — e "aquele que mais baixo caiu" — que é uma categoria que certamente tem uma conotação moral. Alguém pode ser pequeno, pobre, sofredor e indefeso em decorrência de fatores sobre os quais não teve escolha. Mas ninguém "cai" (no sentido de "cair baixo na vida") se não for em decorrência de suas próprias ações, pelas quais deve ser considerado responsável. Neste caso, não se trata de, digamos, má sorte, mas, sim, de comportamento imoral.

Em terceiro lugar, note-se que o Papa propõe que todos esses tipos sejam "assistidos, levantados, cuidados" — até aqui, tudo bem — e acrescenta: "honrados". Honrados??? Honrar alguém que "mais baixo caiu"? Tudo bem que tenhamos pena de quem se vê nessa situação. Mas há uma enorme diferença entre ter pena e honrar. O que esse que "mais baixo caiu" fez para merecer ser honrado, para fazer jus a honra?

Em quarto lugar, se alguém se dispuzer a assistir e levantar aqueles que "mais baixo cairam", e a cuidar deles, quem merece a honra? Os que assistiram, levantaram e cuidaram, ou os que foram assistidos, levantados e cuidados?

Começa-se a notar que a "nova justiça" do Papa é realmente nova.

Ou, talvez, não tão nova assim. Karl Marx, em sua análise do Programa Gotha ("Critique of the Gotha Program", em Marx & Engels: Basic Writings on Politics and Philosophy, editado por Lewis S. Feuer (Doubleday & Company, Inc., Anchor Books, New York, 1959), p.119), enuncia um princípio que incorpora uma nova visão de justiça. Afirma ele: "De cada um segundo as suas habilidades, a cada um segundo as suas necessidades".

Segundo essa nova justiça, a distibuição dos bens e recursos existentes em uma sociedade não se fará de forma proporcional à contribuição de cada um, mediante as suas habilidades, na sua criação ou existência, mas, sim, as necessidades de cada um. Em suma: quem de mais necessita, recebe mais; quem de nada necessita, nada recebe.

Além do que ela explicitamente declara, essa visão de uma nova justiça traz em si, de forma mais ou menos implícita, vários reconhecimentos.

Em primeiro lugar, ela reconhece que os bens e os recursos que existem em uma sociedade, e que são passíveis de ser de alguma forma distribuídos, são, em sua maior parte, criados ou gerados pelo ser humano, através do seu trabalho.

Em segundo lugar, ela reconhece que são os homens de maiores habilidades os principais responsáveis pela criação ou geração da riqueza que se contempla distribuir. Doutra forma, não haveria porque exigir que cada um contribuisse para a criação ou geração dessas riquezas "segundo as suas habilidades". Em outras palavras, o enunciado de Marx implicitamente reconhece a profunda desigualdade humana no que tange à criação ou geração de riquezas — isso é, no plano da produção.

Em terceiro lugar, ela reconhece que, equacionado o problema da produção de riquezas (que será feita de forma desigualitária, reconhecendo a contribuição diferenciada dos homens de maior habilidade), trata-se, agora, de resolver apenas a sua distribuição. Pode-se, portanto, afirmar que Marx é não só o pai do comunismo e do socialismo, mas, também, da social democracia, que não só convive bem com o modo de produção capitalista, mas o considera essencial para a geração de riquezas — desde que, naturalmente, a esquerda assuma a tarefa "distributiva" (ou "redistributiva"). A "distribuição" (ou "redistribuição") não se fará mais, na social-democracia, pela via revolucionária, mas, sim, pela via da taxação (dos impostos).

Essa nova justiça é hoje conhecida como "justiça social". Essa assim chamada "justiça social" de justiça não tem nada. Chamar de justiça social aquilo que, na verdade, é enorme injustiça, é um dos clássicos exemplos da "novilíngua" da esquerda. A maioria população não gosta de injustiças. Mas agora a esquerda pretende perpetrar as maiores injustiças. Se o fizer abertamente, porém, será repelida pela maioria da população. Nada
mais conveniente, portanto, do que chamar de "nova justiça" ou "justiça social" aquilo que, de fato, não passa de injustiça.

Observem-se os absurdos que já foram propostos em nome da tal "nova justiça".

Na década de 70 um ganhador do Prêmio Nobel em Economia, Jan Tinbergen, da Holanda, propôs, numa conferência internacional em Nova York, que criasse "um imposto sobre a capacidade pessoal dos indivíduos" — imposto esse que poderia começar, modestamente, incidindo sobre as pessoas que tirassem as melhores notas nas escolas… (Mal sabia ele que desempenho acadêmico nada tem que ver com real capacidade de criação e geração de riquezas…). (Apud PWNI, p. 103).

Em um artigo publicado no New York Times de 20 de Janeiro de 1973, sob o título "A Nova Desigualdade", Peregrine Worsthorne declara que, da mesma forma que considerávamos injusto que alguém recebesse um maior quinhão de riquezas apenas porque era filho de um conde ou de um duque, devemos considerar injusto que alguém, hoje, receba um maior quinhão por ter nascido com maior capacidade, ou ter desenvolvido melhor suas capacidades por ter nascido em um ambiente propício. (Apud PWNI, pp. 104-105).

O que Worsthorne (que nome adequado!) está propondo é que consideremos as capacidades (competências, habilidades, valores, atitudes, etc.) de um indivíduo como uma forma de privilégio que é preciso abolir, pois elas seriam semelhantes aos privilégios de nascença que vigoravam na nobreza. Por isso ele é endosse os movimentos que propõem a eliminação de "distinções educacionais", como as envolvidas em exames, notas, diplomas, etc.

Começa a ficar claro que a luta por uma "nova justiça" não é uma luta a favor dos "menores, mais pobres, mais sofredores, e mais indefesos": ela é uma luta contra os "maiores, os mais ricos, os mais felizes, os mais capazes de cuidar de si próprios". Em outras palavras: é uma luta contra os homens de habilidade. Não basta extrair mais deles, por taxação, para dar aos mais necessitados: é preciso acabar com eles, para que os mais necessitados não tenham sua auto-estima reduzida pela comparação com os bem-sucedidos.

Nesse contexto aparece John Rawls, com seu livre "Uma Teoria da Justiça". Rawls pretende passar como alguém que não é tão radical. Ele não se descreve como um "igualitário", porque admite que desigualdades de riqueza (como de poder e autoridade) podem ser justas e justificadas.

Puxa, parece que finalmente alguém com bom senso filósofo aparece. Mas a impressão dura pouco.

Segundo Rawls, as únicas desigualdades que podem ser consideradas justas e justificadas são aquelas, das quais podemos razoavelmente esperar que operem em benefício daqueles que estão em situação pior — os desavantajados. Assim, só seria justo e justificado que alguém tivesse recursos para cobrir as despesas em que necessariamente se incorre para formar um alto especialista médico se, sem esse esse especialista (i.e., sem as despesas necessárias para formá-lo), os que estão em situação pior ficassem em situação ainda pior. Não seria justo e justificado incorrer nessas despesas para simplesmente transformar em realidade o natural desejo de alguém capaz, hábil e competente de se tornar um especialista médico — porque ele simplesmente é bom e merece!

"A pessoa talentosa", diz Rawls, "não fez por merecer ("earned") nada, seja lá quem ela for. Ela só pode se beneficiar de sua sorte ("fortune") se vier também a beneficiar aqueles que saíram perdendo". (Apud PWNI, p.109).

Que uns nasçam com talentos e outros não, ou que uns nasçam com muitos talentos, e outros com poucos, parece ser, para Rawls, uma injustiça da natureza. Essa suposta "injustiça" teria de ser compensada por uma "justiça social". Segundo esta, quem é competente não tem direito aos frutos de seu talento — só os incompetentes é que sim. Estes devem se beneficiar daquilo que não conseguem alcançar, mas os competentes são privados de igual benefício.

Isso é brincar com o termo justiça.

Aquilo com que a gente nasce não pode ser objeto de avaliação moral. Logo, não se pode falar em injustiça da natureza quando alguns nascem com vários talentos e outros com poucos, ou sem talento algum. Justiça e injustiça são termos que fazem sentido apenas em um contexto moral. Não há, portanto, nenhuma injustiça natural a ser compensada por uma suposta justiça social. Conseqüentemente, a chamada justiça social, ela sim, não passa de flagrante injustiça, pois nega a alguém o direito de usufruir o resultado de seus esforços.

E aqui vemos outra falha na análise de Rawls: ninguém se forma um alto especialista médico apenas por seus talentos inatos. O processo exige dedicação, esforço, e muito trabalho. Além disso, quem se dedica a se tornar um alto especialista médico (ou um grande concertista, ou qualquer outra coisa) abre mão de uma série de outras coisas desejáveis — na convicção de que abrir mão delas será compensado por aquilo que alcançar. Mas Rawls lhe nega esse direito: dele vem a habilidade, mas os frutos dessa habilidade irão para os outros, em atendimento às suas necessidades…

Dificilmente algo mais deturpado poderia ter sido inventado pela mente humana.

Cortland, OH, 14 de Janeiro de 2005 (Transcrição de algo que escrevi em 11 de Fevereiro de 2003 em outro blog meu).

A Obsessão Anti-Americana

>Jean-François Revel escreveu um livro que eu gostaria de ter escrito: L’Obsession Anti-américaine: Son Fonctionnement, ses Causes, ses Inconséquences [A Obsessão Anti-Americana: Seu Funcionamento, Suas Causas e Suas Inconsequências] (Plon, Paris, 2002, 300 p). Encomendei o livro dia 11/2/2003, recebi-o dia 18/2 e terminei de lê-lo no dia seguinte. Revel é membro da Academie Française, filósofo, jornalista, autor renomado, etc..

Vou procurar resumir, neste artigo as teses principais de Revel — interpretando-as livremente. O que vai seguir não é propriamente um resumo, mas um conjunto de reflexões provocadas pelo livro de Revel e inspiradas nele. A minha discussão não segue necessariamente a ordem em que as questões são apresentadas no livro.

I. Crítica aos Estados Unidos e Anti-Americanismo

É preciso, em primeiro lugar, distinguir entre, de um lado, a crítica aos Estados Unidos (à sua política externa ou à sua vida interna, aí incluídas a sua política, a sua economia, a sua cultura [o “American Way of Life”, a literatura, a música e o cinema americano, o seu invocado racismo, o seu decantado puritanismo, sua visão do “politicamente correto”, o chamado “multiculturalismo”, etc.]), e, de outro lado, o anti-americanismo obsessivo, mecânico, automático, que funciona como um reflexo condicionado.

A crítica aos Estados Unidos, como, de resto, a qualquer outro país, é algo inteiramente legítimo e aceitável, e que não é preciso sequer procurar entender ou interpretar. Eu próprio (Eduardo Chaves), que no geral sou claramente pro-americano, tenho criticado violentamente o movimento do politicamente correto, do multiculturalismo, etc. Quem acompanhou minha lista EduTec e vem acompanhando minha lista LivreMente sabe disso. O fenômeno que se denomina de anti-americanismo, porém, vai muito além da crítica, perfeitamente compreensível e legítima, aos Estados Unidos, e tem causas que apenas a história, a sociologia ou, em alguns casos, a psicologia social conseguem esclarecer.

II. As Muitas Faces do Anti-Americanismo

Analisando o anti-americanismo historicamente, podemos detectar quatro momentos em que ele se faz sentir e muda, até certo ponto, de identidade.

Antes da Primeira Guerra Mundial virtualmente inexistia o anti-americanismo, como movimento organizado. Embora os Estados Unidos tenham se tornado uma economia pujante ao longo do chamado longo século XIX (que termina na Primeira Guerra), especialmente depois do término da sua Guerra Civil (Guerra de Secessão), ele adotava uma política externa isolacionista, não se envolvendo diretamente nos assuntos de outras nações. Os Estados Unidos não podiam ser considerados, até o final da Primeira Guerra, uma potência mundial (que se comparasse à Inglaterra, à França, à Alemanha, ou mesmo à Holanda e a Bélgica). Assim, não geraram suficiente hostilidade para que aparecesse um movimento organizado de oposição à sua atuação.

A primeira onda de anti-americanismo surgiu com o final da Primeira Guerra Mundial (1918), da qual os Estados Unidos saíram como grandes vencedores, e especialmente com a deflagração e consolidação da Revolução Comunista na Rússia (1917). A partir do momento em que um país adota o marxismo como filosofia política, os Estados Unidos, agora lançados no papel de potência mundial, em decorrência de seu papel na Primeira Guerra, e como país mais importante a adotar a filosofia política liberal e o capitalismo como teoria e prática econômica, passam a ser, para os comunistas e as esquerdas de inspiração marxista em geral (“communistes, socialistes marxistes et compagnons de route”), o demônio a exorcisar.

A segunda onda de anti-americanismo surgiu no final da Segunda Guerra Mundial (1945), da qual os Estados Unidos novamente saíram como grandes vencedores e na qual a União Soviética, comunista, circunstancialmente aliada, teve um importante papel coadjuvante, depois de ter namorado Hitler, com quem por algum tempo fez aliança (vide os pactos de não-agressão de 1939, que deram a Hitler a tranqüilidade necessária para concentrar seu esforço bélico no oeste europeu). O fim da Segunda Guerra define o início da Guerra Fria e a divisão do mundo entre duas grandes potências, os Estados Unidos e a União Soviética.

O fim da Segunda Guerra caracteriza uma segunda onda de anti-americanismo porque, além do anti-americanismo oriundo das esquerdas comunistas e socialistas, mas de inspiração marxista, surge um anti-americanismo tipicamente originado nas duas principais candidatas a potência mundial no continente europeu, a França e a Alemanha.

A França saiu humilhada da guerra. Ainda hoje os franceses não fizeram as pazes com a ocupação alemã e com o governo pró-alemão do Marechal Pétain.  Apesar de, por generosidade dos Aliados, a França ter sido incluída entre as nações vencedoras da guerra (algo que veio a lhe valer, oportunamente, até mesmo um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, com direito a veto), e apesar do mito que se criou em torno da “resistência” francesa, a participação da França na guerra foi um desastre – especialmente se comparada à participação vitoriosa dos Estados Unidos, nação que, mais uma vez, como já o fizera na primeira guerra, libertou a França do jugo alemão.

Assim, ao término da segunda guerra a França havia perdido, aparentemente para sempre, sua condição, sempre almejada, de potência mundial, e havia sido humilhada pela ocupação alemã e pela aceitação de um governo pelego durante o período da ocupação.  A situação humilhante da França se tornou mais humilhante ainda nos anos seguintes com o fracasso de sua política externa na África (Algéria, por exemplo) e no Oriente (Líbano e Indochina, por exemplo). Pior, para o orgulho francês, foi ter de reconhecer, ainda que relutantemente, que, não fora pelos Estados Unidos, a França seria hoje uma parte da Alemanha.

A Alemanha também saiu humilhada da segunda guerra, pois foi derrotada pela segunda vez por aliados liderados pelos Estados Unidos. Nas negociações do pós-guerra, a Alemanha foi forçada a aceitar condições humilhantes de convivência na Europa (como, por exemplo, não ter um exército), em geral impostas pelo espírito de vingança francês, mas aceitas pelos Estados Unidos e demais aliados.

Ao anti-americanismo de natureza ideológica, inspirado pelo marxismo, e que poderia ser chamado de “anti-americanismo de esquerda”, acrescenta-se agora o anti-americanismo nacionalista, que pode ser chamado de “anti-americanismo de direita”, que se caracteriza pela revolta contra os Estados Unidos, seja pela inveja (por eles terem se tornado a potência mundial que a França desejava ser), seja pelo ressentimento (por terem os Estados Unidos pela segunda vez seguida derrotado e humilhado a Alemanha). Note-se, de resto, que freqüentemente os direitistas que hoje se reúnem na França em torno de Le Pen e os sindicalistas comunistas (como os membros da CGT francesa) se uniram, em causa comum, contra os Estados Unidos.

Mas durante o período da Guerra Fria esses dois anti-americanismos foram contrabalançados e, até certo ponto, colocados em xeque pelo receio do comunismo por parte daqueles que não eram comunistas, socialistas marxistas, ou “companheiros de viagem”.

A terceira onda de anti-americanismo surgiu com a Queda do Muro de Berlin e o debacle generalizado do comunismo no Leste Europeu e na União Soviética. Com esse debacle os Estados Unidos foram alçados ao status de única potência mundial (militar, política, econômica, e em parte cultural). Na verdade, passaram de superpotência para o que alguns francesas chamam de hiperpotência isolada. Esse novo status dos Estados Unidos exacerbou o anti-americanismo de esquerda (agora rebatizado de anti-globalização, na área econômica, de anti-unilateralismo, na área política, e, por vezes, de anti-monocultura [anticultura dita de massa], na área cultural). Alimentando o anti-americanismo, agora se acrescenta, à inveja da França (que queria ser potência mundial e não foi) e ao ressentimento da Alemanha (duas vezes derrotada pelos Estados Unidos), tanto a inveja como o ressentimento da Rússia (que deixou de ser potência mundial e passou ao status de grande derrotada na Guerra Fria).

A quarta onda de anti-americanismo surgiu com a reação americana aos eventos de 11 de Setembro de 2001. A decisão americana de reagir à guerra que lhe fora declarada pelos terroristas de inspiração muçulmana, atacando o Afeganistão (onde se escondia Osama Bin Laden) e, posteriormente, se propondo a atacar o Iraque, fez com que às forças anti-americanas de esquerda e de direita se juntasse todo o mundo islâmico e boa parte dos intelectuais e dos movimentos sindicais e “onguistas de esquerda” do Terceiro Mundo (que, de resto, sempre foram de inspiração marxista e, portanto, já anti-americanos).

É bom que se esclareça que os Estados Unidos acabaram alçados à condição de única potência mundial na esfera militar, política, e econômica e de principal potência mundial na esfera cultural, em decorrência de uma série de acontecimentos não iniciados por eles.

Os Estados Unidos custaram a entrar na Primeira Guerra Mundial, mantendo uma posição que era acusada de ser isolacionista, só vindo a entrar no conflito para ajudar a Inglaterra e, naturalmente, a França.

Algo muito semelhante aconteceu na Segunda Guerra Mundial, que não foi iniciada pelos Estados Unidos e que não teve os Estados Unidos entre os seus principais protagonistas até os seus estágios mais avançados.

As duas guerras mundiais foram iniciadas por países europeus e não pelos Estados Unidos. Estes entraram nas duas guerras a pedido das forças aliadas (que se opunham às pretensões imperialistas da Alemanha).

As três grandes ideologias totalitárias do século XX, que estiveram na raiz especialmente da Segunda Guerra Mundial, o nazismo, o fascismo e o comunismo, jamais tiveram presença significativa nos Estados Unidos: são uma invenção tipicamente européia.

Nesse contexto, registre-se que os Estados Unidos jamais foram um poder colonial. Essa dúbia honra cabe tão somente a países europeus: Portugal, Espanha, Inglaterra, França, Holanda, Bélgica e, em menor grau, a Alemanha.

O debacle do comunismo, embora certamente desejado pelos Estados Unidos e por tantos quantos amam a liberdade, não foi produzido diretamente pelos Estados Unidos, mas ocorreu em razão dos problemas internos (“das contradições internas”?) dos regimes comunistas no Leste Europeu e na antiga União Soviética. É verdade que a decisão de Ronald Reagan de levar adiante o programa “Guerra nas Estrelas” colocou sobre política e a economia da Rússia uma pressão que ela não conseguiu suportar – razão que leva muitos a afirmar que Reagan derrotou o comunismo. Mas essa pressão não teria o impacto que teve se a União Soviética não estivesse à beira do colapso econômico e, por causa disso, do caos político.

Por fim, o ataque ao Afeganistão foi simplesmente uma defesa ao ataque dos terroristas lá radicados e o eventual ataque ao Iraque [escrito em fevereiro de 2003] será resultado evidente da política expansionista do Iraque, que já fez guerra ao Irã, invadiu o Kuwait, aterroriza seus outros vizinhos (como a Jordânia e a Arábia Saudita), aniquila setores inteiros de sua própria nação, e ameaça todo o mundo livre com o uso de armas de destruição em massa.

III. As Armas e os Agentes do Anti-Americanismo

As principais armas do anti-americanismo de todas as estirpes são a desinformação, a mentira, a má-fé. Os anti-americanos se consideram em guerra contra os Estados Unidos — e numa guerra, acreditam eles, vale tudo, em especial a desinformação, a mentira, a má fé. A chamada ética marxista, de que os fins justificam os meios, é aplicada com rigor neste caso. O anti-americanismo viceja não porque inexistam informações abundantes, confiáveis e facilmente encontráveis sobre os Estados Unidos, tanto no que diz respeito à sua política externa como à sua vida interna. Os anti-americanistas de todas as estirpes agem não tanto por ignorância, mas por má fé. Nos casos em que for por ignorância, essa ignorância deve ser classificada de voluntária, porque as fontes necessárias para dissipar essa ignorância estão à disposição de qualquer um.

Os principais agentes do anti-americanismo são os intelectuais de esquerda, apoiados por uma mídia de tendência cada vez mais esquerdista. Comparados a esses agentes, os intelectuais da direita radical (nacionalistas franceses, neo-nazistas, etc.), se é que ainda existem, são insignificantes.

Ao terminar esta primeira seção de meu artigo, é oportuno registrar que os Estados Unidos estão longe de ser um país perfeito: têm muitos defeitos e cometem muitos erros que eu, que já morei lá por mais de sete anos, conheço perfeitamente. A crítica desses defeitos e desses erros é legítima e deve ser considerada com toda a seriedade. Há muitos intelectuais americanos, de cujo lealdade aos Estados Unidos é difícil suspeitar (embora eu, ultimamente, venha achando cada vez mais difícil acreditar na lealdade de alguns), que estão entre os mais ácidos críticos desses defeitos e erros.

Não é da crítica aos Estados Unidos que estou tratando aqui e estarei tratando nas próximas seções: aqui se trata do anti-americanismo obsessivo, mecânico, automático, que funciona como se fosse um reflexo automático — do tipo “é americano, sou contra”.

IV. A Europa e os Estados Unidos

A Europa foi, do século XV até a metade do século XX, o centro do mundo. Durante esse período ali tiveram lugar as principais realizações artísticas e culturais, a filosofia européia se tornou padrão e referência para o resto do mundo, ali surgiu e se desenvolveu a ciência moderna, a revolução industrial começou e cresceu ali, muitas das principais idéias políticas e econômicas que vieram a dominar o mundo ali firmaram suas raízes. É preciso que também se diga que as principais potências européias — Inglaterra, França, Alemanha, Holanda, e, antes delas, Portugal e Espanha — partiram para conquistar e dominar o resto do mundo num processo de colonização e formação de império que até hoje ainda produz seus efeitos.

Durante esse período os Estados Unidos eram vistos pelos europeus de forma condescendente. É verdade que politicamente os Estados Unidos conseguiram montar uma sociedade aberta, democrática, baseada no respeito aos direitos humanos, que (diferentemente das nações européias) nunca foi vítima de um golpe político ou militar e nunca experimentou uma ditadura em seus mais de 225 anos de democracia. É verdade, também, que, especialmente ao longo do século XIX, especialmente depois da Guerra Civil americana, que acabou com a escravatura, essa sociedade entrou definitivamente na era industrial, e começou a assumir ares de potencia industrial, especialmente em decorrência do clima de abertura política e liberdade econômica que acabou por permitir o surgimento de vários inventores que produziram uma série de inovações tecnológicas. Apesar de tudo isso, os europeus viam os americanos, em regra, como nada mais do que um bando de cowboys, e a sociedade americana como uma sociedade tosca e primitiva, sem qualquer refinamento, sem criatividade na literatura, na música, na pintura, sem uma filosofia especulativa digna do nome (posto que adotava uma filosofia eminentemente terrestre, o pragmatismo), e governada por um puritanismo religioso e moral.

É compreensível que a Europa, ao ver os Estados Unidos saírem de uma posição de relativa obscuridade para assumir, ao final da Primeira Guerra mundial, a posição de grande potência mundial, ao final da Segunda Guerra, a posição de maior potência mundial (posição apenas ameaçada pela União Soviética) e, ao final dos anos oitenta, a posição de única “hiperpotência” mundial, se sentisse envolvida por um sentimento de inveja e ressentimento. Isso, apesar de os Estados Unidos haverem duas vezes salvado a Europa, em especial a França, da catástrofe.

É compreensível, portanto, que hoje, os países que menos conseguem esconder a sua inveja e o seu ressentimento dos Estados Unidos, que se expressam num anti-americanismo radical, sejam a França, a Alemanha e a Rússia. A França, ressentida por ver suas pretensões de ser potência mundial, pelo menos no âmbito político, cultural e lingüístico, sendo realizadas nos Estados Unidos, uma ex-colônia européia que, a liberando duas vezes, acabou por humilhá-la (é comum que nos ressintamos contra os que nos fazem bem, às vezes mais do que contra os que nos fazem mal). A Alemanha, por ter sido duas vezes derrotada. Nada mais é necessário. E a Rússia, por ter perdido a Guerra Fria e ter deixado de alcançar a hegemonia mundial que aspirava a conseguir e por ter capitaneado um experimento político, econômico, militar, social e cultural desastroso, o comunismo.

Apesar de hoje em dia os desinformados, por ignorância ou intencionalmente, persistirem em dizer que o mundo inteiro está contra os Estados Unidos, os únicos dois países da União Européia que não apóiam os Estados Unidos no esforço de guerra contra o Iraque são… a França e a Alemanha. A Rússia faz coro com eles. TODOS os outros países da União Européia, e todos os outros que contemplam ingressar na União Européia [escrito em 2003], estão do lado dos Estados Unidos. Jacques Chirac achou até mesmo que podia repreender os países que aspiram a ingressar na União Européia [escrito em 2003] por manifestarem seu apoio aos Estados Unidos. Ficou com a cara no chão. Recebeu críticas desmoralizadoras de todos os cantos. E nem mesmo a Alemanha ficou de seu lado nesse episódio. A repreensão voltou para cima dele como um bumerangue.

Não podemos nos esquecer de que os Estados Unidos nunca demonstraram desejo imperialista de conquistar e dominar política e militarmente o mundo, como o fizeram aquelas nações que um dia foram potências européias e que ficaram conhecidas pela sua vocação colonizadora e imperialista: a França, a Alemanha e a Rússia — para não mencionar a Inglaterra, e, num plano menor (nos séculos mais recentes), Portugal e Espanha. A Europa inventou o imperialismo e o colonialismo, as duas pragas do século XIX, e o comunismo, o nazismo e o fascismo, as três grandes ilusões totalitárias do século XX.

A Europa arruma os problemas que, depois, os Estados Unidos são chamados a consertar e arranjar.

O problema sério que hoje existe entre Israel e os palestinos não foi criado pelos americanos: foi criado pelo anti-semitismo europeu. Os Estados Unidos, frequentemente acusados de assumir uma postura imperialista unilateral, estavam, no início do governo Bush (atual), dispostos a manter uma postura eqüidistante do conflito Israel-palestinos. Quando as tensões se elevaram lá, e os Estados Unidos não intervieram, foram acusados de pelos europeus de… isolacionistas! Se correr, o bicho pega, se fica, o bicho come…

O problema dos Bálcãs foi criado pelos europeus. Quando a coisa ficou séria, chamaram os Estados Unidos para colocar ordem na casa.

A guerra do Vietnam foi uma herança de quem? Da França e sua política colonialista e imperial. Quando esta não agüentou mais lidar com o problema, os Estados Unidos tiveram de intervir.

Mas os dois principais exemplos são as duas guerras mundiais, nas quais os Estados Unidos relutaram a entrar, só vindo a participar por insistência dos aliados e para salvar a eles e à sua causa.

Quem são os países belicosos? Basta contar o número de guerras entre a França e a Espanha, entre a França e a Inglaterra, entre a França e a Alemanha, entre a França e o Império Austro-Húngaro, entre a França e a Rússia, entre a França e a Itália, entre a França e suas colônias (na Indochina, na África) — quase todas elas, de resto, perdidas pela França. (Se há um país que deveria estar acostumado a perder guerras é a França — que só não as perdeu contra a Alemanha quando os Estados Unidos intervieram do seu lado).

A França, cuja cultura e língua um dia dominaram as cortes do mundo (inclusive a do Brasil), é forçada a ver hoje sua principal entidade científica (o CNRS – Centre National de la Recherche Scientifique) adotar o inglês como língua oficial para suas publicações e reuniões…

Apesar disso, os europeus, em especial os franceses e alemães, se vestem de pacifistas e de culturalmente superiores.

No plano do pacifismo, os europeus se esqueceram de que “dar uma chance à paz”, quando se trata de Saddam Hussein, é dar uma chance a um ditador assassino e irresponsável, que não hesita em aplicar armas biológicas contra muçulmanos que habitam em seu próprio país (os cursos ao norte e os xiitas ao sul). A guerra, por outro lado, é uma chance para aqueles que já são, e no futuro poderão ser, suas vítimas. [Escrito em 2003].

No plano da cultura, os europeus esnobam os presidentes americanos, a quem chamam de “ator de segunda categoria” (Reagan), “pastor fundamentalista” (Carter), “cowboy a serviço da indústria petroleira” (Bush, filho) — quando não os chamam de bêbados, ignorantes e semi-analfabetos. (Ainda um dia desses recebi uma versão requentada da velha piada sobre um incêndio na Casa Branca e do lamento do Bush de que seus dois livros haviam sido queimados, antes mesmo de ele os colorir — piada que eu já ouvia nos próprios Estados Unidos, primeiro sobre Spiro Agnew, primeiro vice-presidente de Nixon, depois sobre Gerald Ford, segundo vice-presidente de Nixon).

Do esnobismo europeu sobre a cultura americana, então, nem se fala. A sociedade americana é vista como predominantemente racista e autoritária, uma sociedade na qual os imigrantes são oprimidos e em que tudo acontece em função dos ricos, que se tornam cada vez mais ricos, e em detrimento dos pobres, que se tornam cada vez mais pobres…

Se os Estados Unidos fossem isso que os seus inimigos fazem questão de acreditar, à revelia das evidências, o fato de que tantos querem ir para lá e de fato vão, e, chegando lá, não só não pensam em voltar como fazem de tudo para levar para lá seus parentes e amigos, só poderia ser explicado pela imbecilidade humana ou, então, por uma tendência inelutável para o masoquismo.

V. Antiglobalização e Anti-Americanismo

O anti-americanismo vem hoje freqüentemente disfarçado de antiglobalização. Os grupos (geralmente ONGs) que erigiram a globalização como o inimigo a combater, e que incluem as corjas de desordeiros e baderneiros que destroem propriedade, impedem o livre trânsito de pessoas, e virtualmente paralisam cidades, procurando, assim, impor pela força seu ponto de vista toda vez que há uma reunião dos líderes do mundo desenvolvido e de, como no caso de Davos, de outras pessoas eminentes que desejam discutir os destinos da economia mundial, — esses grupos, repito — não são contra a globalização, em si: são contra os Estados Unidos, o liberalismo político e o capitalismo, que nada mais é do que o liberalismo econômico.

As pessoas que compõem esses grupos são os órfãos do comunismo que, desde 1989, estavam à procura de uma causa. Encontraram a causa de sempre, o anti-americanismo, o antiliberalismo, o anticapitalismo — só que, eufemisticamente, a rebatizaram de antiglobalização. E os mais radicais dentre eles continuam a usar os mesmos métodos: a guerrilha urbana, só que agora globalizada.

Que não haja dúvida: da mesma forma que o comunismo era uma ideologia globalizada e globalizante (haja vista as Internacionais Comunistas e Socialistas, a intenção de reunir os trabalhadores do mundo inteiro em um só movimento, a interferência nos afazeres internos de países que eram julgados passíveis de “conquista”, etc.), o movimento organizado por seus órfãos também o é. Uma sofisticada rede de comunicação e logística organiza as chamadas “manifestações” e busca apoios de governos que têm simpatia pela “causa” (como o governo Lula, que subsidiou significativamente a realização do último Forum Social de Porto Alegre, agora que o PT não mais controla o governo do Rio Grande do Sul, que anteriormente era responsável pelo subsídio).

Os órfãos do comunismo são contra a globalização apenas quando ela assume um caráter liberalizante, que remove das mãos dos governos o controle da economia.

Ou vejamos. O comunismo (ou mesmo o socialismo de inspiração marxista) visava a colocar todos os meios de produção nas mãos do Estado. Para implantar o comunismo, portanto, era importante tomar de assalto o Estado, que deveria controlar toda a economia (e, na verdade, toda a vida política e social, pois o comunismo sempre foi um projeto totalitário).

Os anos 80 representaram, de um lado, o sucesso da economia liberal (nos Estados Unidos, com Reagan, e na Inglaterra, com Thatcher) e, de outro lado, o mais completo fracasso das economias comunistas (no leste europeu e na União Soviética). Com isso, o liberalismo econômico, ou seja, o capitalismo, ficou literalmente sem adversários. Tornou-se hegemônico. Em nível de governo, ninguém que tenha alguma importância no cenário mundial hoje duvida da eficácia das principais teses liberais.

Acontece que, quanto mais liberal o mundo, mais a economia sai do controle dos governos e passa para as mãos de agentes privados. Os órfãos do comunismo, portanto, se deram conta de que, para alcançar o seu projeto político, de vir a controlar a economia mundial, e, através dela, a vida das pessoas, não bastava tomar de assalto os governos, porque estes controlavam cada vez menos a economia. Decidiram lutar, portanto, no plano da “sociedade civil organizada”, pretendendo criar uma força política — o chamado “Terceiro Setor” — que se inseriria entre o governo e a iniciativa privada. Está aí a gênese das ONGs. Elas se pretendem representantes da sociedade (que persistem em chamar de civil, como se houvesse uma sociedade incivil ou acivil) — mas na maior parte não têm a menor representatividade, só se tornando conhecidas quando, através de seus aliados na mídia, conseguem alguma visibilidade. Muitas ONGs não passam de um punhado de pessoas lutando por subsídios governamentais ou “multilaterais” para levar adiante o seu “pet project”. Ninguém ali é eleito por ninguém, além de si próprio.

O chamado “Terceiro Setor” recebeu de pronto apoio da maior parte das agências e dos órgãos das Nações Unidas, em que se encastelam quantidades significativas de “órfãos do comunismo”, e que aspiram a se tornar um sistema de “governança global”.

A luta no plano da “sociedade civil organizada” se destina, portanto, não a combater a globalização, em si, mas, sim, a globalização de tendência liberalizante, ou seja, o capitalismo. E, naturalmente, os Estados Unidos, que personificam o capitalismo para a esquerda. Não tendo conseguido a vitória do comunismo, os seus órfãos procuram garantir que o inimigo do comunismo, o capitalismo, também não seja vitorioso: a meta é destruí-lo. Uma vez destruído, pretendem montar uma “governança global” controlada pelas ONGs em que, como na ONU, ninguém é eleito mas todo mundo se arroga em representante de uma parcela significativa da sociedade.

O resto é retórica. Dizer que lutam pelo combate à pobreza e à desigualdade social é só cortina de fumaça. Lutam, isto sim, para derrotar o capitalismo liberalizante, e, assim, contra a riqueza, ainda que essa luta possa significar mais pobreza e mais desigualdade – ou, então, a igualdade na miséria . E, naturalmente, lutam para chegar ao poder político.

Nessa luta, não se furtam de usar a mentira deslavada e de incorrer, eles próprios, em contradições.

Entre as mentiras deslavadas estão as afirmações de que o liberalismo econômico torna os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres em termos absolutos. As estatísticas estão aí para mostrar que isso não é verdade. Os pobres melhoram de situação em todo lugar em que o livre comércio domina. Que os ricos também melhorem, e que a desigualdade em termos absolutos assim aumente, não significa nenhum problema para os pobres — apenas para os intelectuais que defendem o igualitarismo absoluto, cuja causa (já mostrei em meu artigo “Igualitarismo, Justiça Social e Inveja”) são a inveja e o ressentimento.

Quanto às contradições, existem em enorme quantidade. Quando, recentemente, o governo Bush aumentou o nível de seus subsídios à agricultura, houve uma crítica generalizada. As contradições? Primeira: a Comunidade Européia, que se pretende, através especialmente da França, o contraponto da influência americana, oferece subsídios duas vezes maiores aos seus agricultores. Segunda: se os antiglobalistas são, como de fato são, contrários à liberalização do comércio, deveriam aplaudir a ação anti-liberalizante do governo americano, em vez de criticá-la. Mas não: eles defendem a abertura total do mercado americano e um fechamento cada vez maior dos mercados com os quais o mercado americano teria de interagir… Mas nenhum analista assinala isso na mídia.

O antigo Primeiro Ministro francês, o socialista Lionel Jospin, flagrantemente derrotado por Le Pen nas últimas eleições, afirmava, ainda quando no governo, que era preciso lutar por uma globalização “sob o controle dos Estados”…

Esta aí a raiz do problema. Os estados nacionais perderam espaço para a iniciativa privada com a globalização. Para os comunistas e socialistas de inspiração marxista é preciso combater ESSA globalização, colocando a globalização ou de volta debaixo do controle dos estados ou nas mãos da ONU. Ao mesmo tempo, tenta-se a controlar as Nações Unidas, o que não é difícil, porque qualquer “paisico” de nada, não raro governado por um ditador, tem, ali, na Assembléia Geral e nos diversos órgãos, um voto, que vale tanto quanto o dos Estados Unidos. Fala-se, agora, em “governança global”, sob as Nações Unidas. Seus vários órgãos baixam determinações que devem, supostamente, se tornar leis nos países membros — ou pelo menos nos países signatários de seus acordos.

Longe de ser o burro que seus inimigos pretendem, Bush demonstra descortino e visão ao se recusar a assinar o tratado de Kyoto (que nem os seus inimigos cumprem) e a retirar apoio do Tribunal Internacional (que, controlado pelos seus inimigos, fatalmente estariam processando os Estados Unidos e seus líderes a todo momento). No caso da guerra contra o Iraque, já deu mais satisfação do que devia à ONU: trata-se de dar prosseguimento a uma guerra em que os Estados Unidos foram atacados em seu território por terroristas que encontram abrigo em vários países islâmicos, dos quais o Iraque é hoje (agora que o Afeganistão do Talibã foi vencido) o que lhes dá cobertura mais ostensiva, além de já ter demonstrado seu espírito expansivo e belicoso no ataque ao Iran e ao Kuwait e de ter dado provas de que, podendo, não hesita em usar armas químicas e biológicas contra os que considera seus inimigos dentro do próprio país (os curdos e os xiitas). [Escrito em 2003].

É isso.

Em Cortland, OH, 14 de Janeiro de 2005. (Transcrito de matéria que escrevi, em Salto, SP, em 22 de Fevereiro de 2003, para um outro blog meu, que não existe mais.)

Educação e Tecnologia

Quando se fala em educação e tecnologia a maioria das pessoas imediatamente pensa no uso da tecnologia para melhorar o ensino do professor em sala de aula, para transmitir informações de forma mais eficiente e atraente. Pressupõem, assim, ingenuamente, que educação e ensino são termos sinônimos e que usar a tecnologia na educação é usar a tecnologia para ensinar melhor matemática, física, química, biologia, história, geografia, etc.

Bill Gates, por incrível que possa parecer aos que não o conhecem muito bem, tem uma visão muito mais correta da questão do que a maioria dos educadores. Em um vídeo chamado "The Connected Learning Community", Gates diz que a tecnologia vai mudar a educação (sic; não o ensino) por colocar pessoas em contato com pessoas e com a informação de que precisam para fazer o que desejam.

Há muitas coisas importantes — e absolutamente corretas — na posição de Gates.

Primeiro, a ênfase que ele coloca no fato de que a educação se faz através da interação entre pessoas, não da interação de uma pessoa com uma máquina (mesmo que uma máquina seja usada para colocar uma pessoa em contato com outra).

Segundo, o conseqüente reconhecimento de que o computador vai afetar a educação muito mais por ter se tornado um meio de comunicação interativa do que por ser um equipamento de processamento de informações.

Terceiro, a ênfase que ele coloca na aprendizagem, e não no ensino. A aprendizagem pode ocorrer em decorrência do ensino. Mas a aprendizagem que permanece e tem significado para o aprendente é aquela que acontece quando ele, assumindo uma postura ativa, interage com outras pessoas busca de resposta às suas perguntas ou de soluções para os seus problemas.

Cortland, OH, 14 de Janeiro de 2005 (Transcrição de algo que escrevi em 24 de Junho de 2002, em outro blog meu)

Modalidades de escolas

Modalidades de Escolas, Segundo a Relação com o Poder Público

Modalidades "Puras":

a) Escola estatal (totalmente financiada pelo poder público)

b) Escola privada sem fins lucrativos (sem nenhum recurso público)

c) Escola privada com fins lucrativos (sem nenhum recurso público)

Modalidades "Mistas":

a) Escola estatal com parcerias privadas (com entidades lucrativas ou não-lucrativas)

b) Privada sem fins lucrativos subsidiada pelo poder público

c) Privada com fins lucrativos subsidiada pelo poder público

Modalidade "Especial"

a) Escola privada que recebe alunos subsidiados pelo poder público (através de "vouchers", por exemplo)

(Neste caso o subsídio não é dado à escola: é dado ao aluno ou à sua família.)

Cortland, OH, 14 de Janeiro de 2005 (Transcrição de algo que escrevi em 23 de Junho de 2002 em outro blog meu)

Educação e direito de escolha

Educação e Direito de Escolha (Liberdade)

No Brasil, atualmente, um casal cujos filhos chegam à idade escolar tem alguma liberdade (direito a algumas escolhas) — mas não muita(s).

O casal não tem, por exemplo, a liberdade (o direito) de educar seus filhos em casa: é obrigado pelo governo a colocá-los na escola. Recentemente um casal lutou por esse direito, mas não o teve reconhecido, o governo argumentando que toda criança com idade entre 7 e 14 anos tem que estar na escola. Esse direito foi negado apesar da inegável competência da mãe das crianças de educá-las (era professor) e apesar de o casal se dispor a submeter as crianças educadas em casa aos exames requeridos pelo governo ou mesmo aos exames de uma escola pública indicada pelo governo.

A única escolha (liberdade) básica que um casal cujos filhos chegam à idade escolar tem é de optar por colocá-los na escola pública ou na escola privada. Se o governo devolvesse aos casais que optam por colocar seus filhos na escola privada, e, portanto, optam por não usar a escola pública, o dinheiro correspondente ao custo dessas crianças na escola pública, essa escolha (liberdade) seria mais significativa. Do jeito que são as coisas, o casal que opta por colocar seus filhos na escola privada "paga duas vezes" pela educação de seus filhos: paga pela educação que recebem na escola privada e paga, através de seus impostos, para custear a escola pública que seus filhos não estão usando.

Se um casal escolhe colocar seus filhos na escola pública, não tem escolha direta sobre a escola que eles vão freqüentar, pois, em geral, as crianças são obrigadas a freqüentar a escola pública mais próxima de sua residência (mesmo que os pais prefiram uma outra). Para conseguir que os filhos freqüentem uma outra escola pública os pais são obrigados a mudar de residência, o que pode envolver ônus financeiro (ou, então, a mentir sobre sua residência).

As escolas públicas, assim, têm uma clientela cativa, independentemente de sua qualidade.

Uma forma de melhorar a qualidade da escola pública seria dar aos pais um "voucher" por filho em idade de escolarização obrigatória que fosse equivalente ao custo médio de um aluno na escola pública e deixar que eles escolhessem a escola que gostariam que seus filhos freqüentassem (ainda que privada — ficando os pais responsáveis por complementar o valor do "voucher" caso a escola fosse mais cara do que o custo médio de um aluno da escola pública. Essa medida não acarretaria aumento de gastos para o poder público e obrigaria as escolas públicas a entrar num regime de competição, até mesmo com as escolas privadas, melhorando, assim, sua qualidade — ou, então, ficando sem alunos e sendo obrigadas a dispensar os seus professores e a fechar suas portas, porque sua manutenção viria dos "vouchers", e não de repasse direto de recursos por parte do poder público.

Essa medida, se acoplada à eliminação da obrigatoriedade da escolarização, poderia também eliminar o absurdo que existe hoje no Brasil, de o governo oferecer uma escola gratuita à população (paga com impostos gerais) e, por cima, ainda pagar a população para colocar seus filhos nela (através da "bolsa-escolas"). Os pais que não desejassem colocar seus filhos na escola não receberiam nenhum "voucher", pois este seria destinado apenas aos pais que tivessem seus filhos comprovadamente matriculados em uma escola — pública ou privada, sendo ambas pagas pelos usuários, com o recurso fornecido pelos "vouchers".

Cortland, OH, 14 de Janeiro de 2005 (Transcrição de algo escrito em 23 de Junho de 2002 em outro blog meu)

O Estado e a educação

Há diferentes níveis em que o estado pode interferir com a educação (mais especificamente, com a escolarização) das pessoas:

a) Tornando a educação (ou melhor, a escolarização) obrigatória;

b) Regulamentando e fiscalizando a educação ministrada pelas escolas (todas privadas);

c) Financiando a educação (escolarização) — pelo menos aquela que é obrigatória;

d) Ministrando ele próprio a educação — pelo menos aquela que é obrigatória — em escolas estatais, mas admitindo a existência de escolas privadas;

e) Considerando a educação um monopólio estatal mas admitindo que a iniciativa privada possa participar da educação no regime de "concessão";

f) Considerando a educação um monopólio estatal e proibindo a iniciativa privada de ministrar a educação, i.e., de possuir escolas, promovendo, assim, a total estatização (nacionalização) da educação.

Nos níveis a-c o estado não ministra a educação — não tem escolas. Nos níveis d-f o estado ministra a educação — tem escolas. Nos níveis d-e as escolas estatais convivem com escolas privadas; no nível f, não.

Cortland, OH, 14 de Janeiro de 2005 (Transcrição de algo escrito em 23 de junho de 2002, em outro blog meu)